sábado, 31 de dezembro de 2011

Conto: Final de Ano


FINAL DE ANO


Curioso como o medo se transforma com o tempo, ele costumava dizer e narrava sua própria história de vida para ilustrar sua tese.  Quando ele a conhecera, tinha medo, um verdadeiro pavor que lhe tirava o sono, de que não iria continuar a conversar com ela no dia seguinte. Era temeroso de que iria perdê-la, sem mais nem menos, a qualquer momento, de que ela iria se irritar com ele, iria se cansar dele, e de sopetão lhe dispensaria, diria com todas as letras que não queria mais compartilhar momentos com ele.

Aos poucos os dias viraram meses, os meses períodos mais longos, e estes períodos alguns poucos anos. Deu-se conta de que o medo que sentia, na verdade, era um sentimento possessivo e egoísta; queria ela só para ele e temia perder uma exclusividade da qual nunca gozara - nem poderia desfrutar da exclusividade. Estava tomado de uma paixão aprisionadora, apesar de jamais ter dividido com ela este impulso. Tinha ciúmes que lhe arrasavam, mas engolia silenciosamente toda paixão descontrolada. 

Seu egoísmo possessivo cedeu lugar a uma amizade que julgava mais verdadeira, sincera e desinteressada.  Continuava a maravilhar-se com o fato de sentir-se tão próximo de alguém que se encontrava a quilômetros de distância e com quem conversava pessoalmente apenas esporadicamente. Domou as paixões desenfreadas - sem deixar de admirá-la -, e deu vazão ao carinho acolhedor, ao abraço terno, ao colo consolador, às palavras energizadoras, ao sorriso deslumbrado, ao ouvido atento ao mais singelo sinal de preocupação ou aflição por parte dela. Bastava uma linha fora do lugar numa mensagem eletrônica que ele pressentia que algo lhe afligia. A sensibilidade se aguçara ao longo do tempo e o medo se converteu em amizade segura.

Pacientemente, apaziguou o medo e pôs-se escutá-la. Ela sabia como delicadamente acalmar o coração temeroso do pobre homem e ajudá-lo a superar a insegurança. Bastavam algumas poucas frases, algumas poucas palavras que brotavam do interior daquela mulher para a paz reinar.  Ele, por sua vez, nunca hesitou em lhe estender a mão e a manifestar com gestos e palavras a importância de sua presença em sua vida.

Ele aprendeu, como fez todos os finais de ano desde que a conhecera, a celebrar silenciosamente esta amizade fruto de respeito e admiração, fruto de carinho fraterno, fruto de uma sintonia que o universo presenteara a ambos. Repetirá neste ano que finda o brinde com um sorriso estampado no rosto e dirigirá a ela palavras carinhosas e o agradecimento por todas as memórias vividas e por mais um ano que se passou.


domingo, 25 de dezembro de 2011

Epígrafe Natalina


"Mas não havia anjos apenas ao redor do pastor: estavam por toda a parte. Encontravam-se pousados na gruta, na montanha ao redor dela e esvoaçando pelo céu. Chegavam andando em grandes multidões pelo caminho, e ao passar paravam para ver o Menino. Reinavam entre eles um júbilo e uma alegria indescritíveis, cânticos e brincadeiras, e tudo isso pôde ele ver na noite escura, na qual antes nada vira. E também ele se alegrou tanto de que os seus olhos se tivessem aberto que caiu de joelhos e deu graças a Deus. 


Mas, ao chegar a este ponto, a vovó suspirou e disse:


- E o que aquele pastor viu, nós também podemos vê-lo, pois os anjos revoam sob o céu em todas as noites de Natal, desde que tenhamos olhos para vê-los.


E a seguir pôs a mão sobre a minha cabeça e disse:


- Você não deve jamais esquecer disto, pois é tão verdadeiro como é verdade que eu vejo você e você me vê. O que importa não são luzes nem lâmpadas, o que importa não é o sol nem a lua; o que é necessário, isso sim, é que tenhamos olhos capazes de ver a Glória de Deus."

(Selma Lagerlöf. "A Noite Santa" in Contos de Natal. São Paulo : Ed. Quadrante, 2005,  p. 17)

A romancista sueca Selma Lagerlöf tornou-se em 1909 a primeira mulher a ganhar o prêmio Nobel de Literatura.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Quantos natais você ainda têm?


Estendo um afetuoso convite a você, meu querido leitor, para caminhar ao meu lado pelas linhas a seguir. Volte no tempo. Reative na memória os natais da infância, na casa da avó ou da tia, com toda a família reunida, a noite quente, os apertos na sua bochecha, os comentários repetidos de como você cresceu, como você está grande, como você está bonito, o olhar comprido lançado ao presente que o primo ganhou e que você julgou ser melhor que o seu presente, a cardápio repetido e aquele peru que nunca que lhe agradou - mesmo com molho, o refrigerante à vontade - afinal era noite de festa -, não ter que ir para a cama cedo e poder ficar brincando e correndo e jogando bola com os primos. 

Quando se consulta a memória sobre estes eventos, há uma avalanche de bons sentimentos e lembranças. Lembro dos meus natais quando era criança com enorme carinho e nostalgia. Não me refiro a uma nostalgia negativa e pejorativa, saudosa de tempos que não voltam; refiro-me a uma nostalgia boa, à lembrança daqueles que já partiram e não convivem mais conosco. 

Com o passar dos anos, a maturidade batendo à porta, costumo deixar o olhar varrer a sala na noite de Natal, olhar silencioso e atento, e lembrar dos meus avós, tios e parentes que acompanham a celebração junto do Menino Deus. A prece brota do coração, imperceptível aos presentes, mas vigorosa e eleva-se até os céus. 

Não consigo imaginar a noite de Natal sem os familiares ao meu redor. Gosto do encontro, gosto dos reencontros e do momento. Gosto de congelar as imagens que permaneceram vivas na minha mente enquanto eu viver e que manterão vivos estes entes queridos. Fotos captadas pelo olhar e álbuns de fotos que são revistos por todos. Alguns podem deixar os olhos marejarem na deliciosa viagem pela memória, mas todos felizes ao rememorar um passado do qual fomos parte.

Não sei quantos natais terei ainda. Aos 40 anos, a vida deixa de parecer infinita, mas isto em nada desanima ou suga a seiva vital. Isto apenas traz consigo a serenidade de saber que sou uma criança caminhando ao encontro do Pai, ao encontro do pequeno menino que nasceu numa manjedoura numa noite como aquela. Em Belém, uma família estava reunida. Agora, somos nós que nos reunimos, cada um com os seus familiares.

Um gesto é mais eloquente do milhares de palavras. Aproveite a noite de Natal para dar aquele abraço, responder ao cartão de natal (ou os votos de feliz natal recebidos por email), enviar aquelas palavras de carinho, abrir um sorrisos todo especial ou rezar por aquela pessoa tão querida - ainda que ela não saiba ou tenha se esquecido de você. A noite de Natal é mágica e é capaz de transformar cada gesto singelo em um infinidade de bençãos e de alegria duradoura.

Um Feliz e Abençoado Natal a todos os amigos e leitores deste blog e a todos que nos fazem companhia nesta longa jornada!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Anedotas de viagem

Embarque do voo da Gol para Caxias do Sul, hoje pela manhã no Aeroporto de Congonhas (SP). Passageiro na minha frente vai caminhando pelo finger quando percebe que o avião é da Varig. Para. Dá meia volta e diz em voz alta:

- Este deve ser o portão errado. Meu voo é da Gol.

Antes que ele me atropele, acalmo-o:

- É este o voo mesmo, não tem erro. É a mesma porcaria.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Resposta ao comentário de um leitor


Bom... achei bem vago o post, quanto ao título. Existem sim muitas e inúmeras formas de pensar, assim como um padrão na linha de raciocínio. Como a estatística. Toda sua interação é condicionada por vários fatores, entre eles momentâneos e acumulativos, assim como fatores bioquímicos como os genes, falta de alimentação, o que gera uma necessidade e uma atenção pra um assunto diverso, como por exemplo, uma vida, um hábito e um costume... são combinações que fazem um mundo tão complexo, acho o tema interessante, e se quiser pra ser posto em discussão.

Este comentário foi feito pelo leitor Guilherme Crepaldi Ferreira da Silva que edita o blog Identidade. Agradeço seu comentário, sua visita e leitura do blog. A crítica exige uma resposta e a resposta vem para a frente do blog, pois o post Formas de Pensar é de 31 de maio de 2007. Tive que reler o post para poder argumentar com você, pois sinceramente me lembrava apenas que o post tratava das diferenças entre o raciocínio masculino e feminino e convidava para uma discussão sadia.

Faço uma preliminar antes: este blog não tem cunho científico. O post, assim como tantos outros, tem um cunho mais humanístico e literário. É um exercício de investigação da personalidade masculina e feminina e do comportamento. Quando abordei o tema, fi-lo com o intuito de escrever uma crônica leve sobre o tema e valorizar estas diferenças. 

