sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Feliz Natal!


Desejo a todos os leitores, amigos, conhecidos e todos que por alguma razão (ou mesmo sem razão) vieram parar por aqui, um Feliz Natal!


Que o Menino Jesus no presépio ilumine nossos dias e que nesta noite, nossos corações se encham de alegria e paz, e que saibamos ser pacientes na esperança, dóceis na caridade e fortes na fé!


quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Antes, o verão é relançado pela Alfaguara

Inicialmente publicado em 1964, posteriormente adaptado para o cinema com Norma Bengell e Jardel Filho em 1968, Antes, o verão é um delicioso livro de Carlos Heitor Cony, agora relançado pelo selo Alfaguara da Editora Objetiva (9a. edição, 2007).

Cony centra sua trama em Cabo Frio, onde um homem na faixa de seus 40 anos constrói uma casa para passar as férias. O livro é dividido em 3 partes: as areias, o sal e os ventos. Estes elementos castigam a casa, metáfora do castelo, do lar, da vida pacífica. O bombardeio dos elementos naturais equivale ao bombardeio do relacionamento entre Luís e Maria Clara, que desmorona. Claro que simplifico, pois há diversos outros fatores que revelam a complexidade da relação num casal.

O livro é lírico, com escrita fluente e leve. Leitura agradável, apesar do tema conflituoso.

Deixo-os com um pequeno trecho para degustação:

"Hoje, escrevo especialmente para você, retomando um diálogo que bruscamente interromperâmos sem saber o que íamos fazer com as palavras que não chegamos a dizer, sem termos tempo de apagar as palavras que foram ditas e - infelizmente - guardadas e protegidas pelo nosso repentino ódio." (p. 196)

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Retrospectiva de Crônicas 2007


O ano chega ao seu final e resolvi fazer uma retrospectiva de algumas das seções deste blog. Comecemos com as melhores crônicas de 2007. Nesta primeira parte, as 10 crônicas mais lidas.








4. Foto














Algumas breves curiosidades sobre estes textos.

A crônica mais lida não me surpreendeu. Foi a mais comentada do blog e talvez a crônica escrita de forma mais intensa e emotiva. É um texto, que quando releio, toca no sentimento, e acho que isto é parte da sua popularidade.

O texto Borboleta Azul foi escrito inspirado numa tatuagem de borboleta azul. Ganhou forma e corpo de forma inversa. O final da estória veio antes do começo. Era preciso encontrar uma justificativa para a tatuagem de modo a poder contar a estória para minha filha. A ficção imitou a realidade, por mera coincidência. Fiquei surpreso - e muito contente - quando uma leitora do blog pediu minha autorização para utilizar o texto num trabalho com crianças. Autorizei e fiquei feliz em poder ajudar.

Poderia divagar sobre cada um dos textos escritos, mas vou parar por aqui. Escrever foi um dos pontos altos deste meu ano. O processo criativo, a inspiração - quase sempre vindo da mesma musa -, a resposta e a interação com o leitor tornaram este processo algo sublime.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Crônica: Um Apelido

UM APELIDO

Osvaldo era o nome dele. Não gostava do seu nome. Desde criança, sentia-se incomodado porque nunca tivera um apelido como os outros meninos e meninas. Seu nome não era propício a este tipo de brincadeira. Alguns apelidos eram infantis, sem dúvida, mas outros permaneciam com a pessoa por toda a vida. Lembrou-se de sua primeira quedinha por uma menina, na pré-escola -pré-primário naquela época. Ela sentava-se na frente dele e tinha longos cabelos castanhos, sempre arrumados num rabo-de-cavalo ou maria-chiquinha. Ninguém a chamava pelo nome completo, a não ser quando levava bronca. Aí vinha o nome com sobrenome. Nada de apelido. Dani. E continua sendo Dani depois adulta. Dani, sim, era um apelido meigo, feminino, carinhoso. Não era pejorativo e criava um certo tom de informalidade. Era divertido chamar os outros pelo apelido. Era um jeito de ser mais um da turma, de fazer parte - e de excluir os de fora também!

Tinha a Cris, o Fred, o Zé, o Marquinhos, o Beto, a Carol...todos amigos e colegas de escola. Na faculdade, os apelidos já eram mais malandros, mais maldosos, e pior que pegavam. Tinha o Jaspion, o Cebola, o Chaminé, o Bacate (derivado de apelido, pois o coitado adorava abacate). Mas para Osvaldo, nada!

Nem o sobrenome dava para abreviar. Era Silva. Bem que o pai poderia ter post um Júnior no nome dele, mas aí ele se chamaria Evilásio. E qual o apelido de Evilásio? Vil? Não ia ficar bem. Evil? Péssimo. Já pensou se ele fosse a um país de língua inglesa com a família. Iam achar que ele era um bruxo ou algo do gênero.

Viveu sempre sem apelido. Ressentido, inconformado. Havia desistido de procurar um, até que um dia, seu netinho tropeçou nas palavras e o chamou de Vavá! Osvaldo encheu-se de alegria. O neto havia lhe dado um apelido e um enorme sorriso. Ganhara com o apelido, uma nova personagem. Encheu-se de si e a partir daquele dia, só deixava que o chamassem de Vavá.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

O fim da CPMF

Por incrível que possa parecer, o Senado Federal votou contra a prorrogação da CPMF até 2011. Isto significa que a partir de 1o. de janeiro de 2008, este tributo deixará de incidir. Um imposto a menos e isto é motivo para comemorar.

Não, meus caros, o fim da CPMF não trará o apocalipse como afirma o presidente Lula. O Governo terá agora que fazer o que não fez até agora: governar. Em outras palavras, terá que planejar, terá que implementar o "choque de gestão" propugnado por Lula. Pela primeira este governo terá que enfrentar um problema: a redução de recursos para gastar. Vai ter que economizar e parar de aparelhar a máquina pública e gastar de forma espúria.

Há uma série de pontos positivos nesta votação. Em primeiro lugar, o provisório acabou. Agora sim Lula poderá dizer: "nunca neste país" alguém acabou com o provisório. Estamos fartos de ouvir o discurso de que algo é apenas provisório. E o provisório acaba virando definitivo. Como o rodízio de carros na cidade de São Paulo, o caos aéreo, a crise na saúde brasileira. Torço para que este passo dado, seja o início de uma mudança de mentalidade por parte de nossos governantes. Sou otimista.

A provisoriedade é algo que pode ser comprovado com o Bolsa Família. A função do Bolsa Família é ajudar a retirar famílias da miséria, porém perpetua uma situação de acomodação. Em muitos lugares do país, as pessoas preferem receber o benefício a trabalhar, como todos os demais brasileiros fazem todos os dias.

Em segundo lugar, a arrogância imperial do presidente sofreu um duro golpe. Tenho para mim, que se não fosse o DEM (ex-PFL) - que fez oposição de verdade -, o PSDB teria sucumbido. E lembrem-se, os governadores José Serra e Aécio Neves eram a favor da CPMF e tentaram aprovar a emenda que a prorrogava. O discurso de que a prorrogação da CPMF iria salvar a saúde pública é conversa para boi dormir. Desde a criação da CPMF, o sistema público de saúde em nada melhorou no país. Os recursos da CPMF foram desviados e desvirtuados por vários governos. Não será o caos, pelo menos, não será maior do que já é.

Quem sabe agora o governo não propõe uma reforma tributária efetiva neste país? Quem sabe agora o PSDB não sai de cima do muro e apresenta uma alternativa viável para o país? Quem sabe agora o governo Lula não mostra a que veio?

A vitória foi da sociedade brasileira!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Prêmio Escritores da Liberdade


Agradeço mais esta indicação da Edna. Já estava atrasado para agradecer, mas não esquecido. Estes "agrados" são antes de mais nada uma fascinante mostra de como é possível atingir leitores através da internet e como é possível expressar nossas idéias com liberdade.


A liberdade de expressão é fundamental para qualquer sociedade democrática e faço questão de exercer a minha.


Aqui vai a descrição do prêmio.


"Todos temos blogs pelo fato de gostarmos de escrever. Por prazer, profissionalismo, ou qualquer motivo pessoal. E a maioria gosta de escrever para liberar algum sentimento profundo, seja ele bom ou ruim. Escreve para se encontrar, para analisar a situação depois de algum tempo, ou naquela mesma hora, e também por essa paixão de por tudo no papel. E estou chamando esses blogueiros de Escritores da própria liberdade. Escritores sim, mesmo que amadores, que escrevem suas emoções, que não guardam tudo para si. Que compartilham tudo com pessoas muitas vezes estranhas (entre as conhecidas)... Escritores que admiro muito, por vários motivos, que se destacam de um jeito único, para cada uma das pessoas que os conhecem. Blogueiros que publicam a sua liberdade de expressão.Escritores, que se destacam de um jeito único, para cada uma das pessoas que os conhecem. Blogueiros que publicam a sua liberdade de expressão."


Indico e recomendo a leitura dos seguintes blogs:






terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Dicas da Dani: May J. Blige

Um pouco de música na maravilhosa voz de Mary J. Blige. Be without you é a primeira e a segunda uma versão remixada de One, junto com o U2.





domingo, 9 de dezembro de 2007

Poesia: SAUDOSO

SAUDOSO


Hoje acordei saudoso
Saudoso da minha infância
Saudoso dos tempos das paixões efêmeras
Paixões que se sucediam com as horas
E adormeciam com o pôr do sol

Hoje acordei saudoso
Saudoso de amores passados
Saudoso de sentimentos antigos
Sentimentos que aqueciam a alma
E embalavam os sonhos

Hoje acordei saudoso
Saudoso da ingenuidade
Saudoso de sonhar
Devaneios nos quais esperava
E a esperança nutria a seiva da vida,
E a vida era a esperança.

