segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

É Natal!




É chegada mais uma noite de Natal, véspera na verdade, mas no Brasil a data é motivo de reunião familiar, de confraternização, de troca de presentes. Natal é um momento de reflexão, de perdão, um momento para exercitamos a paz, a harmonia e a humildade, de olhos postos no presépio e no aniversariante do dia. Ainda que o querido leitor não seja católico, a razão de ser desta data é a celebração do nascimento de Cristo.

Aproveite a data - mesmo que não acredite - para deixar a palavra emocionar, para tocar as pessoas que amamos, para mandar um SMS, um recado, um email ou um telefonema para amigos próximos e distantes, para lembrar das pessoas que foram importantes em mais este ano que se vai. A palavra tem o poder de emocionar, de tocar, de descongelar corações, de romper barreiras, de construir pontes. Façamos uso da palavra de forma construtiva e positiva nesta data festiva.

Que o Presépio seja fonte de luz, paz e alegria e a todos os nossos amigos, leitores e familiares um Feliz Natal!


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

The Tree


Não é necessário compreender o que as pessoas estão dizendo, basta ver. Um pequeno gesto pode mudar o mundo; um pequeno gesto corajoso torna o impossível, possível.

O Natal é um daqueles raros momentos no ano para pequenos gestos, para mudança, para conversão, para reflexão, para esquecer de si e pensar nos outros.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Um pequeno causo natalino


- Filho, o que você vai querer de Natal? Precisa escrever a carta para o Papai Noel.

- Eu quero uma motocicleta com controle remoto! - afirmou o pequeno de quatro anos.

A mãe perplexa, desconhecendo a existência do produto no mercado, retrucou:

- Mas onde você viu este brinquedo para vender?

- Não tem pra vender, mãe. O Papai Noel não tem uma fábrica de brinquedos? Então, ele vai receber minha cartinha e vai fabricar uma moto para mim.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Epígrafe - XVIII


"Nunca suportei quem passa a vida se lamentando sem tomar uma decisão que possa eliminar definitivamente o motivo de suas lamúrias. E muito menos quem não sabe apreciar os tesouros que nos são oferecidos todos os dias - são pouquíssimos, eu sei, mas existem, e como - e prefere ansiar por lugares e situações que parecem melhores só porque são longínquos e impossíveis."


(Antonio Monda, Absolvição. trad. Joana Angélica d'Avila Melo. Rio de Janeiro : Objetiva, 2010, p. 137)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Niemeyer se foi


Copan na garoa

O pavilhão paulista e suas listas ao vento, ondulada bandeira que se cristalizou num edifício de concreto no centro de São Paulo. O Copan foi projetado por Oscar Niemeyer. Edifício imponente na Av. Ipiranga, perto da Igreja Nossa Senhora da Consolação e da Praça Roosevelt, facilmente notado e pouco admirado. Muitos por ele passam; poucos o compreendem.

Nele habitam mais de 2000 pessoas distribuídas em 1.160 apartamentos. O Copan é um mundo, um microcosmo da cidade grande e de seus dilemas. O Copan é um pouco da obra inovadora de Niemeyer, que nesta semana descansou aos 104 anos.




sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Boca no Trombone



OAB

Ontem foi realizada a eleição para a presidência da OAB em São Paulo. O voto é obrigatório. A cédula é em papel. A ausência não justificada acarreta multa de 20% da anuidade.

Sou contra o voto obrigatório para qualquer eleição e para a OAB sou mais contrário ainda. Gastei 2 horas do meu dia, enfrentando trânsito, para votar num candidato que não será eleito. Sempre voto na oposição, e ela nunca ganha. Aliás, a cidade parou exatamente por causa da eleição da OAB que deu um nó no trânsito. 

Com o advento do processo eletrônico, onde o processo em papel é substituído por arquivos digitais e o advogado deve assinar as petições com certificado eletrônico, por que a OAB não implementa o voto por certificado digital? Seria mais barato, mais eficiente, mais sustentável e mais cidadão.


Ajato

Tive problemas com a internet do escritório. Bem, a Ajato vai perder um cliente. Conseguiram me tirar do sério. O modem foi para o espaço na quarta-feira à tarde, por volta das 16:30. O primeiro agendamento técnico foi feito para quinta à tarde. O técnico não apareceu. Reagendado para dia 30, no período da manhã. Novamente, nem sinal do técnico. 

Liguei reclamando e justificaram que o técnico não havia localizado o endereço, havia entrado em contato e não havia ninguém. Sem paciência, respondi objetivamente: "É mentira! Como ele teve dificuldade para localizar o endereço?"

Em termos equivalentes, seria a mesma coisa que morar em qualquer cidade do interior e chamar um guincho para rebocar um carro na praça da Matriz. Impossível não localizar o endereço. A Av. 9 de Julho em São Paulo é um destes endereços.

Mas minha maior diversão veio numa das ligações - não tenho muita paciência para protocolos, repetições de roteiros pré-estabelecidos e ineficiências na prestação de serviço. Então, vamos à estorinha:

- Qual o seu nome, senhor?

- Renato. - respondi em voz firme e pausada.

- Então, Sr. Evandro, seu agendamento...

- Meu nome é Renato. - interrompi gentilmente

- Certo. Seu agendamento está programado para a parte da manhã. O técnico tem até as 12 horas para efetuar o atendimento, Sr. Eugênio.

- Meu nome é Renato! - repeti em voz mais alta.

- Ah, Sr. Renato, agora eu entendi. Não havia entendido antes.

- E que diferença faz você saber meu nome. Isto não importa, o que importa é que mandem um técnico consertar o modem. Se meu nome é Zuleika, Petrônio ou José, isto não faz diferença.

- Ah, faz sim. Sabendo seu nome o atendimento é muito mais personalizado.

- Se o atendimento é personalizado, por que o técnico não aparece para consertar o modem?

- Um minuto, senhor. 

Fez-se silêncio e o atendente não disse meu nome.

Eu nunca vi um serviço tão ruim como do Ajato. A minha próxima ligação (depois de 8 protocolos e umas 6 ligações) será para cancelar o serviço.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Microconto - XII



Tudo corria bem no início daquele encontro, que deveria ser a paz, reatar o namoro e reacender a paixão. Ambos mediam as palavras, cuidavam para que nada fosse intepretado de forma equivocada e não soltasse qualquer faísca capaz de destruir tudo de novo.

Ela pediu um refrigerante ao invés do tradicional chopp. Na lata, o nome da amiga dele que provocara o recente terromoto no relacionamento. Sem palavras, ela se levantou e partiu. Nunca mais se falaram.


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Eu sou contra




EU SOU CONTRA...

14o. e 15o. salários para Senadores;
o Senado usar verba própria para pagar o imposto de renda dos Senadores;
as críticas que o Supremo Tribunal Federal vem recebendo no julgamento do Mensalão, ou Ação Penal 470 para os réus;
a censura;
qualquer controle da imprensa ou de qualquer legislação que tente impor controle ou limite a liberdade plena da imprensa no Brasil;
a violência e a politização da violência em São Paulo;
o mau humor e caras fechadas;
a nomeação de secretários municipais que respondam a processos por improbidade administrativa, como é o caso da indicada por Fernando Haddad para a secretária da educação;
a venda de ingressos da Copa do Mundo para beneficiários do Bolsa-família;
as quotas nas universidades, no serviço público e em qualquer lugar;
a discriminação racial;
a classificação usada pelo Governo Federal de que toda família com renda superior a R$ 100,00 é considerada integrante da classe média;
o desmonte do setor elétrico no Brasil capitaneado por Guido Mnatega;
o Brasil preguiçoso;
o analfabetismo e a má aplicação de recursos públicos na educação;
a saúde pública precária;
quem não fala bom dia no elevador e esquece de cumprimentar o porteiro, o zelador, o manobrista...;
quem não sabe rir!

Não sou pessimista, sou apenas um realista convicto que trabalha, pensa e não abraça a mediocridade reinante que comanda este país nos últimos 10 anos.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Mudar, navegar


Mudar é difícil, penoso, custoso. A lista de palavras com tom negativo é infindável. Talvez para um engenheiro ou um homem de exatas resumiria a questão numa fórmula bastante simples: qualquer alteração da inércia exige força e trabalho. A física é uma perfeita analogia para descrever o que se passa dentro do ser humano. Entramos na rotina, seguimos a corrente, adquirimos hábitos e vícios, qualidades e defeitos. E de repente, deparamo-nos num lugar distinto do destino final que havíamos projetado. É hora de mudar.

Nesta hora, não adianta culpar os outros, buscar as desculpas em forças externas. É fácil encontrar mil razões para a manutenção da inércia. Mas agora, só resta mudar e a mudança tem que começar de dentro.

