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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Assim, sem nada feito e o por fazer, de Fernando Pessoa



ASSIM, SEM NADA FEITO E O POR FAZER

Assim, sem nada feito e o por fazer
Mal pensado, ou sonhado sem pensar,
Vejo os meus dias nulos decorrer,
E o cansaço de nada me aumentar.

Perdura, sim, como uma mocidade
Que a si mesma se sobrevive, a esperança,
Mas a mesma esperança o tédio invade,
E a mesma falsa mocidade cansa.

Tênua passar das horas sem proveito,
Leve correr dos dias sem ação,
Como a quem com saúde jaz no leito
Ou quem sempre se atrasa sem razão.

Vadio sem andar, meu ser inerte
Contempla-me, que esqueço de querer,
E a tarde exterior seu tédio verte
Sobre quem nada fez e nada quer.

Inútil vida, posta a um canto e ida
Sem que alguém nela fosse, nau sem mar,
Obra solenemente por ser lida,
Ah, deixem-se sonhar sem esperar!

(Quando fui outro. Rio de Janeiro : Objetiva, 2006, p. 52)

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada, de Fernando Pessoa




QUEM ME DERA QUE EU FOSSE O PÓ DA ESTRADA

Quem me dera que eu fosse o pós da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...

Antes isto que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...

Fernando Pessoa

(Quando fui outro. Rio de Janeiro : Objetiva, 2006, p. 74)

sábado, 14 de janeiro de 2012

Navegar é preciso



Museu Nacional do Mar, São Francisco do Sul - SC (by RLBF)


Achei que faltava cor, que faltava imagem a este blog. O espaço estava árido e creio ser bom ilustrar as palavras e as sensações. No Museu Nacional do Mar, o visitante se depara com o famoso verso de Fernando Pessoa:

Navegar é preciso,
Viver não é preciso.

Navegar pelo novo ano que se inicia!

terça-feira, 14 de junho de 2011

Álvaro de Campos no aniversário de Pessoa

No dia 13 de junho de 1888, nasceu em Lisboa o grande poeta português Fernando Pessoa. Com ele, nasceram seus heterônimos e o mundo ganhou um poeta ímpar. Ontem, fez 123 anos que o poeta veio ao mundo. E para relembrar, um poema sem título de um de seus heterônimos, Álvaro de Campos.

No lugar dos palácios desertos e em ruínas
À beira do mar,
Leiamos, sorrindo, os segredos das sinas
De quem sabe amar.


Qualquer que ele seja, o destino daqueles
Que o amor levou
Para a sombra, ou na luz se fez a sombra deles,
Qualquer que fosse o voo


Por certo eles foram mais reais e felizes.

(Poemas de Álvaro de Campos. Org. Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1999, p. 362)

É melhor viver com a saudade do amor do que nunca ter amado. Se o amor se foi, resta-nos a sua lembrança; antes ter esta lembrança, do que nem isto poder rememorar.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Bóiam leves, desatentos, de Fernando Pessoa



BÓIAM LEVES, DESATENTOS
Fernando Pessoa

Bóiam leves, desatentos
Meus pensamentos de mágoa,
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
De copro morto das águas.

Bóiam como folhas mortas
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.

Sono de ser, sem remédio,
Vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.

(Fernando Pessoa. Quando fui outro.  Rio de Janeiro : Objetiva, 2006, p.68)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Mar Português, de Fernando Pessoa



MAR PORTUGUÊS


Ó mar salgado, quando do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!




Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

(Quando fui outro. Rio de Janeiro : Objetiva, 2006, p. 169)


Um dos poemas mais conhecidos do mestre Fernando Pessoa. Leitura obrigatória para todo aluno em fase de preparação para o vestibular, este poema foi o tema de minha redação no vestibular da Fuvest, lá pelos idos de 1988. Jovem, idealista, imbuído de fortes convicções políticas, dissertei sobre o potencial deste grande país do futuro que deveria abraçar a modernidade econômica sem medo. A redação levou o título Duc in Altum! (Mar Adentro em latim, coisa de vestibulando metido a besta).

Hoje, 20 anos depois, releio estas palavras com outra visão. Escolhi este poema para dar um toque de reflexão no final do ano. Tudo vale a pena / se a alma não é pequena. / Quem quer passar além do Bojador / tem que passar além da dor.