(24 de março de 2007)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

O outro lado do diário


A última crônica que publiquei, Página de um diário, recebeu um comentário muito interessante. Não era bem um comentário, mas sim uma outra versão, de outra perspectiva. Manifestação espontânea que deu vida a um outro personagem da crônica, com nome e sentimento. Primeiro foi só um comentário da , mas agora a crônica apenas ganhou um novo capítulo.

Uma crônica a 4 mãos. Quem sabe esta crônica não continua? Seria um laboratório interessante.

Aqui vai o outro lado do diário, o lado feminino.


"Cíntia sabia que depois de mais uma briga homérica, Roberto ia dormir no sofá. E ela ia ficar naquela cama sozinha, mais uma vez. Toda raiva descarregada naquela hora e meia de briga se transformava em lágrimas doídas. Foram palavras duras de dizer e de ouvir. Mas ela não ia dar a ele o gostinho de vê-la chorar.
Por mais que pensasse, Cíntia não conseguia descobrir onde eles tinham se perdido. Tudo o que ela fazia estava errado. Corria o dia inteiro no trabalho, passava 45 minutos no trânsito pra chegar em casa. Quando mais nova, pensava que sua casa seria seu refúgio. Adorava pensar que seria seu reino, onde poderia esquecer do mundo. Roberto sabia que ela não era a melhor dona-de-casa do planeta. Ela bem que tentava ser, mas nunca era suficiente pra ele. Sempre tinha um detalhe que não estava de acordo: a toalha fora do lugar, a comida que estava acabando na geladeira, a limpeza das janelas que não estava lá essas coisas, até com o cabelo preso ele deu pra implicar.
A lista de reclamações imbecis de Roberto crescia. E o que ela pedia a ele era ignorado solenemente. Cíntia queria a leveza de antes. O cuidado com que ele a tratava anos atrás. Ela lembrou o dia em que eles riram juntos ao abrir a geladeira famintos e só acharam alface murcha, uma lata de ervilhas e meia garrafa de suco. Tudo tinha sido resolvido com o disque-pizza. Sem brigas, sem palavras rudes, sem dor.
Ela já tinha lido e ouvido por aí que a paixão passa depois de sei lá quanto tempo. Provavelmente, a deles já estava com o prazo de validade vencido. Mas será que depois da paixão não sobra nada? Será que era isso? Discussões intermináveis, ironias?
Não conseguia mais ter vontade de fazer um carinho, de dar um beijo na hora que ele chegava. Sentia-se machucada, descuidada.
Onde tinha se escondido todo aquele amor que eles sentiam? O que podia ser feito pra voltar no tempo, consertar toda aquela bagunça? A cabeça de Cíntia não parava. Mil perguntas sem respostas. As lágrimas lavavam seu rosto... mais uma vez, ia dormir naquela cama vazia
."

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Chávez, o democrata

A proposta de reforma da constituição venezuelana foi derrubada, mas agora Chávez mostra a verdadeira face do democrata. Pelo menos, o nosso presidente Lula acha Chávez um democrata. Agora gozando da oposição, Chávez revela sua verdadeira face.

O vídeo é do Bom dia Brasil de hoje.

Será que ele aprendeu com o Marco Aurélio Garcia?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Convite para Bazar


Época de bazares natalinos e aqui divulgamos um para este final de semana em São Paulo, a pedido da Fabiola. A Matrice é uma ação a favor do aleitamento materno.


terça-feira, 4 de dezembro de 2007

A Lição da Venezuela

Os eleitores venezuelanos deram uma belíssima lição de como é ser oposição. Derrubaram uma proposta do presidente Hugo Chávez para uma ampla reforma constitucional que lhe daria poderes perpétuos. Propostas de reformas constitucionais rondam também a Bolívia e o Equador. Agora podem esperar para ouvir de alguns que vão querer esfregar na nossa cara que a Venezuela tem democracia, de que Chávez é um líder democrático perseguido pela imprensa conservadora e golpista e blá blá blá.

Confesso que fiquei surpreso com o fato de Chávez acatar o resultado pacificamente. Temia que haveria fraude na eleição e não acreditava que o "não" se saísse vencedor. Mas a surpresa aconteceu.

Quem sabe os nossos partidos aprendem a fazer oposição e não derrubam a CPMF por aqui? Ia ser um ótimo presente de Natal para todos os brasileiros.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Dicas da Dani: Bajofondo Tango Club

Mudando o tom para começar a semana.

Bajofondo Tango Club mistura o tango com música eletrônica, pegando carona na onda do Gotan Project, que faz show amanhã em São Paulo, no Via Funchal.

O grupo é liderado por Luciano Supervielle que tem produção solo também, como poderão degustar no site dele.
O vídeo traz Pa'bailar, do álbum Mardulce (2007).


sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Estou revoltado!

Eu bem que tentei dar um "toque" mais literário, mais leve a este blog, mas não consigo ficar calado diante das barbaridades que são ditas pelo nosso presidente. A briga pela CPMF esquentou e alguns dizem que a CPMF "subiu no telhado".

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva atacou empresários e políticos que são contra a prorrogação da CPMF. "Quem tem medo da CPMF é quem sonega imposto", afirmou, ao discursar na inauguração de uma ponte e um trecho da BR-259 em Colatina (ES).
Pois bem, vamos dar um desconto e considerar que o presidente disse isto no calor de um discurso, MAS ao fazer tal afirmação atribuiu conduta criminosa à maioria de brasileiros que trabalham como empresários e que lutam - muitas das vezes - contra um governo corrupto e que presta serviços de péssima qualidade.
Em primeiro lugar, a afirmação de Lula é mentirosa. Eu sou contra a CPMF e não sou sonegador. Agora, e a turma do Mensalão? E o Sr. Duda Mendonça, Sr. José Dirceu, Sr. Delúbio Soares? Será que eles pagam os impostos direitinho?
Dizer que todo mundo que é contra a CPMF sonega imposto é um artifício da tortuosa lógica petista. Viramos inimigos do povo! Isto me lembra uma peça brilhante, escrita pelo dramaturgo noruguês Henrik Ibsen. A peça chama-se "Um inimigo do povo". Não é o único exemplo. Há outros grandes exemplos na literatura que tratam da questão da defesa de princípios, ainda que isto custe a vida.
Lula, ao fazer a afirmação, tentou desqualificar milhões de brasileiros que assinaram um abaixo assinado contra a CPMF, que são reféns de uma Receita Federal que age com ilegalidade em determinados casos, que são órfãos de um tributo que deveria ter melhorado a saúde, e não servido para aparelhar a máquina estatal.
A não aprovação da CPMF obrigará o governo a enxugar a máquina pública, a melhorar a gestão da coisa pública, e trabalhar mais com menos recursos. É isto que todo empresário faz quando o governo aumenta sua participação na fatia do lucro das empresas.
Só espero que os senadores tenham coragem de derrubar a CPMF. A esperança não morre nunca!

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Crônica: Página de um diário



Roberto chegou ao escritório, mais cedo que de costume. Abriu a gaveta e tirou um caderno espiralado, de capa preta e folhas num tom de areia. Havia comprado há algum tempo para servir como um diário. Estava intacto aguardando o momento em que precisasse, ou criasse coragem para derramar seu interior naquelas folhas. Hoje era o dia. Não pôs data. O ambiente, ainda silencioso, era o pano de fundo perfeito para o mergulho interior.

"Te compreendi como nunca, enquanto me ajeitava no sofá para tentar dormir. Um vazio inundava meu ser que misturava-se com ódio e ira. Um grande caldeirão de sentimentos negativos, com um gosto de amor murcho no fundo, mofado, que azedava o caldo fervente. E como estava fervente! Não pude deixar de pensar em você e sentir tua dor, tua angústia, teu medo, que devem ter sido muito semelhantes ao meu. Não havia mais ponte a ser cruzada, não havia mais diálogo possível. Tudo desmoronara, principalmente a minha ingenuidade de achar que um relacionamento seria salvo e mantido com comunicação. Não sabia que há horas em que a comunicação desaparece, que se fala com uma parede, ou com um ser surdo e mudo. As línguas se tornam ininteligíveis e o esforço por compreendê-las desaparece. Apenas gritos, socos na mesa, palavrões, temas ressuscitados...as lágrimas não se fizeram presentes ainda, só a ira, o ódio, a raiva. As brigas de final de dia foram isto: brigas profundas, com marcas que talvez não cicatrizem. Agressões emocionais que atacam a auto-estima e o valor interno de cada um. ‘Imbecil, idiota, imprestável, inútil, ignorante, ingênuo’. Todas estas palavras começando com a letra i.“

Roberto achou graça nesta constatação e no meio desta observação irrelevante - que também começa com i -, ele sorriu. Um primeiro sorriso em alguns dias, nem se lembrava mais.

Seu interior era um deserto árido, ressecado por um longo fim de semana, interminável - com i também -, sufocante, indigesto. Conviver ao lado da mulher havia se tornado uma tormenta, um situação desagradável. Não conseguia sentir-se confortável ao lado dela. Tudo o incomodava. Havia chegado a um ponto em que tudo era motivo de implicância, e ele sabia bem que isto era um péssimo sinal. Implicava com as roupas, o sapato, o penteado, o elástico de meia velha que prendia o cabelo, o brinco que sempre se repetia, a toalha amarfanhada no banheiro, o shampoo fora do lugar, o açúcar que era sempre deixado sobre a mesa após o café da manhã...E a lista crescia. Roberto anotava tudo mentalmente. Tudo represado para lhe mostrar que ela não estava nem um pouco preocupada com as coisas que ele dizia e pedia. Caíam no esquecimento, afinal fazia mais de 2 meses que ele pedira a ela que pregasse um botão em seu terno. Esquecido o terno, esquecido estava Roberto. Parecia um fantasma ambulante, um homem invisível, pelo menos quando interessava, porque havia momentos em que a invisibilidade não funcionava nunca. Ele bem que tentava, mas ela o perseguia e não deixava que a invisibilidade funcionasse.