Somos tomados pelo medo, algo tão natural diante do desconhecido e do incerto. O medo atua como a força, como o atrito determinado a manter a inércia. O medo adora roubar sonhos. Mas agora, só resta mudar, navegar, seguir adiante em novo rumo.

Nestas horas, quando a esperança parece desaparecer no túnel escuro, quando os pés pesam como se atravessássemos um lodaçal, quando o ânimo recrusdeceu, deixando apenas um leve aroma, é preciso seguir, batalhar, lutar contra os inimigos internso, acreditar que depois da noite, vem o dia.

Superar, viver, lutar. Obstáculos sempre aparecerão, mas não devem ser capazes de sabotar o sonho. 

É difícil mudar, é difícil lutar, é difícil perseverar, mas a vida o exige, o sonho o exige. Tomando a liberdade de alterar o verso de Fernando Pessoa, às vezes, é preciso viver e não apenas navegar.


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Conto: Xícara Verde


XÍCARA VERDE


Ofereceste-me uma xícara de café. Quente e forte, numa xícara enorme, verde, uma xícara de chá que serviria para café. Adquiri este meu hábito quando trabalhei nos Estados Unidos: tomar café em xícara grande. Não cheguei ao cúmulo de abandonar o café forte e aderir ao café aguado, mas simplesmente aumentei a quantidade.  Visitava-lhe a pretexto de lhe mostrar alguns textos recentes e discutir uma ideia que surgira para um livro. Fazia tempo que não nos víamos e ansiava por poder deixar o tempo da tarde correr sem hora em companhia dela, sem ter o ponteiro do relógio como carrasco.

Observei os belos olhos castanhos a percorrer as páginas, enquanto tentava adivinhar seus pensamentos, sua crítica, sua impressão, sua reação, um eventual elogio, algum sinal, alguma emoção. Esboçaste um leve sorriso ao ler uma frase perdida no texto. Tranquilizei-me. Senti uma alegria interna, contida, mas uma leve aceleração do ritmo cardíaco persistia.

Distrai-me quando ajeitaste uma mecha de cabelo que caíra-lhe sobre o rosto, empurrando-a por detrás da orelha. Percebi o brilho do teu olhar, a vivacidade e a beleza tranquila de um rosto jovem, que escondia com maestria a idade verdadeira. Sem tirar os olhos do papel, tomaste um gole de café. O café era um momento sagrado e o silêncio que dominava o ambiente transmutava a literatura num ato quase religioso. Não a interrompi. Esperei pacientemente imerso numa longa admiração de seu rosto.

Sobre o centro da mesa, havia uma pequena vasilha com grãos de café torrados e cujo aroma só era percebido quando se aproximava o olfato da peça de decoração. Cada grão parecia representar os inúmeros segredos que compartilhávamos; cada grão era um ano de uma amizade talhada nas palavras, na escrita e na paixão pela leitura.

O sol se punha e uma leve penumbra abraçava o ambiente. Só então, ao ler a última folha, olhou-me com um sorriso. Não havia necessidade de palavras; antes de falar tinha a certeza de que havia gostado do texto. Como tantas outras vezes, bastava um olhar para que nos entendêssemos. Desta vez, porém, estava determinado a quebrar o silêncio e a romper a barreira do temor. Não arredaria o pé daquela aconchegante casa sem antes derramar meu coração sobre mesa. O tempo não seria mais complacente comigo.



sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Olhar atento


By Ana Luiza

Minha filha me pede o celular emprestado. Sei que este pedido originará uma foto. Ela tem um olhar atento, um olhar que ultrapassa o simples objeto, e que de forma criativa, vislumbra a poesia e a delicadeza do cotidiano nas pequenas coisas. 

No meio da flor, um pequeno coração, silencioso, discreto, aguardando um olhar atento. Basta um olhar atento para algo tão singelo desvendar uma beleza divina.


terça-feira, 16 de outubro de 2012

Um telefonema de José Dirceu


- Alô, Fidel? Tudo bem? Aqui é o Zé Dirceu!

- Que alegria ouvir-te, companheiro. Que contas?

- Estou pensando em te fazer uma visita.

- Que bueno! Quanto tempo pretende ficar?

- Uns dez ou doze anos...

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Conto: Cristal

Cristal - Bajofondo Tango Club




Cristal


Uma estranha melancolia tomou-lhe de assalto naquele final de tarde. Ainda estava claro, o sol recolhia-se preguiçosamente no horizonte. Resolveu caminhar dispensado a estação de metrô bem próxima do escritório no centro da cidade. Olhar ausente, quase monástico, passos lentos e sem a jovialidade que lhe era característica. Seu estado de espírito contrastava claramente com a notícia que recebera do chefe durante o almoço: ganhara a promoção, o cargo almejado durante os últimos dois anos era dele. Teria que se mudar para os Estados Unidos, mas aliaria novos desafios a um programa de MBA em Boston. O que mais poderia querer? Não era este o sonho de todo profissional jovem e ambicioso?


O vazio insistia em lhe rondar a alma. A vida, infelizmente, revelava-se binária, sem um cardápio de cores, tons e matizes variados como uma cartela de loja de tintas com suas amostras. A tinta revela-se na parede diferente do mostruário, assim como a realidade desejada nem sempre tem o doce sabor do sonho quando se materializa.


A decisão fácil era a improvável; a decisão difícil era impossível.


O caminho parecia não lhe oferecer alternativa. Teria que seguir no trilho que o destino lhe condenara. Não havia escapatória, nem tampouco alternativa. Resignado, conformou-se, sem os lamúrios do tango ou dos fados que seu pai tanto adorava e que ouvira repetidamente na infância.


Entrou no apartamento, beijou a testa da mãe após afastar-lhe os cabelos com a mão. Seus olhos buscaram os dele com ternura perceptível apenas por ele. Palavras não eram ditas por ela desde o grave derrame. Permanecia silente e paralisada na cadeira de rodas.


Dispensou a enfermeira. A noite era o turno que lhe cabia há quatro anos. Num pequeno cálice de cristal deu-lhe um gole de vinho do Porto. E sucessivamente, até o final da taça. O único prazer que insistia em dar à mãe religiosamente todos os dias.





NOTA: O texto surgiu a partir da música Cristal, do Bajofondo Tango Club, num exercício de escrita. Deixe a música servir de trilha sonora a estória.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Uma eleição sem graça

Masp - (c) Visão ao Longe


Sempre fui um eleitor altamente politizado, participativo, empolgado. Vejo e escuto o horário eleitoral, consulto os sites com os programas de governo e decido meu voto. Desde os tempos de faculdade ajo assim, se bem que naquela época a participação nas campanhas era muito mais efetiva. Nunca votei em branco ou nulo, pois considero tal conduta uma idiotice, uma omissão inescusável do cidadão. Apenas uma vez, no segundo turno da eleição presidencial de 1989, fiquei em dúvida e fui tentado a votar nulo. Votei em Collor, pois votar em Lula seria inimaginável - naquela época e mais ainda hoje.

Neste ano, porém, sinto uma mesmice impressionante, uma falta de criatividade e de propostas que possam realmente alterar alguma coisa na cidade de São Paulo.

Vejamos alguns exemplos:

1. Educação - todos falam em rever a progressão continuada e implementar a educação em tempo integral. Chalita, Haddad, Russomano, Serra e Paulinho defendem esta ideia. O que os candidatos entendem por educação em tempo integral. Haddad, em entrevista à Rádio Bandnews FM, disse que pela manhã os alunos terão o currículo normal e durante à tarde irão para passeios no parque, visitas a museus, "ocupação de espaços públicos" (seja lá o que isso quer dizer em linguagem petista), esporte, cultura e lazer. Chalita diz praticamente a mesma coisa, acrescentando artes, inglês e espanhol.

Em suma, o tempo integral signfica que as escolas serão um depósito de crianças no período da tarde. Acho isto grave considerando que Haddad foi ministro da Educação e Chalita foi secretário estadual de Educação. Não há proposta que reformule o ensino fundamental. Não há coragem na proposta dos candidatos. 

Ninguém fala em ampla reformulação do currículo com capacitação e treinamento de professores. Ninguém fala em ampliar o tempo de ensino das matérias básicas (português e matemática). Não adianta levar o aluno ao parque se ele não sabe ler e escrever corretamente. 

2. Saúde - novamente a coisa se repete: vamos construir mais hospitais e postos de atendimento, que agora se transformaram em siglas. Os candidatos só falam em AMA, AME, UPA etc. Adianta construir mais se não há médicos bem remunerados e com estrutura para atendimento?

