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quinta-feira, 27 de abril de 2023

Cortina de ferro


by Renato Bueloni Ferreira



Sento-me às margens do rio Odra, numa tarde agradável de domingo de primavera, e tento imaginar como era a vida na Polônia durante o regime soviético.

As novas gerações têm a liberdade, algo inexistente naquela época. As novas gerações têm seus celulares, a comunicação livre com o mundo. As novas gerações têm acesso a uma universidade aberta, a programas de intercâmbio, a viajar pela Europa e explorar novos destinos.

É domingo, os sinos das igrejas badalam e as pessoas vão à missa. Avisto vários campanários de igrejas em estilo gótico, mas de tijolos à vista. As paredes externas são marrons, uma cor terrosa escura, mais sóbria e sisuda do que no sul da Europa.

Casais passeiam com crianças pequenas, há risos, jovens conversando e olhando seus celulares. Uma mulher lê algo em um Kindle. Um grupo de jovens controla um pequeno drone sobre o rio. A cidade medieval de Wroclaw abraçou a modernidade e a tecnologia sem esquecer do passado.

E como foi o passado?

Quase não há sinais do período soviético. Deparei-me com um conjunto habitacional acinzentado, quadrado, decaído que me lembrou 1984, de George Orwell. A vida devia ser triste, melancólica, sem esperança, com falta de comida, de dinheiro, de energia. A vida era controlada pelo Estado, a vida era dirigida pelo Estado, a vida era traçada pelo Estado, como um roteiro de filme onde o bom cidadão sobrevive. Entenda-se por “bom cidadão" aquele que segue as regras e se deixa escravizar pelo Estado, aquele que não critica, aquele que incensa o líder supremo.

Os mais velhos, que vivenciaram o terror, não hesitaram em dar apoio à Ucrânia e a acolher os refugiados. Os mais velhos têm a memória viva do que é perder a liberdade.

Que este terror jamais volte! 

Em tempos de tentativa de regulamentação das redes sociais, que a voz jamais seja calada, que a liberdade de opinião e de expressão continue a reinar como direito fundamental do cidadão, que o Brasil não enverede pelos negros caminhos da censura.


quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Saber viver, de Cora Coralina






SABER VIVER
Cora Coralina
Não sei…
se a vida é curta
ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura…
enquanto durar.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A sabedoria de Adélia Prado



O trecho é extraído do Valor Econômico, Caderno Eu&, de 3 de fevereiro de 2017, p. 23, em entrevista concedia por Adélia Prado à jornalista Andrea Jubé.

"(...) Pergunto o que ala acha das feministas. 'O feminismo já é um termo político, ele supõe bandeiras, isso é vão. Uma bandeira feminista que quer se afirmar como mulher em competição ou em superioridade não vai a lugar nenhum. O valor da mulher e do homem, a dignidade de cada um, não é de dignidade de gênero, é dignidade da pessoa humana. É hediondo matar a mulher só porque ela é mulher? Não, porque ela é humana. Chegamos a um tal ponto de alienação que começamos a dar esses nomes, 'feminicídio', porque os valores do feminino desapareceram, estão em baixa, as mulheres são competidoras, e não cooperadoras.'

E prossegue: 'A bandeira feminista conseguiu para nós direitos civis importantes, mas você tem de ser uma engenheira mulher, uma médica sem perder seus valores. A gente vê mulheres se tornarem companheironas dos homens', critica. 'É a coisa mais triste, se o homem me tratar como companheirona, eu fico mal, eu não sou companheirona, eu sou uma mulher em contraposição a um ser humano que é homem. Quero que permaneça essa eletricidade entre homem e mulher.'"

Adélia Prado nos brinda com palavras de sabedoria, com uma simples reflexão que tem sido sufocada por bandeiras e agendas e palavras de ordem. No meio da gritaria, surge a voz da lucidez.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Chavões


instagram  @rbueloni


Todo carnaval tem seu fim
assim como o amor.

Todo carnaval tem seu fim
diferente de governos corruptos.

Todo carnaval tem seu fim
assim como as estações do ano.

Todo carnaval tem seu fim
diferente dos bons momentos armazenados na memória.

Todo carnaval tem seu fim
assim como as longas férias.

Todo carnaval tem seu fim
diferente da aposentadoria integral do servidor público,
com todas as benesses e vitaliciedade.

Todo carnaval tem seu fim
e agora é hora de trabalhar,
pois o ano tem que começar!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Na passarela do samba






O sol ainda ia alto na tarde que avançava com algumas nuvens amendrontadoras a surgir lá pelo lado da zona norte, quando saí de casa rumo a um ponto de encontro num bairro da zona sul paulistana. Um grupo de pouco mais de trinta pessoas abraçaria a aventura de desfilar numa escola de samba, o Grêmio Recreativo Cultural Social Escola de Samba Unidos do Peruche. Eis o nome pomposo e completo de uma agremiação sambística. No nosso grupo,  um holandês, um suíço e paulistanos de origem e rostos variados, a maioria sambistas de primeiro desfile.