As noites mal dormidas no sofá da sala. Estas noites eram o sinal, um passo dado que não tinha volta. ‘Seria hora de procurar uma terapia de casais?’, pensou. ‘Ou seria tarde demais?’

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Janelas abertas

(São Luís, Maranhão)


No fim de semana, um comentário de Bruno Azevedo, nosso leitor de São Luís, sobre o livro Janelas Fechadas, de Josué Montello, fez-me refletir.


Janelas Fechadas foi o primeiro livro que comentei neste blog. Abri as janelas do blog com 3 textos com comentários e reflexões sobre a obra. Os textos foram: Janelas Fechadas (1) , Janelas Fechadas (2) e O Bonde e a Janela.


Escreveu o leitor:


"(...) ai tem também uma discussão sobre a modernidade, ao meu ver. Se você conhece São Luís deve conhecer o anil e saber o que ele representa hoje na ilha. Em Janelas Fechadas tem tudo isso ai chegando. E as pessoas esperam, esperam. Fantástico!"


Infelizmente não conheço São Luís e não consigo relacionar o Anil e sua importância para a ilha. Confesso que ler sobre lugares que não conheço me deixa um pouco aflito. Parece que não consigo me situar, como se estivesse num lugar sem um mapa. Mas, Bruno fala da modernidade. As personagens da obra esperam algo. Uma constante espera, esperança inesgotável. Benzinho espera uma carta que não chega. D. Binoca espera o tempo passar. E o bonde sempre passa diante da janela da família.


Achei interessante a referência à modernidade. É uma interpretação válida e que pode ser extraída da obra. Esperam a modernidade, o progresso, uma mudança que levará novos ares e que permitirá virar a página. Talvez o desfecho da obra, quando Benzinho resolve ceder, finalmente, aos interesses de José Senhor, indique exatamente este ponto crucial de mudança. Ela pára de esperar e age. Muda, vira a página e segue adiante.


As janelas abrem-se para novas experiências, para novas oportunidades, para a vida e cria-se espaço para as mudanças.

domingo, 25 de novembro de 2007

Um pouco de poesia de Álvaro de Campos


Um pouco de Álvaro de Campos para embalar as reflexões num domingo preguiçoso e abafado.


Estou vazio como um poço seco.
Não tenho verdadeiramente realidade nenhuma.
Tampa no esforço imaginativo!


(sem data e título - Poemas de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa. edição de Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1999, p. 316)



Um ser oco por dentro, assim como o poço seco. Vazio de emoções, vazio de sentido, vazia a realidade. Plana a realidade, sem relevo, sem dimensão. Escuridão que faz com que se caminhe lentamente, tateando o redor, com passos curtos e titubeantes. Momentos que afligem e inquietam, mas momentos que todos - uma vez ou outra - enfrentamos.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Para rir com o Incrível Hulk

Vou dar crédito a quem merece. Então não vou reproduzir as fotos, mas apenas o link.

Visitem este post no Blog do Anderson. É de morrer de rir. Aquele humor que só brasileiro sabe fazer.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Dúvida cruel

Extraído do Blog do Reinaldo Azevedo, postado hoje:

"Se alguém imagina que, não votando na CPMF, vai criar algum problema com o governo, é um ledo engano. As pessoas vão criar problema para os milhões de brasileiros que dependem do dinheiro do SUS (Sistema Único de Saúde)".

A fala acima é de Lula. Trata-se de uma confissão. Ele está assumindo que o PT, em 22 anos de oposição, atuou sistematicamente para prejudicar os brasileiros ao jamais votar uma proposta do governo — incluindo a CPMF. É justo, então, supor que, se o PT tivesse “colaborado com o povo", o país governado pelo PT seria um pouco melhor.

Ou será que, num país melhor, o PT jamais seria governo?

Dúvidas, dúvidas..."

É para se pensar. Esta a lógica petista!

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Politicamente correto


262 municípios param hoje no Brasil para celebrar o Dia da Consciência Negra. Mais um feriado. Um feriado para celebrar a morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. Zumbi lutou pelo fim da escravidão e pela liberdade dos povos trazidos da África para trabalharem nos engenhos e nas fazendas brasileiras. A expressão povos não é um erro de digitação. A África não é composta de um único povo, mas de várias tribos, com culturas diferentes, estilos de vida diferentes, e no mais das vezes, odeiam-se mutuamente. Enfim, são diferentes.


Escrevi no post anterior sobre a massificação do comportamento e como a sociedade uniformiza, extraindo a identidade individual e como "ser diferente" tem algo de especial no mundo moderno. Antes que critiquem, não estou defendendo a desilguadade, mas sim a valorização das diferenças culturais e individuais.


A igualdade que se busca e que se propala num dia como hoje é a igualdade humana, sem distinção de cor, raça, sexo ou religião. O dia de hoje serve como uma data de reflexão, mas não precisava ser feriado.


O brasileiro só sabe que feriado é motivo para não trabalhar, mas pouco sabe da importância das datas e o que se comemora nestas datas. Até o Natal deixou de ser um dia de oração e reflexão, de reunião familiar, para se tornar uma data comercial.


Importamos a idéia do politicamente correto. Ouvi no rádio pela manhã que a cultura "afro-brasileira", os heróis "afro-brasileiros" etc. Por que mudar o nome das coisas ou dar um ar politicamente correto? Isto conduz a questões como quotas em universidades e outras políticas importadas dos EUA, onde a cultura de segregação exisitiu de forma violenta. Sou da opinião de que tais políticas não deveriam aplicadas no Brasil. Sim, sou contra as quotas em universidades. O sistema deveria ser outro, privilegiando a educação pública básica, ao invés de garantir o acesso à universidade a pessoas sem condições de frequentar um curso universitário, independente de raça, cor, credo ou sexo.


Estas políticas separam, segregam mais do que unem. É uma política que trata seres humanos iguais, de forma desigual. Se somos todos iguais, independente de cor, raça, credo ou sexo, por que alguns precisam de uma nota mais baixa para ingressar num curso universitário? E depois que ingressam, não conseguem acompanhar o ensino que lhes é dado gratuitamente.


Dias como o de hoje deveriam servir para reflexão e união, sem necessidade de se parar metade do país. Aprender a respeitar as diferenças é algo que enriquece e cria a beleza da multiplicidade cultural do Brasil. Porém, estas diferenças não podem servir de motivo para a criação de privilégios politicamente corretos.

domingo, 18 de novembro de 2007

Mundo de aparências

Brinquedos Fisher Price, calcinhas Victoria’s Secret, tacos de golfe Callaway, perua Land Rover. A lista de itens adjetivados por marcas é um traço característico em As Viúvas das Quintas-feiras, de Claudia Piñeiro. As marcas, símbolo de status e de sucesso financeiro, são pinceladas ao longo do livro. No final, o retrato de uma sociedade é percebido pelo leitor. Não vislumbro apenas uma sociedade abastada típica de condomínios fechados, nem depreendi do livro uma crítica apenas às classes altas. Um paralelo entre o comportamento das classes abastadas e das classes menos favorecidas poderia ser traçado, e perceberíamos grandes semelhanças.

Entrar numa favela de São Paulo não é algo corriqueiro ou permitido a qualquer um. Quase toda favela tem um líder, alguém que precisa autorizar a entrada, ou então que saberá da presença de um intruso em pouco tempo após o estranho adentrar em seu território. Marcas e grifes também são sonho de desejo e consumo de jovens e moradores destas comunidades. Ao invés de tacos de golfe, preocupam-se com os tênis e óculos escuros. Guardadas as devidas proporções, o paralelismo dos dois mundos é factível e revela enormes semelhanças.

Semelhanças que indicam algo muito característico do mundo contemporâneo – e criticado por Claudia Piñeiro nas entrelinhas de sua obra -, um mundo que se baseia muito mais na apareência do que no conteúdo. Daí a frase de Rilke ser muito propícia para esta discussão.

Julgamos as pessoas pela aparência, na maioria das vezes. Esquecemos o conteúdo, as qualidades, os princípios. A busca desenfreada – e ressalto o desenfreada – pela beleza, por tratamentos estéticos, por dietas suicidas, onde mulher busca igualar-se ao um padrão dado pela indústria e pela televisão. Um padrão uniforme, que dissolve as diferenças e torna todas muito semelhantes. Perde-se a unicidade, a beleza do individual, a beleza do ser diferente.

O mundo pasteuriza certas condutas e valoriza mais a aparência. Numa passagem de As Viúvas das Quintas-feiras, o filho de Virginia – a protagonista do livro – é incluído numa lista dentro do condomínio por ser um potencial consumidor de droga. Ele fumou maconha algumas vezes. Virginia se desespera, muito mais preocupada com “o que vão falar” do que com a saúde do filho, com as causas do consumo da droga, com a forma como sua conduta contribuiu para esta conduta. Importa a aparência e não o conteúdo.

Não vou escrever um post gigantesco - se bem que as idéias querem ganhar o papel -, e vou terminar apenas citando alguns outros exemplos disto. No Estadão de hoje (p. D14), a crônica Nosso Avesso, de Luis Fernando Veríssimo aborda o tema de outra forma. Escreveu: “Você e eu também temos a personalidade que aparece e os seus fundos, e quem vê nossa cara (que é o nosso avesso, como escreveu a Clarice Lispector) nem sempre adivinha a confusão que tem lá atrás.

A aparência ganha força também no modo como as coisas são ditas. A palavra democracia, por exemplo, foi definida de forma obtusa nesta semana que passou. O povo passou a ser o detentor da sabedoria divina, independente da existência de direitos e garantias individuais. Mussolini e Hitler foram eleitos pelo povo e mantiveram-se no poder com o apoio popular. A democracia pode ser aparente, mas é preciso avaliar o conteúdo do regime que se diz democrático. Em outras palavras, não importa o regime, o que importa é o exercício do poder. Acrescento: e como este poder é exercido.