3. Transporte - unanimidade neste ponto também: vamos construir mais corredores de ônibus. E daí? Isto vai resolver o problema? Quase todos mencionam mudanças ou ampliação do bilhete único, mas isto não afeta em nada a mobilidade e a melhora no transporte. Nenhum candidato falou em melhorias no sistema semafórico ou em invenstimentos na CET (Companhia de Engenharia de Tráfego).

4. Segurança - a competência para tratar de segurança pública é dos estados, e não do município. Mesmo assim, quase todos propõem a reformulação e ampliação da guarda civil metropolitana para que atue como se fosse a polícia militar.

5. Emprego para o bairro - alguns candidatos em São Paulo vieram com esta ideia de levar o emprego para o bairro. Em outras palavras, criar incentivos para que empresas se instalem nos bairros, permitindo que o trabalhador more mais perto de onde trabalha. A ideia é boa e parece ser um pouco mais inovadora, mas ninguém fala como isto será feito. Isenção de impostos? Benefícios fiscais? 

No final das contas, a eleição para a Prefeitura de São Paulo ficou sem graça, sem propostas, sem debate sério. Lula tenta transformar a eleição em uma batalha para tentar conquistar um cargo para seu fantoche. Russomano desponta como a surpresa, mas já dá sinais de que não sabe debater, de que não tem plano de governo e nem propostas viáveis. Serra repete a conhecida ladainha de sempre, mas não inspira mais a confiança do passado. Chalita tem uma propaganda meiga, sensível, que talvez funcionasse para um cargo de deputado ou senador, mas não para um cargo executivo. Soninha continua fazendo a linha bicho grilo hipster, defendendo a bicicleta, com uma trilha sonora meio apocalíptica e fúnebre. E há os outros.

Infelizmente São Paulo está sendo mal tratada pelos candidatos que parecem não se preocupar com a cidade a ponto de não se debruçarem sobre seus problemas mais graves. Cabe ao eleitor decidir. 

No domingo, pense bem em que você vai votar. Mensaleiro já lhe enganou uma vez e vai tentar te enganar de novo. Não vote em mensaleiro ou em quem usurpa o dinheiro público em proveito próprio, vote em um candidato no qual você pode confiar.

domingo, 23 de setembro de 2012

Sons da Tarde


Doía-me a cabeça, não tão pesada como numa das recorrentes crises de enxaqueca, mas dolorida o suficiente para me fazer desistir da labuta e fugir para casa no meio da tarde, trilhando um atalho numa viagem de volta de Santos. Passava das quatro horas, a casa vazia, silenciosa, quando repousei meu corpo estirado na cama. Fechei os olhos. A janela aberta permitia a invasão da claridade. O ruído vespertino ganhou minha atenção: o dialogar de sons era diferente!

Ao fundo, os periquitos piavam e faziam uma certa algazarra na cozinha. Na rua, poucos carros intercalavam um ronco de motor. Não havia barulho de televisão, rádio ou qualquer outro aparelho eletrônico. Um funcionário do condomínio varria a calçada e era possível ouvi-lo. O vento agitava algumas folhas das árvores na rua. De resto, silêncio completo. Uma inesperada surpresa para uma cidade como São Paulo.

Descobrir aqueles sons da tarde, algo tão inesperado e tão fora do usual, pois no meio da tarde estou geralmente no meu escritório, diante de uma tela de computador, ou na rua ou em alguma reunião. No meio da tarde não há tempo para uma pausa, para dedicar total atenção aos sons que a invadem. A mente aos poucos foi perdendo a consciência e conduzindo-me aos braços de Morfeu. O pensamento perambulou, como de costume, compartilhando os bons momentos, as descobertas, passeando por lugares distantes que o pensamento tem o poder de aproximar. E assim, mais sereno, menos dolorido, adormeci.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Novo ataque a Monteiro Lobato


O tempo passou, mas o assunto não foi embora. Um certo Instituto da Advocacia Racial e Ambiental (IARA) ajuizou Mandado de Segurança (MS 30952) no Supremo Tribunal Federal contra ato do Conselho Nacional de Educação (CNE) que deu parecer favorável ao uso do livro Caçadas de Pedrinho nas escolas brasileiras e afastou a alegação de racismo do livro de autoria de Monteiro Lobato.

Tratei do tema em post de novembro de 2010, intitulado Monteiro Lobato e preconceito. Reli o livro na época e sou da opinião de que a campanha engendrada contra a obra de Lobato revela má-fé e interesses secundários de grupos de interesse.

Quem é este Instituto que ajuizou o Mandado de Segurança?

Fui buscar informações no site - não vou fazer propaganda, pois não compactuo com o que está por detrás de aparentes intenções nobres - e descobri que defendem os afro-brasileiros, quilombolas e o meio ambiente.

Afirma o texto do site: "O Instituto de Advocacia Racial e Ambiental – IARA, criado em 2003, pessoa jurídica de direito privado, de fins não econômicos, é atuante nas áreas de Direito Racial e Ambiental, destacando suas ações e debates sobre a responsabilidade social-ambiental e o racismo, com foco na promoção e defesa dos direitos da população afro-brasileira; na defesa do meio-ambiente, através de ações jurídicas. Destaque nas ações jurídicas sobre as relações raciais em educação, mercado de trabalho e ações afirmativas, bem como sobre as comunidades remanescentes de quilombo, comunidades negras rurais, e comunidades carentes, afetadas por questões ambientais de poluição e falta de saneamento."

Confesso minha ignorância: desconhecia o ramo jurídico denominado Direito Racial. Isto soa-me como uma disciplina que talvez fosse estudada na África do Sul dos Boers e na época do apartheid, na Índia e algo relacionado com as suas castas, na Alemanha de Hitler. Mas no Brasil, nunca tinha ouvido falar de Direito Racial!

A lógica desta ONG de "fins não econômicos" é explorar pessoas com baixa instrução ou aproveitar-se de um momento histórico onde o Brasil importa uma política racialista do século passado nos EUA com o aparente verniz de modernidade e igualdade. O Governo, através de suas ações e políticas - incluindo as quotas - vem patrocinando uma divisão racial no Brasil, que se acirrou em grande parte por causa de políticas públicas.

Se há um direito racial, então por que não defendem os índios? Talvez porque não dê dinheiro. Por que não defendem os bolivianos, os haitianos e outros imigrantes que vivem em condições de semiescravidão e precisam de apoio? E mais, qual a relação entre afro-brasileiros com o meio ambiente? 

Em direito societário, costuma-se falar em abuso de forma ou abuso de personalidade. Trata-se da utlização de uma estrutura societária - a associação é uma forma de organização equivalente - de forma a desvirtuar seus fins. Em outras palavras, depreende-se do site que a ONG foi criada para captação de clientela - o que é vedado pelo Estatuto da OAB -, concorrência desleal com profissionais habilitados, redução de carga tributária e autopromoção de seus diretores (na verdade advogados que atuam nas causas do Instituto e cobram por isso). O desvio de finalidade é claríssimo e gritante.  Este Instituto é mais uma destas ONGs que busca interesses pessoais e não interesses mais elevados ou causas nobres.

Aliás, até a Cruz Vermelha brasileira teve as contas de seus diretores investigadas por desvio de verbas obtidas com doações para vítimas de desastres naturais.

Voltemos a Monteiro Lobato, finalmente. A causa, objeto de análise pelo Supremo, é absurda. O Instituto aproveitou-se do momento para tentar fazer autopromoção. Porém, revela uma preocupante tendência fruto do pernicioso politicamente correto. Imaginem se alguém tentasse proibir alguma obra de Nelson Rodrigues sob a alegação de incitação de violência contra mulheres e por violar a Lei Maria da Penha? Ou se alguém acusasse Jorge Amado de ser preconceituoso e rotular todo baiano de preguiçoso?

O Judiciário não pode dar amparo e acolher a tentativa de censurar a obra de qualquer escritor, ainda mais quando se trata de Monteiro Lobato que tanto contribuiu - e contribui - para a formação de novos leitores.

Monteiro Lobato tem obras com claro tom de crítica social e política, mas não é o caso de Caçadas de Pedrinho. Mas meu caro leitor não tome a minha palavra como verdade absoluta, faça a prova você mesmo: releia (ou leia - eis uma grande chance) o livro e tire sua própria conclusão. Afinal a leitura de Monteiro Lobato é sempre uma grande aventura.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Poesia: EU



EU


Sou um somatório de erros
Um acúmulo de paixões desordenadas
Um emaranhado de fios
Um recipiente transbordante de egoísmo
Um projeto com defeitos
Um caldeirão de ira borbulhante
Uma armadilha prestes a ser acionada
Um ser vagante no deserto terreno.

Se não tivesse alma,
eu nada seria.
Se não tivesse esperança,
eu nada seria.
Se não tivesse a vida,
eu nada seria.
Se não tivesse a misericórdia,
eu nada seria.