O post é vago e tenta ser provocativo, no sentido de incentivar o debate. Tanto é assim que se você ler os comentários deixados origingalmente no post, perceberá as posições diferentes sobre o tema e a riqueza de contribuição dos leitores.  Cada análise revela uma forma de pensar e de analisar a realidade. Acho que o objetivo foi alcançado, pois depois de 4 anos, o tema volta à tona para debate. 

Sinta-se à vontade para retomarmos o diálogo por aqui ou através de um post no seu blog.


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Dilma: a mudez e a omissão


Carlos Lupi foi defenestrado do governo. Nada de novo. Era uma demissão anunciada há tempos. Ele resistiu bravamente, ficou firme, parece até ter lido nosso Manual de Sobrevivência de Ministros. Mas sua hora chegou. Até a Comissão de Ética da Presidência havia recomendado a sua exoneração, algo quase inédito - para a comissão neste governo. Aliás, poderíamos indagar se a Comissão de Ética fiscaliza e recomenda algo ou se apenas chancela as maracutaias. 

O fato é que Lupi foi o sétimo ministro a deixar o governo. A corrupção está espalhada por todos os cantos do governo e por todos os ministérios como nunca antes neste país. Dilma ensaiou uma certa limpeza, uma postura de aparente intolerância com a corrupção, mas parece que a faxina acabou. 

Dois pontos revelam que a postura de Dilma é preocupante. Em primeiro lugar, seu reiterado e repetido silêncio diante dos fatos e acontecimentos com seu ministério neste primeiro ano de governo. A presidente é uma líder muda. Talvez esbraveje e grite durante as reuniões reservadas, mas ela não governa para um partido, ela governa para o povo brasileiro - aqueles que votaram e aqueles que não votaram nela!

Lula era o mestre do improviso e da besteira; Dilma é silente e enigmática, seu pensamento sobre certos temas é uma incógnita, e quando desata a discursar é confusa na linha de raciocínio.

O segundo mais grave foi a revolta diante da recomendação da Comissão de Ética da Presidência de que o ministro Carlos Lupi deveria ser exonerado (leia mais aqui). A revolta da presidente não deveria ter sido manifestada. Ao manifestá-la, comprometeu todo o sistema de controles e fiscalização que existe no governo para evitar a corrupção e a uso indevido do dinheiro público. Em outras palavras, a privatização da coisa pública ou o loteamento dos cargos no governo, algo tão típico deste governo que termina seu nono ano. Trata-se de um gesto que revela uma postura autoritária e anti-democrática, algo que indica um desrespeito por órgãos de controle no âmbito da administração federal.

A desmoralização de uma recomendação da Comissão de Ética da Presidência fulmina sua própria razão de ser. Se suas recomendações não servem para nada, se a presidente não vai acatá-las, então por que não extinguir o seu funcionamento e seus cargos? Pelo menos assim, haveria um pouco de economia de dinheiro público.

Em suma, Dilma precisa se posicionar: ou compactua com a corrupção nos ministérios, ou não aceita este tipo de conduta. O silêncio e sua mudez indicam a omissão da presidente, e ser omissa neste caso, equivale a concordar com a roubalheira.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Epígrafe - XIII


"Eu nunca havia imaginado deixar o sofrimento à parte, e agora me dou conta de como era mais fácil viver agarrada a ele, sempre uma justificativa."

"Há pessoas que chegam para nos destruir. Outras para nos salvar. Marie-Ange foi uma destas. Não fosse eu tê-la conhecido na praia, ainda estaria presa a casa e ao passado." 

"Um único segundo, um único olhar, nenhuma razão, e a certeza de que ali, naquela manhã de praia, a minha vida mudaria de forma definitiva. De que ali, naquela manhã de praia, a minha se dividiria ao meio: antes e depois de Marie-Ange."

(Tatiana Salem Levy. Dois Rios. Rio de Janeiro : Record, 2011, p. 11 e 13)


Três pequenos trechos escolhidos a dedo e extraídos do novo livro de Tatiana Salem Levy. Neste período de final de ano, com tantas confraternizações e encontros, não resisto a pensar naquelas pessoas que realmente são importantes na minha vida - ou que foram e já partiram.

A narrativa envereda pelo caminho deste marco divisório na vida de Joana. Marie-Ange surge de forma inesperada, imprevisível, e sua vida se entrelaça com a de Joana. O encontro é fruto do acaso, sempre ele. A mudança significativa ocorre e tudo parece ganhar uma nova dimensão, uma nova perspectiva.

De vez em quando somos brindados por estes momentos do acaso, onde conhecemos pessoas que nunca mais deixam de ter um lugar especial no nosso coração.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Poesia: TORRE DA MATRIZ


Matriz de Sant'Anna, Lavras, MG
Foto: Túllio Pádua, extraída de panoramio.com



TORRE DA MATRIZ



No canto da praça,
Na ladeira que sobe suave a colina
Do alto da matriz
Vejo o passar do tempo
O passar de vidas.

Avisto os morros verdejantes ao longe
Inabitados.
Avisto as pessoas em passos lentos.
Avisto crianças na sua balbúrdia.
Ingênuas
E paciente, observo.
Silenciosa, presencio.

Alva no alto dia a refletir o sol
Tingida pela sombra com o cair da tarde
Coberta pelo orvalho na alvorada
Simples
Despercebida
Permaneço.

Deixo o tempo se alargar.
Testemunho a passagem do tempo
A vida elástica
A história plástica
Sólida, apenas observo.

(RLBF - 24 novembro 2011)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Orvalho matinal


Pouco antes das nove da manhã, havia passado por Atibaia e aproximava-me de Extrema, bem no sul de Minas Gerais, logo depois da divisa com São Paulo. A Fernão Dias serpenteava por entre morros verdes e o sol nascia preguiçosamente.

Viajar sozinho dá um senso de liberdade e convida ao diálogo interior. Cada vez mais me convenço que o Caminho de Santiago é na verdade um período de reflexão pessoal em que o indivíduo é presenteado com desafios, dor, frio, calor, cansaço. Todas estas mazelas humanas nos aproximam do divino, obrigam-nos a reconhecer nossa fraqueza e do auxílio de uma força superior para superá-las.

Costumeiramente viajo sozinho e invariavelmente converso sozinho em voz alta com interlocutors imaginários. Fazem-me companhia. Os “diálogos” me ocupam e são um exercício de reflexão; em alguns casos de recordação onde o pensamento voa para locais reais, mas distantes.

Mas voltemos ao caminho pelo sul de Minas com trilha sonora de Maria Gadú, que combinou perfeitamente neste início de viagem.

Entre subidas e descidas na parte serrana da estrada, avistavam-se laterais de morros com o fino orvalho a tingir o verde da vegetação e a refletir os raios solares matinais. Tudo estático, tudo gratuito, tudo pronto para ser observado. Um simples presente da natureza para quem quisesse observar e desfrutar daquela paisagem.

Notei então um homem, de chapéu de palha, a conduzir uma charrete. Pastagens, pequenas casas esparsas aqui e acolá, plantações, gado. Um mundo perfeitamente rural. Lembrei-me de Guimarães Rosa, que com sua genialidade conseguiu captar a alma do homem simples, uma escrita tão própria e adequada àquele cenário. Confesso minhas limitações em conseguir compreender o escritor – já tentei por diversas vezes -, mas o que ali se descortinava me remeteu ao Burrinho Pedrês, a Manuelzão e Miguilim e tantos outros.


Cidades como Nepomuceno, Natércia, Borda da Mata, Lambari, Carmo de Minas poderiam existir em outro lugar que não fosse Minas? Acredito que a resposta é negativa. Nepomuceno é um nome que parece materializar todo o universo de Guimarães Rosa.

Drummond, na sua fase inicial, capta também a simplicidade da vida em Itabira. Simplicidade não deve ser entedida como algo negativo, como o sujeito que é despido de qualidade e cuja rotina deixa de ser interessante. Simplicidade é qualidade daqueles que sabem valorizar o que é importante e se importam com o que vale a pena. Pessoas que não se distraem com o supérfluo, mas sabem da importância da palavra amiga, de um gesto de amizade, do valor do trabalho dedicado e bem feito – ainda que custe. Simplicidade se manifesta em personagens transparentes, cuja alma é transparente e refletem a luz divina.

Aquele cenário revelou-se como um portal de saída do mundo urbano e cosmopolita de São Paulo, para o mundo rural e de grande riqueza humana do interior. A mudança de paisagem é fácil de ser notada e talvez isto tenha contribuído para despertar minha reflexão.  Nem notei quando a música parou; estava tão imerso no diálogo com meus pensamentos que a viagem seguiu leve e prazerosa.


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Manual de Sobrevivência de Ministros



Ultimamente, ministro no governo dura pouco. É um escândalo atrás do outro. A herança vem do governo Lula com o mensalão que vitimou José Dirceu e alguns assessores. No governo Dilma, em 11 meses, a alta rotatividade no ministério é a regra geral. Palocci, Pedro Novais (Turismo), Alfredo Nascimento (Transportes), Wagner Rossi (Agricultura), Nelson Jobim (Defesa) e Orlando Silva (Esportes) deixaram o governo. Todos sob suspeita. Todos usaram o mesmo script, seguiram os mesmos passos. Todos saíram ricos do governo.

