segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Michel Laub e seu Diário da Queda


"Naquela época eu falava muito pouco com o meu pai. Ele chegava em casa à noite, exausto, e eu já tinha jantado e na maioria das vezes estava dormindo. Se eu fosse contar o tempo que passávamos juntos por semana não daria mais que algumas horas, e como nessas horas estavam incluídos os discursos sobre os judeus que morreram nas Olimpíadas de 1973, os judeus que morreram em atentados da OLP, os judeus que continuariam morrendo por causa dos neonazistas na Europa e da aliança soviética com os árabes e da inoperância da ONU e da má vontade da imprensa com Israel, é possível que mais da metade das conversas com ele teve comigo girassem em torno desse tema."
(Diário da Queda. São Paulo : Companhia das Letras, 2011, p. 36)


"É a quinta vez que venho à Alemanha, e a primeira deois de ter um livro publicado aqui. Meu pai era de Berlim, emigrou para o Brasil por causa do nazismo e morreu antes do lançamento de Diário da Queda, que tem um personagem com trajetória semelhante, embora seja menos autobiográfico do que parece. Às vezes passo semanas sem pensar no meu pai, mas nos últimos dias sinto saudades dele. a viagem ganha um toque sentimental inesperado, que me faz contar em público histórias sobre ele que nunca contei. Ao mesmo tempo, a ideia de usar a memória privada de alguém para promover um livro me constrange."
(Michel Laub, "Semimorto em Frankfurt" in Revista Piauí 86, novembro de 2013, p. 34)

Meu primeiro contato com Michel Laub foi na cerimônia de entrega do Prêmio Portugal Telecom de Literatura de 2012, quando concorreu na categoria romance. Troquei algumas palavras com o escritor. No final, os convidados podiam escolher um livro para levar para casa. Escolhi o Diário da Queda (Companhia das Letras, 2011). Logo em seguida, li seu texto publicado na Granta em português (volume 9) e gostei do estilo, da forma narrativa, da novidade.

Confesso que sempre busco algo novo nos livros que leio. Quer seja um estilo narrativo, quer seja um ponto de vista ou uma forma de contar a estória. A mesmice é bestificante e pouco provoca o leitor.

Somente em outubro deste ano iniciei a leitura da obra. O primeiro terço fluiu muito rapidamente e o estilo de Michel Laub ficava mais patente a cada parágrafo, a cada página.  Em dado momento, pareceu-me que ele perde o foco narrativo, a estória derrapa, pois é contada em camadas espiraladas e a cada volta no espiral, compreende-se melhor a estória.

O livro é narrado em primeira pessoa, em tom confessional. O final surpreende pela beleza e pela epifania do narrador que aparenta redescobrir a alegria de viver.

Em síntese, o livro trata do relacionamento entre um pai e o filho (narrador), suas crises, a revolta diante da religião da família, conflitos diante da herança familiar - não do ponto de vista financeiro, mas do ponto de vista histórico e cultural -, a descrença no ser humano, a perda da razão de viver com o alcoolismo e a epifania final. 

Michel Laub trabalha com a memória, tema que tem sido tão bem explorado por escritores brasileiros contemporâneos e jovens, tais como Daniel Galera e Tatiana Salem Levy. Esta última trabalha a memória tanto em Dois Rios, como em A Chave de Casa (2007). Seria esta uma temática dominante nos jovens escritores brasileiros? Só tempo dirá.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Que venha 2014!



Que 2014 seja um ano repleto de inspiração, onde as palavras nasçam das máquinas para as páginas dos livros!

Que as palavras toquem corações e mentes, cativem, emocionem, alegrem, provoquem sorrisos, beijos, abraços!

Que a leitura seja constante companheira nos dias e noites!

Que as viagens sejam físicas e imaginárias para locais novos e que descubramos novidades nos lugares conhecidos!

Que em 2014, você leitor, você inspiração, você amigo, continue a nos visitar e a compartilhar sua opinião e suas críticas!

Feliz 2014 a todos os que por aqui passam e todos aqueles que o destino por aqui trouxer!


sábado, 28 de dezembro de 2013

Poesia: VIRADA DE ANO



VIRADA DE ANO

Não me rasgue com suas fotografias
Não me derreta com suas joias
Não me destrua com suas cartas
Não me apague dos teus sorrisos

Mantenha-me
Preserve-me
Deposite-me
Guarde-me em algum canto do teu coração.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Conto: Na noite de Natal



NA NOITE DE NATAL

Ele faltou naquele ano. E faltará em todos os anos seguintes. A ninguém é dado escolher a hora, o dia, a data, o ano, a forma. Há um momento exato em que acontece e este momento é irreversível.

Ele não veio à festa de Natal naquele ano. A casa parecia vazia. Meu coração estava vazio. Era tudo muito recente e a morte não parecia combinar com a comemoração de um nascimento. A alegria me pareceu falsa, fabricada. As crianças corriam pela sala com seus brinquedos novos em meio a papéis de embrulho rasgados, laços destruídos e fragmentos de fitas adesivas e embalagens.

Olhei ao redor. Todos rindo, comendo, bebendo, tirando fotos. A vovó sentada na poltrona no canto da sala, com o olhar distante e perdido no infinito. Percebi uma lágrima a escorrer-lhe pelo rosto. Fui até ela. Sentei ao seus pés e ela alisou meus cabelos, num cafuné amoroso e demorado.

- Quando alguém se vai, ficamos tristes, mas há alegria no céu com cada nova alma que nasce para a eternidade. O céu deve estar em festa e ele está lá com os anjos, olhando por nós, cuidando de nós, zelando para que as boas pessoas continuem ao nosso lado, intercedendo ao pequeno menino na manjedoura para que afaste de nós o mal, as pessoas egoístas, as pessoas que não querem o nosso bem.  Dói não tê-lo por perto, mas vamos mantê-lo vivo em nossos corações, vamos lembrar dele a cada memória boa, a cada estória contada para os pequenos. Vamos encontrar a alegria na dor passageira, na saudade que fica.

Abracei-a demoradamente, pois ela ainda está conosco. E suas palavras, ainda que por um momento, apaziguaram meu coração.


*   *   *   *   *

Que o nascimento do menino Jesus traga alegria e esperança para nossos corações, cicatrize as feridas e abençoe nossas vidas neste Natal.

Feliz Natal a todos os amigos, leitores e àqueles que passam por aqui.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Sentimento paradoxal


Nada é mais paradoxal do que o fogo que arde sem se ver, não queima, mas causa dor. A dor não deveria existir onde há amor, mas ela vem sorrateira, inesperada, como um ladrão na calada da noite e rouba-nos o sono tranquilo, presenteando-nos com a insônia, a inquietação, a impotência.

A dor que rouba a voz, desorganiza as palavras, paralisa-nos diante do sonho que se desfaz. Só resta derramar as lágrimas que molham o travesseiro, lágrimas silenciosas, invisíveis, inaudíveis.

Os gritos não são ouvidos, as ideias dançam sem harmonia e não há argumento a restabelecer a racionalidade do erro, a rebobinar o relógio para o dia anterior, para a semana anterior, para antes daquele e-mail fatídico e fatal. 

O balão estourou e a dor se instalou. O pêndulo oscilou da alegria incontrolável para a tristeza extrema. Como pode ser o amor tão cruel, tão paradoxal? Como pode a vida ter-lhe roubado sem dar a chance da despedida? Como pode a vida deixar a injustiça prevalecer quando o amor atraía a ambos, pintava sorrisos e iluminava os dias? Como?

Tão paradoxal o amor! Um dia alegra, faz suspirar, faz sonhar, inspira, rejuvenesce. Noutro dia açoita, maltrata, enxota, abandona, castiga.

Somente a nós compete solucionar o paradoxo.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O Livro das Palavras: uma contribuição sobre o processo criativo




"Em que medida as constantes mudanças de seus primeiros onze anos de vida e os cenários de infância ajudaram a definir seu caminho literário?

Em todas as medidas. Ao estabelecer a característica itinerante da minha vida, me deram desde o início a consciência da solidão - você é mais só quando é diferente - e da multiplicidade do mundo. E me deram, tesouro maior, a leitura - porque tudo ficava para trás a cada mudança, meus pais supriam com livros esse vazio."

(O Livro das Palavras : conversas com os vencedores do Prêmio Portugal Telecom. org. José Castello e Selma Caetano. São Paulo : Leya, 2013, p. 131)


A resposta foi dada por Marina Colasanti em excelente obra lançada pela Leya no dia da entrega do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2013. 

A obra traz entrevistas com os vencedores anteriores do Prêmio e discute o processo criativo da escrita, a literatura, a construção das personagens, dos diálogos, dos enredos. A lista contém 27 nomes da prosa e da poesia, mas todos tratando do mesmo assunto.

Para quem gosta de escrever, é leitura imprescindível e de grande valia.

Curiosas são as respostas de Dalton Trevisan, que ganhou o Prêmio, mas não compareceu à cerimônia de entrega e respondeu às perguntas por escrito.