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Epígrafe - XVII




"Não tenha medo da solidão. Sempre que esta o afligir, valha-se de um bom livro, a um canto, em silêncio. Verá que passou a ter a solidão acompanhada, com a qual a vida sempre se enriquece."

(Josué Montello. Diário do Entardecer. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1991, p. 247)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Ainda o Mercosul


Não ia mais tratar do tema, mas eis que deparo-me com um artigo no jornal Valor Econômico, no dia 13 de agosto de 2012 (p. A-17),  escrito pelo jovem doutor em direito internacional - e meu contemporâneo de faculdade - Eduardo Felipe P. Matias.  Quem se aventura no direito internacional é forçado a pensar em termos globais, a respeitar diferenças culturais e sociais, o que lhe permite analisar a questão com isenção e imparcialidade, mas dentro do contexto regional.

Fiquei satisfeito em perceber que a posição exposta neste blog encontra eco nas palavras de Eduardo Matias. Não vou resumir, vou transcrever um grande trecho relevante para contribuir ainda mais para o debate.

"Coloca temor também na população, como no caso da Venezuela, onde a Human Rights Watch constatou em relatório recente que o acúmulo de poder pelo Executivo e a eliminação das garantias institucionais permitem intimidar e censurar aqueles que se opõem aos interesses do governo. E a insegurança jurídica pode tirar o sono até dos próprios governantes, como descobriu Fernando Lugo ao ser deposto sem o adequado direito de defesa.

Ironicamente, no plano regional, a mesma Venezuela se aproveitou da suspensão do Paraguai para entrar no Mercosul. Claro que a saída do presidente paraguaio, se foi legal, foi pouco legítima. Mas os demais países membros do Mercosul, ao incluírem a Venezuela às pressas no bloco, também deram mostras de não levar tão a sério o devido processo legal.

Isso porque o Protocolo de Ushuaia (assinado em 24/06/1998 por Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Chile reafirmando o compromisso democrático) estabelece a necessidade de consultas antes de suspender um membro no qual se possa ter havido ruptura da ordem democrática. Essa suspensão é uma decisão grave, que mereceria maior discussão. Ainda mais quando ela acaba possibilitando a entrada de um novo integrante, o que, pelas regras do bloco, exigiria a unanimidade de seus membros."

Decisões atabalhoadas e apressadas sempre indicam segundas intenções. Se a entrada da Venezuela no Mercosul é adequada ou não, isto depende de uma discussão mais ampla. O fato preocupante é forma como a lei e o Estado de Direito são relegados a um segundo plano na América Latina.


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O fim do Mercosul? - II



A Venezuela ingressou como membro pleno do Mercosul de forma açodada, num procedimento quase sumário – só não foi mais rápido do que o impeachment de Fernando Lugo por que o chanceler venezuelano depositou o documento formal de adesão no lugar errado, algo como você ter uma reunião no Rio de Janeiro e pegar um voo para Brasília. Enfim, em cerimônia realizada em Brasília, o falastrão Chávez jogou para a plateia.

De forma breve e sucinta, poderíamos dizer que o ingresso da Venezuela é bom para o Mercosul? Tudo indica que do ponto de vista econômico a resposta é afirmativa. O Mercosul ganha mais pujança econômica e se torna um bloco relevante em termos de reservas petrolíferas.

Porém – e aqui há muitos poréns -,  é preciso analisar qual será a postura da Venezuela daqui para frente e como tem sido a postura da Venezuela no passado.

O Mercosul tem uma disposição no seu Tratado que exige que o país membro seja democrático e respeite a democracia. Bem, Chávez está mais próximo do conceito democrático de Fidel Castro, de Mahmoud Ahmednejad e seus pares mais próximos Evo Morales, Daniel Ortega e Rafael Correa.


O impeachment de Fernando Lugo, procedimento previsto constitucionalmente na Constituição paraguai, assemelhou-se ao impeachment de Fernando Collor. O primeiro presidente eleito por voto popular no Brasil depois do fim do regime militar era destituído pelo Congresso Nacional. O Brasil era um adolescente democrático, suas instituições ainda titubeavam na sua forma de agir, mas ninguém esbravejou, salvo Collor.

O governo brasileiro tinha interesse no ingresso da Venezuela no bloco. O Senado brasileiro demorou a referendar o novo membro. Faltava somente o Paraguai. Então, o companheiro Lugo perde o cargo e os grandes gênios do PT, capitaneados por Marco Aurélio Garcia e Celso Amorim, com o aval de Dilma, aproveitam a deixa para usar um argumento fraco, mas eficaz. Suspendem o Paraguai do bloco até a realização de novas eleições no ano que vem. Afirmam que houve violação da cláusula democrática.

Com o Paraguai suspenso, não há impedimento legal formal para o ingresso da Venezuela. Fizeram com o Mercosul o que a FIFA quer fazer com a lei seca durante a Copa: suspende a lei para agradar os outros e depois volta tudo como dantes.

Houve gritaria no Paraguai e vídeos do chanceler venezuelano confabulando com a cúpula das Forças Armadas paraguaias, indicativos de uma tentativa de manter Lugo no cargo por meio de um golpe militar. O vice-presidente uruguaio também protestou na imprensa uruguaia. O Paraguai recorreu ao tribunal do Mercosul. Tudo em vão. A pantomima orquestrada pela diplomacia brasileira teve aparente êxito.

Fala-se em uma nova postura diplomática do Brasil fundado na solidariedade entre os povos, sinal de que os interesses nacionais têm sido deixados em segundo plano por um Itamaraty hesitante e com repetidas trapalhdas na seara das relações exteriores. A política externa brasileira nunca esteve tão a reboque de interesses partidários e pessoais como agora. O assunto deixou de ser política de Estado e passou a ser mecanismo de condução de interesses pessoais e partidários.

Quando a Bolívia agiu contra a Petrobrás, o governo brasileiro calou-se; quando Cristina Kirchner impôs controles alfandegários violadores do Tratado do Mercosul e com claros prejuízos à indústria brasileira, o governo brasileiro calou-se; quando a Venezuela restringiu o fluxo cambial acarretando inadimplemento nos pagamentos para exportadores brasileiros, o governo brasileiro calou-se.  Exemplos não faltam, falta é política externa séria!
 
O Mercosul não acabará. O Paraguai é um país fraco politicamente dentro do bloco e voltará a gozar de seus direitos após as eleições presidenciais. Em outras palavras, o Paraguai precisa do Mercosul. É uma questão de sobrevivência. Resta saber se o tiro não vai sair pela culatra e se Chávez não vai querer ser a estrela única do bloco ferindo os sentimentos de Dilma. Se ela ficar com ciúmes, poderá ter que soltar um: “Porque no te callas!

terça-feira, 31 de julho de 2012

Trechos Salpicados




"Amar em abstrato é muito mais ágil do que amar em concreto." (p. 35)

"Tanto eu queria agora dar-te o amor total e infantil que tinha para te dar. Racionei-o a vida inteira como a porra de um chocolate de leite - por que vivemos como se o tempo nos pertencesse infinitamente, como se pudéssemos repetir tudo de novo, como se pudéssemos alguma coisa?" (p. 27)

"Olhava para ti e sabia exatamente a cor e a forma do teu pensamento. Ou assim o julgava, o que é a mesma coisa." (p. 73)

"A amizade, história de perdões incessantes." (p. 95) 

"Procuro a amizade que me fez feliz. Dito assim, dá vontade de rir, e não é caso para menos - não se pode ser feliz só com a amizade. Nem só com o amor. Se conseguíssemos ser inteiramente felizes, o que ficaria para desejar?" (p. 89)

Todos os trechos acima foram extraídos do romance Fazes-me falta, de Inês Pedrosa (Rio de Janeiro : Objetiva, 2010). Um pequeno aperitivo para a análise do livro que virá em breve.

terça-feira, 24 de julho de 2012

O tempo e o sentimento de perda



O post anterior trouxe um trecho da escritora inglesa, Jennifer Egan, onde ela afirma que ao rever fotos dos filhos pequenos fica triste, pois nota a passagem do tempo e a passagem do tempo traz ímplicito o sentimento de perda.

Olho a foto acima e não sinto tristeza, nem sou acometido de um sentimento de perda de uma infância que ficou na memória. E na memória ela ficou e permanece viva, tendo contribuído na construção daquilo que hoje sou. Sim, a foto acima é minha e foi tirada por volta dos 2 anos de idade.

Li a frase, marquei-a e trouxe para o blog. Discordo dela, mas arriscaria dizer que as personagens de Jennifer Egan e seus romances devem trazer esta melacolia como pano de fundo. John Banville (O Mar e Os  Infinitos) e Ian McEwan (A Praia), ambos ingleses, tratam do tema com a mesma nostalgia e uma ponta de revolta diante da perda. 