Seria meu primeiro desfile numa escola de samba, pela primeira vez a entrar no sambódromo do Anhembi, na passarela do samba. Memorizei o samba-enredo, li sobre o enredo, mas não fui a nenhum ensaio e nem pus os pés na quadra da escola na zona norte. Aceitei o convite, mas avisei que estava com uma agenda complicada para participar de ensaios. Comprometi-me a fazer a tarefa mínima: pagar pela fantasia, decorar o samba-enredo e estar em condições físicas de ajudar a escola. Tinha a doce ilusão de que seria mais um daqueles itens a marcar na longa lista de “1000 coisas a fazer antes de morrer”. Tudo bem, não é a Marquês de Sapucaí, mas é o GRCSES Unidos do Peruche, um integrante do Grupo Especial do Carnaval de São Paulo. Convenci-me de que o desfile contaria como válido para a lista.

No ponto de encontro, o salão de festas havia se transformado num camarim de teatro, nos bastidores de uma companhia mambembe em preparação para o espetáculo. O samba-enredo tocava nos alto-falantes oriundo de um telefone celular. A modernidade auxiliando na preparação. O clima descontraído, divertido, alguns cantando, outros ensaiando e repassando a coreografia de uma das alas. Neste momento, dei-me conta da grandeza da tarefa de organizar um desfile e aquela sensação só iria se aprofundar ao longo da noite que viria. As fantasias, ainda que de material simples, eram bem acabadas e elaboradas com dedicação e amor por todo um enorme grupo de pessoas apaixonadas pela Peruche.

A palavra “Comunidade”, que me lembro de ter ouvido pela primeira vez numa daquelas aulas de Estudos Sociais lá no 2o. ano do ensino fundamental, ganhava vida e vigor, uma nova perspectiva. Em qualquer desfile de escola de samba, talvez comunidade seja o vocábulo mais falado por todos os envolvidos, comentaristas, puxadores de samba, letras de samba, diretores de escola. Há uma sobreposição entre a comunidade e a escola, quase uma confusão de ambas. A escola é a manifestação física da comunidade, uma forma de demonstração do que a comunidade é capaz de fazer, ainda que os recursos sejam escassos e as dificuldades imensas. Descobriria, mais tarde, que ao vestir a fantasia da ala “Boemia”, por alguns momentos, passaria a integrar o exército da comunidade, ainda que na qualidade de soldado mercenário.

Um ônibus partiu às 17:30 rumo à quadra da Peruche. Os neocarnavalescos entoavam o samba com animação, o que mais parecia um ônibus de torcida organizada ou talvez um grupo de jovens escolares em uma excursão. Numa São Paulo sem trânsito, o ônibus foi limitado apenas pelo absurdo limite de velocidade imposto pelo prefeito Fernando Haddad, que – esperamos – inicia seu último ano de mandato.

A parada na quadra era necessária para que nos juntássemos ao comboio de ônibus credenciados com acesso direto ao Anhembi e para que as últimas fantasias fossem ajustadas. Um temporal desabou enquanto esperávamos a partida rumo ao destino final. A espera foi um pouco cansativa e suficiente para reduzir os níveis de adrenalina e amenizar a empolgação do grupo. O clima, porém, permanecia em ebulição. Com a parada da chuva e a temperatura mais amena, era hora de partir para o sambódromo. Passava das 21 horas e o início do desfile estava previsto para as 22:30.

No Anhembi, a chegada foi tranquila e agora era necessário localizar o chefe de ala para pegar o costeiro que complementava a fantasia e alinhar na ordem correta de entrada na avenida. A organização novamente me surpreendeu. Os chefes de ala uniformizados com a camisa da agremiação, calça branca e sapatos brancos eram fáceis de localizar. O costeiro era maior do que imaginava. O peso não incomodava, mas era grandioso e ampliava o espaço lateral do corpo não permitindo passar por espaços pequenos sem esbarrar em pessoas. Na área que antecedia a concentração, grupos de iguais se formavam, fantasias de cores variadas e em cada setor uma cor predominava. A ala Boemia trazia chapéus azuis, uma camisa listrada de azul e branco na horizontal, calça branca e um costeiro preto que lembrava uma clave de sol e penas azuis na parte superior. Diante de nós, uma ala toda vermelha e atrás uma ala onde o verde claro era a cor predominante.

Aos poucos, a ala ganhou corpo com todos os integrantes prontos. Diretores de ala checavam as fantasias, ajustavam costeiros, davam instruções preliminares. Então, começamos a andar em direção à concentração. Um diretor passa por entre as alas, vestido de terno azul, falando com voz forte e dando a palavra de ordem: “Superação! Superação Peruche! A palavra é superação comunidade!”. Alguém grita o nome da escola e a massa repete em coro, uma torcida animada, um time pronto para entrar em campo.

A caminhada cessa na área da concentração, onde é possível contemplar a grandiosidade dos carros alegóricos, muito mais belos ao vivo do que retratados na televisão. Os puxadores de samba ainda não iniciaram o esquenta. Um telão mostra que ainda é horário de BBB. Um chefe de ala informa que serão fileiras de 8 pessoas e que é preciso ficar alinhado. Ele cumprimenta um a um, cada integrante da ala, pedindo garra, vontade, que todos cantem o samba, que todos sorriam. Alinhamos como um batalhão de exército, uma tropa pronta para a batalha.  Senti-me um soldado, já vestido de armadura e pronto para lançar-me no campo de batalha, de peito aberto, como aqueles escoses liderados por Mel Gibson em Bravehart (Coração Valente). O sentimento era de pertencimento, ali, naquela hora, você faz parte da comunidade, você é uma peça daquela engrenagem que se chama escola de samba.