O próximo deverá ser Carlos Lupi. A fila anda e depois, outros virão.

Para ajudar aqueles “novatos” ou menos experientes no ministério, como Ana Hollanda, resolvi elaborar um breve guia, um pequeno manual de comportamento para ministros em crise.

Etapa 1. Finja de morto - tente fazer com que o assunto seja esquecido, evite discursos e coletivas de imprensa. Qualquer declaração inicial deve ser lacônica e negando os fatos. Tire férias ou licença, invente uma doença, suma dos holofotes. Muitas vezes o tema cai no esquecimento público e o ministro estará salvo. Se não funcionar, passe à etapa seguinte.

Etapa 2. Declare sua indignação – reitere e repita a negativa dos fatos, do envolvimento, de conhecimento das pessoas envolvidas. Use afirmações como “isto é complô da imprensa”, “repilo veementemente as afirmações que querem denegrir minha imagem pública”, “querem atacar minha família”, “estou firme como uma rocha”, "são as forças reacionárias que tentam desestabilizar o governo", “só saio abatido a bala” e muitas outras que os ex-ministros nos brindaram. As frases de indignação devem revelar apoio do chefe do executivo, do partido e de que as pessoas próximas ao ministro estão sendo vitimadas inocentemente. O tom deve ser de exaltação, revelando indignação - ainda que tudo não passe de jogo de cena.

Etapa 3. Use o horário do partido na televisão e rádio – convoque os correligionários a defender a capitania hereditária que é o ministério, afinal, se cair o ministro, o partido pode perder o ministério e a teta gorda que alimenta muitas bocas de filiados ao partido. O importante é unir o partido em torno da fonte de renda que é o ministério. Louve o passado ilibado do partido na luta contra a ditadura, mesmo que seja mentira.

Etapa 4. Prepare a saída honrosa – Se nada disso funcionar e os fatos foram inquestionáveis e as contradições comprovadas, vide caso Carlos Lupi, então, prepare uma saída honrosa. Recorra ao lapso de memória, utilize toda sua habilidade de enrolar e inventar e tente criar uma versão crível do escândalo. A saída honrosa deve ser rápida para evitar que o assunto fique durante muito tempo nas páginas dos jornais e revistas.

Etapa 5. Demissão – confirmada a demissão, prepare uma carta de demissão e saía atirando e acusando os outros – imprensa e oposição. O discurso de despedida deve ser emocional, chore, agradeça aos amigos, faça-se de vítima e incorpore o papel. Tente ganhar um Oscar de interpretação, pois isto pode salvar sua carreira pública.

Etapa 6 – Deixe o tempo passar. O tempo será a redenção. Afinal, com o dinheiro arrecadado de ONGs e convênios, nada como tirar umas férias e gozar do fruto do “trabalho” no ministério. O brasileiro tem memória curta e logo será possível voltar à vida pública. O esquecimento o transformará em injustiçado e serão realizadas sessões de desagravo, como no caso do Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, coitadinho. Ou como no caso de José Genoíno, um deputado tão honesto. Mais cedo ou mais tarde, eles sempre voltam.

Em tempo: O ministro Carlos Lupi está na Etapa 4, reparem só.


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Palíndromo


Palíndromo adj. 1. Diz-se de palavra ou sintagma ou frase que se pode ler, sem alteração do sentido, da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda: "Luz azul"; "a diva da vida" são sintagmas palíndromos. s.m. 2. Palavra ou sintagma ou frase que são palíndromos: "Radar" é um palíndromo.

(Dicionário Escolar da Língua Portuguesa. Academia Brasileira de Letras. 2a. ed. São Paulo : Cia. Editora Nacional, 2008p. 941)

O dia de hoje é um palíndromo e não poderia deixar de registrar. Passamos das onze horas, onze minutos e onze segundos do dia onze do mês onze do ano onze. Nada aconteceu. A vida segue.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Conto: Tempo Vazio



TEMPO VAZIO


Sinto-me vazio, raso, despido de profundidade, um fino tecido esticado sobre o varal que balouça ao sabor do vento, desenhando formas abstratas e geometricamente volumosas, que perdem todo o seu conteúdo quando o vento cessa. Vento que disfarça a vida oca com seus sopros que me ocupam o dia, incomoda-me com tarefas e mais tarefas. Entediado, entrego-me a elas para não reparar no tempo que corre, nos cabelos brancos que tingem minha cabeça, nas rugas da testa e nos cantos dos olhos. Não reparo nos dias que se apresentam enfileirados aguardando que lhes abra a porta.

O silêncio me esvazia, tornando-me quase insuportável. Não me olho no espelho. Recuso o confronto do olhar próprio, fujo de todo objeto que possa refletir e revelar o que carrego na alma. O vazio é a ausência de vida. Um marionete que age sem vontade e desconhece quem me guia e ordena meus movimentos, quem - se há alguém - ordena a sequência de fatos que se sucedem no meu dia cinza. 


Todos meus dias se tornaram cinzas, frios, gélidos para ser mais preciso. O sorriso alçou voo e me abandonou. A solidão se instalou na minha cama e convive comigo todos os dias da semana. Não tira férias e não tira folga. Para ela, todos os dias são dias úteis, todas as horas são momentos para me atormentar. Ninguém me escuta - ou tem a paciência para me escutar; ninguém é caridoso e me dirige um olhar. Deslizo por este mundo como um fantasma esquecido. Não tenho mais amigos, não tenho família. Sou um solitário no meio das gentes, no meio do egoísmo que assola aqueles que se acotovelam e dividem comigo o espaço no metrô todos os dias, todas as manhãs, todas as tardes. 

Não sorrio. Não falo. Apenas assisto ao tempo passar. 

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

São Paulo aérea


São Paulo é um mar de luzes que se descortina na noite plácida e fria da primavera. Pequenos pontos luminosos a reproduzir a galáxia de forma invertida. Não olho para cima, mas para baixo é que a cidade iluminada relembra uma noite estrelada no interior, daquelas noites em que não lua a ofuscar o brilho das estrelas.

A cidade é bela e o mar de luzes estende-se até o olhar alcança. O céu é meu ponto de vista da janela do avião  rumo a Congonhas. O espigão da Paulista com suas torres coloridas; as avenidas com carros alinhados e algumas tingidas de vermelho. Luzes que formam uma colcha de retalhos que acompanham as curvas suaves do morro que sobe até a paulista e desce rumo ao Centro. 

Aos poucos, o emaranhado de luzes perde sua fantasia e a imagem distorcida entra no foco. Surgem edifícios perfeitamente identificáveis e o devaneio de final de viagem se esvai, trazendo-me de volta à realidade com o solavanco dos pneus da aeronave e o barulho intenso dos motores. Estou de volta à minha cidade.

NOTA: Infelizmente estava sem uma máquina fotográfica para captar a imagem, mas a luminosidade da cidade ontem me pareceu diferente e cativante. Estava bela a minha São Paulo.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Viva Drummond


MEMÓRIA
Carlos Drummond de Andrade

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.


Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.


As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão


Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

(Antologia Poética. 26a. ed. Rio de Janeiro : Record, p. 179-180)




Se Drummond estivesse vivo, hoje celebraria seu natalício. Não está presente em corpo, mas vivo na memória e nos poemas deixados como legado inesgotável de lirismo, de alegria, de beleza. Drummond vive com sua obra e o encanto de seus versos borbulha entre nós.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Sorrir para o mundo



"Não prives o mundo do teu sorriso. Se não consegues sorrir; se tudo ao teu redor lhe parece cinza, escuro, olhe para quem lhe sorri e deixe-se contagiar.”


A frase não foi extraída de algum cartão da Hallmark – aqueles cartões da companhia americana com belas frases e que devem ter saído de moda com a obsolescência das cartas físicas -, ou de algum livro do Gabriel Chalita com pensamentos filosóficos, ou de algum calendário messiânico. Tampouco veio dentro de um biscoito da sorte chinês, mas neste caso teríamos um ponto de partida para um excelente conto (que está no forno).

Inventei-a. Olhar fotos, deixar a memória varrer o arquivo mental de momentos bem guardados, têm este efeito. Acaba por produzir pensamentos em forma de frases que encontrarão um destino certeiro. Alguém precisará destas palavras. Ou pelo menos, servirão de inspiração para alguns textos.

Sorrir para o mundo é contagiante. E deixar o mundo sorrir para você também.


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Crônica: Despertador


DESPERTADOR


Era uma manhã de sol, não importando o dia da semana. Deveria ser sábado ou domingo; ou algum feriado. Um dia não útil, ou melhor, um dia em que não se trabalhava. Estava sentado numa arquibancada de madeira, daquelas bem rústicas e precárias, com uma estrutura de ferro e que lembravam um andaime. Ficava na lateral do campo perto de onde os jogadores infantis se aglomeravam no que poderia ser chamado de banco de reservas. Deixava o olhar passear pelos meninos que corriam atrás da bola durante o aquecimento, cada qual com sonhos de voos mais altos.