"Nada a dizer for dos livros. Só a obra interessa, o autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor que o contista.

Vampiro, sim de almas. Espião de corações solitários. Escorpião de bote armado, eis o contista. 

Para escrever o menor dos contos a vida inteira é curta. Uma história nunca termina, ela continua depois de você." (p. 70)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Conto: Podemos ser um livro?



CONTO: PODEMOS SER UM LIVRO?



- Podemos ser um livro?

-  E que livro seríamos? Um com final trágico ou com final feliz?

- Não sei.

- Gosto de finais felizes, mas penso que há muita falsidade em finais lindos e maravilhosos, rosáceos ou coloridos. A realidade não é linda e maravilhosa, ninguém acorda linda e perfumada; bem, você é uma exceção à regra.

Ela sorriu e aceitou o galanteio com humildade, certa de que ele exagerava de novo, como fazia diante de todos os defeitos dela que pareciam se transmudar em qualidades.

- Que tal Romeu e Julieta?

- Não, teríamos que morrer no final. Se a ideia é Shakespeare, que tal A Megera Domada? Afinal, parece exigir um homem de pulso forte! – disse em tom de brincadeira.

- Gozadinho você, não? Proposta rejeitada. Vamos continuar. O que mais?

- Não penso numa tragédia de grandes proporções, como um terremoto, furacão, tsunami, afinal, estas coisas não ocorrem no Brasil. Penso que só o fato de terminarmos juntos já traria embutido uma carga trágica. Não gosto de pensar num final assim, ainda que seja provável. Prefiro os capítulos intermediários, as risadas, as briguinhas, as desavenças, a compreensão, a apreensão, o fazer as pazes, a troca de olhares. O começo já está escrito. Agora faltam os outros capítulos. Serão muitos?

-Será que conseguimos postergar o final, como uma série que nunca acaba, como se em certo momento nos dissipássemos no universo etéreo levado por um vento rumo ao poente, desmaterializados. Será?

Ele sorriu, segurou-lhe as mãos e beijou sua boca.


-Vamos tentar?

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada, de Fernando Pessoa




QUEM ME DERA QUE EU FOSSE O PÓ DA ESTRADA

Quem me dera que eu fosse o pós da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...

Antes isto que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...

Fernando Pessoa

(Quando fui outro. Rio de Janeiro : Objetiva, 2006, p. 74)

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Rabiscando nas nuvens



Dizem que o céu de Brasília é único, uma aquarela de cores, um azul profundo, uma luminosidade própria da posição geográfica em relação à inclinação do eixo terrestre. Não sei se isto tem alguma fundamentação científica e também não vou pesquisar o assunto agora, pois foge ao meu interesse. Naquela tarde, o céu não estava azul, havia nuvens carregadas e carrancudas de um lado, outras menos amedrontadoras de outro e alguns raios solares que teimavam em escapar da cobertura nebulosa e davam alguma esperança de luz aos pobres mortais amontoados no saguão de embarque do aeroporto.

Não consigo compreender a pressa das pessoas em embarcar, formando filas antes da chamada do voo, desesperadas como se o avião fosse partir e deixá-las para trás. Sou paciente para embarcar, até porque com o espaço disponível nas aeronaves, quanto menos tempo se fica confinado melhor. 

Naquela tarde, acomodei-me no assento 29A propositalmente. Meu senso de direção levou-me a imaginar a rota do avião rumo a São Paulo e quis um lugar que me permitisse contemplar o céu, as nuvens, sem que o sol me cegasse. O avião rumaria para o sul e do lado esquerdo, minha vista seria para leste. Era pouco mais de 18:30 no horário de verão quando o avião decolou. Cirrus desenhavam sinais levemente esfumaçados no céu. Até atingir altitude de cruzeiro, a visão não foi atrapalhada pelas formações nebulosas.

Aos poucos, a claridade iniciou sua diminuição e o branco que pontilhava o céu, ganhou feições de um leve tom de rosa, depois alaranjado. Recostado na lateral do assento, meu olhar fixava-se nas nuvens abaixo e suas formações sinuosas. Qual criança, comecei a imaginar figuras, mas a primeira imagem que se projetou no fundo branco foi a do teu rosto, sorriso cerrrado, as bochechas bem desenhadas quase formando covinhas no canto dos lábios, escondendo um leve rubor, o olhar vivo, alegre, o cabelo sem cair sobre a testa, deixando todo o rosto exposto.

A criança cedeu rapidamente espaço ao adulto que resolveu rabiscar novas imagens na tela das nuvens. As cores mudaram com a luminosidade cadente, os retratos alternavam-se como num álbum de fotografias, mas a imagem era sempre sua.


*   *   *   *   *

Sempre foi muito fácil conversar com você. Nunca importou o meio de comunicação utilizado, e em tempos modernos, parece que a comunicação flui de várias formas e por diversos meios, mas nunca houve um conflito de compreensão, nunca houve um entendimento errado do que se queria dizer. Isto sim, é raro nos tempos de modernos, onde as pessoas parecem não ouvir, não compreender - ou fingem não ouvir. É mais fácil fingir, fechar-se e isolar-se do resto do mundo, afinal "ema, ema, ema cada um com seus problemas", diria algum jovem.

O difícil é conter a vontade de falar, de escrever, de ouvir. Isto aconteceu-me e permanece vivo. Alguns anos se passaram e parece que a cada conversa, a cada longo e-mail, novos assuntos surgem, novas perguntas brotam, o palpitar do coração torna-se audível, o vazio se preenche.

Sempre gostei de te ouvir, de te ler, de te adivinhar. A cada dia, gosto mais. 


sábado, 23 de novembro de 2013

Poesia: QUEM SOU?


QUEM SOU?

Obrigado por seres quem és!
E quem sou?
És brisa leve de final de tarde
a amainar o calor do dia
a aquecer o coração solitário
a brindar a vida
a acariciar a pele suada
a aliviar o corpo cansado

És céu coberto de estrelas
a aquietar a saudade
a iluminar a noite escura
a compartilhar segredos com a lua
a dividir o silêncio da madrugada
a escrever nos sonhos compartilhados

És luz do dia nascente
a inspirar palavras, textos e carinho
a compartilhar sorrisos e lágrimas
a buscar minha mão que te acolhe
a provocar arrepios com o olhar
a silenciar quando lhe foge o texto

És ar, és fogo, és vida
És mulher irrepetível
És pintura magistral
És bela, és terna, és flor.

(c) RLBF - 23 de novembro de 2013

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Epígrafe - XXI



"Se houvesse apenas uma única verdade, não se poderiam pintar cem telas sobre o mesmo tema."

Pablo Picasso (1881-1973) (Revista História Viva, Ano XI, n. 121,  novembro de 2013, p. 13)


A realidade permite variadas interpretações, narrativas, versões, descrições, mas isto não a transforma a realidade única em múltipla. Da mesma forma, a verdade é única, ainda que seja descrita parcialmente ou de forma distinta. Se houvessem múltiplas verdades, o conhecimento da realidade não seria possível. 

Picasso parece confundir esta multiplicidade de versões que retratam a verdade e a realidade de forma parcial, ou seja, as várias versões sobre o mesmo tema são complementares e conduzem ao conhecimento da verdade plena e única.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Conto: Pergunte ao poeta


A brisa refrescava a orla de Copacabana um pouco mais do que o usual a ponto dela vestir um casaquinho. Estava alegre, animada com as conversas, ainda que duas taças de vinho tivessem contribuído para um certo estupor. Amigas ao redor, falavam, riam, gargalhavam, saltitavam como se fossem menininhas adolescentes. A jovialidade era notória, algo que transparecia de seu belo rosto, e o clima de camaradagem contribuía para enfeitar a noite estrelada e as luzes a pontilhar a Av. Atlântica.

Ao chegar ao Posto 6, um pequeno aglomerado de turistas alternava-se ao lado da estátua de Drummond sentado placidamente, de pernas cruzadas, mãos sobre as pernas, qual bom mineiro paciente e atento a cada foto, a cada palavra, a cada larápio que surrupiava seus óculos, a cada ouvinte que lhe pedia um conselho, a cada iletrado que não o conhecia.

Ela não hesitou, não se envergonhou. Sentou-se ao lado de mestre itabirano e puxou um fio de prosa. Gesticulava, sorria, ouvia atentamente, quase hipnotizada pelo que parecia ser uma conversa real.

- E então, conte-me, o que o poeta lhe disse? - indagou a amiga em tom de galhofa após registrar o momento numa foto.

- Ouça o vento. Dance ao som das ondas do mar. Voe com as borboletas. Sinta a vibração da floresta, abrace as árvores, agarre a vida. Inspire o aroma da primavera, da maresia. Delicie-se com os sabores do amor, do beijo, do abraço. Olhe para o céu, para a lua, para as estrelas. Sonhe. Viva. Ame. Ria. Transgrida. Deixe-se levar pelo ímpeto, enfrente a correnteza, aventure-se. Ah, e tem mais uma coisa moça bonita: diga para sua amiga que poetas falam, mesmo depois de muito tempo, quer com palavras, quer sejam estátuas. Se você não acredita, pergunte ao poeta!