Esta melancolia é um aspecto cultural de alguns povos e encontra-se inserida na postura das pessoas. O fado português é essencialmente um cantar de saudade, de tristeza, de perda. Os ingleses, com seu humor ácido, tendem a seguir esta mesma linha, tão bem sintetizada por Jennifer Egan. O passar do tempo é sinônimo de perda. Pessimismo este tão característico dos países do norte europeu.

O passar do tempo é inexorável. Unstoppable. Iniciada a vida, o cronômetro começa a correr e não há como pará-lo. Poder-se-ia dizer que cada início de dia é um dia a menos na vida, ou um dia mais perto da morte. Prefiro pensar que cada início de dia é um dia a mais que ganhamos e que temos para viver. 

As crianças não conhecem a morte, não compreendem o fim. A ideia de morte vai se imiscuindo no cotidiano de forma sorrateira. É comum terminarmos a faculdade - ou até o ensino médio - com um colega a menos, aquele cujo tempo se expirou e não completou a jornada universitária. Sempre pensei que este escolhido deixa-nos um recado, lembra-nos de nossa finitude e de que a vida é passageira. 

Aprendemos, então, a conviver com a perda. Na fase adulta, compartilhamos a alegria das novas vidas que nascem e a tristeza daqueles que se vão. Parece que tomamos consciência de nossa temporalidade nesta fase, valorizando o tempo com que desfrutamos com os mais velhos e rejuvenescemos diante do sorriso pueril dos pequeninos.

Recentemente, dei-me conta que o número de pessoas pelas quais rezo devido a alguma enfermidade tem aumentado. A lista era pequena, mas foi crescendo, assim como foi crescendo o número de pessoas que conheci e que já morreram. Fulano descobriu um câncer, beltrano vai ser operado do coração, sicrano teve um AVC.

Na velhice, imagino que olharei para os dias passados e agradecerei o tempo que me foi dado. Cada dia, com suas alegrias, tristezas e contratempos. Espero ser grato o suficiente e poder gozar da misercórdia de Deus a perdoar todos os meus inúmeros erros.

O tempo é professor que ensina, ainda que a contragosto, com a realidade fria; aplaina o ego exaltado com a tomada de consciência de nossa condição e treina-nos na humildade; não aceita desaforos e desperdícios, cobrando a responsabilidade daqueles que o desprezam. O tempo foi criado de forma sábia para que os nossos olhos não fiquem grudados apenas no terreno, mas que aos poucos saibamos erguê-los para o sobrenatural. A vida tem seu tempo exato. Não nos cabe avaliar e julgar se vivemos pouco ou muito; vivemos o suficiente.

Não vejo o passar do tempo como perda; vejo o passar do tempo com alegria de poder crescer, aprender, vivenciar e até sofrer. A perspectiva da vida retratada em fotos e em memórias é uma prova de que a vida não é perda, é ganho, e o tempo um presente divino.



segunda-feira, 16 de julho de 2012

Epígrafe - XVI


"(...) Meus filhos são saudáveis, engraçados, e minha vida é muito mais fácil agora que eles cresceram. Ainda assim, sempre que vejo fotos de quando eles eram bebês, fico triste. Há sempre uma sensação de perda quando percebemos a passagem do tempo, mesmo quando nada foi perdido."

Jennifer Egan, em entrevista ao Valor Econômico, Eu& Fim de Semana, 13, 14 e 15 de julho de 2012, p. 26.

Discordo da visão melancólica e pessimista da escritora inglesa. E você, leitor, o que acha?

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Mensagens



(c) RLBF



Nada como almoçar sozinho e ficar brincando com os saquinhos de açúcar na hora do café.

33:33


O relógio de rua marcava 33 horas e trinta e três minutos. Claramente defeituoso, algo costumeiro na cidade de São Paulo. Para muitos um simples erro, um defeito, um descuido da manutenção do mobiliário urbano; para mim, um convite a imaginar, inspiração urbana para uma realidade imaginária, uma provocação criativa.

terça-feira, 10 de julho de 2012

O fim do Mercosul? - I



A diplomacia prima pela cautela e pela análise ponderada dos fatos de modo a evitar decisões precipitadas e gerar conflitos que podem evoluir para confrontos bélicos.  A recente crise do Paraguai descambou para a bagunça em grande parte por culpa da atrapalhada chancelaria brasileira. Ou seria a rapidez na tomada de decisão mera cortina de fumaça para o alcance de outros fins?

Em artigo publicado no do dia 7 de julho de 2012, no Estado de São Paulo, Sergio Fausto revela que a aparente punição do Paraguai teve segundas intenções. A aparente preocupação democrática do Brasil foi só uma cortina de fumaça para interesses secundários.

Escreveu Sergio Fausto: “A questão não é só de política externa. Vale ler o artigo assinado pelo secretário-geral do partido [PT], Elói Pietá, publicado no site oficial da legenda logo após o impeachment de Lugo: A chamada do artigo é eloquente: ‘Mesmo com toda a sua força e grandeza, o Brasil também sofreu as tentações de um golpe do Congresso Nacional contra o Presidente Lula”.  Sobre o “neogolpismo das elites” o secretário-geral explica: “As elites ricas, onde hoje não controlam o Executivo, voltaram a ter no Parlamento Nacional seu principal ponto de sustentação institucional. Além disso, através da poderosa mídia privada, seu principal ideológico e voz junto do povo, elas continuamente instigam a opinião pública contra os governos populares”. 

A decisão brasileira de punir o Paraguai para premiar a Venezuela é tributária dessa visão de mundo. Uma é inseparável da outra.” (p. A2, sábado, 7 de julho de 2012).

A lógica é clara e cristalina. Bastava não se precipitar diante dos fatos que a conclusão se torna óbvia. Encontram um fato secundário (o impeachment de Lugo) para justificar a suspensão do Paraguai do Mercosul por meio de uma ginástica jurídica (cláusula do Tratado de Assunção que exige a manutenção da democracia nos países Membros), para justificar a acolhida ao companheiro Chávez e seu regime democrático que impera na Venezuela. A artimanha rasgou o Tratado de Assunção, revelou mais uma trapalhada da diplomacia brasileira e lançou ao ostracismo o Paraguai. A ordem jurídica vigente no Mercosul também foi violada pelas manobras dos companheiros, numa conduta pouco democrática, para ser, no mínimo, diplomático.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Crônica: Aniversário


ANIVERSÁRIO



O aniversário é um dia como outro qualquer, cravado no calendário por acidente, fruto do acaso e sem qualquer explicação lógica ou científica. Simplesmente aconteceu naquele dia, daquele ano, sem que algo de excecpcional pudesse justificar o nascimento de uma pessoa. Um dia que não é diferente de ontem ou de hoje, nem será diferente de amanhã ou dos 365 dias ao longo do ano. A única diferença é que só ocorre uma vez no ano, que é uma convenção fixada para que possamos ter a impressão de que tudo começa de novo e tudo fica novo, quando na verdade um dia sucede ao outro e não há nada de novo.

Comemorar o aniversário deve ter sido a invenção do primeiro marketeiro do mundo que resolveu incentivar o comércio, obrigando o aniversariante a dar uma festa e aos convidados trazer presentes. Alguém inventou que tem - no sentido de obrigação -  que comemorar o aniversário, e desde então, a tradição sem sentido foi adotada por todos sem qualquer questionamento.

Aniversário é uma data inútil. Um dia onde o aniversariante pode fazer corpo mole no trabalho, pode ficar o dia todo no telefone agradecendo os votos de felicidades, mais outro tanto respondendo aos 500 amigos do Facebook que deixaram algum recado e o dia se vai num elogio à preguiça e de louvação ao ego.

Desde que uma rosa passou a ser somente uma rosa, o aniversário passou a ser, da mesma forma, um flatus vocis, um sopro vazio despido de conteúdo e sem corresponder à natureza de um ente. Explico-me. Lembram-se do livro de Umberto Eco, O Nome da Rosa, que virou filme com Sean Connery? Bem, o título é inspirado num célebre enunciado filosófico de Guilherme de Ockham, um dos precursores do nominalismo, que depois derivou no relativismo e outras correntes filosóficas.

Ockham afirmou que os entes são meros nomes, despidos de substância, ou seja, eu poderia chamar uma cadeira de bola que nada afetaria sua essência. O nomes são um sopro vazio, um flatus vocis na bela expressão latina, uma representação de algo que é impossível conhecer, mas que convencionamos chamar de cadeira para facilitar a vida.

Aniversário é exatamente isto: um nome vazio! Poderíamos chamá-lo por qualquer outro nome que seu significado não mudaria, nem deixaria de representar o que representa? Aniversário é algo vazio, despido de sentido, uma mera convenção social?