Mas isto, é outra história e exige um outro post.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Uma frase para pensar

"O nosso mundo é um pano de cena atrás do qual se escondem os segredos mais profundos."

Rainer Maria Rilke, poeta.

Ponto de partida para unir algumas idéias e introduzir o tema do próximo post onde voltarei ao tema de As Viúvas das Quintas-feiras, de Claudia Piñeiro.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Poesia: HIPNOSE



HIPNOSE


Eu me perco nos teus olhos

Mar profundo

Sentimento infinito

No escuro dos teus olhos.

Inebriado, enlevado

Hipnotizado pelo encanto

Flutuo ao arrepio da realidade

Salto do corpóreo

E viajo no etéreo onde o tempo

É imóvel.

Paralisado nos teus olhos

Delicio-me com o calor interno

Que brota, que borbulha nas entranhas

Que revolve meu interior.

Perdido nos teus olhos

Nâo quero voltar à realidade

Só quero sonhar

Mergulhado no teu olhar.


(22 outubro 2007)

terça-feira, 13 de novembro de 2007

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Cala boca, Chávez!

O Rei Juan Carlos não se conteve e soltou um sonoro "Cala boca, Chávez!" durante uma sessão da Cúpula Ibero-Americana de Líderes no Chile.

Achei deliciosa a cena. Finalmente alguém teve coragem de dizer algumas poucas e boas para aquele fanfarrão. Só por que ele é presidente de um país, não tem o direito de chamar outros de fascistas (Chávez chamou o ex-primeiro ministro espanhol Aznar de fascista). Um líder tem que saber aceitar opiniões diversas com respeito, coisa que Chávez não sabe.

E a macacada latino-americana saiu em defesa de Chávez.

Apenas uma pergunta para reflexão: se as empresas espanholas pararem de investir na América Latina, quem vai investir? O novo xeque do petróleo?

Vejam o que está acontecendo na Bolívia. Tocou a Petrobrás para fora e agora não tem dinheiro para aumentar a produção de gás. E quem vai sofrer as consequências da incompetência e da moleza do governo brasileiro vai ser o cidadão que investiu no gás como combustível. Fica a triste lição: não dá para confiar no governo.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Caçar porcos selvagens

Li este texto no 30&alguns e reproduzo:

Havia um professor de química em um grande colégio com alunos de intercâmbio em sua turma. Um dia, enquanto a turma estava no laboratório, o professor notou um jovem do intercâmbio que continuamente coçava as costas e se esticava como se elas doessem. O professor perguntou ao jovem qual era o problema. O aluno respondeu que tinha uma bala alojada nas costas pois tinha sido alvejado enquanto lutava contra os comunistas de seu país nativo que estavam tentando derrubar seu governo e instalar um novo regime. No meio da sua história ele olhou para o professor e fez uma estranha pergunta:

O senhor sabe como se captura porcos selvagens?”

O professor achou que se tratava de uma piada e esperava uma resposta engraçada. O jovem disse que não era piada.

“Você captura porcos selvagens encontrando um lugar adequado na floresta e colocando algum milho no chão. Os porcos vêm todos os dias comer o milho gratuito. Quando eles se acostumam a vir todos os dias, você coloca uma cerca, mas só em um lado do lugar em que eles se acostumaram a vir. Quando eles se acostumam com a cerca, ele voltam a comer o milho e você coloca um outro lado da cerca. Mais uma vez eles se acostumam e voltam a comer. Você continua desse jeito até colocar os quatro lados da cerca em volta deles com uma porta no último lado. Os porcos que já se acostumaram ao milho fácil e às cercas, começam a vir sozinhos pela entrada. Você então fecha a porteira e captura o grupo todo. Assim, em um segundo, os porcos perdem sua liberdade. Eles ficam correndo e dando voltas dentro da cerca, mas já foram pegos. Logo, voltam a comer o milho fácil e gratuito. Eles ficaram tão acostumados a ele que esqueceram como caçar na floresta por si próprios, e por isso aceitam a servidão.”

O jovem então disse ao professor que era exatamente isso que ele via acontecer neste país. O governo ficava empurrando-os para o comunismo e o socialismo e espalhando o milho gratuito na forma de programas de auxílio de renda, bolsas isso e aquilo, impostos variados, estatutos de proteção, cotas para estes e aqueles, subsídio para todo tipo de coisa, pagamentos para não plantar, programas de bem-estar social , medicina e medicamentos gratuitos, sempre e sempre novas leis, etc, tudo ao custo da perda contínua das liberdades, migalha a migalha.”


Uma fábula cheia de realidade!

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Crônica: O Banco


O BANCO

Pronto. Estou pronto. Só falta o verniz fresco secar e irei para minha nova morada. Começar uma vida cheia de aventuras. As ripas novas presas nos suportes de ferro. Tudo com brilho fresco, estalando de novo. Basta esperar e para dentro de um caminhão irei. Depois para uma loja, ou direto para o destino final. O ponto final poderia ser uma praça para ficar ao relento. Ou talvez um lugar mais protegido e elegante como um shopping center. Ou talvez numa fazenda histórica ou sítio no campo, com ar puro, pássaros cantando, noites enluaradas, mas sujeito a chuvas, trovoadas, orvalho, frio.

Quem sabe não irei para um mosteiro, debaixo de arcadas silenciosas, com vista para o pátio interno. O som do canto gregoriano, o passo leve dos monges, as orações entoadas em uníssono, a conversa pausada e tranquila, serena. Muita paz, muito silêncio. Ou então para uma praia, com vista para o mar, as ondas, as pessoas aglomeradas. Mas tem a maresia, a ressaca, a areia, o vento. Para onde irei, não sei. Todos estes lugares parecem tão atraentes, tão cheios de vida.

Tenho que aguardar até amanhã quando meu destino será traçado e passarei a trabalhar. Trabalhar, sim, banco também trabalha. Alguns se sentarão, outros se apoiarão, outros dormirão estirados nas minhas madeiras. Ouvirei sussurros, lamentos, murmúrios, cochichos, sorrisos, choros, gritos. Presenciarei brigas, beijos, abraços, segredos, carinhos, cafunés, fofocas. Sempre ouvimos de tudo um pouco. Afinal, ficamos ali, parados, no aguardo de sermos notados.

Esperando um casal de namorados, ou um idoso cansado, ou um mendigo sem rumo, ou crianças que subirão e pisarão em mim. Tantas coisas, tantas vidas, tantos eventos que testemunharei paciente e imóvel. Quem sabe não vou poder escrever um livro sobre tudo que vou testemunhar? Quem sabe não vou morar perto da casa de um escritor? Ou quem sabe não me mandam para um lugar cheio de imortais e escritores? Ah, sim, lá vou ter inspiração de sobra e vou ter com quem conversar, pois escritor vive falando sozinho, pensando em voz alta, delirando. É isto que quero: ser um banco diante do busto de Machado de Assis, na porta de entrada da Academia.

Gritaria

Tenho alguns amigos, pessoas esclarecidas e cultas, que desistiram de acreditar no poder do voto. Desiludidos, diante da impotência de suas vozes que não sou ouvidas, resolveram não votar mais. Eu discordo de tal posição. Entendo a posição deles, mas não concordo. Podem me achar ingênuo, idealista, sonhador, crédulo, mas sou insistente. Acredito nas minhas convicções e procuro fazer minha parte.

Confesso, porém, que tenho me sentido órfão com as últimas decisões de nossos legisladores. Não temos um partido de oposição sério, que saiba fazer oposição. A novela da CPMF mostrou que o PSDB é um partido em constante crise existencial, como escreveu Dora Kramer no Estadão de ontem. Agora o PSDB decidiu votar contra a CPMF. Vamos ver se eles mantêm a palavra.

Outro ponto é a questão do 3o. mandato do Presidente Lula, tema sobre o qual já escrevi bastante neste blog e que venho alertando as pessoas. Alguns riram, outros me acharam louco. Mas no final, acho que estava certo que este risco existe.

Por fim, há a questão do imposto sindical. Uma excrescência que vem de herança de Getúlio Vargas, dos anos 1940, de caráter fascista. Os tempos são outros, mas os sindicatos e os sindicalistas vivem disto. Então um deputado propõe acabar com o imposto sindical que "rouba" um dia de trabalho do empregado para financiar pelegos. O Senador Paulo Paim disse que vai mexer no projeto de lei para a contribuição seja facultativa, só que quem vai decidir é a assembléia do sindicato. Em suma, não vai mudar nada.

Eu continuo gritando e falando e escrevendo. Ainda bem que este espaço é meu e ninguém pode me calar!

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Estórias parecidas

A última crônica (Passos no Infinito) que escrevi trouxe alguns comentários muito interessantes. As crônicas sempre geram mais comentários do que os posts normais e isto provoca, no sentido de gerar um debate sadio.

A escreveu:

"É duro perceber que quem está perto é míope pras nossas necessidades, vontades, desejos...Parece uma história que conheço, com outros personagens, com sentimentos semelhantes. Um dia eu te conto..."


Toda vez que me ponho a escrever alguma coisa, ou quando vem a inspiração e tudo brota instantaneamente - parece até miojo, que depois de 3 minutos está pronto -, fico pensnado se aquilo que escrevo vai conseguir dizer alguma coisa a quem lê. Ou seja, se vou conseguir me comunicar com o leitor. Claro que cada leitor vai interpretar aquilo que lê com base em suas próprias referências e experiências, mas tento criar situações que possam ser universais, que muitas pessoas possam se identificar.


Surpreendo-me quando consigo fazer isto e os comentários são sempre um indicativo de que aquilo que é narrado de forma imaginária parece real e palpável. E isto ocorre também com estórias infantis e contos de fada, que tem uma função importante na formação da consciência e do caráter das crianças, além de instigar a leitura.