(5 de setembro de 2013)

domingo, 10 de novembro de 2013

Barcarola, de Vinicius de Moraes



BARCAROLA
Vinicius de Moraes 


Parti-me, trágico, ao meio
De mim mesmo, na paixão.
A amiga mostrou-me o seio
Como uma consolação.

Dormi-lhe no peito frio
De um sono sem sonhos, mas
A carne no desvario
Da manhã, roubou-me a paz.

Fugi, temeroso, ao gesto
Do seu receio modesto
E cálido; enfim, depois

Pensando a vida adiante
Vi o remorso distante
Desse crime de nós dois.

(As Coisas do Alto. São Paulo : Companhia das Letras, 1993, p. 113)

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Voar

Gosto muito de voar. Desde os tempos imemoriais da Pan Am - pioneira de voos intercontinentais, da época em que a Varig era um primor de serviço e orgulho de brasileiros nos voos internacionais,  da Vasp e da Transbrasil. Lembro-me do Electra na ponte aérea, fato que denuncia minha idade e sobre o fascínio que voar despertou em mim ainda bem criança.

Congonhas era um lugar para passeios esporádicos, para apreciar os aviões de perto. Meu fascínio por aviões brotou no berço, por vê-los decolar e aterrisar, manobrarem nos pátios dos aeroportos. Gosto do agito das pessoas nos aeroportos, onde vidas se cruzam apressadas, onde viagens são iniciadas, onde beijos sinceros são trocados, onde lágrimas são derramadas em despedidas demoradas, onde profissionais cansados retornam ao lar.

O tempo passou e voar não deixou de me encantar. Os aviões são apertados, os aeroportos tumultuados, o glamour se foi, mas a beleza de voar permanece. Apesar de todos os transtornos, apesar dos péssimos aeroportos brasileiros que (des)tratam os passageiros como se fossem uma commodity e não como a razão de ser das companhias aéreas, voar é um momento cheio de magia.

Acomodo-me na janela e admiro o que se desenha por debaixo do pássaro de aço. Qualquer viagem, não importa o destino, descortina uma visão nova do que se passa no solo. Estradas que serpenteiam morros e serras, o mar a beijar o litoral e por vezes delineado por dunas ou montanhas, rios que rasgam o solo como veias a irrigar suas margens e desaguar no mar, formas geométricas que acarpetam o chão plantado com o pujante agronegócio pelo Brasil a fora. A visão do alto tem seu lado poético e inspira a admirar ainda mais este nosso país que é  "bonito por natureza", como canta Jorge Benjor.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Escrever é experimentar!

O exercício de escrever é uma viagem interior, um mergulho no próprio eu. Por que não experimentar?

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Ultrapassando limites



O Monumento às Bandeiras é um dos símbolos de São Paulo. Escultura de autoria de Victor Brecheret,  o monumento fica ao lado do Parque do Ibirapuera e retrata os bandeirantes que desbravaram o sertão brasileiro e foram responsáveis pela expansão do território nacional. O monumento amanheceu pichado e pintado com tinta vermelha na última quinta-feira. Uma afronta ao patrimônio público paulista e um daqueles crimes que parecem ser relevados pelas autoridades.

A autoria é conhecida. Um grupo de indígenas que se manifestaram na av. Paulista contra uma PEC (projeto de emenda constitucional) que prevê alterar a competência para a demarcação de reservas indígenas foi a justificativa da manifestação. Terminaram sua caminhada no Monumento às Bandeiras e perpetraram o delito. Revoltam-me profundamente os atos de pichação e depredação de patrimônio público. Manifestação tem limite e este limite foi ultrapassado neste caso!

Na mesma linha é preciso restringir a conduta dos chamados Black Blocs, grupo de mascarados que se autointitulam como anarquistas, mas são na verdade baderneiros sem causa e que lutam contra a ordem estabelecida, ou seja, não seguirão o caminho da legitimidade para levar a cabo as mudanças que propõem. Manifestações que terminam com depredação e violência são uma afronta ao regime democrático e devem ser repelidas - as depredações, é claro. A liberdade de manifestação é ampla, mas quando se ultrapassam os limites da razoabilidade e da ordem, o Estado deve agir e restabelecer a ordem.

Não há causa que justifique a pichação e a depredação do patrimônio público ou privado.


terça-feira, 17 de setembro de 2013

Todos os olhos em Celso de Mello


Amanhã o Ministro Celso de Mello proferirá seu voto acerca do cabimento de Embargos Infringentes na Ação Penal no. 470 (caso do Mensalão). A votação está empatada em 5 a 5. O voto provocará o desempate - para o bem ou para o mal.

Trata-se de questão processual e há argumentos sólidos dos dois lados, mas parece-me que o ponto central pode ser resumido em forma vs. conteúdo. Qual deve prevalecer?

Espero que a decisão seja contrária ao acolhimento dos Embargos Infringentes. Tantas vezes ouvi que o  Supremo interpreta a Constituição, mas sempre há um viés político. Agora, é preciso que o viés político seja deixado de lado para privilegiar a cidadania e a crença da população no Judiciário. 

O acolhimento dos Embargos representará o inexplicável triunfo da impunidade, da corrupção e de políticos que fazem uso da coisa pública, como se privada fosse. A população não vai entender e isto poderá gerar uma justiça amplamente desacreditada. A lentidão da justiça já é de difícil explicação e a sua imprevisibilidade ainda mais complicado. O corporativismo que impera no Judiciário tem prejudicado a efetiva prestação jurisdicional capaz de pacificar conflitos. 

Amanhã será um dia de grande importância e será um momento histórico no Judiciário brasileiro. Vamos aguardar.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Viva a independência!





Feliz o povo que desfruta da verdadeira independência, que sabe pensar sozinho, que sabe se indignar diante dos desmandos, descasos e mentiras.

Feliz o povo que usa a arma do voto para eleger aqueles que compartilham de suas ideias e de suas virtudes, de seus princípios e de suas crenças.

Feliz o povo que é livre e não é sujeito a manipulações, à propaganda enganosa, a programas de governo de cunho demagógico.

Feliz o povo que vai às ruas para protestar e para delinquir.

Feliz o povo que coloca a lei acima do dinheiro, que coloca o bem comum acima de interesses pessoais, que tem a sorte de contar com líderes preocupados em servir, e não em serem servidos.

Prisão aos corruptos! Liberdade de expressão ao povo! Mais educação e menos corrupção.

País rico é país com povo que sabe pensar!

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Conto: Jogo da Memória


JOGO DA MEMÓRIA


Nunca se sabe o que um novo dia nos reserva. A agenda previa uma longa, tensa e cansativa reunião na parte da tarde, que muitas deixavam de ser tensas e se transformavam em tediosas revisões de contratos prolongadas por advogados ávidos em aumentar o número de horas trabalhadas. A consequência era esfaquear um pouco mais o cliente combalido. Bastava o fato de ter que sair do escritório e dirigir até a Vila Olímpia, um microcosmo do caótico trânsito de São Paulo adicionava o tempero negativo do dia. Mas, obrigações são obrigações e ele não deixaria de cumpri-las.

O trânsito colaborou, o prédio modernoso era simpático e a sala de reunião muito bem iluminada com luz natural. A máquina de Nespresso, objeto que parece ter se tornado tão obrigatório em qualquer sala de reunião quanto televisão de tela plana, era uma tentação para um bom café após o almoço. A conversa fiada com o cliente foi regada a um bom espresso e amenizou a tensão que pairava no ar. A outra parte atrasou um pouco, mas a inconveniência da espera se dissipou como a fumaça de um cigarro que se dispersa no ar após algumas piruetas. 

A adversária que entrara no ringue de batalha enfraqueceu o espírito beligerante. Era uma bela mulher, baixa, cabelos castanhos pouco abaixo do ombro, traços finos, despida de anéis e unhas sem esmalte. O olhar dela despertou-lhe a memória que se viu incomodada. Algo naquele olhar lembrava-lhe de alguém. Enquanto as formalidades iniciais eram cumpridas, ele mergulhava dentro de si na tentativa de um resgate de memória.

A memória é curiosa e marota. Gosta de pregar peças, gosta de provocar e de atiçar. Por anos foi atormentado por um perfume floral. Bastava sentir aquele aroma que a imagem de uma antiga namorava se materializava, tanto quanto a raiva que sentia por ela depois da inevitável dispensa. No fatídico dia, ela exalava o aroma que se tornara tão odioso. Mas, sua pródiga memória reunia tons de voz, sotaques, trejeitos, tiques, músicas. Oscilava e transitava por todos os sentidos, compondo lembranças das mais variadas e muitas alegrias. Nem só de amargura, ódio e tristeza vivia sua memória. 

