quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Crônica: Pássaro


PÁSSARO


Desceram do táxi na frente do hotel. Trocaram algumas palavras, despediram-se com um longo abraço e um beijo no rosto. Ele acompanhou-a por uns 50 metros até a Siqueira Campos, quando repetiram o gesto de despedida. Partiu e ela atravessou a rua com o olhar seguindo-a.

Voltou ao hotel, inebriado, com a alma aquecida. Sentia que podia voar como um pássaro sobre a orla de Copacabana. Sentou-se na varanda do 15º. andar do prédio e releu o email que lhe havia enviado. “Será que ela o lerá hoje ainda?” – pensou. Era pouco depois das 20 horas. Todo o encontro, toda a conversa estava viva na sua mente. Cada sorriso, cada gesto, cada toque, cada palavra. Tudo fresco e maduro na memória. Pensou nas coisas que queria dizer e não disse, pensou no beijo que queria dar e não dera....mas tudo aquilo era pequeno diante da profunda alegria que o tomava.

O ponto alto do encontro foi o presente que lhe dera. O sorriso ao abrir o pacotinho contendo os brincos....ao colocá-los....tudo aquilo o fazia flutuar.

Fitava o infinito, congelado, mas ardendo por dentro um fogo prazeroso. Estava feliz, sereno, com um riso incontido. Um adolescente que acabava de desfrutar de uma companhia única, um delírio acordado, arrebatado por aquela mulher.

Não tinha ao certo quanto tempo ficou ali sentado, mas o olhar estava fixo no pequeno trecho de esquina entre a Domingos Ferreira e a Siqueira Campos, que avistava do último andar do prédio. Queria vê-la de novo, só mais um pouquinho, mais uma vez, ainda que por poucos segundos. Esperou e ela surgiu. Caminhava cansada, pois já passava das 21 horas. A visão durou pouco, mas deu um novo choque de oxitocina no seu corpo, um choque de prazer e alegria, um choque de encantamento.

Sonhou ser um pássaro e voar por sobre sua cabeça. Ou um anjo da guarda para caminhar do seu lado. Um pássaro era melhor. Pequeno, discreto, invisível, para seguir seus passos até sua casa. Pousar na janela e contemplar aquela mulher que havia aparecido em sua vida e transformado seus dias e noites. Silencioso e imperceptível. Vê-la tirar os sapatos. Vê-la beijar o filho. Vê-la cansada, mas sempre bela. Vê-la lendo o email. Vê-la reagindo. Vê-la sorrindo. Vê-la levemente sem graça.

O toque do celular despertou-o do devaneio e com ele a mensagem esperada. Ela havia lido o email e ele voltou para as nuvens, voando, novamente, como um pássaro.

2 comentários:

Edna Federico disse...

Ah, como é bom a gente ter retorno de um carinho, né.
Muitas pessoas esquecem de retribuir um gesto, uma gentileza e acabam magoando pessoas que se importam de verdade com ela.
Linda crônica!

Carol disse...

Um homem também pode ser sensível. Descreveu muito bem como um sentimento gostoso alegra a alma.