Avistei-a de longe e ela sorriu quando me viu. Cabelos molhados que lhe caíam muito bem, rosto sem maquiagem, ao menos imperceptível para um homem, e uma alegria que se notava. Penso que parte daquela alegria fosse devida ao fato de vê-lo ali e isto o alegrou também. Sentou-se do seu lado. Ela falava e ele ouvia. Num e noutro lance mais emocionante, ele sentia ela pegar-lhe no braço, um leve aperto, a mão repousando sobre seu antebraço. O gesto de alguns segundos se cristalizava e um arrepio lhe percorria a espinha. O sorriso era incontido.

O jogo terminou e caminharam juntos por alguns instantes.

Então, o despertador tocou, acordando-o com uma música desconhecida. Ao longo do dia, permaneceu a sensação agradável que o sonho lhe presenteara.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A greve dos correios e o desprezo pelo cidadão



Depois de 28 dias e uma incisiva interferência da Jusitça, acabou a greve dos correios. Trata-se da segunda greve em poucos anos desta empresa que já foi uma referência em qualidade de serviços e confiança da população. Aliás, por ser monopólio estatal, o cidadão não tem escolha quando precisa enviar uma correspondência. Eis aí o principal argumento contra a violência perpetrada por um grupo de lideranças sindicais contra todos brasileiros.

Ao julgar a greve abusiva, o Tribunal Superior do Trabalho fez afirmações fortes sobre o abuso do direito de greve, da necessidade de uma reforma sindical urgente e de se acabar com fontes compulsórias de financiamento da atividade sindical em detrimento do salário dos trabalhadores, da briga entre empresa e sindicalistas em prejuízo de um país. As manifestações dos ministros do TST no julgamento são um indicativo do descaso e da omissão do governo no que tange à regulamentação do direito de greve do funcionalismo público, da reforma da legislação trabalhista e sindical e de um amplo sobre a atividade dos correios.

Esta greve foi um evento que deixou muito claro que sindicalistas estavam pouco se lixando para a população prejudicada com a falta de prestação de serviços pelo correio. Contas não chegaram pelo correio e quem arcará com as multas? Os devedores. Seria interessante se algum juiz condenasse o sindicato e a os correios a arcarem com as multas destas faturas que deixaram de ser pagas por culpa deles. O raciocínio é muito claro: se somente os correios podem prestar este serviço no Brasil, então devem ser responsabilizados pelos danos causados em sua omissão ao prestar o serviço.

Creio que com a atual qualidade dos serviços e os preços cobrados é hora de se reavaliar este monopólio estatal. Os correios foram o ponto de partida de um dos escândalos de propina do governo Lula e revelam-se como um instrumento de renda partidária sem qualquer interesse em melhorar o serviço prestado. Por exemplo, por que os correios gastam dinheiro em propaganda se prestam um serviço monopolista?  O dinheiro gasto em publicidade poderia servir para melhorar o salário dos funcionários.

O governo, por sua vez, desde a eleição de Lula, cedeu espaço demais aos sindicatos que tratam a coisa pública como parte de seu território feudal, brigando por ministérios, conselhos de empresas estatais e cargos em agências reguladoras. O interesse dos empregados fica em segundo plano. Líderes sindicais são um exemplo de lideranças que nunca trabalharam na vida, salvo em interesse próprio disfarçado de argumento público em prol dos direitos dos trabalhadores.

As greves de servidores públicos deveriam servir de reflexão para a população sobre a qualidade dos serviços prestados e sobre a forma como nos tornamos reféns de lideranças pelegas que impõem sua vontade sobre uma maioria manipulada.

O Judiciário Federal ameaça entrar em greve há 2 meses. Parece que agora a greve será iniciada. Milhões de processos ficaram parados. Quem será prejudicado? O cidadão que espera a liberação de um reajuste da aposentadoria; uma empresa que tenta restituir impostos pagos a maior ou que aguardam na fila interminável dos precatórios; ou ainda de alguma pessoa que necessite recorrer à justiça federal por algum motivo qualquer.

Vale lembrar que em ambos os casos – correios e justiça federal – os funcionários são concursados e com estabilidade. No caso do judiciário, os salários são os mais altos do poder judiciário no Brasil quando  comparados com os salários dos judiciários estaduais. Além dos 30 dias de férias, gozam de 20 dias de recesso no final do ano. Os benefícios são incontáveis quando comparados com qualquer trabalhador mortal que não seja um privilegiado de ter passado num concurso para o serviço público federal. Se a situação é tão ruim, por que não se demitem e vem tentar a sorte na iniciativa privada?

Palpitar sobre como conduzir a política econômica dos outros países, isto Dilma sabe fazer; governar seu país e mostrar pulso no atendimento dos anseios da população, isto ela não sabe. No jargão popular, Dilma viaja na maionese, aqui e lá fora. Calou-se – o que parece ser a única coisa que Dilma, a muda sabe fazer – num momento em que ela e seus ministros deveriam ter prestado contas à sociedade. Era necessária uma atuação do governo para encerrar a greve. O governo nada fez, afinal eram companheiros que estavam reclamando. A greve mostrou que o poder público foi loteado neste país e os cidadãos foram relegados ao ocaso. Este é mais um legado do governo Lula e do PT. 


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Steve Jobs


Palavras são desnecessárias para dizer o quanto este homem inovou a tecnologia e nossa forma de lidar com os aparelhinhos eletrônicos. Um gênio e um grande revolucionário que deixará sua marca e seu legado.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A polêmica meia-entrada


A meia-entrada foi concebida como um instrumento de acesso à cultura, permitindo que estudantes pagassem apenas metade do valor dos ingressos de espetáculos teatrais, musicais, mostras e demais eventos. Como muitas coisas neste país, algum espertalhão resolveu deturpar a boa ideia e aplicou a mentalidade cartorial e nefasta que ainda vigora nos ambientes estudantis brasileiros.

Algumas entidades estudantis avocaram para si a exclusividade de outorgar o título de estudante a quem lhe pagasse uma taxa para receber uma carteirinha, e assim poderia pagar meia-entrada.

Esta ideia foi ampliada para os idosos, para os alunos cursos de pós-graduação, para alunos de curso técnico, professores de todos os níveis, deficientes e por aí vai. Sou da opinião de que alguns fazem mais jus ao benefício do que outros, mas é fato que a meia-entrada se transformou em instrumento de abuso e aproveitamento indevido. É a famosa regra do “levar vantagem em tudo”, só falta o Gérson e o cigarro Continental (para aqueles que ainda lembram).

Nunca compactuei com esta excrescência e esta deturpação. Quando era estudante universitário, só poderia pagar meia se tivesse a carteirinha da UNE. Por questões ideológicas, preferi pagar inteira a dar um centavo àqueles sujeitos da UNE, muitos deles hoje em cargos públicos.

O fato de tratar do assunto em nada se relaciona com a discussão acerca da meia-entrada para jogos da Copa do Mundo.  Acho um absurdo a imposição da FIFA e não questiono a meia-entrada por causa da FIFA; questiono a meia-entrada como um conceito que foi aplicado de forma exagerada e que, portanto, prejudica a produção cultural e artística brasileira. A lei que deveria beneficiar a classe artística, aumentando o número de pessoas com acesso a estes espetáculos, hoje reduz o faturamento das produções que almejava incrementar. O tiro saiu pela culatra porque deturparam a finalidade da lei.

Consumidores empunhando o Código de Defesa do Consumidor revoltam-se contra quotas impostas por produtores. Órgãos de defesa do consumidor impõem exigências aos produtores e empresários artísticos com fiscalização rigorosa. Multas são aplicadas e reclamações deságuam nos Procons espalhados pelo território brasileiro. Tudo isto acarreta o aumento dos preços dos ingressos e faz com que certos eventos reduzam os pontos de venda para verificar se o comprador de fato tem direito à meia-entrada.

Talvez o momento seja inoportuno, mas a classe artística poderia aproveitar a polêmica causada pela imposição da FIFA e rediscutir esta questão da meia-entrada.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Conto: Noite Insone


A luz azulada no único apartamento com sinal de vida oscila e desenha a silhueta de um anônimo a compartilhar comigo a solitária insônia. Passa das duas da manhã e o silêncio me faz companhia, inundando a madrugada e permeando meus pensamentos. Penso em silêncio. Sobre o silêncio apoio-me, como se fosse um barco a conduzir-me pelas águas calmas de um lago.

Aperto os olhos tentando decifrar a silhueta no apartamento ao longe. Seria um homem ou uma mulher? Jovem ou idoso? Não tenho êxito na missão e os pensamentos começam a se enevoar com a avalanche do cansaço que me convida ao leito.