A turbulência que se desenhava foi rapidamente superada com a primeira intervenção da colega. O sotaque carioca, irritante para muitos paulistas - inclusive seus clientes -, soava-lhe qual sinfonia magistral. A entonação e o timbre de voz rapidamente permitiram que ele decifrasse a charada. Sua memória foi ágil e eficiente. Em poucos segundos deixara a Vila Olímpia e estava conversando sobre música na velha e inesquecível Modern Sound, numa manhã de junho, em insuperável companhia. 

A cada palavra, cada gesto, deixavam a semelhança ainda mais inquietante. Sorria por dentro, discreto, contido, tentando disfarçar sua perplexidade diante do jogo da memória, diante da surpresa do dia, diante de tantas coincidências. Num dia que parecia tão azedo e tão sem perspectivas, a vida provocou-lhe a memória de forma a torna a tarde uma viagem no tempo.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Uma face do Brasil


Poucos minutos depois de chegar em Sobradinho, lembrei-me de Graciliano Ramos. O táxi passou por uma escola pública, fez o retorno e virou numa avenida que tinha a aparência de via principal. Algumas quadras adiante e cheguei ao fórum. Prédio de dois andares, com boa aparência, nada novo, mas com boa conservação. Lugares novos sempre trazem consigo uma curiosidade, uma expectativa. Entrei, fui dispensado de passar pela revista e pelo detector de metais, e caminhei pelo corredor central do fórum. E Graciliano Ramos me acompanhava.

Nas cadeiras, mães com crianças de colo, idosas, alguns poucos casais. Todos tinham algo em comum: buscavam algum direito ou batiam às portas da justiça para fazer valer sua cidadania. Uma vara exclusiva para tratar de violência doméstica. Não consigo presenciar tais cenas e permanecer indiferente.

Desde que comecei a escrever, percebi a importância de observar, de ficar atento ao drama humano que nos cerca, que poderia passar despercebido, afinal estava ali a trabalho e tantas e tantas vezes já fui em fóruns em diversos recantos do país. Sobradinho tinha uma aura triste, uma cidade refém, um pequeno distrito de periferia como tantas outras. Ser cidade satélite de Brasília parece ter relegado Sobradinho à sina de cidade dormitório, sem perspectivas, com pouca atividade, com poucos recursos. A ideia de cidades satélite parece ser uma forma de esconder a pobreza, algo que sempre vi como contraditório na concepção da Brasília de Oscar Niemeyer, um comunista que não conseguiu manifestar seu ideário nas suas obras e projetos. Por que esconder a pobreza?

Sentei-me numa das cadeiras e fiquei a observar rostos, ouvir conversas entrecortadas, xingamentos a companheiros que fugiram e deixaram de pagar pensão, crianças sem amparo, idosos esquecidos pelo Estado que lhes deveria garantir tratamento digno de saúde. Lembrei-me de Graciliano Ramos.

Graciliano Ramos foi um escritor brasileiro engajado, comprometido com a causa social. Ainda que não  compartilhe de sua visão política, admiro sua percepção do drama humano tão presente em suas narrativas, tais como Vidas Secas e São Bernardo. Li esta última obra pela primeira vez no ensino médio - e para variar -, discordei da maioria dos meus colegas que odiaram o livro. Gostei muito do estilo de Graciliano e da estória. O drama humano retratado sem cortes, com tons fortes e pinceladas precisas. 

Ninguém vai a Sobradinho para fazer turismo; ninguém vai a Sobradinho a passeio. Fiquei com a impressão de que seus moradores sonham em sair de Sobradinho um dia, para nunca mais voltar.

domingo, 11 de agosto de 2013

Dia dos Pais


- Pai, posso ler uma história para você?

A pergunta foi lançada por meu filho, logo após tomar banho e enquanto aguardava o horário do jantar. Havíamos chegado ao hotel fazenda naquela tarde, estava cansado da viagem e queria usar o tempo para iniciar um novo livro que levara comigo. A resposta negativa foi a primeira que me veio, porém, quando comecei a responder negativamente, algo me fez mudar de ideia. Rapidamente a resposta foi transmudada em positiva quando saiu pela minha boca.

De posse de seu livro, leitura obrigatória de férias, ele pôs-se a ler sentado na varanda do chalé. O livro era divertido e a percebi o prazer na leitura na entonação dada. Que história é essa, de Flavio de Souza (Companhia das Letras), narra histórias conhecidas, contos de fada, mas explica para o leitor como há versões para as histórias e como elas se transformaram ao longo do tempo.

Minha filha, que também sentou-se para ouvir o irmão ler, abraçou a discussão, pois estava lendo As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi (Cosac Naify). Nossa pequena tertúlia literária tratou de como os livros são mais ricos do que as adaptações cinematográficas, de como os contos de fada são adaptados de acordo com a cultura local e por aí fomos. 

Observava mais do que falava, apenas provocando e instigando a discussão. A conversa era prazerosa e fiquei feliz de ter respondido positivamente. Este era um daqueles momentos de interação pais e filhos que permanecerão guardados na memória com orgulho de notar o crescimento das crianças. 

Percebi - e percebo isto a cada dia com mais clareza - que ser pai é um ato de servir. A paternidade, com toda a sua beleza e riqueza, com todas as dores e conflitos, com todas as suas frustrações e momentos de rigor, resume-se na generosidade de servir. Há um quê transcendental neste esforço - por vezes silencioso e despercebido -, e a cada gesto amealhamos mais uma moeda no tesouro celeste. 

A riqueza de ser pai está no sacrifício que nos torna  pessoas melhores e na recompensa de servir com amor incondicional os filhos que nos foram confiados. 

Um feliz dia dos pais a todos!

domingo, 28 de julho de 2013

Dilma, o poste e o criador


Por algum tempo deixei de comentar sobre política neste blog, mas ultimamente a quantidade de sandices e barbaridades cometidas por "nossos" governantes me obrigam a escrever. Afinal, foi a política que levou este blog a ser citado em uma dissertação de mestrado na área de comunicação. Mas parei de escrever sobre política, pois sentia-me órfão - ainda sinto-me órfão - de representantes que pareciam totalmente desligados da vontade do eleitor. 

Na última eleição de Lula em 2008, fui votar com nariz de palhaço. Este sentimento continua a existir em mim, mas não desanimo. Agora é preciso voltar a criticar e atacar e permear minhas experiências literárias com questões políticas. 

Dilma soltou mais uma pérola: "Lula não vai voltar porque ele não saiu."(vide aqui).

A afirmação é  confissão de que ela nunca mandou, nunca governou, mas apenas cuida do Planalto, finge que governa e, como um boneco de ventríloquo, diz e faz o que o chefe manda. Lula na eleição disse que se ele escolhesse um poste, o poste seria eleito. O primeiro poste foi eleito. A declaração ofensiva a todos os eleitores brasileiros foi vista apenas como piada; para quem pensa um pouco, era a afirmação de que o eleitor brasileiro é um idiota, submisso, burro, manipulável e tantos outros adjetivos pejorativos. 

Antes de tudo, a declaração de Lula foi uma afronta à democracia e revelou o descaso com que Lula e seus companheiros de partido tem pelo sistema eleitoral e pelo regime democrático. O sistema só interessa a Lula e ao PT para mantê-los no poder.

Dilma, mantendo sua agenda negativa, que testa o piso de impopularidade a cada semana nas pesquisas de opinião pública, resolveu vetar o projeto de lei que acabava com a multa de 10% do FGTS imposta às empresas e confirmou que não vai reduzir o número de ministérios, afinal o chefe acha desnecessário. 

O poste - e talvez a presidente resolva também adequar o gênero do substantivo para que seja declinado baixando algum decreto que permita se escrever "a poste" - desfez-se da máscara de boa gestora, de administradora eficiente. Em termos políticos, todos sabiam que Dilma é inábil; em termos de gestão, agora todos estão se convencendo de sua incapacidade.

Dilma se diz indissociável de Lula. É a criatura afirmando ser mera corporificação do criador, numa daquelas comparações dilmísticas um tanto quanto incompreensíveis. Se ela é indissociável de Lula, então ela é o próprio Lula e Lula é Dilma. Filosoficamente, trata-se de uma besteira típica de gente com pouca escolaridade ou de quem não tem a menor ideia do que está falando.

Em termos políticos, poderíamos aceitar a hipótese. Se assim o for, então o fracasso de Dilma será o fracasso de Lula, afinal é ele quem manda e ela tenta executar.

Agora é preciso acordar o eleitor do Nordeste, pois do jeito que as coisas caminham, a eleição de 2014 poderá representar uma grande divisão do país.

domingo, 21 de julho de 2013

Microconto - XIII


- Sinto que te perdi.

- Não, você não me perdeu. Nunca me conquistou. - retrucou ela com firmeza.

sábado, 13 de julho de 2013

terça-feira, 9 de julho de 2013

Dilma continua perdida


Um grupo de pessoas foi às ruas. A passagem de ônibus foi reduzida em muitas cidades. O MPL então baixou a bola. Dilma fez um pronunciamento à nação e definiu metas, todas vazias, promessas de campanha requentadas, citou uma constituinte exclusiva, insistiu na importação de médicos cubanos, afirmou que destinaria recursos para mobilidade urbana, investiria em saúde e educação.