A semelhança entre as estórias de pessoas tão diferentes e de locais distantes mostra como há preocupações parecidas entre nós, seres humanos. Mudam os lugares, os rostos, os nomes, mas a vida é sempre parecida.

sábado, 3 de novembro de 2007

Vinicius de Moraes : Revolta

REVOLTA

Alma que sofres pavorosamente
A dor de seres privilegiada
Abandona o teu pranto, sê contente
Antes que o horror da solidão te invada.

Deixa que a vida te possua ardente
Ó alma supremamente desgraçada.
Abandona, águia, a inóspita morada
Vem rastejar no chão como a serpente.

De que te vale o espaço se te cansa?
Quanto mais sobes mais o espaço avança...
Desce ao chão, águia audaz, que a noite é fria.

Volta, ó alma, ao lugar de onde partiste
O mundo é bom, o espaço é muito triste...
Talvez tu possas ser feliz um dia.

(As Coisas do Alto. São Paulo : Companhia das Letras, 1993, p. 65)

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

As Viúvas de Quintas-Feiras



Este é o título do último livro de Claudia Piñeiro, escritora argentina de 47 anos. O livro fez grande sucesso na Argentina - vendeu mais de 150 mil exemplares -, e agora foi lançado no Brasil pela Alfaguara (256 páginas, 2007). Ganhou o prêmio Clarín, que incluiu no júri José Saramago.



Estou nos últimos capítulos do livro e vou comentar um pouco nos próximos posts.


A narrativa é ágil e a leitura é muito agradável. Em crítica publicada no dia 28 de outubro de 2007 no Jornal Estado de São Paulo, Eric Nepomuceno trata a obra como "densa e profunda". Achei estranha a conclusão, mas depois compreendi o que ele quis dizer. Numa leitura superficial, o livro parece fútil. Não em termos de qualidade literária, mas na forma como a estória é conduzida. Na verdade, a futilidade demonstra - sem criticar - como as pessoas dão mais valor à aparência do que ao conteúdo. É o famoso conflito do ter e do ser.


Claudia Piñero conta uma estória da classe média alta argentina, que se foge da cidade para um country - condomínio fechado de alto padrão nos arredores de Buenos Aires. Algo semelhante aos bairros de Alphaville, em São Paulo, aos condomínios fechados na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Trata-se de uma estória cosmopolita que se aplica à maioria das cidades grandes ao redor do mundo, principalmente na América Latina, com a disparidade de renda.


Iniciei a leitura sem grandes expectativas, mas confesso que tenho que rever minha posição e concordar com Eric Nepomuceno: a obra tem profundidade, só que a profundidade está escondida nas aparências.


A sinopse abaixo foi trazida do site da Siciliano:


"Neste livro, Cláudia Piñeiro descreve uma classe obcecada por conforto e segurança. A história se passa no condomínio Altos de la Cascada, reservado a famílias abastadas de Buenos Aires, Argentina, e aparentemente imunes à crise econômica que abala o país. No condomínio, donas de casa se preocupam em manter a piscina e o jardim impecáveis, enquanto os homens fecham grandes negócios entre partidas de tênis. Ali, um grupo seleto de conhecidos se reúne semanalmente, longe dos olhares dos filhos, das empregadas domésticas e das esposas, que, acostumadas à exclusão periódica, se autodenominam "as viúvas das quintas-feiras". Mas o cotidiano naquele que parece ser o mundo perfeito é quebrado por um acontecimento dramático - três corpos são encontrados no fundo de uma das luxuosas piscinas. As misteriosas mortes irão revelar o lado obscuro de uma sociedade em que nada é tão perfeito quanto parece."

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Crônica: Passos no infinito


CRÔNICA: PASSOS NO INFINITO


Caminhava displicentemente no horário do almoço absorto em seus pensamentos, quando foi desperto pelo sorriso de uma bela moça que vinha em sentindo contrário na calçada. Esboçou um sorriso, mais por educação do que por interesse. Não olhou para trás. Aquele sorriso havia feito com que caísse em si e percebesse algo banal, mas com uma nova luz.

Pedro tinha destas coisas. Ficava remoendo algum pensamento, algum fato – a maioria deles banais -, até que tudo se clareava e as nuvens da dúvida se dissipavam. Geralmente eram coisas rotineiras, coisas simples, detalhes. Detalhes que não passavam despercebidos. Ela sempre prestava atenção nos detalhes e, numa singela e despropositada frase, soltava alguma coisa corriqueira e ele se encantava. Não era charme de Marcela, era o jeito dela. Atenciosa, cuidadosa, cirúrgica. Tinha o dom para sempre acertar no alvo e deixá-lo embevecido por alguns dias.

Outro dia ela havia dito que ele mal ficava no escritório. Aquilo o intrigou. Como ela sabia? Como se ela estava tão longe, em outra cidade, em outro estado a quilômetros de distância? Mas, ela notava. Sabia que ela se atentava para detalhes que muitos não atentavam. Ela sabia. Ela prestava atenção nele e não tinha nenhuma obrigação de fazer isto. Fazia porque gostava de Pedro. Era amizade no sentido puro da palavra, desinteressada, mas sempre preocupada com ele. Marcela lhe dava valor, lhe dava atenção. Algo que lhe faltava nos últimos tempos. E muito. E faltava de quem deveria ser apoio e suporte. Não nas últimas semanas, mas nos últimos meses, talvez dois anos. Pedro não conseguia precisar a data, mas isto não era importante.

Deu-se conta disto num dia banal, num momento rotineiro, mas com novas cores. A distância física era irrelevante. Marcela estava sempre nos seus pensamentos. O problema era a distância emocional de quem estava sempre do seu lado. Uma distância que a cada dia se tornava esmagadora, desgastante. Algo quase intransponível. A cada dia que passava, Pedro se convencia de que deveria tomar uma decisão logo, de que os caminhos haviam tomado rumos diferentes para não mais se cruzar no infinito. Seus passos não tinham mais horizonte.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Deixou de ser notícia


Dizem que brasileiro tem memória curta. Talvez a imprensa tenha sua parcela de culpa. Talvez todos nós tenhamos nossa parcela de culpa. Porém, no que me concerne, não vou deixar o assunto morrer e ficar esquecido. Vou falar de novo do caos aéreo. Não, meus caros, ele ainda não acabou e as coisas não se normalizaram. Apenas deixaram de ser notícia.


Semana passada fui à Brasília. Na 5a. feira, demorei exatos 55 minutos para conseguir fazer o check-in na Gol. Uma verdadeira confusão, uma fila gigantesca e muito pouca informação. Vôo saiu com 1 hora de atraso, o que parece razoável.


A volta tinha nos reservado a melhor parte da comédia. Chegamos no aeroporto às 17 horas, para fazer o check-in e embarcar no vôo 1209, às 19:25 com destino a Congonhas. Éramos 4 advogados cansados depois de um longo dia de seminário e palestras. Fomos informados que o vôo partiria às 20:30. Interessante que o vôo imediatamente depois do nosso para São Paulo foi embarcado antes do nosso.


Todos embarcados, começa o espetáculo. O comandante informa que devido ao "sequenciamento de vôos no espaço aéreo de São Paulo, somos a quarta aeronove na fila de decolagem, com previsão para saída em 10 minutos". Esta informação nos foi passada por volta das 21 horas, ou seja, já estávamos no avião há mais de 40 minutos.


Nova informação do comandante: "Somos a próxima aeronave no sequenciamento."


E agora, senhores leitores, o clímax do primeiro ato: "Recebemos informação da torre que devido ao excesso de aeronaves no espaço aéreo de São Paulo, todas as decolagens para São Paulo estão suspensas até ordem posterior. O espaço aéreo de São Paulo está fechado." Gritaria geral, celulares sendo sacados pelos passageiros e os comissários distribuindo copinhos de água, lembre-se estamos na Gol.


Por volta de 21:45 - ou seja, com a iminência do fechamento de Congonhas às 23 horas -, novo recado do comandante. "Informamos que a torre autorizou nossa decolagem, porém iremos para Guarulhos." Decolamos às 22 horas de Brasília e chegamos em Guarulhos às 23:30. Comentei com o passageiro do meu lado: "Agora mais 30 minutos para que o avião encontre uma posição de desembarque." Ele riu. Não foram 30 minutos, foram 45 minutos parados na pista esperando para o desembarque.


Só que o avião atracou na área de desembarque internacional, o que impedia que saíssemos pelo finger. Mais 20 minutos aguardando que a Infraero providenciasse uma escadinha para o desembarque. Em resumo, saímos do aeroporto por volta da meia-noite e trinta. Um tumulto de passageiros procurando um táxi ou um ônibus para deixar o aeroporto.


A moral da história é muito clara: o caos aéreo não acabou. As autoridades continuam perdidas e a imprensa já cansou de informar sobre assuntos repetidos. E tudo vai ficar como dantes, e tudo será esquecido. Triste país!

sábado, 27 de outubro de 2007

Seguro morreu de velho

Uma mesa na hora do almoço com aproximadamente 10 pessoas. Advogados, dirigentes do Sesi, do Senai e da CNI. Assunto em pauta: sucessão presidencial. Ouvi todos atentamente e soltei o verbo.

- Eu, pessoalmente, acho que vão tentar uma emenda constitucional para um terceiro mandato do Lula!

Acharam que eu estava louco, que isto não aconteceria no Brasil, que a democracia está madura.

Notícia no Uol, ontem à noite, que a Fabiola me passou: Aliados articulam proposta que abre brecha para 3º mandato de Lula .

Cada um tire suas próprias conclusões.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Notícia requentada

Slot é um blog especializado em aviação e notícias sobre as empresas aéreas editado por Marcelo Ambrósio. Como hoje vou a Brasília, já estou preparado para ter muita paciência e enfrentar o caos aéreo que continua. Não sou eu quem está dizendo, está tudo no Slot.

Esta semana a culpa pelos atrasos foi do tempo, da Fórmula 1 e blá, blá, blá. E agora o Ministro Nelson Jobim diz que a culpa é da ANAC.