O ano que finda já passou, ficou no passado e este não pode ser mais alterado. O passado pode ser analisado, revisitado, mas não reescrito. O passado é a base, um alicerce, mas o projeto que se constrói sobre ele está em nossas mãos. O futuro, os dias vindouros, presenteia-nos com as ferramentas para modificar o projeto todo, para corrigir rumos, para direcionar esforços e energias, para redescobrir a coragem, a poesia da vida.


Não importam os erros e fracassos do ano que se esvai. Importa aprender com estes momentos e iniciar a jornada de forma renovada e vibrante. Tudo vale a pena / se a alma não é pequena.




terça-feira, 15 de abril de 2008

Travessia Pessoana

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."

Fernando Pessoa


"Quem somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe das águas."

Álvaro de Campos
(Poemas de Álvaro de Campos. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1999, p. 356)


Rasgar os grilhões que nos prendem ao passado, aventurar-se a desbravar novos mares. Não precisamos voltar aos tempos dos grandes descobrimentos para empreendermos novas jornadas. Novas jornadas podem ser jornadas interiores. Quebrar com o passado, sim! Desprender-se, inovar, renovar, seguir diante de uma realidade percebida. Há horas em que não adianta insistir, em que é preciso romper com um peso que carregamos nos ombros. Coragem!


A travessia pode ser um simples gesto, mas que custa, que dói, que machuca. Desvencilhar-se de algo que nos enraiza ao chão de tal forma que nos tornamos imóveis. Nesta travessia da vida, há atos que exigem coragem, ainda que simples. E todos temos a coragem para estas travessias! Talvez ela esteja dormente, mas ela existe no coração de cada um.

domingo, 25 de novembro de 2007

Um pouco de poesia de Álvaro de Campos


Um pouco de Álvaro de Campos para embalar as reflexões num domingo preguiçoso e abafado.


Estou vazio como um poço seco.
Não tenho verdadeiramente realidade nenhuma.
Tampa no esforço imaginativo!


(sem data e título - Poemas de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa. edição de Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1999, p. 316)



Um ser oco por dentro, assim como o poço seco. Vazio de emoções, vazio de sentido, vazia a realidade. Plana a realidade, sem relevo, sem dimensão. Escuridão que faz com que se caminhe lentamente, tateando o redor, com passos curtos e titubeantes. Momentos que afligem e inquietam, mas momentos que todos - uma vez ou outra - enfrentamos.

domingo, 30 de setembro de 2007

Álvaro de Campos


"Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Esse sorriso será para outro, ou a propósito doutro,
Loura débil...
Esse olhar para mim casual como um calendário...
Esse agradecer-me quando a não deixei cair do eléctrico,
Um agradecimento...
Perfeitamente...
Gsoto de lhe ouvir em sonho o seguimento que não houve
De conversas que não chegou a haver.
Há gente que nunca é adulta mas prematura!
Creio mesmo que pouca gente chega a ser adulta - prematura -
E a que chega a ser adulta e prematura morre sem dar por isso.
Loura débil, figura de inglesa absolutamente portuguesa,
Cada vez que te encontro lembro-me dos versos que esqueci...
É claro que não me importo me nada contigo
Nem me lembro de te ter esquecido senão quando te vejo,
Mas o encontrar-te dá ser ao dia e ao destino
Uma poesia de superfície,
Uma coisa a mais no a menos da improficuidade da vida...
Loira débil, feliz porque não é inteiramente real,
Porque nada que vale a pena ser lembrado é inteiramente real,
E nada que vale a pena ser real vale a pena."

25 de janeiro de 1929
(Poemas de Álvaro de Campos. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1999, p. 276-7).

Este poema de Álvaro de Campos não tem título. Destaco o seguinte trecho: "Mas o encontrar-te dá ser ao dia e ao destino." Fujo da temática do poema e pinço este verso, não o encontro casual de que trata o poeta, mas o encontro que muda um dia, ou aquele momento especial que muda o dia. O que o dia nos preparou, o que o destino nos reserva, não sabemos, mas sempre há momentos mágicos que evocam a alegria e a beleza do encontro, do sorriso, do recado simples que aquece a alma.

domingo, 9 de setembro de 2007

Álvaro de Campos: De la Musique

DE LA MUSIQUE

Ah, pouco a pouco, entre as árvores antigas,
A figura dela emerge, e eu deixo de pensar...