A constituinte exclusiva foi rechaçada como ideia golpista, semelhante ao que fizeram Chávez, Evo Morales, Cristina Kirchner e Rafael Correa. Voltou atrás e lançou a proposta de um plebiscito para que se realizasse a reforma política. O plebiscito fez água. O Congresso, aproveitando a deixa, agilizou algumas propostas pontuais de reforma política, como acabar com o voto secreto e eliminar os suplentes de senador.

Agora Dilma, muito mal assessorada por Mercadanta (não há erro de digitação) e José Eduardo Cardozo, resolveu que os alunos de medicina serão obrigados a prestar serviço social público por 2 anos após a conclusão do curso regular. A ideia é estapafúrdia, casuística e uma cortina de fumaça para dar a impressão de que está fazendo algo - ou de que sabe o que fazer e em que direção deve seguir. 

Dilma continua perdida e revelou-se uma péssima gestora, sem ideias, sem programa e sem a capacidade de fazer o diagnóstico correto dos problemas brasileiros. Enquanto a economia afunda e a credibilidade do Brasil no exterior evapora, Dilma não toca em Guido Mantega, outro incompetente da equipe e agora vai presenciar um processo de deserção de sua base política. Parece que sua reeleição - que soava tranquila - será uma dura batalha e se a popularidade continuar a cair, o projeto de poder do PT será enterrado.

Dilma poderia tomar medidas rápidas e imediatas que soariam muito bem com a população, tais como extinguir ministérios, obrigar o BNDES a rever a política de crédito para as empresas de Eike Batista, arquivar o projeto do trem bala, conceder isenção de tributos nas tarifas de pedágio, reavaliar a forma de nomeação de diretores das agências reguladoras, reduzir o número de cargos comissionados no governo, e por aí vai. Há uma série de medidas concretas que ajudariam o país de imediato e melhorariam sua popularidade.

Enquanto o movimento das ruas aproveita as férias, Dilma consegue respirar, mas é preciso insistir, pois parece que o eleitor brasileiro finalmente descobriu que sua voz tem força e que esta força é capaz de mudar o país. Esta força chama-se voto e a arma é a urna!

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Epígrafe - XX


"Impossível me fatigar com a contemplação do teu rosto."
RLBF

Frase rascunhada por mim, inspiração que não se pode deixar voar e se perder.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Conto: Passagem do Tempo



PASSAGEM DO TEMPO



Parou diante das amplas janelas de vidro do berçário, as mãos nos bolsos, a calmaria ainda reinava em mais uma manhã que começava no hospital maternidade. Julia, Sophia, Lucas, Vinicius, Rafaella, Augusto. Dormiam o sono dos justos os recém-nascidos que ignoravam o que o mundo lhes reservava. Tocado por aqueles pequenos seres, refletiu sobre o que a vida lhe brindara. Não experimentaria a paternidade de novo. Ao menos não na forma natural e com a atual esposa que já devia ter entrado no centro cirúrgico para uma histerectomia.

Sentiu o peso dos anos, a passagem do tempo, o envelhecimento que presenteara com cabelos brancos visíveis, mas sem qualquer sinal de calvície.  A pequena Julia não se mexia. Dormia calma, tranquila, coberta por um cobertor rosa, cabelos espetados e bem escuros. O sorriso discreto e contido desenhou-se no seu rosto, sem esconder a melancolia, a frustração de não ter atingido muitos dos objetivos a que tinha se proposto. Cobrava-se por isto.

Lembrou-se da primeira vez que viu a filha no berçário, olhos abertos, atenta, desperta para o mundo e curiosa por tudo que a cercava. Chorou naquele momento em que a paternidade se descortinou. Chorou de uma maneira única e que lhe marcaria para sempre. As lágrimas derramadas naquela madrugada tiveram o dom de cavar sulcos profundos em seu coração, que parecia ser de granito.

Os ensaios haviam acabado e o momento da estreia havia chegado. Em cartaz, o pai.  Buscou na memória os bons e maus momentos em que se apresentara em cena. No geral, avaliou bem seu desempenho,  sem falsa modéstia. Era um bom pai. Tinha sido e continuava a ser. E pedia a Deus, todos os dias, que continuasse a ser. Disfarçava suas fraquezas, poupava os filhos e a esposa das dificuldades financeiras e das noites mal dormidas, omitia as vezes em que deixava de almoçar para economizar o dinheiro e destiná-lo para algum fim familiar.

O vazio inicial foi preenchido com a sensação de realização, de trabalho bem feito, do sacrifício valer a pena, de ter cumprido a missão que lhe fora confiada até o momento. Não experimentaria a paternidade de novo.  Vivia a paternidade diariamente e isto ninguém seria capaz de lhe tirar. Apesar dos pesares o que tinha era de uma riqueza incalculável.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Passe Livre?


Dois líderes do Movimento Passe Livre estiveram no Programa Roda Viva, da TV Cultura, no dia 17 de junho de 2013 (um trecho do programa segue abaixo).

Este movimento seria o começo, o ponto de partida das manifestações que tomaram as ruas do país. Mas será que o Passe Livre é realmente um movimento amplo ou com um propósito restrito?

Um dos líderes do Movimento, Lucas Monteiro de Oliveira, afirma que o objetivo do movimento é a redução da tarifa de ônibus em São Paulo para R$ 3,00 e que a tarifa de ônibus deveria ser zero.

O site do MPL explana que o MPL "é um movimento social brasileiro que luta por um transporte público de verdade, fora da iniciativa privada. Uma das principais bandeiras do movimento é a migração do sistema de transporte privado para um sistema público, garantindo o acesso universal através do passe livre para todas as camadas da população." (fonte: MPL)

Há links para diversas seções, separadas por cidades. Na seção específica de São Paulo o conteúdo é melhor (veja aqui).

Em certo trecho do programa, Nina Cappello, líder do MPL, sustenta que o governo deveria deixar de gastar com a construção de presídios e direcionar os recursos para o transporte público.

A proposta do MPL é que o transporte público seja gratuito, não importando que outras áreas sejam afetadas ou tenham menos recursos disponíveis. Se a educação, a segurança e a saúde forem prejudicadas ou sofrerem redução de verbas, isto não é um tema que preocupa o MPL.

É possível que os ônibus sejam gratuitos? Claro que sim, mas para isto há um custo que deverá ser bancado por alguém e este alguém é você, meu caro leitor. O dinheiro virá dos tributos arrecadados pelos entes do Estado (União, Estados e Municípios). Reportagem da Folha de São Paulo demonstra que o IPTU teria que ser dobrado para bancar a catraca livre (leia aqui).

Há no Brasil apenas 2 cidades com trasnporte público gratuito: Agudos (SP) e Porto Real (RJ). E como elas conseguiram isto? Estas duas cidades têm um volume de repasse de ICMS decorrente de fábricas instaladas no município que garantem uma receita orçamentária muito maior do que os gastos da cidade. A matemática é simples. São municípios menores, com menos estruturas e menos serviços, e por isto, conseguem oferecer transporte público gratuito.

Interessante que os líderes insistem em afirmar que o movimento não tem lideranças, que são todos iguais, que a "estrutura é horizontal". Tentar dar o caráter espontâneo ao movimento, despido de uma figura única na liderança, é característica conhecida de movimentos anarquistas e semelhantes movimentos como o Occupy Wall Street. Todos estes movimentos e seus militantes cansaram, os protestos exauriram-se, pois não há causa a justificar a mobilização. O anarquismo não prospera no Estado Democrático de Direito.

Bem, neste caso há uma causa: a redução da passagem de ônibus. E se o MPL conseguir a redução, então o que virá? Nada. O movimento se exaure até o próximo aumento. A causa não tem visão de longo de prazo, não propõe alternativas, medidas, não utiliza dos caminhos legítimos para propagar suas ideias e defender seus interesses. Eis a grande fraqueza do MPL, que é um movimento legítimo: o MPL não sabe usar os meios previstos institucionalmente para buscar as mudanças que propala.

O MPL tem como objetivo alcançar algo que é totalmente discrepante da realidade e parte de premissas equivocadas, mas isto será objeto de outro post, onde traremos nossa opinião sobre este movimento.

As manifestações que se sucederam extrapolam a causa do MPL que está abismado com a mobilização geral de tantos brasileiros indignados. Mas, volto à pergunta, indignados com o quê? Dizer-se indignado com tudo é o mesmo que não se indignar com nada, ou seja, quem se propõe a mudar tudo, não muda nada. O povo pode estar na rua, mas é preciso saber por qual razão!

Este é o primeiro post de algumas reflexões sobre o que está ocorrendo no momento atual do Brasil.


domingo, 9 de junho de 2013

Crônica: Tabuleiro da Vida



Os dados são lançados. Um passo adiante é dado e assim a casa das dezenas da idade é alterada no tabuleiro da vida. Quando se avança uma casa, não se retrocede, não há mais volta. O tempo é inexorável e não permite que o relógio seja reiniciado; o relógio corre, sempre, sem parar.