Não sei se convenci alguém com toda esta argumentação um tanto quanto pessimista, talvez até alguém já esteja revoltado ou surpreso com a acidez do texto e esteja me xingando. Pois bem, isto é apenas uma provocação. Penso exatamente da forma oposta. Eu gosto de aniversário e gosto quando as pessoas à minha volta aniversariam. Não se trata de uma data comum, um dia qualquer; trata-se de um dia especial para aquela pessoa que convive conosco, para o amigo ou amiga, para o filho, para os pais, enfim, para aquelas pessoas que nos são caras e queridas. Afinal, é neste dia que aquele ser humano veio ao mundo e tempos depois veio a fazer parte de nossa vida.

Se o destino estava traçado não sei, mas sei que compartilho da felicidade no aniversário dos amigos, daquelas pessoas que você sabe de cor a data e nunca esquece, não importa onde estejam. Pode estar de férias em Paris que um simples recado de "parabéns" chegará, mas que por trás da mensagem singela há um recado oculto: “lembrei-me de você no seu dia!”.

O aniversário é uma data para lembrarmos com especial carinho das pessoas que são importantes em nossas vidas.Hoje é fácil organizar as datas com milhares de aplicativos para todos os tipos de gadgets eletrônicos, mas os aniversários que realmente importam são aqueles que sabemos de cor. São poucos, pois são poucos os amigos verdadeiros. Talvez 3 ou 4, não mais do que isso (excluo os pais, filhos e outros familiares). São aqueles amigos que basta você ouvir a data que se lembra imediatamente dele - ou dela.

Aniversário é um dia para, acima de tudo, agradecer por aquela pessoa ter cruzado nosso caminho e lembrar o quanto é importante que permaneça em nossa vida.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

800 posts



Este é o post de número 800! Demorou pouco mais de cinco anos e meio para atingir este número. Ao longo deste período, há poesias, crônicas, contos, comentários (não ousaria chamá-los de críticas) sobre livros, pensamentos, opiniões, músicas, vídeos e até algumas tentativas de textos levemente humorísticos sobre o cotidiano. Um texto comemorativo e que deveria ser de aniversário, mas uma crônica de aniversário – atrasada – está quase prontinha, quase saindo do forno.

Ao lançar uma perspectiva sobre tudo que aqui foi publicado fico com uma sensação boa. Alguns textos ficaram muito bons (modéstia à parte), outros nem tanto. Alguns textos tinham um viés político crítico de forma proposital, que para alguns pode ter soado radical. Em síntese, tentei refletir no texto um pensamento crítico, uma opinião sobre fatos contemporâneos. Ouso dizer que este blog fez jus ao seu nome ao conseguir prever o futuro, sem misticismos, apenas com a lógica e uma análise sob um ângulo diferente da maioria dos jornais. Diria que o melhor exemplo deste acerto futurológico é o caso do Deputado Protógenes Queiroz.

Iniciei este blog com um propósito singelo de dar vazão à escrita, às ideias e não permitir que determinados fatos ficassem sem um comentário. O blog é uma forma de externar minha revolta com o que não concordo, mas também de elogiar o que merece ser elogiado, de incentivar as pessoas a lerem e desfrutarem da cultura, enfim, de compartilhar ideias.

Curioso que esta mistura de temas e formas de escrever fez com que este blog fosse até citado numa dissertação de mestrado de Cynthia Morgana Boos de Quadros, da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) para a obtenção do título de Mestre em Ciências da Linguagem, em maio de 2008. A citação foi de fato uma honra e uma surpresa, descoberta por acaso enquanto atualizava meu currículo Lattes. Para os interessados, a dissertação integral pode ser lida aqui.

Porém, sinceramente, o que é mais recompensador acerca de manter este blog não é uma citação acadêmica, mas a interação com quem lê. Sei que textos aqui escritos já provocaram sorrisos, gargalhadas, lágrimas, emoção, motivação e alegria. Ainda que não veja, tenho a consciência que despertar um sorriso sincero no leitor é a maior das recompensas. Emocionar e alegrar com a palavra é algo indescritível, diria que há um toque de divino quando as palavras tocam o leitor. O escritor é mero instrumento que traduz a beleza da vida – que por vezes não é bela. Tento deixar o pessimismo de lado neste canto de escritor e esforço-me por descobrir o que há de bom até no evento mais triste e trágico. A vida segue e ela se torna mais leve quando a jornada é feita com um sorriso.

Agradeço a todos que por aqui passam, a todos que leem o blog, a todos que criticam, incentivam e que simplesmente passam para dar uma olhadinha! Obrigado novamente!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Microconto - XI



- Eu deixei de sonhar, de fazer projetos. – afirmou em tom categórico, a fala lenta e pausada, quase preguiçosa, despida de qualquer vivacidade, olhar opaco e distante mirando o infinito inatingível.

Ele começou a morrer quando abandonou seus sonhos e externou sua desistência.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Lulamente


Nossa modesta contribuição de um novo verbete para as próximas edições dos dicionários de língua portuguesa.

LULAMENTE (lu.la.men.te) - 1. adv. modo - maneira ou jeito de ser malandro, mentiroso, chantagista, aproveitador, cara de pau, hipócrita. ex.: Lulamente conseguia pressionar todos ao seu redor. 2. subst. m. -  postura de superioridade, arrogância; diz-se do sujeito que acha-se acima do bem e do mal. ex.: Portava-se lulamente e tratava os demais com desprezo. 3. união do nome próprio Lula (ex-presidente do Brasil) e do verbo mentir no presente do indicativo, cujo significado pode ser sintetizado na expressão de que o partido e os "cumpanheiros" estão acima de tudo e de qualquer instituição, menos a bolada oriunda de consultoria a empresas que prestam serviço para o governo.



A triste síntese deste caso é o desrespeito pelo Estado Democrático de Direito e suas instituições. Se Lula não mentiu, então por que não convoca uma entrevista coletiva, ele que tanto gosta de discursar e dar lição de moral? 

Se o mensalão não existiu, por que Lula se esforça tanto para que o Supremo não julgue o processo e os crimes sejam declarados prescritos?

Se Lula não teme a justiça, por que nomeou Toffoli para o STF, advogado de seu partido e fiel cãozinho?


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Café e mais café

No dia do café, uma série fotográfica para comemorar.

Equilíbrio


Cafezal em Minas Gerais



Espresso doppio
Sem pó


Obs: Todas as fotos foram tiradas pelo editor do blog. Quer copiar, cite a fonte!

terça-feira, 22 de maio de 2012

Uma pergunta de Luiz Felipe Pondé


"Este assunto me interessa pouco, por isso vou falar pouco nele. Minha intenção aqui é simplesmente fazer uma pergunta: se a ditadura brasileira matou tanta gente da esquerda, por que, ao terminar a ditadura, a cultura como um todo ( professores, mídia, literatura, filosofia, ciências humanas, artes, os principais partidos políticos) se revelou completamente de esquerda?

Independentemente do fato de que ditaduras são horríveis, a brasileira não liquidou a esquerda como se fala por aí. E mesmo os tais guerrilheiros lutavam por uma outra forma de ditadura. Tivesse a guerrilha de esquerda vencido a batalha, nós acordaríamos numa grande Cuba. A ditadura, de certa forma, nos salvou do pior."

(Guia Politicamente Incorreto da Filosofia. São Paulo : Leya, 2012, p. 176)

O recente livro de Luiz Felipe Pondé é politicamente incorreto, provocador e divertidíssimo. Em tempos de Comissão da Verdade, achei a citação pertinente. Verdade para quem? Soa-me como algo extraído do livro de George Orwell, o clássico 1984 que vou reler pela terceira vez.

WAR IS PEACE
FREEDOM IS SLAVERY
IGNORANCE IS STRENGTH

Três frases antagônicas que eram o slogan do Partido. Antíteses que tinham por função confundir e manter o povo na ignorância, afinal a ignorância era a força, o poder. A implementação da política do Partido ficava a cargo do Ministério da Verdade (Ministry of Truth, no original).  Alguma semelhança com o Brasil de hoje?

Não me agrada nem um pouco qualquer tentativa de rever a lei de Anistia. Já escrevi sobre isto no passado. A ditadura brasileira foi exatamente isto "à brasileira", light, avacalhada, malemolente. Nem a ditadura neste país conseguiu ser séria. Morreu gente? Sim, morreram muitos, mas menos do que em outros países. O contexto histórico era outro e o clima político era de confronto, de guerra. E durante uma guerra certas medidas são justificáveis. 

Concordo com Pondé: "a ditadura, de certa forma, nos salvou do pior."