O presidente faz um breve discurso, chamando todos para o desfile, convocando seu séquito para dar o melhor de cada um, para lutar na avenida pelo pavilhão da escola. Segue-se o puxador oficial da escola a conclamar todos com o esquenta, a cantar sambas de outros carnavais. Um arrepio percorre toda a espinha. A emoção toma conta e contagia toda a escola que começa a cantar o samba enredo de 2016.

Firma o pandeiro e o tan-tan
Tem samba até de amanhã
E a nação perucheana faz a festa
O meu batuque ecoou
Um lindo canto de amor
A filial chegou


O refrão é repetido e será repetido por dezenas de vezes até o final do desfile. Não sei quantas vezes cantei o samba, mas dois dias depois do desfile, acordo com o samba na cabeça, a ecoar mentalmente no aparente silêncio da pauliceia em dias de carnaval. A bateria e sua batida, o ritmo contagiam de forma única e inebriante. Não há cansaço, ou calor, ou fome que impeçam a entrada no palco com energia total. Uma imensa alegria inunda o corpo e o espetáculo começa. Desta vez, você é o artista, você é o espetáculo, ou parte do grande espetáculo, mas cuja performance é essencial para o todo, para o triunfo da comunidade.

O tempo na passarela é curto. Pouco mais de vinte minutos e acaba. A missão foi cumprida. O cansaço só é sentido depois da dispersão. Só na dispersão você olha para trás e vê um enorme carro alegórico que lhe seguiu por toda a avenida, mas não se olha para trás durante o desfile. Observo por alguns instantes a parte do desfile que não vi, as alas que estavam na parte final da escola, com um sentimento de realização, de alegria e de poder ter contribuído um pouco com a escola e a comunidade.

No ano que vem voltarei.  Agora é aguardar a apuração e torcer. Quem sabe não voltamos no desfile das campeãs?



quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Novos atalhos para velhos caminhos

Foto: portaldotransito.com.br


Se queres bom conselho, pede-o ao homem velho.”

O ditado popular associa a velhice à sabedoria dos anos vividos, dos fatos presenciados, das músicas ouvidas, das transformações sentidas. O bom e lúcido idoso é um poço de bons conselhos, simples considerações sobre a longa estrada da vida percorrida.

Quando criança, passava horas ouvindo minha tia avó contar sobre a infância, sobre uma São Paulo querida e romântica, imaginada em branco e preto, em tempos de bondes puxados por mulas, por ruas de terra e depois de paralelepípedos, com meninas com fitas no cabelo, vestidos rodados, sapatinhos de verniz. Uma cidade provinciana, quase bucólica em alguns bairros, onde não existia telefone, televisão, congestionamento, poluição, ruído em excesso, mas que teimava em se movimentar, em crescer, em autoproclamar-se a locomotiva do Brasil. Non ducor, duco, reza o lema no brasão da velha freguesia erguida nos campos de Piratininga.

Ela não tinha medo da morte. Dizia, com serenidade, que esperava apenas a hora que fosse chamada para descansar. A vida tinha outra ritmo e não me lembro com que idade ela faleceu, apenas me lembro que chorei ao receber a notícia.

A sabedoria, por vezes, é afogada pela teimosia, por hábitos arraigados e que são difíceis de quebrar e de mudar. Reparei nestes dias que idosos insistem em atravessar a rua fora da faixa de pedestres. Uma senhora quase foi atropelada ao cruzar no meio dos carros na Brigadeiro Luis Antônio e ainda se arriscar quando o semáforo abriu no contra fluxo. Outro, ao invés de caminhar alguns passos, corta a rua em diagonal, sem olhar e força uma freada brusca.

Estariam estes idosos tomados de um empoderamento tão forte que os faz se sentir imbatíveis, inquebráveis, indestrutíveis? Será que acham que a legislação que os protege também obriga motoristas de veículos a dar preferência a todos os idosos em qualquer lugar da via pública? Ou será que estão cansados e querem apenas pegar um atalho?

Preste atenção quando trafegar pelas ruas de São Paulo e veja se estou exagerando. Com a velocidade máxima reduzida, fica mais fácil notar estas atitudes que geralmente passam despercebidas.


Tomar atalhos novos e deixar caminhos velhos, diz um outro ditado popular. Talvez seja um bom momento para os idosos abandonarem os atalhos velhos no meio das ruas e adotarem um caminho novo pela faixa de pedestre.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Gotas políticas


Há uma proposta de reajuste de 78% dos salários dos servidores do judiciário. A presidente vetou a proposta. O Congresso pode derrubar o veto.

Com toda sinceridade, no momento atual, nenhum aumento deve ser concedido a qualquer servidor público. O momento exige corte de despesas. Por que só os funcionários do setor privado devem perder o emprego e amargar o não rejuste de salários?