O constante passar do tempo, comemorado a cada ano, a cada aniversário, é motivo de celebração. Vencemos mais um ano, somos presenteados com um novo capítulo em branco, a ser preenchido com memórias, a ser escrito com decisões, emoções, alegrias, percalços, solavancos, saltos, conquistas, sorrisos, abraços, beijos, desejos. Comemorar mais um ano é celebrar a vida, a sobrevivência nesta selva moderna de tantas armadilhas.

Alguns se lamentam com a idade que avança; alguns se deprimem com a percepção de que somos finitos nesta passagem terrena e os quarenta anos são um indicativo de que já percorremos uma boa parte da jornada. Não sou exceção e também senti o peso dos anos, mas percebi que este período lança a luz da perspectiva sobre o passado e o futuro. Parece que subimos numa alta colina, sem conseguir avistar muito adiante, mas com plena visão do que ficou. E o que ficou é bom, muito bom.

Houve lágrimas, houve tristeza, houve momentos de desespero e indignação. Seria possível seguir adiante? Por que a vida se revela tão cruel comigo? As perguntas são respondidas pelo tempo, pelo nascer do novo dia, pela perseverança e determinação. As lágrimas servem para regar a vontade forte que brota de um coração gigante.

Amigos foram feitos, trazidos pelo acaso; filhos são gerados e nos dão um sentimento de legado, de permanência, de tradição de uma história pessoal; pais são valorizados e apreciados; os bens são relativizados e parece que ganham seu devido lugar na hierarquia das coisas; o transcendental dá sinais mais fortes, provocando-nos, sugerindo-nos de que a vida é efêmera e é preciso cuidar da alma.

A idade não é cruel, não rouba a beleza e a juventude. Pelo contrário, deixa a mulher mais plenamente bela, mais profunda, mais decidida, mais interessante. O brilho no olhar, a paixão pela vida, o sorriso sedutor, adentram o tabuleiro com força total, mais enérgicos, cativantes e encantadores. O invólucro cede ao conteúdo.


É possível passar horas admirando uma mulher em sua maturidade discorrer sobre qualquer tema. A beleza é sutil, discreta, natural. O encanto é delicado. A voz é despida da estridência tão própria da juventude e ganha um caráter aveludado, firme, compreensivo. Mentiria se dissesse que uma jovem mulher é mais sedutora ou interessante.  A idade e o tempo são generosos com quem sabe dar importância ao que realmente é importante. Sábia é a natureza, sábia é a vida, sábio é este jogo que jogamos no tabuleiro da vida.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

A Jogadora de Xadrez


Fazia um bom tempo que não terminava um livro em pouco mais de uma semana, assim também há um bom tempo que não faço uma resenha para o blog de minhas leituras. Minhas últimas leituras recaíram sobre livros de não ficção (principalmente história do Brasil) e contos esparsos em revistas literárias e algumas coletâneas. Esta leitura variada não permite a unicidade da crítica. Mas o romance de estreia da alemã Bertina Henrichs, escrito em francês e com tradução de Bernardo Ajzenberg, obriga-me a trazer minhas impressões da obra.

A edição da Editora Record é de 2010 e o livro ganhou uma adaptação para o cinema estrelada por Sandrinne Bonnaire e Kevin Kline, com o título em português de O Xeque da Rainha.

O romance conta a estória de uma camareira de um hotel numa ilha grega. Eleni seguia sua rotina diária de trabalho e repara num casal de hóspedes franceses que jogavam xadrez no quarto. Interessa-se pelo jogo e mergulha no mundo fascinante do jogo dos reis, no universo das 64 casas que fascina grandes mentes ao redor do mundo.

A prosa é leve, ágil e a vida da ilha transcorre em traços mal acabados. Tem-se a impressão de Henrichs não gasta tempo em demasia com descrições inúteis e detalhes pouco úteis na composição das personagens e na construção do enredo. Assemelha-se a narrativa à um desenho cujos traços à lápis estão presentes, mas sem cor, sem acabamento, sem os retoques finais. Este estilo dá margem a certas dúvidas e incertezas, mas permite ao leitor preencher aparentes lacunas que surgem na estória. 

O xadrez é o pano de fundo da estória, o fio condutor, mas não impede o leitor pouco familiarizado com o jogo de deixar de compreender, nem tampouco há descrições detalhadas do jogo que entediariam  o leitor. Há algumas imprecisões (não sei se no original ou na tradução) que não passam despercebidas a um enxadrista, mas isto não tiro o brilho do livro e da beleza da estória.

São 160 páginas onde o leitor é conduzido pela vida pacata da ilha. Eleni se apaixona pelo jogo e esbarra na resistência - e nas fofocas - dos moradores da ilha em aceitar algo diferente. O súbito interesse de Eleni pelo xadrez é visto com desconfiança e estranheza, algo que abala seu casamento, levanta dúvidas sobre sua conduta e hábitos. O final, bem o final cabe ao leitor descobrir.

Não se trata de um clássico, mas sim de um livro delicioso, cativante e cuja estória encanta e convida o leitor a refletir. Há tantas situações cotidianas que são relevadas ou vistas com descaso, ou às quais atribuímos pouca importância e que revelam grandes avanços pessoais resultados de luta interior constante. A leveza da escrita e da narrativa transformam a leitura do livro em momentos de prazer, qual um período de férias na ilha grega de Naxos, onde se passa a narrativa. 


quarta-feira, 22 de maio de 2013

Epígrafe - XIX





Pela primeira vez na vida, sentiu necessidade de um horizonte mais amplo. A ilha pareceu-lhe, de repente, tão terrivelmente pequena, que se sentiu quase oprimida. Nunca antes havia experimentado fisicamente os limites de Naxos, um pequeno pedaço de terra cercado pelo mar. ‘Não sei nem nadar’, pensou ela, como se isso pudesse alterar alguma coisa.” 



(Bertina Henrichs, A jogadora de xadrez. Trad. Bernardo Ajzenberg. Rio de Janeiro : Record, 2010, p. 47 )

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Reflexões soltas



Às vezes a inspiração me foge, as palavras desobedecem, comportam-se mal, não param quietas, algo semelhante a remontar um aparelho eletrônico depois de desmontado, quando as peças não se encaixam e sempre parece sobrar algum parafuso. Talvez fosse a ausência do silêncio; talvez a falta de recolhimento; talvez a falta de leitura; talvez o excesso de trabalho; talvez a sua falta.

Um texto e mais outro que não me agradaram, ficaram disformes, sem fluidez, pedra bruta não lapidada e que ao tentar lapidar, quebrava-se. As ideias confusas e a irritação aumentava. Inspiração parecia ter-me abandonado para sempre. Frustrei-me. Deixei mais um texto de lado, pela metade e segui o conselho de Ignácio Loyola Brandão: se a inspiração lhe escapa, procura-a na rua. Lancei-me no caminho a observar. Sem sucesso. Sem aviso, bastou-me avistar teu rosto que a inspiração pareceu jorrar água da mina mais pura.

Josué Montello tinha por hábito iniciar sua jornada como escritor com o dia ainda escuro. Sempre estranhei tal hábito, pois demorava um pouco a despertar e a organizar as ideias. Com os anos de vida percorridos, as horas frescas da manhã são as mais prolíferas. A mente limpa torna as ideias mais cristalinas e precisas, os resquícios dos sonhos da noite anterior dão pistas e sugestões para o dia que nasce, alimentam a inspiração, sugerem uma conduta ou aventura a algum personagem. Basta vencer a preguiça que as palavras se comportam igual às crianças com seus uniformes ainda limpos no início de uma jornada escolar.

sábado, 20 de abril de 2013

Poesia: ABRAÇO


ABRAÇO


tem abraço que parece beijo
tem beijo que parece morte
tem morte que parece festa
tem festa que parece reunião
tem reunião que parece descaso
tem descaso que parece amor
tem amor que parece sofrimento
tem sofrimento que parece alegria
tem alegria que parece carência
tem carência que parece grito
tem grito que parece suspiro
tem suspiro que parece socorro
tem socorro que parece abraço

(c) RLBF

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Um livro, dois momentos


"'Would you tell me, please, which way I ought to go from here?'
'That depends a good deal on where you want to get to,' said the Cat.
'I don't much care where - ' said Alice.
'Then it doesn't matter which way you go,' said the Cat.
'- so long as I get somewhere,' Alice added as an explanation."

(Lewis Carroll. Alice's Adventures in Wonderland. Penguin Books : London, 2008, p. 66-7)

Outro dia, percorrendo a esmo a seção de literatura estrangeira da Livraria da Vila do Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, deparei-me com uma coletânea de textos de Edgar Allan Poe, edição em inglês da Penguin Books, em brochura. Abri o livro e deparei-me com um conto que li na adolescência. The Fall of the House of Usher foi um daqueles textos que odiei ter que ler. A obrigação de lê-lo tirou a beleza e a relevância do texto, deixando-o sem compreensão suficiente. Seguiram-se The Raven, The Tell-tale Heart e alguns outros. 