Ué, então não mudou nada? Não vou me cansar nunca de me indignar diante da incompetência das autoridades brasileiras.

Comentários da Orquídea

Uma das coisas que mais intriga sobre a blogosfera e os textos que publicamos é a possibilidade de perceber que na nossa essência humana somos todos profundamente iguais.

Os comentários da Edna e da - blogs que leio sempre - mostram como realidades distintas confluem para a nossa humanidade. Preocupações, alegrias, angústias e aflições. Momentos da vida e experiências todas semelhantes, com personagens e cenários diferentes, mas tendo um pano de fundo igual: a vida.

Acho que esta unicidade, este ponto que nos une, que torna a literatura, a música, as artes plásticas tão importante no nosso processo de conhecimento próprio e amadurecimento.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Crônica : A Orquídea

(Foto do autor do blog)

Há cerca de 4 anos, ganhei uma orquídea branca. Bem, na verdade, não fui quem ganhei, mas ela veio morar aqui em casa, e aqui, quem cuida das plantas sou eu. Se não for eu, elas morrem – de sede ou afogadas. Uma bela orquídea branca. Passado algum tempo, as flores murcharam, enegreceram, perderam a vibração e caíram. Restou apenas um caule verde, que mais parecia um espeto curvado, tombado para um lado. Cheguei a achar que ela tinha morrido, mas impedi que fosse jogada fora. Deixei-a num canto da varanda, onde a regava e podia observá-la. As folhas continuavam vistosamente verdes, o que me incentivou nos cuidados.


Para minha surpresa, notei no final do mês passado alguns brotos no caule. Os brotos ganharam volume e transformaram-se em pequenas esferas fechadas. Duas semanas se passaram até que as flores desabrocharam. A orquídea saiu da varanda e ganhou um recanto sobre uma mesinha ao lado do sofá. Estava surpreso com o "renascimento"da planta e das flores. Tudo simples e corriqueiro, tudo banal, como uma flor que nasce, assim como tantas outras.


Na quinta-feira, crianças dormindo, a casa silente, lia o jornal quando lembrei-me de algumas palavras que tinha ouvido pela manhã sobre a importância de ter calma, de ser paciente, de que tudo tem o seu tempo. Olhei para a orquídea e sorri.


Fico fascinado como certas coisas e certas pessoas, aparentemente vindas do acaso inexplicável e imprevisível, conseguem mostrar-nos verdades tão simples e ao mesmo tempo tão profundas. Um momento de inspiração, de lucidez. Naquele momento, percebi como a orquídea era um perfeito exemplo de paciência, de calma. Ela ficou dormente por vários anos, mas não a joguei fora. Cuidei dela, esperei por ela e agora ela me brindava com sua beleza e iluminava meu final de dia. As palavras escritas naquela manhã se materializavam à distância numa singela flor.


Alguém irá entender que ter calma, ter paciência não é fácil, ainda mais num mundo que funciona numa velocidade cada vez maior. Temos pressa. A orquídea pedia calma. E naquele momento, o acaso uniu palavras escritas a uma flor que não fala – pelo menos não com a boca, se bem que acho que flores falam muitas coisas. Basta perguntar a uma mulher que as ganha de presente!


Pode parecer tolo, mas há momentos em que é preciso dizer para aquela pessoa que tem paciência e sabe estender a mão, que sabe dar – e provocar - um sorriso, que sabe ouvir quando mais precisamos: Obrigado por você existir!


Este post é dedicado a todas aquelas pessoas com quem podemos contar sempre, que nos ajudam sempre, mesmo quando há distância física.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Uma propaganda do Mac

A Apple lançou uma série de propagandas nos EUA comparando o desempenho do Macintosh com os PCs. É uma antiga briga Apple vs. Microsoft.

Em alguns campos, como MP3, o iPod da Apple dá um baile no Zune da Microsoft. Nos computadores, ainda somos reféns da Microsoft.

A propaganda é divertida e um bom jeito de começar a 2a feira: rindo!


domingo, 21 de outubro de 2007

Dicas da Dani: Feist

Feist é uma cantora/compositora canadense e estará no Brasil para o Tim Festival 2007. No Rio ela se apresenta no dia 26 de outubro; em São Paulo, ela cantará no dia 27 de outubro, mas os ingressos já estão esgotados para as duas cidades. Traz o estilo Indie Rock para as paradas de sucesso e para o Tim Festival vem como uma das "Novas Divas".

O vídeo traz a música "1 2 3 4" do álbum The Reminder (2007) chegou a 8a. posição nos EUA na lista da Billboard. Vale destacar também "My moon, my man" do último álbum para quem quer uma dica de download.

sábado, 20 de outubro de 2007

Vinicius de Moraes : Suspensão

SUSPENSÃO

Fora de mim, fora de nós, no espaço, no vago
A música dolente de uma valsa
Em mim, profundamente em mim
A música dolente do teu corpo
E em tudo, vivendo o momento de todas as coisas
A música da noite iluminada.
O ritmo do teu corpo no meu corpo...
O giro suave da valsa longínqua, da valsa suspensa...
Meu peito vivendo teu peito
Meus olhos bebendo teus olhos, bebendo teu rosto...
E a vontade de chorar que vinha de todas as coisas.

(As coisas do alto. São Paulo : Cia. das Letras, 1993, p. 103)

A música longínqua de uma valsa para embalar o sonho na noite em que a lua volta a despontar no céu claro, ainda tímida, ainda crescente, mas na noite quente, ela dá o ar da graça e leva consigo o beijo, o pensamento, o carinho. Distância? Não há distância para sentimentos puros.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Juizados Especiais nos aeroportos

Não vou transcrever o longo artigo que postei hoje no Blog - Informativo Legal sobre a criação dos Juizados Especiais nos aeroportos brasileiros, mas apenas indicar a leitura para quem estiver interessado.

Adianto que achei esta medida muito demagógica. As razões podem ser lidas aqui.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Lembram do 3?


Encerrada a sequência de posts temáticos aproveitando o dia das crianças, volto com um tema menos agradável, mas muito necessário.


Lembram-se da Campanha do 3?


Pois é, ela sumiu. Curioso não?


Da coluna da Dora Kramer no Estadão (15 de outubro de 2007, p. A6):


"Ainda o 3


Antonio de Freitas, responsável pela campanha publicitária do Banco do Brasil que, por causa do slogan 'decida pelo 3' suscitou suspeita sobre propaganda subliminar para o teceiro mandato de Lula, rebate nota sobre o sumiço da prometida segunda fase da campanha, segundo ele baseada na soma dos algarimos 2 e 1 da Agenda 21 sobre a sustentabilidade do planeta.


Freitas informa que a segunda fase já está no ar e envia as peças da campanha para comprovar. Nelas não há uma referência sequer ao '3'. De acordo com ele, detalhes da campanha não podem ser revelados 'porque não podemos expor nossa estratégia e a nossa tática para a concorrência'.


Ah, bom, agora ficou claro!


Como não está fácil localizar posts antigos (vou ter que dar uma reorganizada no template agora que já tem bastante conteúdo), aqui vão os posts relacionados:


17 de agosto de 2007 - O misterioso 3

22 de agosto de 2007 - A campanha do 3


Não fui o único que notou a semelhança entre a campanha do Banco do Brasil e o logo do último congresso do PT, cuja imagem você confere acima. Depois alguém vai falar que fulano só se elegeu porque tinha a máquina administrativa por trás, que usou do poder econômico e blá, blá, blá. Eles aprendem rapidinho.


terça-feira, 16 de outubro de 2007

Conto: Semeadora de Sorrisos



SEMEADORA DE SORRISOS


A menininha de óculos vermelhos corria, pulava e sorria no tanque de areia do Bosque do Morumbi, sob o olhar atento do pai, tranquilamente sentado num banco sombreado pelas frondosas árvores do parque. Junto com ela, o irmão puxava um pequeno caminhão de plástico, enchendo a caçamba de areia e despejando em seguida para construir um castelo.

Uma manhã de sol tranqüila com o parque pululando de pequeninos, babás, pais e mães. O tempo corria lentamente e o pai não deixou de lembrar de sua época de criança. Bons tempos! Tudo se resumia a brincar, a inventar amigos imaginários e cenários para as brincadeiras. O tempo era medido pelas horas lúdicas, os dias pelos passeios e os fins de semana pelas visitas aos avós. Tudo era mais simples.

Aninha despertou-o do transe com uma pergunta:

- Pai, por que todo mundo ri para mim? Eles estão rindo dos meus óculos?

Com um olhar terno e cheio de confiança, o pai respondeu:

- Eles não estão rindo de você, estão sorrindo para você. Todo adulto, quando vê uma menininha linda e alegre sorri. As crianças trazem esta alegria para os adultos. As crianças fazem os adultos voltarem a ser criança, só que grandes. Vou te contar um segredinho. Quando nasce uma criança, o Papai do Céu lhe dá um poder mágico. O poder de semear sorrisos por onde a criança passa. E as sementes não acabam nunca. Elas só acabam se você quiser que elas acabem, se você deixar de ser criança, se você deixar de sorrir como criança. Se continuar sorrindo, as sementes vão sempre existir e todo mundo vai continuar sorrindo para você. Você, minha filha, será uma semeadora de sorrisos pelo mundo. Mas, agora, já é hora de ir embora. Vamos chamar seu irmão.

- Pai, quero colo! – pediu Aninha sorrindo.

- Mas uma meninona deste tamanho querendo colo! Tá bom, vai.

E ela pulou no colo do pai e abraçou-lhe bem forte.