Se não gosta da remuneração do servidor público, pede demissão - ops, exoneração - e vem pro mercado competir. Venha ver como é a vida de um empregado do setor privado, sem quinquênio, licença prêmio, jornada de 6 horas, abonos, feriados que não constam do calendário dos demais mortais como o dia da Justiça, dia do funcionário público, recesso de 20 dias no final do ano....ufa, até cansa de pensar em tanto benefício. #prontofalei

*  *  *  *  * 



Algumas situações do mercado empresarial são realmente curiosas e a forma como as empresas enfrentam crises reflete um bocado do caráter de seus líderes, que por sua vez reflete a cultura e a mentalidade da empresa.

A Volkswagen viu-se envolvida num gigantesco escândalo diante de órgãos ambientais dos EUA, pois seus veículos estavam equipados com um software que maquiava a emissão de poluentes dos motores a diesel. Resultado: um pedido de desculpas de seu CEO e a sua renúncia. Transparência diante do erro e punição dos envolvidos, que certamente sofrerão processos pelos danos causados.

A Petrobras, nosso dinossauro estatal do petróleo, viu-se envolvida num fantástico escândalo de corrupção e propina, tudo descoberto na Operação Lava Jato. Alguns personagens já foram condenados, outros estão presos, e outros ainda respondem criminalmente pelos seus atos.

Levantamento feito pelo Jornal Valor Econômico identificou que a Petrobras já gastou em torno de R$ 390 milhões apenas com os processos judiciais e pareceres jurídicos para se defender - e defender seus diretores - das acusações e ações de indenização.

Perto de R$ 1 bilhão já foi recuperado e que havia sido desviado dos cofres da empresa.

Qual a conduta de seus diretores e presidente, na época, Graça Foster? Nada. Fingir que estavam fazendo algo, fingir que não sabiam de nada, fingir que medidas estavam sendo tomadas, afinal o que importava era preservar seu cargo e o salário. A postura da diretoria da Petrobras é lastimosa e indicativa de como se trata a coisa pública no Brasil.

Não achava necessária a privatização da Petrobras, mas depois do que se encontrou naquele antro de corrupção e fonte de abastecimento do caixa de um partido político que saqueou a empresa (empresa pública repita-se!), estou convencido que a privatização da Petrobras seria uma ótima forma de cobrir as receitas necessárias para o ajuste fiscal do Levy.

Se bem que as ações da Petrobras estão tão desvalorizadas que vamos precisar esperar um pouco antes de privatizá-la, caso contrário, ninguém vai querer.


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Lançado conto em ebook





Lançado na semana passada, já está à venda na loja da Amazon o conto Taquaral,  escrito para o concurso do Globo e da Amazon, Brasil em Prosa. O conto só está disponível em formato de ebook.

O conto pode ser adquirido na loja da Amazon aqui.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Pobre debate




O primeiro debate do segundo turno das eleições presidenciais foi realizado pela Band. Mais do mesmo e menos do que importa. 

"No meu governo a educação é prioridade... O Pronatec... A inflação está sob controle... O aeroporto de Claudio..." 

"A inflação está pesando no bolso do brasileiro... O Paulo Roberto Costa não foi demitido da Petrobrás.... A corrupção... A senhora está sendo leviana..."

O debate foi reduzido a uma sequência de frases e slogans elaborados por marketeiros, programas enlatados (Mais Médicos, Minha Casa, minha vida, Pronatec, Belo Monte, Transposição do São Franscisco...) sem qualquer discussão de projeto de Brasil, de conceito de Estado, de visão de longo prazo.

Pergunto ao leitor, quais eram os temas dos debates de 2010? Dilma alardeava que resolveria o problema da violência vigiando as fronteiras com VANTs (veículos aéreos não tripulados), que o Bolsa Família seria ampliado, que não haveria privatizações, que o trem bala Rio-SP estaria pronto antes da Copa e por aí vai. Ninguém lembra da maioria destas coisas e muitas delas se exauriram quando Dilma foi eleita. A função era o efeito eleitoral apenas. Mentiras, ou melhor, "programas" criados para mostrar que o governo agiria e tudo se transformaria num país de mil maravilhas, algo como a propaganda do PT.

Eleição no Brasil é sinônimo de slogan e frases de efeito para enganar o eleitor. O brasileiro não se preocupa em pensar o país, em discutir o futuro, em definir prioridades e planejamento.

Tomemos um exemplo: o BNDES deve financiar projetos fora do país? E se o recebedor dos recursos for empresa brasileira? Para que tipo de projeto - humanitário, de infraestrutura? E se o recebedor de recursos for companhia aberta e com fácil acesso ao mercado de capitais, deve haver financiamento? Deve-se privilegiar as pequenas e médias empresas? 

Pessoalmente, responderia que a política de financiamento do BNDES deveria estar inserida numa política de comércio exterior ampla e deveria se coadunar com a política externa brasileira. Qual o papel do Brasil no mundo? A quem devemos nos alinhar? Quais blocos econômicos? Nossa influência deve ser regional ou global? Qual o futuro dos BRICS?

Qual o papel do Estado no Brasil? A reforma política deve reduzir o número de deputados e senadores? Deve haver reeleição? Os cargos públicos comissionados devem ser extintos? Deve haver limite para aumento de despesas pelo Governo Federal?