Aos poucos fui encaixando Poe no contexto histórico do século XIX e seus textos passaram a fazer algum sentido. A obrigação transformou-se em leve prazer, mas a obrigação de ler os textos ainda pesava. Entendia que era necessário para minha formação e que era necessário conhecer os textos clássicos. Alguns deixaram suas marcas, outros meros riscos superficiais que imaginava terem sido apagados pelo tempo. Até outro dia...

O outro dia deu-se no meu reencontro com Poe. Comprei a coletânea e reli os mesmos contos da adolescência. Descortinou-se diante de mim um mundo novo, uma compreensão mais aguda dos complexos personagens criados e suas crises, manias, visões de mundo, aflições e angústia. Como os anos de vida nos concedem um entendimento maior da conduta humana! O mesmo texto e dois olhares completamente diferentes!

A nostalgia me conduziu ao livro - e entendo melhor como é importante ler os clássicos na juventude, ainda que por obrigação - e me deu enorme prazer na sua leitura. Da mesma forma que a epígrafe deste texto, dica do excelente Terapia da Palavra. Fui atrás do livro para deixar a citação mais precisa. Alice só pode escolher o caminho se sabe para onde QUER ir. E quantos de nós não sabem para onde caminham?

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Conto: Meu medo


O grito, de Edvard Munch

MEU MEDO


Levantou-se da cama afastando o lençol e caminhou até a mesinha onde repousava o maço de cigarros dela. Estava nu, porém não se intimidara com o fato de que o corpo não guardava mais a firmeza da juventude. Lembrava mais uma gravura do Gustavo Rosa, do que o Davi de Michelangelo. Pegou o maço e fez um gesto silencioso pedindo-lhe autorização para subtrair o pequeno bastonete de tabaco de propriedade dela.  Ela não se espantou com o pedido, apesar dele não fumar. Sentou-se na cama, coberta pelo lençol, deixando apenas os ombros de fora, o que propiciou o rápido comentário dele.

- Está parecendo uma ninfa, minha querida!

Abriu a porta da sacada e deu uma longa tragada, totalmente indiferente ao fato de que estava nu. Era final de tarde e ainda havia luz suficiente para que um vizinho do hotel pudesse observá-lo.

- Não tem medo de que alguém te veja aí fora peladão? – perguntou a bela companheira com um ar cômico.

- Não....meu medo é outro.

E fez uma longa pausa, aguardando que ela interrompesse o silêncio com a pergunta.  Se ela aquiescesse ao silêncio, saberia que aquele encontro seria apenas um momento de luxúria perdido no tempo, numa tarde qualquer; se ela perguntasse, teria a certeza de que o que acontecera entre eles havia ultrapassado o meramente carnal.

Não tardou a que a doce voz dela soasse com a interrogação: qual é seu medo?


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Primeiro de Abril


Verdades que poderiam ser mentiras (notícias de hoje):

- Dilma cria o 39o. ministério no governo federal.

- Rendimento dos alunos de matemática piora entre o 5o. e o 9o. ano. MEC minimiza queda e afirma que as perspectivas são positivas.

- Rondônia supera Pará no número de mortes por disputas de terras.

- Inflação dos alimentos afeta mais a baixa renda.




Mentiras que poderiam ser verdades (manchetes de um sonhador):

- PEC que reduz número de deputados e senadores é aprovada no Congresso Nacional.

- ENEM deve ser extinto, após desempenho excelente dos alunos em redação.

- Paulo Maluf reconhece que dinheiro nas Ilhas Jersey é fruto de desvio de recursos durante suas gestões.

- Coreia do Norte destrói todos seus mísseis e assina tratado de paz com a Coreia do Sul.

- Inflação deve ficar abaixo do piso da meta pela primeira vez.


sábado, 30 de março de 2013

Quem é o autor?


Em tempos de redações desastrosas no ENEM, reveladoras da péssima qualidade de nossa educação fundamental, de erros - ou como prefere o MEC "desvios" - ortográficos graves, textos sem lógica e com argumentos repetitivos, além de receita de miojo e hinos de clubes de futebol, resolvi tratar uma simples questão deixa num comentário de um post deste blog de forma mais demorada.

Em 9 de junho de 2007, publiquei uma poesia que identificava ao final que era de minha autoria. Alma Iluminada é seu título. Outro dia veio o comentário e a pergunta: "Linda poesia, quem é o autor????" O comentário foi deixado de forma anônima. Respondi num comentário seguinte acusando-me como o autor daquele texto. 

Inicialmente, pensei que a pergunta comportava uma resposta óbvia: os textos deste blog são meus, do autor do blog, salvo quando há indicação clara e direta do autor do texto. E há muitas poesias, trechos de livros e textos diversos cujos autores são nominados e indicados. Quase todos os textos publicados de outros autors são transcritos por mim e oriundos de livros, sempre citando a fonte e cujos originais disponho. Desconfio de algumas fontes na internet e sou zeloso em dar crédito aos devidos autores. 

Superando a resposta que me parecia óbvia, sobreveio-me outra questão: será que as pessoas sabem procurar a fonte, o autor real e será que tem a visão crítica o suficiente para desconfiar de que um determinado texto não pertence a determinado autor? 

A resposta parece ser negativa. Por exemplo: se vou ao blog do Reinaldo Azevedo, sei que os textos serão dele, salvo quando indica outro autor - o que faz com frequência, pois transcreve muitos artigos de jornais. Se alguém visita este blog, deveria desconfiar que a maioria dos textos são de autoria do responsável pelo blog, aquele cara feio na fotinho do canto direito logo no início da página. 

Se a pessoa não consegue identificar o autor, não tem condições de criticar suas ideias, não tem bagagem intelectual para discutir, debater e argumentar. E por consequência, qualquer dissertação será superficial, rasteira, sem argumentação sólida, ou seja, as redações do ENEM são um reflexo do (des)preparo dos nossos jovens. Eis o problema que surge de uma simples e banal questão. 

Faço uma ressalva -  e não vou me alongar - sobre a má-fé de alguns que claramente copiam e plagiam textos inteiros ou somente trechos de textos. O plágio é a cópia ilegal que viola o direito do autor, que rouba uma ideia produzida sem dar o devido crédito. O plágio é uma praga e um indicativo da preguiça mental de muitos que preferem utilizar a cópia à botar o cérebro para funcionar! O famoso "recorta e cola" é um lamentável atalho que mantém o indivíduo na ignorância.

É importante ensinar os jovens - e adultos também - a procurar sempre a fonte original, a aprender a pesquisar consultando várias e diversas fontes, sempre dando o devido crédito ao autor. Perguntar quem é o autor não é uma falha; a falha está em não conseguir identificar o autor que está indicado de forma clara e transparente. O plágio deve ser sempre rechaçado e repelido! Progresso intelectual dá trabalho e este trabalho deve ser recompensado com o devido crédito.

Não há caminho fácil para escrever bem: é preciso ler e treinar a escrita. A recompensa do esforço vale a pena!

Boa Páscoa a todos!

terça-feira, 19 de março de 2013

O primeiro dia frio


Tenho uma grande simpatia por Lygia Fagundes Telles e Tatiana Salem Levy. São duas escritoras que me agradam em demasia. Na edição de sexta-feira, dia 15 de março, a primeira foi a convidada da coluna À Mesa com Valor, que teve o encontro relatado por José Castello, cujos textos são um convite a sentar-se à mesa com o convidado. Há uma proximidade do entrevistado, uma intimidade recheada de notas e frases que permitem ao leitor penetrar um pouco no processo criativo do escritor (quando entrevistado é um escritor). A coluna pode ser lida aqui.

Destaco dois trechos do que foi dito por Lygia Fagundes Telles: "É preciso enxergar mais do que as coisas nos mostram, ou não vemos nada." E mais adiante afirma que "está tudo inscrito na realidade. A um escritor, basta ler. Não sei por que gostam de atacar a realidade."

Em certo trecho, Lygia narra como surgiu o conto Helga, de Antes do Baile Verde. De uma notícia de jornal, de uma sugestão do marido, o caso narrado transmuda-se em conto de ficção. A realidade é contada pelo escritor com novas cores, mas sem deixar de ser real. A realidade é fonte de inspiração, é o ponto de partida de escritor, na visão de Lygia. 

Descobri Lygia lendo Conspiração de Nuvens (2007). A memória é um elemento muito presente em suas crônicas, servindo-lhe de matéria prima para analisar a realidade que procura enxergar de esguelha, com outro viés daqueles que a olham somente como plana. Encantei-me com o livro, com os textos e com esta grande escritora. Apaixonei-me pela forma como ela trata de um tema que me é tão caro: a memória. 

