sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Crônica: Beijo Vazio

O Beijo - Klimt




Havia algo de estranho naquele beijo. Parecia oco, vazio. Vai ver que era isto que chamavam de beijo técnico, pensou Aninha. Os lábios se uniram, mas foram só os lábios, algo mecânico, talvez ele nem tivesse fechado os olhos. Ele estava longe, não havia aquela união transcendental, pelo menos Aninha não sentira isto. Era um sentimento inusitado. Burocrático, sim esta era a palavra que procurava. Ele beijou-a como se batesse um carimbo em uma repartição pública no final de dia, com a mão já cansada, apenas cumprindo a rotina e com um olho fixo no relógio, contando os minutos para bater o cartão e zarpar pela porta para tomar aquela cervejinha com os amigos no bar da esquina.





Sentiu-se mal ao pensar desta forma, mas era a realidade. Dura, fria e cruel. Mas era a realidade. Aquele beijo era o prenúncio do fim, a apoteose do vazio, da distância que se instalara entre eles, sorrateira como a noite, foi-se achegando, enevoando o que era luz, alongando as sombras até que a escuridão recobrisse tudo. O coração de Aninha murchou e seus lábios continuaram a tocar os lábios de Antonio. Beijava-o com um gosto de saudade, nutria aquele momento pois temia que não se repetisse. Nova pontada no coração e os arrepios haviam desaparecido. Parecia que aquele beijo já durava demais, se bem que não contava os minutos ou segundos. Era uma encenação despida de carinho. Ficou incomodada e desfez o abraço e desfez o beijo.





Desvencilhou-se dos braços de Antonio e olhou-o nos olhos. Não havia brilho, não havia mais a intensidade do olhar penetrante. O silêncio era a revelação do presságio. Ele permaneceu mudo, apenas sorrindo. Ela sorriu de volta, mas apenas externamente, forçando os músculos da face para não demonstrar o que sentia internamente. Emudecida, levantou-se do sofá e foi dormir.

4 comentários:

Edna Federico disse...

Muitas vezes nem percebemos que vai acabando, né...quando nos damos conta, acabou!
Gostei muito.

disse...

Acho que a Aninha merecia um beijo igual ao do Klimt... Cheio de carinho...Bom, se bem que essa é a minha percepção do beijo do Klimt... Nunca tinha pensado nesse beijo como um beijo vazio.
Bom ler outras percepções!
Beijos e boa semana

Anônimo disse...

adoorei essa cronica! me fez lembrar do meu passado ;)

Anônimo disse...

adorooooooooooooooooooooooooooo