Pouco a pouco da angústia de mim vou eu mesmo emergindo...

As duas figuras encontram-se na clareira ao pé do lago...

...As duas figuras sonhadas,
Porque isto foi só um raio de luar e uma tristeza minha,
E uma suposição de outra cousa,
E o resultado de existir...

Verdadeiramente, ter-se-iam encontrado as duas figuras
Na clareira ao pé do lago?

(...Mas se não existem?...)

...Na clareira ao pé do lago......

17-9-1929

Álvaro de Campos é um dos heterônimos de Fernando Pessoa e este poema datado foi extraído da edição coordenada por Cleonice Berardinelli de "Poemas de Álvaro de Campos" (Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1999).

A figura dela emerge, e eu deixo de pensar. A clareira ao pé do lago, uma livraria, uma estação de metrô, um café no centro da cidade, um encontro casual. Tanto faz, mas o que seria de hoje se aquele encontro não tivesse acontecido? Encontro que existiu e quando a figura dela emergiu, deixei de pensar e passei a sonhar.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Fernando Pessoa : Segue o teu Destino



SEGUE O TEU DESTINO


Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.


A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

Só nós somos sempre

Iguais a nós-próprios.


Suave é viver só.

Grande e nobre é sempre

Viver simplesmente.

Deixa a dor nas aras

Como ex-voto aos deuses.


Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te. A resposta

Está além dos deuses.


Mas serenamente

Imita o Olimpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.


(Quando fui outro. Rio de Janeiro : Objetiva, 2006, p. 71)


O primeiro verso convida-nos a cuidar do nosso "jardim" interior, a cuidar de si e seguir o caminho do destino, o caminho traçado e que podemos traçar e alterar. E depois, afirma o poeta, "a realidade/ é sempre mais ou menos/ do que nós queremos".


Somos eternos insatisfeitos, querendo mudar para mais ou para menos, querendo que as coisas fossem diferentes, querendo que coisas se transformassem num passe de mágica, que o tempo andasse mais rápido - ou mais devagar, que um amor durasse eternamente, que os dias de sol não fossem tão quentes ou os dias de chuvas tão frios. A lista seria infindável.


Somos eternos insatisfeitos, material e espiritualmente, sempre buscando algo, sempre caminhado pela vida. Vê de longe a vida. Porém, não permitamos que a vida nos conduza, que sejamos meros pacientes. Precisamos ser atores, maestros, regentes da sinfonia da vida, tão bela e tão misteriosa.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Criança boquiaberta

O Programa Espaço Aberto - Literatura, de 4 de julho de 2007, trouxe uma entrevista da Profa. Cleonice Berardinelli.


D. Cleo, como é carinhosamente chamada pelos seus alunos, é professora de literatura portuguesa da PUC do Rio de Janeiro e da UFRJ. Leciona na pós-graduação das duas faculdades, dá palestras e cursos sobres literatura portuguesa. Orienta alunos no mestrado e no doutorado.

Na entrevista, Edney Silvestre atribui a D. Cleo a divulgação da obra de Fernando Pessoa no Brasil. Para qualquer pessoa, este breve currículo é invejável. E D. Cleo está prestes a completar 91 anos.

Tenho a felicidade de poder ouvi-la de tempos em tempos. Digo ouvir, apesar de serem conversas, pois pareço uma criança boquiaberta diante de uma vitrine cheia de guloseimas. Cada encontro com D. Cleo é inebriante. Para quem gosta de literatura, recomendo que assistam ao programa no site da Globo.com. A duração é de pouco mais de 20 minutos.

Desfrutem de uma mente privilegiadíssima. A declamação de um poema de Fernando Pessoa já vale o programa.

sexta-feira, 30 de março de 2007

Poesia: Fernando Pessoa


Fiquemos com o grande poeta português para encaminhar o fim de semana.


Sossega, coração! Não desesperes!

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa, 2-8-1933.



NOTA: A ilustração deste post é um desenho de Fernando Pessoa por Almada Negreiros.