- Quando eu for grande, você não vai mais conseguir me carregar no colo, então tenho que aproveitar. – e riu deliciosamente.

domingo, 14 de outubro de 2007

Ingenuidade na bicicleta

Li este texto de Caco de Paula ontem e transcrevo um trecho:

"Lembro-me disso sempre que escolho um novo caminho a seguir e procuro percorrê-lo mais com a alegria de uma criança de 10 anos que com a desconfiança dos quarentões. Você me dirá que um adulto já não pode agir com a ingenuidade de uma criança. Que já perdeu o entusiasmo movido por essa ingenuidade. E eu direi que, se isso for verdade, cabe ao adulto cultivar o entusiasmo e temperá-lo com, digamos, a sabedoria que os anos lhe deram, se é que deram. E, ainda que o adulto já não tenha todo o brilho genuíno da curiosidade da criança, que possa ver nela menos o símbolo de uma pequena pessoa inconsequente e mais o que ela é em essência: um ser livre para praticar a generosidade consigo mesmo.

Alguém já disse, ou deveria ter dito, que o adulto tende a ser justamente quem perde essa generosidade consigo, com os outros, com o ambiente. Só mais tarde fui conhecer os versos do poeta americano Robert Frost, que, diante de uma bifurcação na floresta, escolheu a estrada menos trilhada - e isso fez toda a diferença para ele. Era mais ou menos esse o espírito naquele fim de semana. E continua a ser agora, nestes tempos de insustentabilidade ambiental, econômica, social, afetiva." (Caco de Paula. "Origem e destino" in Revista Vida Simples, Outubro 2007, Edição 58, p. 78)


Ingenuidade e curiosidade. Coisas que vamos perdendo com o passar dos anos - menos as mulheres que continuam curiosas em sua essência. Ingenuidade de saber dizer "não sei", "não entendi", de pedir desculpas por um erro - aliás, aceitar que erramos faz parte desta ingenuidade -, de sermos simples e transparentes, de sair para almoçar e caminhar um quarteirão a mais para explorar e quem sabe descobrir um novo restaurante, ou para apenas apreciar a cidade.


O artigo de Caco de Paula utiliza o passeio de bicicleta para ilustrar esta ingenuidade materializada. Talvez o famoso slogan da Nike (Just do it!) seja outro exemplo desta volta aos tempos de criança. Comer um bombom não vai estragar sua dieta, tirar os sapatos enquanto está na sua mesa no escritório - desde que não fique passeando descalço se o escritório não for seu -, não vai escandalizar os colegas e por aí as coisas vão.


Coisas simples. Ingenuidade. E a vida fica mais leve. Lições que podemos aprender com as crianças.


Ah, para quem se interessou por Robert Frost, o poema The Road Not Taken e um comentário podem ser lidos em um post passado.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Poesia para crianças

O gosto pela leitura também pode e deve ser incentivado através da poesia. A escola tem um papel importante neste aprendizado, mas cabe aos pais dar o exemplo e o incentivo final. Através de um poema que minha filha aprendeu na escola, fui procurar o livro de poesias de onde o poema havia sido tirado. Surpreendi-me ao achar duas boas obras de poesia, de grandes poetas, só que destinados ao público infantil.

No dia das crianças, deixo estas 2 indicações.

Pé de Pilão é de Mário Quintana, com prefácio de Érico Veríssimo, e está na 8a. edição da Editora Ática (2005). Boas ilustrações e poemas divertidos que podem levar os nossos pequenos a descobrirem um outro bom livro: o dicionário.

Ou isto ou Aquilo é de Cecília Meirelles. A 6a. edição é de 2002 da Editora Nova Fronteira. Livro em tamanho grande e textos com fonte grande também o que facilita para crianças em processo de alfabetização. E toda a genialidade de Cecília Meirelles para o universo infantil.

Confesso que ver minha filha de 6 anos lendo Cecília Meirelles ou pedindo que procurasse um livro de Mário Quintana me enchem de orgulho, ou melhor, indicam que exemplo é seguido pelos filhos sem necessidade de palavras.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Voltar a ser criança



"Tia Bilu parou o movimento das agulhas, deixou cair as mãos no regaço, por cima do novelo de lã, já com o novo casaquinho terminado:

- Por hoje, basta!

E como tinha também terminado de contar o seu mais belo conto, perguntei-lhe, afagando seus cabelos levemente prateados:

- Tia Bilu, a senhora acredita mesmo em tudo que contou?

E ela, depois de me beijar:

- Um pouco de inocência, para saber acreditar, também ajuda a viver. Foi por isso que Cristo ensinou aos seus discípulos que o reino dos Céus pertence às crianças. Eu, quando conto minhas histórias, sinto que volto a ser menina. E acredito em tudo."

(Josué Montello. O Carrasco que era Santo. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994, p. 100)


Este é o último trecho de um romance infanto-juvenil escrito por Josué Montello. Terminei-o na semana passada. Uma linda estória, excelente para jovens leitores. Queria uma pausa em leituras adultas e refugiei-me em uma estória juvenil, leve, para ver se tirava algumas idéias para uma semana temática sobre o dia das crianças.


Acho que o trecho é muito ilustrativo. Um pouco de inocência também ajuda a viver e rejuvenesce. Voltar a ser criança. Algo que poderíamos tentar fazer nestes próximos dias. E não precisa muito, basta achar tempo para sentar no chão e brincar com nossos filhos, a deixar que as coisas simples nos enterneçam e tragam sorrisos, a sonhar e contar estórias. Basta simplesmente brincar.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Reestatização da Vale do Rio Doce

O Congresso Nacional do PT realizado em São Paulo aprovou a coleta de assinaturas para que se realizasse um plebiscito nacional em favor da reestatização da Vale do Rio Doce. O resultado da consulta feita pelo PT e alguns "movimentos sociais" não atingiu o número mínimo de assinaturas necessárias para que se convocasse um plebiscito.

Acho a idéia estapafúrdia e retrógrada. Uma verdadeira aberração.

A Companhia Vale do Rio Doce é hoje uma das maiores empresas brasileiras e que tem atuação multinacional, assim como a estatal Petrobrás. Na semana passada, o valor de mercado da Vale do Rio Doce superou o valor de mercado da Petrobrás e levou a Vale a ser a empresa brasileira de maior valor na Bolsa de Valores de São Paulo.

A Vale cresceu depois da privatização. Como também cresceram as empresas quase quebradas Embraer, CSN, Cosipa... Reestatizar a Vale seria em primeiro lugar um retrocesso. Em segundo lugar, quem pagaria a conta seriam todos os brasileiros, pois tratar-se-ia de um processo de desapropriação de um bem privado, e a Consituição Federal exige que se pague a justa indenização ao titular do bem expropriado. Em terceiro lugar, uma Vale estatal perderia dinamismo e agilidade, o que comprometeria seus lucros, e por consequência, o valor de tributos que a Vale paga ao Governo. Em quarto lugar, os fundos de pensão, que são acionistas da Vale, receberiam menos dividendos e isto comprometeria a aposentadoria dos milhares de funcionários públicos, alguns deles que devem ser a favor da reestatização.

Não vou fazer uma lista de números para provar meu ponto. Sou contra a reestatização da Vale. O Brasil não é a Bolívia de Evo Morales, nem a Venezuela de Hugo Chávez. Não é hora de aumentar o tamanho do Estado, mas de reduzi-lo.

Quem sabe o presidente Lula deveria levar a ferro e fogo suas palavras, quando afirmou que o Estado precisa de um choque de gestão. Choque de gestão significa fazer mais com menos. Basta colocar gente competente no Governo que as coisas funcionariam. E este Governo não prima em recrutar pessoas competentes para cargos públicos.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Uma canção é pra isso

Uma música do Skank para animar o começo de semana curta. No último post, falava de música e alegria. Esta letra tem trechos que poderiam muito bem inspirar um conto ou uma poesia. Mas ela fala por si só: "uma canção é pra trazer calor / deixar a vida mais quente". Quantas canções tocam sem querer no rádio e nos trazem à mente bons momentos, boas lembranças e alegrias?

Deixo a música falar para quem quiser e souber ouvir.



Uma canção é pra acender o Sol
No coração da pessoa
Pra fazer brilhar como um farol
O som depois que ressoa

Uma canção é pra trazer calor
Deixar a vida mais quente
Pra puxar o fio da paixão
No labirinto da gente

Pra consertar
Pra defender a cidadela
Pra celebrar
Pra reunir bairro e favela

Uma canção me veio sem querer
Naquela hora difícil
Joguei-a logo nesse iê iê iê
Por profissão ou por vício

Pra clarear a escuridão
E o mundo encerra
Pra balançar
Pra reunir o céu e a terra

Uma canção é pra fazer o Sol
Nascer de novo
Pra cantar o que nos encantou
Na companhia do povo

Pra consertar
Pra defender a cidadela
Pra celebrar
Pra reunir bairro e favela

Uma canção é pra acender o Sol
No coração da pessoa
Pra fazer brilhar como um farol
O som depois que ressoa

Pra clarear a escuridão
E o mundo encerra
Pra balançar
Pra reunir o céu e a terra.

sábado, 6 de outubro de 2007

Alegria musical

(Jazz: Icarus, por Henri Matisse)


Este blog nasceu em janeiro deste ano sem grandes pretensões. Desde lá, foram mais de 8.000 visitas de diversos países e cidades espalhadas pelo Brasil, algo que me surpreendeu. A idéia inicial era usar o blog como um laboratório de redação, um teste para as coisas que escrevo, e um lugar para deixar recadinhos, pois sabia que alguém haveria de ler.



Recebi esta semana um email de um leitor de um estado do norte brasileiro. Por uma questão de privacidade, não vou mencionar o nome, nem detalhes do que me escreveu. Mas ele escreveu pedindo ajuda. Fez elogios às dicas musicais publicadas no blog e pediu que lhe enviasse um playlist com algumas sugestões.



Até aqui, nada demais.



Mas há algo de extraordinário neste simples email que me foi enviado, e isto me levou a ver como as coisas realmente têm um sentido, como nada acontece por acaso. Ele chegou até o blog por meio do Google (como vivíamos sem o Google?). Arriscou e mandou o email, que eu poderia ter apagado ou nem lido. A sucessão de eventos se deu com a minha resposta a ele e uma sincera tentativa de tentar ajudá-lo a vencer o seu problema. Tudo isto já seria algo somente possível com as novas formas de comunicação.