E caberia ainda discutir educação, saúde, infraestrutura, segurança, saneamento básico, transporte e mobilidade urbana, previdência, mercado de trabalho e legislação trabalhista, tributação.

Nenhuma destas questões foi respondida ou discutida no debate. Elas não ganham voto e não são compreendidas pelo eleitor comum. Dilma, por exemplo, quer dialogar com Estado Islâmico. A grande maioria das pessoas não têm a menor ideia do que seja o Estado Islâmico.

A crítica vale para os dois candidatos. A culpa é dos partidos que esvaziou o conteúdo do debate ao delegar as campanhas para marketeiros que não se preocupam com o país, mas apenas em ganhar a eleição.

A continuar assim, nosso debate será pobre. Pobre de nós eleitores.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O poste e as eleições




Eis o molusco e sua criatura, o poste - ou talvez a "posta", declinando o gênero como ela tanto gosta, mas "posta" (feminino de poste) tem um proximidade sonora muito grande uma palavra de baixo calão iniciada com a letra "b". A expressão seria uma afirmação sintética do nível de governo realizado por esta senhora.


Quando Lula lançou Dilma Rousseff como sua candidata à presidência da república, o humilde molusco se vangloriou afirmando que seu governo tinha sido tão bom, que ele era tão idolatrado, que poderia indicar um poste para seu lugar que o poste ganharia. Fez isto com Dilma. Fez isto com Fernando Haddad. Agora, parece que o eleitor que foi iludido começou a pensar e percebeu que a enganação acabou, que poste pode até governar, mas uma hora a exigência por competência aparece.

O Brasil vive hoje uma grave crise econômica, ética e de credibilidade. Nossa política externa é capenga, sem objetivos claros, com alinhamentos retrógrados a países que não respeitam as liberdades e os direitos humanos mais básicos. Recentemente, Dilma Rousseff manifestou sua simpatia pelo Estado Islâmico na ONU, o que indica claramente a trajetória e o rumo de nossa política externa.

Durante o governo Dilma, perdemos a força do crescimento econômico em parte por culpa de um ministro da fazenda incompetente, de um Banco Central refém dos melindres da presidente e do aparalhemanto maciço das empresas estatais, que foram reduzidas a supridoras de caixa do PT. A Petrobras foi saqueada, os Correios roubados.

Assisti a todos os debates e o discurso de Dilma só engana quem não pensa, não observa o país, quem não lê. Ela mente de forma descarada, tenta enganar e iludir. Dilma é um estelionato eleitoral! Seu partido parte da ideia de que uma mentira repetida mil vezes se torna verdade, e quem lapidou esta frase foi Goebbels, o chefe de comunicação de Adolf Hitler, na Alemanha nazista.

Não consigo conceber que uma pessoa de boa-fé e honesta vote em Dilma. Até tentei, mas não consigo. Minha capacidade intelectual não alcança a mesquinhez de pensamento petista. Não consigo ter respeito pela opinião de alguém que manifesta seu voto em Dilma Rousseff. Poste serve para iluminar, mas este poste nem iluminar consegue!

Domingo teremos a chance de varrer esta quadrilha que governa o país para bem longe. Ainda é tempo de salvar o Brasil, mas é preciso votar conscientemente, pensando na importância do voto. Vote consciente! Seu voto tem consequências!


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Perdi meu candidato à Presidência



"Não vamos desistir do Brasil!"
Eduardo Campos


Não há nada mais surpreendente do que a vida. Do nada, ela interrompe o caminho, inventa um desvio, muda um dia ensolarado com uma tempestade de granizo e raios. Tudo parecia tranquilo na última quarta-feira, quando pouco antes da hora do almoço, um avião caiu em Santos no litoral paulista. Eduardo Campos, candidato à presidência pelo PSB, estava no avião e faleceu tragicamente.

Fiquei triste. Fazia tempo que um candidato não me despertava um interesse maior. Gostei de suas propostas, de suas ideias e também por se revelar como uma liderança nova no cenário nacional. Acho triste analisar o cenário eleitoral e perceber que os candidatos são os mesmos, as velhas lideranças, não importando o partido ou o Estado. Em São Paulo, Geraldo Alckmin vai atrás de seu quarto mandato; no Rio de Janeiro - pobre Rio -, o principal  candidato é Anthony Garotinho; em Minas, Pimenta da Veiga e Fernando Pimentel; no Distrito Federal, José Roberto Arruda e Agnelo Queiroz, o primeiro preso por receber propina que foi flagrada em vídeo.

Há tempos sinto-me órfão politicamente. Para recorrer a um bordão usado recentemente, é difícil achar alguém que me represente. Via em Eduardo Campos alguém que poderia marcar posição nesta campanha, alguém que agitasse a oposição amorfa que apostou suas fichas no neto do Tancredo, mas que deveria ter sido muito mais atuante durante seu mandato de senador. Aécio não me empolga. Marina é uma grande incógnita. Assume o posto de Eduardo Campos, mas tenho sérias dúvidas se ela abraçará os objetivos de Campos, como banco central independente, redução da máquina pública com  diminuição de ministérios, educação em tempo integral, preservação e incentivo do agronegócio. O fato é que aquela bagunçou o coreto da eleição e agora é uma nova corrida presidencial.