Um carro interrompe a quietude com o ronco do motor. E tudo volta a ficar calmo. E quieto. A madrugada está fria. Os pés descalços incomodam-me ao sentir o chão gelado da sacada. As pálpebras fraquejam e iniciam o movimento descedente. Forço-as para cima, ainda entretido com a luz azulada que exerce uma força hipnotizante sobre mim. Teria o espectador morrido na cadeira? Ou adormecera com a televisão ligada?

Minhas perguntas são vãs. Que diferença faz? Para que servem estas conjecturas? A resposta é muito clara: para nada, além de puro entretenimento enquanto o sono não me dá o ar da graça. Chega de perder tempo com ilusões e curiosidades vãs. Vou dormir. Boa noite!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Cena curiosa



O que faz um sujeito colar um adesivo da campanha de Barack Obama para a presidência dos EUA em 2008 no carro emplacado no Paraguai? Coincidência a placa do veículo trazer as letras CAN? Yes, we can!

A foto não foi tirada em Assunção, mas em São Paulo. Cenas curiosas da metrópole paulistana.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Ainda o pedestre

Complementando o post abaixo, duas situações presenciadas por mim nesta semana.

Segunda-feira, pouco depois das 6 e meia da manhã, Av. Eng. Oscar Americano. Trecho em declive, perigoso e sinuoso, sem faixa de pedestre e sem semáforo. Uma mulher tenta atravessar a via e é atropelada por um carro que conseguiu evitar um acidente fatal.

Terça-feira, 20:30 horas, Rua Pamplona. Trecho com faixa de pedestre, porém sem semáforo. Um homem falando ao celular atravessa a via sobre a faixa sem olhar para os lados, sem dar a mínima atenção ao fluxo de veículos. Os carros param e o pedestre cruza a via.

Dois casos típicos de negligência do pedestre. No caso do atropelamento, provavelmente a culpa foi da vítima. No segundo caso, a culpa também seria da vítima, mas os motoristas estvam mais atentos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A ditadura do pedestre



A Prefeitura de São Paulo, capitaneada por Gilberto Kassab, decidiu que certos hábitos precisam ser impostos aos cidadãos da cidade e cabe à municipalidade educar de forma coercitiva uma parte dos cidadãos. Digo uma parte, porque todas as culpas sobre os males da cidade parecem recair sobre os motoristas de carros.

Tudo bem, confesso que sou um ponto fora da curva. Não buzino, dou passagem a carros, motos e pedestres, dou sinal ao mudar de faixa e procuro não me estressar durante o trânsito. Tento ser consciente e minha última multa foi por ter me atrasado 5 minutos após o início do rodízio e fui flagrado por uma câmera que fica a 100 metros do escritório e que não concede tolerância. Meu rodízio, por sinal, é de segunda-feira e chego ao escritório antes das 7 da manhã. Mas as máquinas não aceitam tolerância e o prefeito também não.

Primeiro, Kassab determinou à CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) que reduzisse a velocidade máxima nos principais corredores de avenidas em 10 km/h.  Segundo o prefeito, a redução da velocidade reduziria o número de acidentes. Mas aparentemente apenas os carros reduziram a velocidade, as motos não e motociclistas continuam a morrer em quedas cinematográficas que são proporcionais à falta de bom senso que os guia. Os carros passaram então a ser multados, pois muitos não estavam acostumados com o novo limite de velocidade.

Agora vem a estória do pedestre e da faixa de segurança. A campanha foi tão agressiva que motoristas estão começando a ter pânico de faixa de segurança e de pedestre. Segundo a campanha da prefeitura, o pedestre deve ter preferência sempre. E se ele atravessar fora da faixa? A preferência é do pedestre. E se ele não respeitar a sinalização? A preferência é do pedestre. E se o pedestre atravessar com o sinal fechado? O motorista que se vire para dar preferência ao pedestre.

Não estou propondo uma caça aos pedestres, mas que haja equilíbrio e exigência de que o pedestre também respeite o motorista. Um pedestre que atravessa fora da faixa e surge do meio dos carros é um risco para o pedestre e para os motoristas. Se houver um acidente, a culpa será do pedestre. E este é o ponto: dos atropelamentos em São Paulo, quantos ocorreram por culpa de pedestres e quantos por culpa de motoristas - e é preciso separar o tipo de motorista (carro, ônibus, moto e caminhão)?

Uma simples medida de proteção ao pedestre seria ajustar o tempo dos semáforos para permitir o cruzamento da via com mais calma. Outra medida seria garantira a manutenção dos semáforos para pedestres, como o da foto que ilustra este post.

Sinto que o motorista que paga impostos e circula conforme as leis de trânsito, que faz inspeção veicular - São Paulo é única cidade que impõe mais este imposto disfarçado - é cada vez mais destituído de seu direito de circular pela rua. É preciso dar espaço a faixas exclusivas de ônibus e de motos, ter cuidado com os ciclistas e desviar de pedestres.

A boa e velha lição das aulas de estudos sociais no primário sobre cidadania e a importância da faixa de pedestre parecem ter sido olvidadas por adultos que sentem-se tomados do um novo poder outorgado pelo prefeito. Bom senso e uma boa campanha educacional - para motoristas e pedestres - seriam suficientes para iniciar o processo de mudança. Mudança de hábito não se faz com decreto, prefeito!

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Crônica: Inspiração


"Quando a inspiração evapora, recorro ao teu olhar e me perco nesta imensidão." Era assim que ele me explicou, certo dia, a origem da vertente criativa para escrever e afirmou que era inesgotável. Nunca me disse de quem eram os olhos, se eram reais, fruto de uma paixão antiga ou brotados de um sentimento platônico.  Não precisava tê-los diante de si, pois parecia ter na imaginação o retrato perfeito dos olhos da musa. Com precisão microscópica, seria capaz de descrever a íris, a pupila, as pálpebras, os cílios. Não era, porém, do exterior que extraía a seiva da inspiração, mas do que conseguia ver por detrás daquele cristalino.

Os olhos eram como uma vitrine, uma janela, um portal que o convidava a mergulhar, que não aceitava apenas uma olhadela. Exigia um mergulho de corpo inteiro, de cabeça, sem cerimônia ou titubeios, sem amarras. O numeral oito deitado a formar uma aparente máscara na verdade retratava o infinito que se desvelava para o aventureiro corajoso a ingressar naquele universo. Infinito. Ou melhor, infinita a inspiração que emana daquele olhar.

Certa vez, num estado que parecia de transe, iniciou um belo discurso poético a louvar-lhe. Comparava o pingente com o símbolo do infinito cravejado de pequenas pedras aos olhos dela. Mais belos que o infinito, mais belos que a uma inesquecível orla marítima, mais belos que uma pintura de Van Gogh, mais belos que uma sonata de Mozart. E assim proferiu seu longo discurso de louvor, entediando os que o tinham por louco e arrancando suspiros e lágrimas das moçoilas que o ouviam. Repousava toda sua admiração e atração naquele misterioso olhar.

Um belo dia não compareceu à faculdade. Fomos informados de que seu coração parara de bater enquanto dormia. Ele nos deixou, mas a inspiração jamais morrerá e viverá em nossas memórias.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Epígrafe - XII

Cavalo, High Museum, Atlanta, EUA.


"(...) evidentemente os sonhos não enferrujam e tampouco as emoções que os acompanham (...)"

(Antonio Tabucchi. O tempo envelhece depressa. Trad. Nelson Moulin. São Paulo : Cosac Naify, 2010, p. 137)



segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Lavras


Centro de Lavras, MG


Nunca foi minha intenção transformar este blog em um blog de viagens, mas o destino quis que nos últimos meses eu me transformasse em um turista jurídico. Tenho conhecido juizados especiais cíveis ao redor do Brasil e nenhum deles despertou-me o interesse suficiente para ganhar um post - ou que merecesse um post.  Por outro lado, as cidades sempre merecem uma atenção especial, ainda que de forma divertida, afinal, uma crônica nada mais é do que um relato do cotidiano sob a ótica do cronista.

Lavras fica no sul de Minas, a uma distância de 370 km de São Paulo e 300 km de Belo Horizonte. O caminho é belo e o café é muito bom. Uai, afinal aqui se produz muito café e laticínios. A visão do cafezal aguça o paladar e, ao chegar, logo procurei um lugar para tomar um café. Não me decepcionei.

A cidade, como tantas outras do interiorzão deste nosso Brasil, tem seu ritmo próprio. Achar um restaurante aberto numa segunda à noite não foi tarefa das mais fáceis. E às 22 horas, o comércio que ainda estava aberto, cerrou as portas.  

Pouco antes das 10 da noite o silêncio já imperava na rua, como se alta madrugada fosse. Eu trazia nas mãos um potinho de sorvete e caminhava pela praça central da cidade, numa noite quente e agradável, sem qualquer medo ou temor de ser assaltado. Alguns casais ainda namoravam nos bancos de madeira da praça.  Alguns hábitos só são possíveis em cidades especiais como Lavras.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Saber viver

Quando a morte se aproxima, quando a idade avança, percebemos de forma mais significativa se soubemos viver. São momentos em que os remorsos afloram, as implicâncias parecem evaporar, o rancor se dissolve. A doença - sendo mais grave - contribui para este exame de consciência na antesala da porta pela qual todos vamos passar. Lendo o post Leite(s) Derramado(s) da Rachel no Terapia da Palavra pensei em apenas reproduzir o texto com o devido crédito, mas ele me pôs a pensar e resolvi dar uma pequena contribuição minha.