Porém, há algo a mais. Os elogios à "sensibilidade musical do blog" somente são possíveis por causa de outra pessoa. O blog é mero intermediário das ótimas dicas musicais postadas aqui. Não sou a fonte da maioria delas, apenas compartilho porque a música é uma forma de espalhar alegria e sorrisos. E alegria só é possível compartilhar se ela vem de dentro, mesmo quando estamos com problemas, ou quando há aquela nuvenzinha preta rondando nossa cabeça.



A alegria vem da alma, lá do fundo, de pessoas que contagiam o ambiente à sua volta, de pessoas que sabem semear sorrisos no seu ambiente. A música é sempre um excelente pano de fundo para esta alegria, como trilha sonora de nossos dias, ou para nos acompanhar em momentos de reflexão, de devaneios. Um porto seguro para recarregar as forças e trazer de volta o sorriso ao nosso rosto.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Blog indicado



Recebi a indicação a este prêmio da Edna, do Pensamento Nosso. Agradeço a indicação e agradeço às suas frequentes visitas, dicas e comentários. O blog da Edna sempre vale a pena conferir. Uma corrente surgida na blogosfera. Aliás, vou comentar num próximo post algo muito interessante que aconteceu esta semana e algo que só possível pela internet.


Gosto e indico todos os blogs que estão na minha lista de links e visito-os frequentemente. Mas só posso indicar 5.

As regras são essas:


1. Basta indicar 5 blogs que você realmente ache interessante, mesmo que eles já tenham sido escolhidos por outros blogueiros.


2. O objetivo é unir blogs que se comunicam e formam uma grande rede na blogosfera com textos interessantes com a intenção de compartilhar, criar e interagir com todos os blogueiros de plantão.


Os indicados são:

1. Pensar de uma mulher
2. Ventos de Mudanças
3. Bicho Solto
4. Lonely Avenue
5. Uma estrela no céu

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Coitada da nossa língua




A foto acima foi publicada na Folha de São Paulo de hoje (3 de outubro de 2007). Trata-se de um carimbo elaborado no Congresso Nacional e que está estampado em milhares de documentos oficiais.

Alguém vai dizer que o "Congreço" se adiantou e já implementou o Acordo Ortográfico.



Quem sabe o Congresso pudesse comprar um dicionário para os funcionários? Ou melhor, colocar na intranet para que verificassem a ortografia.


Este país tem coisas que só rindo mesmo...

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Crônica: Brisa


BRISA


O vento brincou com seus cabelos, desarrumando-os e lançando uma mecha que lhe cobriu parte do rosto. Ela coçou o nariz duas vezes e puxou os cabelos para trás, prendendo-os num rabo-de-cavalo alto. O rosto livre dos fios aloirados e domesticados pelo elástico. Os longos cabelos presos revelavam toda a beleza do rosto sem maquiagem. O contorno do pescoço exposto com sua suave curva. Pedro gostava de apreciar as linhas que desciam de sua nuca e uniam-se aos ombros desnudos. Talvez fosse o tom da pele, talvez simplesmente fosse ela.

Ela permanecia imóvel, olhos fixos no mar, alheia ao ruído da Avenida Atlântica. A água de coco refrescava-lhe numa tarde quente de primavera. O pensamento longe tinha na saudade o conforto. Queria Pedro ao lado dela, naquele quiosque, naquela tarde, no meio do expediente, como fizera algumas vezes. Escapavam do trabalho para conversar e rir. Lembrou-se de quando ele percebeu a discreta cicatriz sobre a sobrancelha direita, um pequeno risquinho, quase imperceptível, mas que ele notara. Ele notava tudo. Não dizia tudo para não parecer paranóico, mas ela sabia que ele notava tudo. O silêncio, o olhar, o sorriso, os gestos. Ao rememorar estes fatos, alegrou-se, sorriu. Com a brisa do mar, afastou-se a saudade.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Reunião de família

Eventos familiares podem gerar todo e qualquer tipo de reação. Há aqueles onde reina a cizânia, a tensão, a indiferença, a maledicência. Outros há, onde os laços de sangue aproximam as pessoas num espírito cordial e fraterno, de alegria e respeito. Comemorar 90 anos é motivo mais do que suficiente para reunir a família próxima e distante. E motivo para superar implicâncias e diferenças para saudar o aniversariante.

Um tio-avô comemorou 90 anos neste final de semana. Um almoço festivo e agradável, onde parentes puderam se reencontrar. Ele é o mais novo de 4 filhos e sua única irmã viva, com 92 anos estava presente, lúcida, sorridente, vencedora.

Fiquei a pensar em como o tempo passa e como somos premiados com cada dia de vida com que somos presenteados. Um novo dia que começa é antes de tudo um dia a ser escrito e vivido. Será que chegaremos aos 90 anos? Será que chegaremos com saúde aos 90 anos? Não sei e ninguém sabe. Sabemos apenas que temos o momento presente para saborear, sabemos apenas que o presente está a ser escrito e isto afetará o futuro.

Um dia partiremos e ficarão as memórias, as lembranças de bons momentos, dos sorrisos, dos causos e histórias contadas – algumas reais, outras fantasiadas. E os pequenos que ali estavam, vendo o tio-bisavô sorrir, estranharam aquele senhor com o qual convivem muito pouco, e talvez guardem alguma lembrança deste dia. As fotos, porém, congelaram a cena para a posteridade e para manter viva a memória daqueles que são indispensáveis na formação daquilo que cada um de nós é. Carregamos no sangue e no caráter estes traços familiares que passam de geração em geração.

domingo, 30 de setembro de 2007

Álvaro de Campos


"Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Esse sorriso será para outro, ou a propósito doutro,
Loura débil...
Esse olhar para mim casual como um calendário...
Esse agradecer-me quando a não deixei cair do eléctrico,
Um agradecimento...
Perfeitamente...
Gsoto de lhe ouvir em sonho o seguimento que não houve
De conversas que não chegou a haver.
Há gente que nunca é adulta mas prematura!
Creio mesmo que pouca gente chega a ser adulta - prematura -
E a que chega a ser adulta e prematura morre sem dar por isso.
Loura débil, figura de inglesa absolutamente portuguesa,
Cada vez que te encontro lembro-me dos versos que esqueci...
É claro que não me importo me nada contigo
Nem me lembro de te ter esquecido senão quando te vejo,
Mas o encontrar-te dá ser ao dia e ao destino
Uma poesia de superfície,
Uma coisa a mais no a menos da improficuidade da vida...
Loira débil, feliz porque não é inteiramente real,
Porque nada que vale a pena ser lembrado é inteiramente real,
E nada que vale a pena ser real vale a pena."

25 de janeiro de 1929
(Poemas de Álvaro de Campos. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1999, p. 276-7).

Este poema de Álvaro de Campos não tem título. Destaco o seguinte trecho: "Mas o encontrar-te dá ser ao dia e ao destino." Fujo da temática do poema e pinço este verso, não o encontro casual de que trata o poeta, mas o encontro que muda um dia, ou aquele momento especial que muda o dia. O que o dia nos preparou, o que o destino nos reserva, não sabemos, mas sempre há momentos mágicos que evocam a alegria e a beleza do encontro, do sorriso, do recado simples que aquece a alma.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Vocação


Nessa época eu já falava em vocação, que vem a ser a vontade de fazer isto e não aquela outra coisa eventualmente mais proveitosa e até mais fácil: Vocare, aprendi nas aulas de latim. O chamado. Obedecer a esse chamado é uma destinação e não condenação, porque nesta entra o amargor que transforma o escritor numa esponja de fel. Obedecer à vocação seria simplesmente exercer o ofício da paixão, era o que me ocorria quando diante da pequena mesa abria o estojo com as canetas, escolhia pena preferida, molhava no tinteiro e começava a escrever minhas histórias. Mas tomando o cuidado para não sujar os dedos, esfregar o mata-borrão melhorava, mas cuidado com a blusa!

Vocação seria então apenas isto, atender ao chamado sem se preocupar com o resultado, cumprir o aprendizado da paciência e do amor.”
(Lygia Fagundes Telles. Conspiração de Nuvens. Rio de Janeiro : Rocco, 2007, p. 128-9)

Todos nós temos uma vocação, um chamado, quer profissional, quer na vida de um modo geral. As palavras de Lygia Fagundes Telles fizeram-me pensar na minha vocação profissional que abracei com tanta paixão. Sou advogado e nutro um amor incondicional pelo Direito e pelo ofício que escolhi.

Nestes 14 anos como advogado – sempre como advogado -, nunca pensei em seguir uma carreira pública, nunca me passou pela cabeça tomar outro rumo na vida. Confesso que advogar não é tarefa fácil. É um ofício solitário, pois passamos horas e horas estudando, escrevendo, pensando. Por vezes, revela-se ingrato e cruel diante de situações injustas. A recompensa e a satisfação profissional decorrem do amor ao Direito. O cliente raramente reconhece a dedicação do profissional e muitas vezes não paga o valor previamente acordado dos honorários.

Advogar é uma constante indignação sadia, é não se conformar com a situação, é lutar incansavelmente pelo direito do cliente. É preciso lutar e perseverar, vencendo o desânimo que aparece quando se é derrotado. Isto exige buscar energias e renovar o ânimo constante de luta.


Tenho colegas, que cansados da labuta profissional, sonham em mudar de área, em partir para outra profissão ou abrir um negócio que não tenha nada a ver com o Direito. Não penso assim, porém tenho uma teoria de que muitos jovens advogados vão se desiludir com a profissão. Não há retorno rápido, não há sucesso fácil e não se fica rico da noite para o dia, pelo menos se o profissional atuar eticamente. Para se ter sucesso na profissão, é preciso abraçar a vocação sem se preocupar com o resultado, e seguir adiante com paciência e amor.


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