E minha alegria aumentou quando no final do caderno de final de semana do Valor deparei-me com um ensaio de Tatiana Salem Levy sobre um livro de Sándor Márai, De Verdade (Companhia das Letras, 2008), em que ela discute a existência de múltiplas verdades (leia aqui). Tatiana lança a pergunta: existe amor de verdade? existe mulher de verdade?

A discussão acerca da existência de uma única verdade ou de múltiplas verdades é muito familiar para um advogado. No direito penal, busca-se a verdade material, que deveria ser a real, ou seja, aquela que retrata o que efetivamente aconteceu a ponto de se poder condenar aquele que praticou o delito. No direito civil, prevalece a verdade formal, aquela que está presente nos autos, aquela pela qual o magistrado é convencido a acreditar com base nas versões e provas apresentadas.

Ressalvo que, do ponto de vista filosófico, discordo da afirmação de que existem múltiplas verdades no plano metafísico e do conhecimento, mas não vou me desviar do assunto principal que é a literatura.

Versões e pontos de vista é o que Márai traz para sua narrativa. Discordo de Tatiana de que há múltiplas verdades; há múltiplas versões da realidade, contadas pela ótica do observador e pelo critério do observador, geralmente tomados de parcialidade na sua análise. Mas Tatiana destaca que todos narram após os acontecimentos, ou seja, no passado, revivendo a memória do outro ou como o outro era visto no momento em que os fatos ocorreram. A memória pode ser traiçoeira, nebulosa!

A memória, com as experiências colhidas no passado, agrega ao conhecimento do momento presente, deixando-o mais claro e mais profundo, como se fossem camadas do solo que vão se sobrepondo. Um corte lateral permite conhecer o presente e o passado.

Após um verão quente, somos brindados com um dia frio em São Paulo, o primeira dia frio do ano. E todos saem agasalhados na rua, com cachecóis, casacos e botas. Parece um dia de inverno, mas temperatura é de agradáveis 19o C. Nosso corpo, acostumado com o calor, ainda traz a memória térmica dos dias de verão, e a temperatura amena, parece-nos mais fria do que realmente é do ponto de vista objetivo.

Eis que me deparo com uma segunda-feira fria, garoenta, úmida. Um aparente típico dia de invernopaulistano! Mas calma, meu querido amigo, não se precipite, ainda estamos no verão, nos estertores do verão, ainda na estação do astro rei. Hoje foi o primeiro dia de frio do ano. Comentei com minha filha que o que é cinza e melancólico para alguns, pode ser poético para outros, basta ler a realidade. O primeiro dia frio do ano parece convidar ao aconchego do lar, a saborear memórias, a enclausurar-se no silêncio interior, a degustar uma taça de vinho, a preparar uma sopa quentinha, a enrolar-se no cobertor... O primeiro dia frio do ano não precisa ser negro, nem o presságio de uma estação terrível e pouco tolerável. Prefiro o calor, mas cada estação tem suas qualidades, sua inspiração, sua cor. Basta ler a realidade, como nos ensina Lygia Fagundes Telles.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Poesia: PALAVRAS ARISCAS



PALAVRAS ARISCAS


Palavras ariscas ciscam ao meu redor
Rodeiam-me
Provocam
Escapam-me.

Desobedientes
Irriquietas
Perturbam-me constantemente
E só me resta o vazio do nada dizer.

Flutuam como nuvens
Dão rasantes como aves de rapina
Cercam-me
Cutucam-me
E fogem faceiras e risonhas.

Despertam-me do sono
Atiçam-me
Tento cativá-las a se comportarem
A deitarem sobre o papel de forma ordeira
E elas insistem na desfaçatez da fuga
Do silêncio
Do absoluto silêncio.

Calo-me
E sucumbo.
A inspiração há de voltar
E as palavras hão de se comportar.

(c) RLBF

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Crônica: Segredos

Sombras, por Ana Luiza


SEGREDOS


Os maiores segredos nunca são compartilhados, contados, anotados. Permanecem guardados a sete chaves no silêncio interior, sem que alguém os tenha visto ou percebido. São segredos confidenciados em diálogos solitários com o próprio eu, naqueles momentos do meio-sono ou na tranquilidade do banho ou numa caminhada bucólica sem companhia humana. Não há sequer um diário que os tenha acolhido em suas páginas; talvez o fiel cachorro seja um bom confidente, sempre paciente e solícito a ouvir. Melhor que as paredes que permanecem imóveis e tomadas de impáfia, indiferentes a qualquer emoção ou sem revelar compreensão.

Com o tempo, os segredos parecem aumentar. Guardo em segredo as tantas vezes que sonhei com você – como na noite passada. Não haveria razão para guardá-los, mas penso que te canso ou que pareço obcecado, quase um psicopata a lhe perseguir. Mas na verdade, quem me persegue é você. Não, estou sendo injusto. Nunca me sentiria perseguido por você e a cada vez que vens me visitar nos sonhos, acordo tomado de uma alegria inebriante, que guardo em segredo – apesar de já ter lhe contado isto.

Guardo em segredo as palavras ditas na solidão, o sorriso espontâneo que brota ao admirar uma foto tua, dialogando sozinho e tentando entender a complexidade da vida e dos sentimentos deste indomável e surpreendente órgão denominado coração.

Guardo em segredo as palavras escritas em algum caderno ou email – nunca enviado -, nalgum diário largado no fundo da gaveta, quando as palavras sufocam e transbordam, sendo impossível contê-las e domá-las.

Guardo em segredo minhas orações por ti, diárias, constantes, permanentes, rogando a Deus que te proteja, que te abençoe e te permita sempre sorrir.

Guardo cada segredo como uma moedinha, como uma criança que cuidadosamente deposita sua preciosa moeda no cofrinho, crente de que se transformará num baú do tesouro. 

No fim, os segredos perecem, são esquecidos, perdem a importância; no fim, os segredos apodrecem, nutrindo o solo fértil das lembranças e das memórias ricas de saudade.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Arriscando o velho


Foi um vazamento no depósito localizado na garagem do prédio que me convidou a uma viagem ao passado. Guardadas em caixas de plástico, que protegera os inúmeros papéis da água que jorrava de um cano rachado, as memórias corporificadas em uma coleção de caixas de fósforo - do tempo em que se fumava -, programas do Jockey Club, um diário, um mapa de Chicago e região, jornais de competições esportivas universitárias, uma placa da porta da sala do meu avô no cartório, cartas, recortes, enfim coisas guardadas como num baú do tesouro.

As cartas despertaram maior curiosidade. Quando meus pais moraram nos EUA, em 1992, minha mãe escrevia-me regularmente a cada quinze dias. Eu, filho preguiçoso, só respondia algumas. Mas, guardei todas as cartas que ele me escreveu. Meus filhos releram todas as cartas e foram buscar fotos para ilustrar aquelas narrativas. Passamos a tarde toda revirando aquele baú e contando como era, como foi e como isto os afetou. Um exercício de tradição oral, uma pequena aventura de pesquisa histórica. 

Sempre gostei de conversar e ouvir histórias da minha avó, das minhas tias avós e dos mais velhos. Mesmo criança, ficava horas a conversar com meu avô perguntando sobre a infância dele, sobre o passado, sobre os bisavós. A curiosidade do passado sempre me aguçou e gosto de poder compartilhar isto com as novas gerações.

Parece-me que estas novas gerações, em que tudo é automático e imediato, tudo é acessível via google ou celular, começam a perder o sentido e o valor da pesquisa, do esforço, da curiosidade. Sempre há algum app para resolver o problema! 

Você pergunta a uma pessoa como se faz para chegar a um determinado lugar e ela responde que não sabe, foi seguindo o GPS. E o se o GPS falhar? E se o GPS estiver errado? Você ainda leva um mapa? Eu sou antiquado, recorro sempre aos mapas ainda que o GPS sirva para me auxiliar. Saberei o caminho mesmo sem GPS, pois o bom e velho mapa estará presente.  E saberei explicar para qualquer um que me perguntar como se chega a determinado lugar.

O velho nem sempre é antiquado e inútil. Não estou aqui a apregoar a volta do uso da máquina de escrever, mas a valorização de determinadas ferramentas que são muito atuais. 

Quando surgiu o email, muitos apregoaram o fim das cartas. As cartas físicas podem ter acabado, mas a escrita, a comunicação entre as pessoas não. Sempre se recorre ao bom e velho diálogo, quer por escrito, quer falado, quer via algum mecanismo de vídeo conferência. 

As pessoas continuam a se reunir em bares e ao redor da mesa das refeições para conversar, ouvir e interagir. a boa e velha conversa de amigos! Mas aqui há um inimigo novo. Como li outro dia, a pior solidão é estar acompanhado de alguém que tem um iphone. Infelizmente, é comum ver pessoas - até casais namorados - em restaurante em completo silêncio, absortos pelas telas de seus iphones ou smartphones. Talvez estejam conversando pelo whatsapp, msn, facebook, skype ou o que seja, mas não se olham. Arrisque o velho e bom olhar, deixe seu celular desligado durante um almoço, mostre à pessoa que está com você que ela merece sua integral atenção. Ganha você e ganha seu amigo!