Uma lista de arrependimentos comuns manifestados por pessoas à beira da morte. Este é o tema do post Regrets of the Dying. A lista em inglês está no original e em português no Terapia da Palavra. Não vou transcrevê-la, apenas aguçar a curiosidade dos leitores.

Ao ler a lista lembrei de uma música do Titãs (É preciso saber viver) e de uma propaganda em que um grupo de pessoas numa sala de reunião se admira com a única plantinha num vaso escondido num canto da sala. Temos a impressão de que aqueles "seres humanos" esqueceram de viver, de contemplar a existência à sua volta.





Quando era pequeno gostava de passar horas ouvindo estórias da minha avó e tias avós, ficar conversando com meu avô.  Poderia ter ignorado aquelas estórias, mas ouvi-as pacientemente. Hoje, recordo-as com alegria e emoção, com verdadeiro carinho e feliz de ter dedicado aqueles momentos a eles. São memórias que permanecem e serão repassadas à próxima geração, de forma oral, como a tradição antiga, daquela época em que não havia escrita, não havia papel, não haviam blogs, iPads e email.

Ouvir. Olhar. Falar. Viver. Sentir.  Cada uma destas ações é profundamente humana.

domingo, 21 de agosto de 2011

Pesadelo



Crianças são atormentadas no seu tranquilo sono por monstros, fantasmas, bruxas ou todas aquelas figuras mitológicas que são despertadas no inconsciente por algum filme ou desenho que tenha lhes causado uma impressão mais forte. Adultos são acossados por pesadelos mais diversos e complexos. Tive um nesta noite. Sonhei que meus livros tinham desaparecido juntamente com as estantes em que repousavam tranquilamente.

O larápio surrupiou os livros de literatura e os livros jurídicos. Minha pequena biblioteca - e a do escritório - fora reduzida a pó. O pesadelo rememorou algo que de fato aconteceu, quando alguns livros jurídicos importantes desapareceram das estantes, talvez levados por algum estagiário esquecido (perdoem-me pelo pleonasmo) ou por algum bem intencionado advogado que não sabia o valor de um Menezes Cordeiro ou de um Paulo Bonavides. Voltei a sentir a angústia de descobrir o desaparecimento destes livros no pesadelo que fulminou nesta noite.

Acordei aliviado, mas a ansiedade somente se dissipou por completo quando cheguei ao escritório e pude contemplar os livros que silenciosamente repousam nas prateleiras. Lado a lado, enfileirados, organizados e reconhecidos individualmente. Alguns maiores, outros menores; alguns mais volumosos, outros finos; mas todos com seu valor e sua contribuição. Merecem ocupar o espaço que ocupam. Como reza o dito popular, tamanho não é documento e aqui este ditado é muito verdadeiro.

Meu pesadelo ficou restrito ao silêncio da madrugada e a escuridão da noite. A luz do dia fulminou a dúvida e o pesadelo se desfez.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Epígrafe - XI



"Pensou nos ventos da vida, porque há ventos que acompanham a vida: o zéfiro suave, o vento quente da juventude que depois o mistral se encarrega de refrescar, certos ventos africanos, o siroco que te abate, o vento gélido da tramontana. Ar, pensou, a vida é feita de ar, um sopro e basta, respiro, depois um dia a máquina para e a respiração termina."

(Antonio Tabucchi. O tempo envelhece depressa. Trad. Nelson Moulin. São Paulo : Cosac Naify, 2010. p. 110)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Pequenas delícias de um dia na estrada

Um dia na estrada, longe de São Paulo e longe do escritório. Não era passeio, mas quando se faz o que gosta, o trabalho deixa de ser um fardo. Neste final de dia, enquanto jantava só, fui repassando o dia e surgiu uma pequena lista com algumas imagens do dia. Imagens que serão traduzidas em poucas palavras.

1. Céu azul e sol.
2. Araucárias nas encostas dos morros.
3. Passar por lugares que nunca estive antes.
4. Rio Chapecó e vários riachos ao longo do caminho.
5. Casas de madeira típicas do sul.
6. Ouvir pila e guria o dia todo.
7. O simpático Jonas, taxista que me levou a Pato Branco, e seus causos.
8. Portais nas entradas de Coronel Freitas e Formosa do Sul.
9. Cidades com apenas uma rua e ritmo próprio.
10. As colinas verdes, o vale do rio Chapecó e mais Araucárias.
11. Ver a alegria nos olhos dos locais quando elogiei a beleza da região.
12. Cuca de goiabada numa padaria em Chapecó.
13. Caminhar pela cidade sem medo.
14. O pôr do sol do Oeste catarinense.
15. O bife de ancho que só se come no sul do país.
16. Jantar sozinho e ter a memória como companheira. E a memória sabe ser boa companheira num diálogo que passeia por fotos, palavras, conversas e sorrisos.
17. Calçadas sem buraco.
18. A lua quase quase cheia e o tapete de estrelas.

Ah, o trabalho, sim, o trabalho. O processo foi encerrado pois o Autor não compareceu na audiência. O trabalho virou passeio. 

Chapecó

Estou no oeste catarinense, na cidade de Chapecó.  E o que isto tem de especial? Nada, absolutamente nada. Há algumas cidades que parecem me perseguir. Cidades comuns que não atraem turistas e onde estive por motivos profissionais.  Inúmeras cidades médias e pequenas se espalham por este Brasil, com expressão estadual ou apenas regional, mas que movimentam a economia e irradiam desenvolvimento. Chapecó é uma destas cidades.

Na minha primeira passagem por aqui, há cerca de 6 anos, a cidade me pareceu menor. O crescimento é notado facilmente para quem faz parte da vida da cidade, mas passa silencioso para quem é de fora. Imaginando que a cidade seria pacata e demasiadamente tranquila, levei um susto quando fui efetivar a reserva do hotel. As duas primeiras opções estavam lotadas;  a terceira tinha apenas um quarto sobrando. Há um evento de suinocultores esta semana e a rede hoteleira está sobrecarregada, ou seja, quase fiquei sem hospedagem.

Impressiona-me como os pólos regionais geram um círculo virtuoso de atividade econômica, algo que passa despercebido para a maioria dos habitantes das capitais. Quando disse que vinha para cá, muitos não tinham a menor ideia onde ficava.

A cidade guarda este aspecto rural, apesar do desenvolvimento. Caminhando na rua, fui cumprimentado por dois senhores com um leve aceno da cabeça, como se fosse um habitante conhecido. O silêncio é notado quando não se escuta o barulho de veículos após às 22 horas. A cidade adormece cedo e deixa o céu estrelado e a lua quase cheia a contemplar as luzes das ruas. Mesmo neste horário, é bom poder caminhar pela rua sem a menor preocupação de ser assaltado. Algo que só uma cidade tranquila pode proporcionar.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Um trecho de Murakami

A foto é do blog Fifties.


"Ela interrompe a leitura e volta-se para a janela, que, do segundo andar, permite observar o movimento lá embaixo. Apesar do horário, as ruas ainda estão bem iluminadas e é grande o número de pessoas que vêm e vão. Pessoas que têm para onde ir e as que não têm. Pessoas que têm objetivos e as que não têm. Pessoas que tentam parar o tempo e as que querem acelerá-lo. Ela observa por algum tempo a cidade sem nexo e procura concentrar-se em respirar com serenidade, para depois voltar novamente às páginas do livro."
(Haruki Murakami. Após o Anoitecer.  Tradução do japonês  Lica Hashimoto. Rio de Janeiro : Objetiva, 2009, p. 10)

Pessoas. Estamos cercados de pessoas. Cruzamos com dezenas, centenas ou milhares ao longo de um dia. No trânsito, no metrô, no ônibus ou caminhando pela rua. Rostos que sequer permitem o cruzamento de olhares. Pessoas que seguem suas vidas. Algumas com objetivos, outras sem qualquer rumo. A janela é uma perfeita metáfora para os olhos que inundam o interior com imagens, matéria-prima da produção de sentimentos. Olhos que, como a janela, são uma defesa do que guardamos no interior, que se fecham quando não se quer ver e que sabem esconder o que não queremos revelar.

sábado, 30 de julho de 2011

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Modelos, títulos e crítica

Há certos títulos de post que não condizem rigorosamente com o conteúdo. Ao longo destes 4 anos, desde que o blog começou, aprendi que certos títulos conquistam o mago Google em suas ferramentas de busca e trazem desavisados até aqui. O marketing faz parte do negócio, mas quero voltar à entrevista de VS Naipaul e sua opinião sobre modelos de escrita, além de aproveitar para abordar os comentários.