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Conto: Biscoito da Sorte




BISCOITO DA SORTE

Saiu do escritório pouco antes das dezoito horas, como de costume. Amuada, passos lentos e pesados, olhar opaco e distante, um cansaço tomara-lhe o ser. Algo que não era de hoje, mas que se acumulara nos últimos tempos, talvez uma fase passageira, mas que teimava em não dissipar. Seu estado de espírito contrastava com a tarde quente e clara, de céu azul intenso e instigante, tão típico daquela época do ano.

 Ela, porém, nem notou.

Caminhou dois blocos e parou numa cafeteria simpática, onde refugiava-se ao final do expediente e antes de enfrentar os constantes reclamos da mãe. O trabalho era um momento de puro esquecimento. Havia tanto por fazer, o ritmo tão corrido, que raramente deixava os problemas pessoais afetarem seu dia a dia. Sua cabeça ocupava-se com a rotina do escritório sem deixar recantos mentais para o desânimo. Lidava com os gracejos mais ousados – alguns de mau gosto – com maestria e habilidade, sem deixar-se levar ou irritar. Era ágil e expedita, eficiente e altamente produtiva. Escondia-se por detrás da rotina e não deixava a menor sombra de dúvida sobre o que lhe afligia. Para todos do ambiente profissional, para os colegas de trabalho, a vida para ela era um mar de rosas. Tinha tamanho autocontrole no trabalho e apresentava uma aparência irretocável. Não que fosse dissimulada. Ela gostava do que fazia, apenas separava o trabalho da sua vida pessoal. Odiava intromissões e mexericos.

O trabalho era seu refúgio seguro, sua rotina a invadir e afastar qualquer pensamento que lhe pudesse causar-lhe mais insônia ou agravar a gastrite.

Pediu um chá mate com limão com bastante gelo no copo. O garçom, prestativo, mas formal, deixou o copo alto sobre a mesa sem lhe dirigir a palavra e deixando-a imersa em seus pensamentos. O copo suava, transpirava em pequenas gotículas. Percorreu a borda do copo com um dedo, descendo e cortando a camada uniforme de pequenas gotas. Parou no meio do copo. Formara-se uma gota maior que empurrou as demais e desceu pela lateral do copo. Uma lágrima não derramada por ela, mas pelo ser inanimado diante dela. A lágrima, lenta e sinuosa, foi trilhando seu caminho até formar uma poça na mesa.

Ao brincar com o copo, reparou que não havia feito as unhas.  Mal sinal. Toda vez que não comparecia à sessão semanal na manicure e deixava as unhas sem esmalte, pouco cuidadas, era um indício claro de que algo a incomodava. Desta vez havia sido a dor na região lombar agravada por um sentimento inexplicável de depressão.  O desânimo invadira-lhe a alma de tal forma, que a rotina se tornara pesada. Seria a idade a responsável por estes períodos mais frequentes de mergulhos introspectivos? Por onde andava a alegria jovial que lhe dominara nos anos anteriores? Em plena primavera carioca, o sorriso lhe escapava.

O olhar continuava longe, ausente. Consultou o relógio e ainda tinha um pouco de tempo antes de enfrentar o metrô e uma rápida visita na casa da mãe, que sabia não seria rápida nem agradável.

O celular tremeu na bolsa e ela meteu a mão a caçar o aparelho. Pescou um pequeno pacote branco com um biscoito da sorte, sobremesa que guardara do almoço no restaurante chinês. Provocada pela curiosidade, abriu a embalagem, quebrou o docinho ao meio e puxou a mensagem.

“Não prives o mundo do teu sorriso. Se não consegues sorrir, volte seu olhar para quem te faz sorrir e deixe-se contagiar.”

O olhar ganhou brilho. Respirou fundo, tomou um gole do chá e contemplou o céu pela janela. 


terça-feira, 15 de maio de 2012

Falta de assunto?


Há um aparente silêncio neste blog, não por falta de assunto, mas por falta de silêncio. Sim, meu caro amigo, falta de silêncio. Contraditório? Explico-me.

Sou advogado e o grande calvário de todo advogado militante são os prazos. Os prazos, na maioria das vezes, não podem ser prorrogados. Se um prazo não for cumprido, o prejuízo é quase certo: para a parte envolvida e para o advogado que responderá por omissão e negligência. 

Andei assoberbado de prazos - o que é bom por um lado, ruim por outro - e o silêncio de que tanto necessito para escrever evaporou. O blog ficou silencioso, sem textos. Os textos ficaram fervilhando na minha cabeça, numa revolta constante para saltar para o papel ou a tela do computador. 

Preciso do silêncio para mergulhar no texto, algo parecido com o que é feito no texto técnico jurídico, mas com conteúdo muito diverso. Outro dia ouvia um especialista em produtividade no ambiente de trabalho dar uma entrevista no rádio e sugerir que as pessoas somente olhem seus emails 4 vezes ao dia. Faço isto há alguns anos. Evito a distração dos constantes emails que chegam, sendo que a maioria é lixo. Quando preciso redigir alguma petição ou defesa, tranco-me na minha sala, não atendo os telefones e não respondo email. A imersão é total para não atrapalhar o fio da meada.

Porém, quando dou asas aos meus devaneios de final de dia - ou de começo de dia, ou de meio de dia -, basta a inspiração e deixá-la ganhar corpo. Muitas vezes só tenho a primeira frase e o resto vem com a inspiração. Ignácio Loyola Brandão escreveu certa vez que se a inspiração não vem, caminhe pelas ruas e observe. A inspiração voltará. Sigo este conselho do escritor paulista. Por vezes os textos demoram a ganhar corpo, mas esforço-me para que não se percam no vazio.

Dito isto, vou aproveitar a quietude da noite fria e deixar que as palavras ganhem corpo.


sábado, 12 de maio de 2012

A mulher invisível

Neste dia das mães, este blog recorre a um excelente vídeo que assisti recentemente. Há certos textos que não devem ser recontados, nem resumidos: devem ser transcritos no original. Eis nossa homenagem a todas as mães: àquelas presentes e àquelas que já deixaram este mundo, após concluírem sua obra e seu tempo nesta terra.

Parabéns a todas as mães!!

terça-feira, 8 de maio de 2012

Sacolinhas plásticas, plano de saúde e o politicamente correto


Entro no elevador do prédio do escritório e fico a ler o monitor com notícias e propagandas. Agora até o curto trajeto de elevador está ocupado pela propaganda e pela informação. Deparo-me com algo no mínimo curioso: Guia para uso consciente do plano de saúde. Sim, meu caro leitor, a Sulamérica lançou um manual para o segurado não abusar do seguro. Não acredita, leia aqui. Fiquei imaginando o que há por detrás desta campanha. Claro que deve haver uma série de informações técnicas úteis, mas também deve ter aqueles anúncios sobre atrasos nos pagamentos, multas e juros, desligamento do plano, coberturas apenas as previstas em lei, prazos para atendimento etc. 

Mas quando se fala em uso consciente, fiquei pensando numa campanha do tipo: "não fique doente, não use abuse do seu plano" ou "não faça exames desnecessários, você pode tirar a vez de quem realmente precisa do exame." Há uma seção no site sobre o uso consciente que trata de fraude contra seguro e lavagem de dinheiro. 

Agora pergunto-me: por que não uma seção sobre a concessão consciente de tratamentos e coberturas pelo plano de saúde? Por que não incluir uma seção sobre a conduta de boa-fé dos planos de saúde? Ou ainda, por que o plano não dá o exemplo e aceita a cobertura primeiro, para cobrar e discutir depois?

Em matéria de plano de saúde, a regra é negar a cobertura do tratamento para o segurado. A grande maioria não discute e simplesmente arca com o custo. Aqueles que recorrem ao judiciário conseguem a cobertura, mas dificilmente obtêm a indenização devida. No Estado de São Paulo, o Tribunal de Justiça não tem condenado os planos de saúde por danos morais ao negar coberturas previstas contratualmente. O resultado é o enriquecimento ilícito dos planos de saúde. Eles negam a cobertura e só cobre o tratamento se houver ordem judicial, mas mesmo assim, não tem que indenizar o segurado por todos os tormentos causados. A atual conduta do judiciário incentiva os absurdos cometidos pelos planos de saúde. Este guia do uso consciente é um exemplo claro da postura dos planos de saúde.

A praga do politicamente correto tenta ludibriar o segurado com uma linguagem escorregadia e enganosa.

Basta ver outro exemplo: a campanha do Itaú com o slogan "vamos jogar bola". A campanha não fala em vamos trabalhar, vamos ler um livro, vamos estudar, vamos arregaçar as mangas. Não! A campanha sugere que deixemos tudo de lado e vamos jogar bola, tomar uma cervejinha, deixar os problemas para amanhã. Suor, só no campo; suor do trabalho não vale a pena.

