quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Crônica: Página de um diário



Roberto chegou ao escritório, mais cedo que de costume. Abriu a gaveta e tirou um caderno espiralado, de capa preta e folhas num tom de areia. Havia comprado há algum tempo para servir como um diário. Estava intacto aguardando o momento em que precisasse, ou criasse coragem para derramar seu interior naquelas folhas. Hoje era o dia. Não pôs data. O ambiente, ainda silencioso, era o pano de fundo perfeito para o mergulho interior.

"Te compreendi como nunca, enquanto me ajeitava no sofá para tentar dormir. Um vazio inundava meu ser que misturava-se com ódio e ira. Um grande caldeirão de sentimentos negativos, com um gosto de amor murcho no fundo, mofado, que azedava o caldo fervente. E como estava fervente! Não pude deixar de pensar em você e sentir tua dor, tua angústia, teu medo, que devem ter sido muito semelhantes ao meu. Não havia mais ponte a ser cruzada, não havia mais diálogo possível. Tudo desmoronara, principalmente a minha ingenuidade de achar que um relacionamento seria salvo e mantido com comunicação. Não sabia que há horas em que a comunicação desaparece, que se fala com uma parede, ou com um ser surdo e mudo. As línguas se tornam ininteligíveis e o esforço por compreendê-las desaparece. Apenas gritos, socos na mesa, palavrões, temas ressuscitados...as lágrimas não se fizeram presentes ainda, só a ira, o ódio, a raiva. As brigas de final de dia foram isto: brigas profundas, com marcas que talvez não cicatrizem. Agressões emocionais que atacam a auto-estima e o valor interno de cada um. ‘Imbecil, idiota, imprestável, inútil, ignorante, ingênuo’. Todas estas palavras começando com a letra i.“

Roberto achou graça nesta constatação e no meio desta observação irrelevante - que também começa com i -, ele sorriu. Um primeiro sorriso em alguns dias, nem se lembrava mais.

Seu interior era um deserto árido, ressecado por um longo fim de semana, interminável - com i também -, sufocante, indigesto. Conviver ao lado da mulher havia se tornado uma tormenta, um situação desagradável. Não conseguia sentir-se confortável ao lado dela. Tudo o incomodava. Havia chegado a um ponto em que tudo era motivo de implicância, e ele sabia bem que isto era um péssimo sinal. Implicava com as roupas, o sapato, o penteado, o elástico de meia velha que prendia o cabelo, o brinco que sempre se repetia, a toalha amarfanhada no banheiro, o shampoo fora do lugar, o açúcar que era sempre deixado sobre a mesa após o café da manhã...E a lista crescia. Roberto anotava tudo mentalmente. Tudo represado para lhe mostrar que ela não estava nem um pouco preocupada com as coisas que ele dizia e pedia. Caíam no esquecimento, afinal fazia mais de 2 meses que ele pedira a ela que pregasse um botão em seu terno. Esquecido o terno, esquecido estava Roberto. Parecia um fantasma ambulante, um homem invisível, pelo menos quando interessava, porque havia momentos em que a invisibilidade não funcionava nunca. Ele bem que tentava, mas ela o perseguia e não deixava que a invisibilidade funcionasse.

As noites mal dormidas no sofá da sala. Estas noites eram o sinal, um passo dado que não tinha volta. ‘Seria hora de procurar uma terapia de casais?’, pensou. ‘Ou seria tarde demais?’

4 comentários:

Edna Federico disse...

Eu diria para o Roberto, que não acredito nessas terapias de casais. Se o próprio casal, que vive junto há anos e teoricamente se conhece, já não se entende, como uma pessoa de fora irá consertar isso?
Bom, também não sei como funciona, nunca fiz uma terapia dessas.
Acho difícil uma relação que chegou a esse ponto de ruptura, com tal grau de implicância, ter volta.
Bola pra frente, Roberto!
Muito boa crônica.
Beijo

Fabiola disse...

Ah
eu acredito sim
Acho que muitas vezes precisamos de empurrões na vida!!!

disse...

Cíntia sabia que depois de mais uma briga homérica, Roberto ia dormir no sofá. E ela ia ficar naquela cama sozinha, mais uma vez. Toda raiva descarregada se transformava em lágrimas doídas. Ela não ia dar a ele o gostinho de vê-la chorar. Por mais que pensasse, Cíntia não conseguia descobrir onde eles tinham se perdido. Tudo o que ela fazia estava errado. A lista de reclamações imbecis de Roberto crescia. E o que ela pedia a ele era ignorado solenemente. Não conseguia mais ter vontade de fazer um carinho, de dar um beijo na hora que ele chegava. Sentia-se machucada, descuidada. Onde tinha se escondido todo aquele amor que eles sentiam? O que podia ser feito pra voltar no tempo, consertar toda aquela bagunça? A cabeça de Cíntia não parava. Mil perguntas sem respostas. As lágrimas lavavam seu rosto... mais uma vez, ia dormir naquela cama vazia.

Pietra disse...

Era mais uma noite de sábado solitária. Ela passeava com o controle remoto. A televisão reproduzia eletronicamente a poesia de Vinicius :
“ Impossível fugir a essa dura realidade;
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios; Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas;
Todos os maridos estão funcionando regularmente;
Todas as mulheres estão atentas;
Porque hoje é sábado”.

Aquela programação colorida representava a vida que ela não tinha. Quem não tem suas esquisitices, seus segredos, seus medos?! E quem nunca se sentiu só numa noite de sábado?