Primeiramente, sei que o título não condiz exatamente com o teor do post. Agi deliberadamente na tentativa de instigar o leitor a evitar o modelo pronto, a experimentar, a ousar. Naipaul revela que não teve um modelo de escritor para seguir. Qualquer trabalho realizado do zero exige maior esforço e o ser humano é preguiçoso por natureza, busca sempre o caminho mais fácil. Escrever não é fácil. Talvez seja fácil apenas para o Gabriel Chalita, aquele deputado federal que publica livros com uma velocidade incrível e jamais vista no mundo civilizado. 

Voltemos ao ponto.

Fugir dos modelos é difícil. Tento, por vezes, experimentar novas formas e estilos de escrita. Este blog é um pouco do meu laboratório. A poesia dá ao escritor a liberdade plena de forma. O post Sábado, um pequeno poema, é um brincadeira com as palavras e versos conhecidos. Uma pitada de Vinicius de Moraes, uma pitada de Drummond e surgiu o poeminha. Grandes escritores conseguem exatamente isto: livrar-se de modelos. 

A construção de novas formas e estilos se dá exatamente com a crítica, com o questionamento, com a transgressão linguística. Guimarães Rosa foi um transgressor. Ferreira Gullar é um transgressor. E tantos outros que deixaram sua marca e contribuíram para o enriquecimento da literatura e da arte. Estes souberam jogar no lixo os modelos e seguiram seu caminho, abrindo uma nova trilha na mata fechada. 

O título do último post é uma provocação e deixará revoltado algum infeliz que por aqui passar em busca do caminho fácil para produzir um bom texto. Desculpe-me, mas caminho fácil para produzir um bom texto não existe. O bom texto surge de muito pensar e pensar dá trabalho. Quem sabe não seja este o modelo para a boa escrita: pensar e pensar! Algo que faz muita falta nos dias modernos.



segunda-feira, 25 de julho de 2011

Modelos para a escrita

Sabático: O senhor diz que um jovem escritor francês ou inglês teria encontrado inúmeros modelos nos quais se inspirar. Nascido em Trinidad, o senhor não os teve, o que lhe levou a ser um escritor intuitivo. Foi uma vantagem ou uma desvantangem?

Ambas, creio eu. É uma vantagem ter modelos maiores para inspirá-lo, no entanto de alguma forma eles o limitam. Essa é uma questão muito difícil, mas uma excelente reflexão, sobre a qual não tenho todas as respostas.


(V.S. Naipaul em entrevista concedida a Andrei Netto, no caderno Sabático do Estado de São Paulo, 23 de julho de 2011, p. S5.)

sábado, 23 de julho de 2011

Sábado

SÁBADO

Bom dia
dia bom.
Por quê?
Porque hoje é sábado
E não há pedras no meio do caminho.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Música no Museu

Neymar Dias e convidados no Música no Museu

Resolvi seguir minhas reflexões e partir do mundo das ideias para o mundo da prática. Domingo de manhã de sol e pela primeira vez fui a um concerto no Museu da Casa Brasileira. Localizado na Av. Brig. Faria Lima, 2705, numa área nobre de São Paulo, o museu está instalado no antigo Solar Fábio Prado. Há um enorme jardim no fundo da casa com espaço para as crianças correrem, apreciarem as árvores e algumas esculturas.

O projeto denominado Música no Museu é o prato chefe nos domingos às 11 horas. São espetáculos musicais sob a coordenação de Carmelita Rodrigues de Moraes que "buscam traduzir a diversidade musical". O programa está no site e no mês de julho privilegiam a música instrumental brasileira, mas aspectos regionais. Neste último domingo, houve apresentação de Neymar Dias e convidados, tocando viola caipira. Os eventos são gratuitos e não é preciso reservar lugar, nem pegar senha.

Dizem que a capacidade de surpreender-se diante de coisas novas é sinal de uma alma jovem. Pois bem, fiquei encantado com o espaço, a música e as pessoas que ali estavam. São Paul tem este lado mágico de oferecer incontáveis opções culturais, basta procurar. 

Sou um curioso e gosto de degustar coisas novas. Gosto de agregar com novas experiências, sejam elas musicais, literárias, visuais ou gastronômicas. No fundo, tudo contribui para o aumento do arsenal para escrever, mas também abre novos horizontes. A música tem o condão dar asas a imaginação, de incrementar a memória com associações e imagens mentais. 

Ao escrever o último post, percebi que precisa ouvir algo novo e mostrar aos pequenos - meus filhos - que há muita diversidade musical e que a cultura enriquece o ser humano. Eles reclamaram no início, mas no final gostaram no programa diferente.

Fica a dica e trata-se de um programa para todas as idades, não só para adultos. 

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Audiência

Audiência s.f. (...) 3. Sessão de tribunal na qual se ouvem as partes, as testemunhas e julgam-se as causas.

(Dicionário Escolar da Língua Portuguesa. Academia Brasileira de Letras. 2ª. ed. São Paulo : Companhia Editora Nacional, 2008.)


Curioso como uma palavra faz parte de nosso cotidiano e de repente, num dia qualquer sem mais nem menos, esta palavra revela-se com todo seu sentido. Participar de audiências é da rotina do advogado. Na maioria das vezes, pouco se ouve, pouco se discute e pouco se concilia. Muitas audiências são inúteis e servem para cumprir uma exigência processual. Ontem foi diferente. 

Um sujeito, com deficiência visual, ajuizou uma ação reclamando danos morais por não ter conseguido assistir a um show musical como esperava. Durante quase meia hora, tentei convencer o autor da ação a fazer um acordo. Ele não aceitou e insistiu que tinha direito a ser indenizado pelo dano moral que lhe fora causado - ou pelo menos ele acha que sofreu um dano moral.

Saí com a clara sensação de que o autor é uma pessoa revoltada com sua deficiência, uma pessoa que tenta se aproveitar de sua condição, fazendo-se de vítima. Há tantos exemplos de superação e de força de vontade que levam seres humanos a realizar todo seu potencial independentemente de sua condição física ou financeira. São inúmeros os exemplos que inspiram e que provocam mudanças positivas nas pessoas de sua convivência. A lista seria infindável. Batalhas contra o câncer e outras doenças, pessoas que sofrem acidentes, deficientes com feitos heróicos nos esportes e na produção científica. Para estas pessoas, o obstáculo é parte do caminho, mas jamais uma barreira.

Mas o autor insistia que não havia conseguido VER o show de música. Ora, música não é para ser vista, mas ouvida, assim como uma audiência é uma sessão onde o juiz ouve as partes. Não há necessidade da visão para se realizar o ato, nem há necessidade da visão para apreciar integralmente a música.

Ao final de minhas tentativas frustradas para chegar a um acordo, concluí que o autor da ação não sabe o verdadeiro escopo da música, cuja beleza não é visual, mas sonora, e esta sonoridade é alimento intenso para o espírito. Pobre do sujeito que não compreendeu a essência desta arte.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Dias frios

Dias frios têm sido estes das recentes semanas que parecem até congelar a inspiração, escondida debaixo de cobertas bem quentinhas, sem querer sequer botar o nariz para fora. Não sei se é a inspiração que se esconde ou se são os dias mais curtos, o céu cinza, os rostos sisudos e quase cobertos por cachecóis, gorros e chapéus. Dias quase tétricos, onde a luz solar faz falta. Mas parece que este ano está mais frio. Ou o frio parece mais constante.

Parece. Sim, reforço a subjetividade da impressão, pois a memória em temas climáticos é falha e imediatista. 

Cheguei à conclusão que sou uma pessoa de clima tropical. Gosto do calor, gosto do sol, gosto dos dias longos. Gosto da luminosidade do inverno e do outono, mas prefiro o sol escaldante do verão e do conforto do ar condicionado. Prefiro as roupas mais vibrantes e coloridas ao tons neutros e soturno do inverno. Prefiro dormir com ventilador ligado a me enfiar embaixo de várias camadas de cobertores. Prefiro o frio só como destino de férias. E por curto espaço de tempo.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Barcelona dos cinco sentidos


Palau de la Música Catalana, Barcelona



Até um ano atrás a viagem exigia um escala com troca de aeronave, sendo que a primeira parte durava longas doze horas. Na parte final do voo, para coroar o longo trajeto, minha filha e algumas outras pessoas passaram mal gastando o estoque de saquinhos coletores de vômito do Airbus 340 da Lufthansa com destino a Munique. 

Em solo, o primeiro choque cultural. A passagem pela imigração foi tranquila e sem demoras. As instalações do moderno flughafen são amplas, com muita luz natural e arquitetura arrojada. A sensação de estarmos em outro mundo foi sentida de imediato, além da óbvia língua alemã com a qual não tenho a menor intimidade e cuja sonoridade lembra mais um longo desfiar de impropérios do que uma conversa amena.  No terminal de embarque exclusivo da Lufthansa, não faltavam cadeiras e conforto, nem houve aquela ridícula troca constante de portões de embarque patrocinada pela nossa Infraero em todos os aeroportos brasileiros. Havia jornais do dia distribuídos gratuitamente e uma máquina de café e chocolate quente sem que houvesse cobrança pelas bebidas. Tudo organizado, limpo, bem cuidado.