O mesmo se aplica às sacolinhas plásticas que se tornaram as únicas vilãs da poluição no mundo. O plástico é o culpado pelo aquecimento global (que já está sendo revisto), pelas enchentes, pela saturação dos aterros etc. Economizam os supermercados que habilmente conseguiram enganar o consumidor com o argumento da sustentabilidade. Deixam de gastar com embalagens plásticas sob o argumento de que estão protegendo o planeta. Por outro lado passam a vender mais sacos plásticos para lixo e sacolas de pano. 

Uma pergunta: por que os supermercados podem vender sacos plásticos para lixo e não podem distribuir sacolinhas nos caixas? Qual das duas não polui? E os preços nos supermercados, vão baixar? E o Procon? E o MP? Calaram-se todos. E aí de quem critica o fim das sacolinhas plásticas. Pois bem, eu sou contra o fim das sacolinhas plásticas e deixo isto muito claro toda vez que vou ao supermercado. 

Outro dia, uma operadora de caixa constrangida com meu discurso foi surpreendida com a pergunta: "Aumentaram seu salário com o dinheiro que economizam com as sacolinhas?" Acho que ela nunca tinha pensado nisso, mas a senhora que estava atrás de mim já tinha percebido a malandragem dos donos dos supermercados.

É preciso preservar o planeta, mas não aceito que me façam de otário!

sábado, 5 de maio de 2012

O Estagiário


Uma entrevista sincera em que o estagiário abre sua alma e revela a mais pura realidade. Atenção especial para a parte final.



sexta-feira, 27 de abril de 2012

Microconto - X


- Como você me descreveria? - perguntou ela com um aspecto timidamente curioso e ansiosa para ouvir o que ele diria.

- Você é um claro enigma! - afirmou poeticamente sem notar a confusão estampada no rosto da moça.


terça-feira, 24 de abril de 2012

Crônica: Tela de cinema

Tela de Cinema, RLBF

Fez-se silêncio. Não a ausência de som e ruído externo, mas um mergulho contemplativo, quase um transe que o fazia ignorar tudo ao seu redor. Alheio ao burburinho em plena Avenida Paulista, no meio da manhã, estava tomado de uma nostalgia estranha, inexplicável. Ansiava por algo desconhecido, sentia uma vontade de embriagar-se nas lembranças, nas imagens da memória. Repassar e reviver. Retornar ao ponto inesgotável de alegria, uma sucessão de momentos únicos.

O tempo deveria ser congelado de modo que pudesse mirar e admirar seu rosto, em estado de graça, quase uma reverência sagrada, quase uma adoração servil.

Uma nostalgia saudosa que lhe deixara confuso. Sentia o prazer da lembrança e a dor da saudade. Queria fotos, queria sons, queria sentir o perfume, o toque da pele, o leve roçar dos cabelos no seu rosto, o olhar discreto e disfarçado pelas curvas dela, pelo decote a revelar um pequeno indício dos seios, vibrando ao descobrir parcialmente a asa tribal da bela tatuagem que adornava seu corpo, pelo cantar de sua risada, pela explosão de alegria e de entusiasmo ao falar, pela manhã preguiçosa conversando e ouvindo música. Desejou o impossível: a materialização do passado no momento presente! A ausência trouxe-lhe a ferida do vazio, qual tela de cinema límpida e alva, despida de qualquer vida, passiva a observar os espectadores. O filme que tanto imaginara já tinha acabado. E não seria exibido novamente. A única cópia destruída. Restava-lhe, apenas, reavivar a memória e vivenciar um sonho no delírio do transe urbano.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Epígrafe - XV


"Eu não me lembrava de ter posto dentro do volume o recorte da Lux. Teria comprado o livro, num dos sebos da Rua São José, com ele ali? É possível. Cedo ainda, como se estivesse mal desperto, pensei em falar para o [Manuel] Bandeira. E nisto me lembrei de que o velho amigo, o querido poeta, o exemplar companheiro, que sempre acordava emo eu em hora extremamente matinal, está recolhido ao Mausoléu da Academia, desde o ano passado.

Foi ele quem me faz achar o artigo? E por que não, se o mistério faz parte da condição humana?"

(Josué Montello. Diário do Entardecer 1967-1977. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1991, p. 229)


terça-feira, 17 de abril de 2012

Livro infantil: porta de entrada para um mundo mágico


Pipa


No dia 18 de abril comemora-se o Dia Nacional do Livro Infantil. A data escolhida foi instituída para homenagear Monteiro Lobato, talvez o mais marcante escritor infanto-juvenil brasileiro. Suas obras dialogam com o universo da criança e do adolescente. A homenagem é justa e a data muito relevante para passar em brancas nuvens. O Brasil ainda é um país de analfabetos e de poucos leitores. Refiro-me àquela pessoal que não escreve direito, que não compreende os textos e que lê pouco. Afinal, quem pouco lê, mal escreve. A consequência é direta. O remédio para adultos letrados e lidos é despertar o gosto pela leitura na criança.

Em abril de 2010, fiz um post com o título Criando Leitores. Afirmava que leitores são desenvolvidos, instigados, criados. Ninguém nasce lendo. Ninguém nasce virtuoso. A virtude é adquirida com a repetição de um determinado ato, até que a prática deste determinado ato transforma-se em hábito. O mesmo ocorre com a leitura. É preciso ler junto, ensinar a ler, ensinar a apreciar o livro e descobrir o livro com um grande companheiro em momentos de diálogo interno. O exemplo é fundamental para que isto ocorra. Se os pais não leem, os filhos não lerão.

Outro dia, um amigo deixou o seguinte comentário no Facebook: "Semana de provas e tenho que fazer meus filhos estudarem. Qual o melhor caminho: prêmio ou dinheiro?". Não sou psicólogo infantil, mas diria sem medo de errar que a metodologia está completamente errada. A resposta para mim é disciplina, é compreensão por parte da criança de que o estudo é sua profissão e o estudo é sua missão e tarefa. Em outras palavras, estudar é obrigação da criança. Não digo que é fácil - tenho minhas lutas com meus filhos neste campo também -, mas tenho a preocupação de demonstrar-lhes a importância deste momento e da relevância do estudo em suas vidas. 

O mesmo pode ser transposto para a leitura. Basta separar alguns minutos por dia, sentar-se com o filho e ler juntos. O exemplo arrasta! 

Cabe também uma breve ressalva: é preciso escolher o livro e ajudar a criança a ler bons livros. Há muita porcaria publicada e vendida por aí. Um livro ruim pode 'deseducar' e pode agravar problemas com ortografia e gramática. 

Se você não sabe por onde começar procure qualquer livro da Ruth Rocha, uma escritora brasileira que sabe contar uma excelente estória para as crianças. E para fazer-lhes companhia, por que não reler alguma obra de Monteiro Lobato? Sairá rejuvenescido com a volta à infância e com um vocabulário mais rico. Não perca tempo e lembre-se: o livro infantil é o ponto de partida para formação de bons leitores.

NOTA: Para ler outros posts sobre Monteiro Lobato e literatura infantil, clique nos tags abaixo.


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Museus em alta


A reportagem de Mariana Shirai foi publicada no Valor Econômico (edição de 12 de abril de 2012, p. D5) sob o título "O ano das exposições blockbusters no Brasil" e trouxe uma nota bastante interessante: "No fim do mês passado, a exposição de Escher no Rio foi apontada pela publicação britânica 'Art Newspaper' como a mais popular no mundo (maior média diária de visitantes), com 573.691 visitantes."

O número de visitantes é um indicador muito positivo de que há interesse por cultura no Brasil. Desde que as exposições sejam relevantes e bem montadas, o público comparecerá. Os cariocas deram um exemplo com a frequência avassaladora à mostra de Escher. Não me surpreendo, pois o Rio é mais do que "apenas" uma cidade maravilhosa de praias e paisagens indescritíveis. O Rio é uma cidade de cultura pulsante e viva e o CCBB-RJ é um dos lugares mais encantadores para se visitar.

Recentemente tive a oportunidade visitar a mostra sobre a Índia no CCBB-Rio e no CCBB-SP. A mostra de São Paulo - apesar de teoricamente igual - era mais acanhada por culpa do espaço menor, mais apertado, menos iluminado. Os cariocas são privilegiados de poder desfrutar deste grande espaço cultural.

Volto a insistir no que já discuti em posts anteriores: o brasileiro é ávido por cultura e acorrerá às grandes mostras. O Brasil tem excelentes espaços culturais, basta o cidadão ir atrás. E este ano ainda promete com exposições de Leonardo Da Vinci (1452-1519) e Caravaggio (1571-1610), além de uma grande mostra sobre o impressionismo, com obras de MOnet, Renoir, Van Gogh, Degas e Manet, diretamente do acervo do Museu D'Orsay, de Paris.