Os debates serão fundamentais, no meu caso, para formar minha convicção e decidir meu voto. E se o leitor estranhar por que não falei da Dilma, a resposta é muito simples. Não voto em partido corrupto ou que compactua com a corrupção! Quem pensa e quer um Brasil melhor, não vota no PT, não vota em branco e não vota nulo. Decida seu voto conscientemente.

Perdi meu candidato à Presidência, mas eu não vou desistir do Brasil!



quinta-feira, 19 de junho de 2014

Feriados e a copa do mundo


O poste que governa São Paulo, Fernando Haddad,  tentou aprovar projeto para que a Câmara dos Vereadores aprovasse feriado na cidade de São Paulo no dia 23 de junho, dia em que haverá mais um jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo. Na última terça-feira, a cidade travou com recorde de congestionamento.

A Justiça Federal suspendeu o expediente durante todo do dia 23. A Justiça Estadual funcionará até às 12 horas, mesmo horário de funcionamento dos bancos e da maioria do comércio.

Sou contra este número excessivo de dias de folga e da falta de vontade de muitos em trabalhar. A seleção não empolga, mas parece que o brasileiro tem que assistir ao bendito jogo no conforto de seu lar. Sou do contra, sou chato. Acho um absurdo e uma estupidez se engalfinhar no trânsito de forma desesperada para chegar ao lar.

Na última terça, enquanto muitos se estressavam no trânsito e no transporte público, eu trabalhei até depois das 13 horas, fui almoçar com um amigo, assisti ao primeiro tempo do jogo de pé na calçada num bar e fui para casa no intervalo. Trânsito livre. Sem transtornos, sem confusão e com a sensação de que não perdi meu tempo como um bando de cordeirinhos que "têm que assisitir o jogo da seleção" ou então morrerão fulminados pela polícia dos traidores da pátria. Pessoalmente, acho que trabalhar honestamente é muito mais patriótico do que gastar metade do meu dia idolatrando jogadores que ganham milhões e que estão jogando para faturar mais alguns milhões. 

Não me entendam mal, eu gosto de futebol, tenho assistido a quase todos os jogos da Copa, mas não compactuo com a vagabundagem e a falta de vontade das pessoas de trabalhar. Acho um absurdo, um descalabro a quantidade de dias que a Justiça Federal declara como ponto facultativo. Quem mais se beneficia de feriados e pontes de feriados são os funcionários públicos, uma categoria que não hesita em fazer greve e que goza de benefícios não estendidos ao trabalhador comum, e muito menos aos autônomos e profissionais liberais. 

Com o feriado de Corpus Christi, este será o terceiro feriado de 5 dias neste ano! Para estes privilegiados, isto equivale à existência de 3 carnavais em um único ano! 3 carnavais! Que país pode crescer neste ritmo de produtividade? 

É preciso mudar a mentalidade e o prefeito podia dar o exemplo obrigando as repartições municipais a fecharem apenas 30 minutos antes dos jogos. Assim, todos encontrariam um lugar próximo ao trabalho para assistir o jogo. Isto movimentaria a economia da cidade e escalonaria o trânsito. Qualquer boteco tem uma televisão hoje e muitos celulares já tem capacidade de captação de sinal da TV aberta. Falta vontade política de mudar um hábito que precisa ser mudado. O Brasil precisa de gente disposta a trabalhar e não daqueles que só querem aproveitar mais um feriado.


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Dia mundial do Livro


Crédito da imagem: instagram @rbueloni



Hoje é o dia mundial do livro. Uma invenção simples, mas que nos conduz por mundos distantes, que provoca a imaginação, que aguça o sentidos, que acende a chama da saudade, que incendeia corações e ilumina mentes. O livro pode ser destrutivo também, mas seus benefícios são inegáveis. A leitura, para alguns, é mais que um hábito, é uma necessidade vital, como o ar que respiramos ou o alimento que ingerimos.

Pergunte-se: qual o livro que mais lhe impressionou? Qual o livro que mais gostou? Qual o primeiro livro que você leu e que lembra até hoje?

Se fosse um livro, qual livro seria?

Eu, diria, que se fosse um livro, não seria um, mas que sou composto por fragmentos dos livros que li.


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Voar

Gosto muito de voar. Desde os tempos imemoriais da Pan Am - pioneira de voos intercontinentais, da época em que a Varig era um primor de serviço e orgulho de brasileiros nos voos internacionais,  da Vasp e da Transbrasil. Lembro-me do Electra na ponte aérea, fato que denuncia minha idade e sobre o fascínio que voar despertou em mim ainda bem criança.

Congonhas era um lugar para passeios esporádicos, para apreciar os aviões de perto. Meu fascínio por aviões brotou no berço, por vê-los decolar e aterrisar, manobrarem nos pátios dos aeroportos. Gosto do agito das pessoas nos aeroportos, onde vidas se cruzam apressadas, onde viagens são iniciadas, onde beijos sinceros são trocados, onde lágrimas são derramadas em despedidas demoradas, onde profissionais cansados retornam ao lar.