Desde pequeno, sou fascinado por voar. Adoro voar e adoro passar horas nos aeroportos, explorando, vendo os aviões, observando os passageiros. O trajeto até o destino é para mim uma experiência divertidíssima. Devo confessar, porém, que ultimamente viajar de avião deixou de ser prazeroso e se transformou num suplício, com as poltronas apertadas e pouco distantes, serviço de bordo sofrível e nenhum benefício adicional, como aqueles antigos kits de higiene pessoal que o passageiro recebia no voo internacional. Os tempos são outros e agora dê-se por satisfeito se o voo sair no horário.

Voltando à estrada principal após um pequeno – mas necessário – desvio, decolamos para Barcelona. Uma vista fantástica dos Alpes num dia ensolarado e de céu claro, com sol refletindo dos picos cobertos de neve, fez parte do trajeto. Um dos pequenos ficou maravilhado, enquanto a outra sofria ainda com os efeitos da náusea que lhe afligia.

Barcelona, capital da Catalunha, é uma cidade em constante transformação e ebulição. Disseram-me que vinte dias seria muito e que me cansaria, pois a cidade não oferece tanto assim. Discordo efusivamente e retornaria para mais vinte dias por lá sem pensar duas vezes, ou melhor, fugiria do inverno brasileiro para aproveitar o verão catalão.

Barcelona no verão é invadida por turistas de todos os cantos, principalmente europeus do leste em busca de praia e de um pedacinho do Mediterrâneo, que parece uma grande lagoa salgada, de águas calmas e quentes. A mistura de povos, visitantes e residentes, permite ao turista vivenciar e explorar a vida local naquele canto ao leste da Espanha sem destoar do cenário.

O calor é seco e não incomoda quem opta por caminhar a maior parte do dia. Gosto de explorar as cidades caminhando, observando, com liberdade para parar em lojas, livrarias, bares e restaurantes. Um guia de bolso é elemento indispensável em qualquer viagem, pois chama a atenção para locais que poderiam passar despercebidos. Um prédio histórico, uma praça onde determinado fato ocorreu, um restaurante onde Picasso costumava almoçar e encontrar com outros artistas, um mercado renovado e cujo telhado em formas curvas lembra um campo florido ao balançar do vento. Uma boa pesquisa do destino garante esta imersão completa. Sou daquelas pessoas que gosta de aproveitar o tempo degustando o local, extraindo de cada passeio elementos culturais que vão compor minha bagagem na volta, sorvendo o ambiente urbano que dá o tom característico e único de cada cidade, como uma marca d’água indelével.

A estética arquitetônica é instigante em Barcelona. O olhar fica irrequieto, varrendo o cenário sempre a se maravilhar com algo diferenciado e inovador, saltado da prancheta de um famoso arquiteto. A Igreja da Sagrada Família, os edifícios projetados por Gaudí, o Parque Güell, a Torre Agbar e tantos outros edifícios e construções que marcam Barcelona como um showroom vivo e concreto da arquitetura.

A visão, porém, não é o único sentido a ser agradado pela cidade. O paladar e o olfato também são muito bem tratados.  Nos pequenos bares e restaurantes, uma mistura de aroma de alho misturado com a fumaça de cigarro permeia o ar. Decidira que pararia de fumar nesta viagem e aquele cheiro de tabaco era um pequeno consolo para um – agora – ex-fumante. Os temperos e condimentos ressaltam o paladar dos produtos vindos do mar, verdadeiro banquete para quem gosta de pescados e frutos do mar. Servidos a la plancha, ou seja, cozidos na chapa com alho, cebola, sal e pimenta do reino, chegam fumegantes à mesa sem que o gosto seja mascarado pelos condimentos. E vale lembrar que os preços, com a crise na Europa, deixam qualquer boteco de São Paulo parecendo um roubo diante do preços praticados por lá. A Europa deixou de ter preços proibitivos e passou a ser um destino acessível.

Tapas podem ser encontradas em diversos locais da cidade e são um convite a pular de bar em bar. Saborosas, variadas e criativas, as tapas provocam novas sensações gustativas, brindando o paladar com uma explosão de sabores. Ciutat Comtal é um destes formidáveis lugares. Localizado na Rambla de Catalunya, 18, paralela da Passeig de Gràcia, charmosa avenida onde se localizam as lojas de grifes internacionais, o restaurante fica movimentado o dia todo até altas horas da noite, pois os catalães geralmente jantam após as 22 horas.

No Palau de la Música Catalana, a audição é o sentido premiado. Localizado no Bairro Gótico, próximo ao restaurante Els 4 Gats, frequentado por Picasso e pela classe artística de outrora, o grande templo musical foi construído entre 1905 e 1908 por Lluís Domènech i Montaner. No dia de minha visita, Paco de Lucía seria a estrela da noite. O mais renomado guitarrista espanhol, mestre do flamenco com sua batida peculiar que nos remete a imagens de castanholas e uma donzela a dançar com um vestido em negro e vermelho, faria a primeira de uma série de apresentações. Era a última noite em Barcelona e tive que me contentar com a aquisição de um CD duplo de um show que mais se assemelha a uma generosa antologia musical do artista.

A cidade espraia-se entre as montanhas e o mar e pode ser contemplada por inteira do alto de Montjuïc. Um forte utilizado com ponto de resistência durante a Guerra Civil Espanhola, agora convida o indivíduo a olhar pacificamente, a sonhar e a deixar a imaginação viajar. O vento que sopra acaricia o rosto como a pedir que o visitante não se vá, abraçando-o com afeto e convidando-o a voltar sempre. O tato é contemplado coroando o festival de sensações que uma verdadeira viagem deve proporcionar.

Seria Montjuïc o ponto final da viagem? Não, apenas uma pausa para sintetizar e arrumar na bagagem da memória tudo que foi descoberto e tudo que se enriqueceu nestes dias. Nestas linhas não coube tudo e nem poderia caber tudo. Os sentidos agraciados com a fantástica Barcelona nada mais são do que uma forma de enlevar o espírito e nutrir a memória com uma carga cultural renovadora e inolvidável.

(Convidado a escrever sobre viagens, nasceu este post sobre Barcelona, que visitei no ano passado. Mais sobre posts sobre o tema podem ser localizados nas tags Barcelona e viagem).

domingo, 26 de junho de 2011

Epígrafe - X

"Depois avistei o horizonte, fechei os olhos e deixei que o vento me abraçasse."

(Miguel Sanches Neto. Então você quer ser escritor? Rio de Janeiro : Record, 2011, p. 61)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Viagens e viagens

Centennial Olympic Park, Atlanta, EUA



Destinos de viagem são tema recorrente quando os meses de férias se aproximam. Numa conversa entre amigos, um deles afirmou com segurança que não existia viagem ruim ou destino ruim, pois a viagem por si só já é um evento inesquecível. Alguns discordaram, torceram o nariz, acharam o sujeito otimista demais.

Seguiu-se uma saraivada de locais inóspitos, bregas, pouco charmosos e pouco atraentes, verdadeiros “micos” ou “programas de índio”. Aquele local de praia onde só tem farofeiro; aquela região da serra onde as pousadas são improvisadas e a estrutura é precária e sem água quente; aquele passeio de barco para pescar onde os pernilongos e mutucas te devoram vivo; aquela cidadezinha remota que exige você andar 100km numa estrada de terra esburacada; o passeio de escuna em que todos enjoaram e foram privados de contemplar o mar azul…e assim os exemplos se sucediam e pareciam infinitos.

Ele não se alterou com os argumentos do povo ouriçado. Manteve-se calmo e frio. Ouviu todos pacientemente e pediu alguns esclarecimentos. Todos – sem exceção – tinham um evento de viagem curioso para contar, alguma anedota, algum caso surpreedente. E invariavelmente, todos riam e gargalhavam.

Então, ele arrematou: “Estão vendo? Toda viagem é boa. Pode ter sido desagradável ou com problemas, mas serviu para que agora déssemos boas risadas. O que seria de uma viagem perfeita sem imprevistos? Não teria a menor graça.”

De fato, refletindo sobre esta sábia ponderação, cheguei à conclusão de que toda viagem é boa. Viajar traz uma carga enorme de novas informações para o cérebro que se vê estimulado diante de algo novo. Sinto-me como uma criança que abre os olhos maravilhada diante de alguma nova descoberta, algum brinquedo presenteado, algum objeto recém construído. Toda viagem traz consigo uma infinidade de novas experiências, que podem ser boas – ou não -, mas cuja avaliação é subjetiva. Se o sujeito abraça a jornada com o espírito aberto, o tempo longe de casa será renovador; se o indivíduo inicia a viagem emburrado e reclamando, pode ter certeza de que nem o melhor hotel do mundo lhe agradará.

A boa viagem é aquela que nos traz de volta ao lar com a bagagem lotada de novidades e de descobertas.