O tempo passou e voar não deixou de me encantar. Os aviões são apertados, os aeroportos tumultuados, o glamour se foi, mas a beleza de voar permanece. Apesar de todos os transtornos, apesar dos péssimos aeroportos brasileiros que (des)tratam os passageiros como se fossem uma commodity e não como a razão de ser das companhias aéreas, voar é um momento cheio de magia.

Acomodo-me na janela e admiro o que se desenha por debaixo do pássaro de aço. Qualquer viagem, não importa o destino, descortina uma visão nova do que se passa no solo. Estradas que serpenteiam morros e serras, o mar a beijar o litoral e por vezes delineado por dunas ou montanhas, rios que rasgam o solo como veias a irrigar suas margens e desaguar no mar, formas geométricas que acarpetam o chão plantado com o pujante agronegócio pelo Brasil a fora. A visão do alto tem seu lado poético e inspira a admirar ainda mais este nosso país que é  "bonito por natureza", como canta Jorge Benjor.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Ultrapassando limites



O Monumento às Bandeiras é um dos símbolos de São Paulo. Escultura de autoria de Victor Brecheret,  o monumento fica ao lado do Parque do Ibirapuera e retrata os bandeirantes que desbravaram o sertão brasileiro e foram responsáveis pela expansão do território nacional. O monumento amanheceu pichado e pintado com tinta vermelha na última quinta-feira. Uma afronta ao patrimônio público paulista e um daqueles crimes que parecem ser relevados pelas autoridades.

A autoria é conhecida. Um grupo de indígenas que se manifestaram na av. Paulista contra uma PEC (projeto de emenda constitucional) que prevê alterar a competência para a demarcação de reservas indígenas foi a justificativa da manifestação. Terminaram sua caminhada no Monumento às Bandeiras e perpetraram o delito. Revoltam-me profundamente os atos de pichação e depredação de patrimônio público. Manifestação tem limite e este limite foi ultrapassado neste caso!

Na mesma linha é preciso restringir a conduta dos chamados Black Blocs, grupo de mascarados que se autointitulam como anarquistas, mas são na verdade baderneiros sem causa e que lutam contra a ordem estabelecida, ou seja, não seguirão o caminho da legitimidade para levar a cabo as mudanças que propõem. Manifestações que terminam com depredação e violência são uma afronta ao regime democrático e devem ser repelidas - as depredações, é claro. A liberdade de manifestação é ampla, mas quando se ultrapassam os limites da razoabilidade e da ordem, o Estado deve agir e restabelecer a ordem.

Não há causa que justifique a pichação e a depredação do patrimônio público ou privado.


terça-feira, 17 de setembro de 2013

Todos os olhos em Celso de Mello


Amanhã o Ministro Celso de Mello proferirá seu voto acerca do cabimento de Embargos Infringentes na Ação Penal no. 470 (caso do Mensalão). A votação está empatada em 5 a 5. O voto provocará o desempate - para o bem ou para o mal.

Trata-se de questão processual e há argumentos sólidos dos dois lados, mas parece-me que o ponto central pode ser resumido em forma vs. conteúdo. Qual deve prevalecer?

Espero que a decisão seja contrária ao acolhimento dos Embargos Infringentes. Tantas vezes ouvi que o  Supremo interpreta a Constituição, mas sempre há um viés político. Agora, é preciso que o viés político seja deixado de lado para privilegiar a cidadania e a crença da população no Judiciário. 

O acolhimento dos Embargos representará o inexplicável triunfo da impunidade, da corrupção e de políticos que fazem uso da coisa pública, como se privada fosse. A população não vai entender e isto poderá gerar uma justiça amplamente desacreditada. A lentidão da justiça já é de difícil explicação e a sua imprevisibilidade ainda mais complicado. O corporativismo que impera no Judiciário tem prejudicado a efetiva prestação jurisdicional capaz de pacificar conflitos. 

Amanhã será um dia de grande importância e será um momento histórico no Judiciário brasileiro. Vamos aguardar.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Viva a independência!





Feliz o povo que desfruta da verdadeira independência, que sabe pensar sozinho, que sabe se indignar diante dos desmandos, descasos e mentiras.

Feliz o povo que usa a arma do voto para eleger aqueles que compartilham de suas ideias e de suas virtudes, de seus princípios e de suas crenças.

Feliz o povo que é livre e não é sujeito a manipulações, à propaganda enganosa, a programas de governo de cunho demagógico.

Feliz o povo que vai às ruas para protestar e para delinquir.

Feliz o povo que coloca a lei acima do dinheiro, que coloca o bem comum acima de interesses pessoais, que tem a sorte de contar com líderes preocupados em servir, e não em serem servidos.

Prisão aos corruptos! Liberdade de expressão ao povo! Mais educação e menos corrupção.

País rico é país com povo que sabe pensar!

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Uma face do Brasil


Poucos minutos depois de chegar em Sobradinho, lembrei-me de Graciliano Ramos. O táxi passou por uma escola pública, fez o retorno e virou numa avenida que tinha a aparência de via principal. Algumas quadras adiante e cheguei ao fórum. Prédio de dois andares, com boa aparência, nada novo, mas com boa conservação. Lugares novos sempre trazem consigo uma curiosidade, uma expectativa. Entrei, fui dispensado de passar pela revista e pelo detector de metais, e caminhei pelo corredor central do fórum. E Graciliano Ramos me acompanhava.

Nas cadeiras, mães com crianças de colo, idosas, alguns poucos casais. Todos tinham algo em comum: buscavam algum direito ou batiam às portas da justiça para fazer valer sua cidadania. Uma vara exclusiva para tratar de violência doméstica. Não consigo presenciar tais cenas e permanecer indiferente.

Desde que comecei a escrever, percebi a importância de observar, de ficar atento ao drama humano que nos cerca, que poderia passar despercebido, afinal estava ali a trabalho e tantas e tantas vezes já fui em fóruns em diversos recantos do país. Sobradinho tinha uma aura triste, uma cidade refém, um pequeno distrito de periferia como tantas outras. Ser cidade satélite de Brasília parece ter relegado Sobradinho à sina de cidade dormitório, sem perspectivas, com pouca atividade, com poucos recursos. A ideia de cidades satélite parece ser uma forma de esconder a pobreza, algo que sempre vi como contraditório na concepção da Brasília de Oscar Niemeyer, um comunista que não conseguiu manifestar seu ideário nas suas obras e projetos. Por que esconder a pobreza?

Sentei-me numa das cadeiras e fiquei a observar rostos, ouvir conversas entrecortadas, xingamentos a companheiros que fugiram e deixaram de pagar pensão, crianças sem amparo, idosos esquecidos pelo Estado que lhes deveria garantir tratamento digno de saúde. Lembrei-me de Graciliano Ramos.

Graciliano Ramos foi um escritor brasileiro engajado, comprometido com a causa social. Ainda que não  compartilhe de sua visão política, admiro sua percepção do drama humano tão presente em suas narrativas, tais como Vidas Secas e São Bernardo. Li esta última obra pela primeira vez no ensino médio - e para variar -, discordei da maioria dos meus colegas que odiaram o livro. Gostei muito do estilo de Graciliano e da estória. O drama humano retratado sem cortes, com tons fortes e pinceladas precisas. 

Ninguém vai a Sobradinho para fazer turismo; ninguém vai a Sobradinho a passeio. Fiquei com a impressão de que seus moradores sonham em sair de Sobradinho um dia, para nunca mais voltar.

domingo, 28 de julho de 2013

Dilma, o poste e o criador


Por algum tempo deixei de comentar sobre política neste blog, mas ultimamente a quantidade de sandices e barbaridades cometidas por "nossos" governantes me obrigam a escrever. Afinal, foi a política que levou este blog a ser citado em uma dissertação de mestrado na área de comunicação. Mas parei de escrever sobre política, pois sentia-me órfão - ainda sinto-me órfão - de representantes que pareciam totalmente desligados da vontade do eleitor. 

Na última eleição de Lula em 2008, fui votar com nariz de palhaço. Este sentimento continua a existir em mim, mas não desanimo. Agora é preciso voltar a criticar e atacar e permear minhas experiências literárias com questões políticas. 

Dilma soltou mais uma pérola: "Lula não vai voltar porque ele não saiu."(vide aqui).

A afirmação é  confissão de que ela nunca mandou, nunca governou, mas apenas cuida do Planalto, finge que governa e, como um boneco de ventríloquo, diz e faz o que o chefe manda. Lula na eleição disse que se ele escolhesse um poste, o poste seria eleito. O primeiro poste foi eleito. A declaração ofensiva a todos os eleitores brasileiros foi vista apenas como piada; para quem pensa um pouco, era a afirmação de que o eleitor brasileiro é um idiota, submisso, burro, manipulável e tantos outros adjetivos pejorativos. 

Antes de tudo, a declaração de Lula foi uma afronta à democracia e revelou o descaso com que Lula e seus companheiros de partido tem pelo sistema eleitoral e pelo regime democrático. O sistema só interessa a Lula e ao PT para mantê-los no poder.

Dilma, mantendo sua agenda negativa, que testa o piso de impopularidade a cada semana nas pesquisas de opinião pública, resolveu vetar o projeto de lei que acabava com a multa de 10% do FGTS imposta às empresas e confirmou que não vai reduzir o número de ministérios, afinal o chefe acha desnecessário. 

O poste - e talvez a presidente resolva também adequar o gênero do substantivo para que seja declinado baixando algum decreto que permita se escrever "a poste" - desfez-se da máscara de boa gestora, de administradora eficiente. Em termos políticos, todos sabiam que Dilma é inábil; em termos de gestão, agora todos estão se convencendo de sua incapacidade.

Dilma se diz indissociável de Lula. É a criatura afirmando ser mera corporificação do criador, numa daquelas comparações dilmísticas um tanto quanto incompreensíveis. Se ela é indissociável de Lula, então ela é o próprio Lula e Lula é Dilma. Filosoficamente, trata-se de uma besteira típica de gente com pouca escolaridade ou de quem não tem a menor ideia do que está falando.

Em termos políticos, poderíamos aceitar a hipótese. Se assim o for, então o fracasso de Dilma será o fracasso de Lula, afinal é ele quem manda e ela tenta executar.

Agora é preciso acordar o eleitor do Nordeste, pois do jeito que as coisas caminham, a eleição de 2014 poderá representar uma grande divisão do país.