quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Uma estrela no horizonte


Cada ser humano tem seu brilho próprio. Por vezes escondido, oculto por trás de aparências que enganam. Pode parecer frio, indiferente, metido, bravo, tímido. Muitos poderiam ser os adjetivos a caracterizar tantas pessoas que achamos conhecer. É preciso um olhar atento – ou então ouvir e deixar a pessoa se mostrar -, é preciso paciência para conhecer e descobrir. Qual não será nossa surpresa ao se deparar com o brilho daquela alma que está ao nosso lado.

Uma jóia reluz depois de lapidada. Em estado bruto, na natureza, passa despercebida, é descartada, ignorada. O garimpeiro, que vai em busca da pedra preciosa, tem olhar clínico para desvendar os mistérios da rocha e do solo. Igual a cada ser humano.

Olhe em volta. Lance um olhar na rua àquela pessoa que caminha na sua direção, ou que senta ao seu lado no ônibus ou no metrô, ou que está diante de ti na fila do banco, do cinema, do restaurante, da loja. Cada um tem seu brilho, suas qualidades, seus dons, sua beleza.

Encontrar o brilho daquela pessoa especial, daquele amigo - ou amiga -, é uma dádiva, um presente celestial. Claro, que há pessoas que nos cativam com um brilho intenso e se tornam mais do que especiais. Moram no lado esquerdo do peito. Basta vê-las, ou ouvi-las ao telefone, ou simplesmente lembrar-se delas para que o sorriso desabroche e a felicidade tome conta de todo nosso ser.

Nestas festas de final de ano, erga seu olhar ao firmamento e aviste a estrela no horizonte. Estrela que caiu na Terra e caminha do nosso lado na forma de uma pessoa querida. Agradeça por esta estrela, agradeça pelo brilho que ela traz nas nossas vidas. Agradeça sempre por esta pessoa existir e lhe presentear com um sorriso.

Um Feliz Natal a todos os amigos e leitores deste blog! E que 2009 seja um ano repleto de grandes conquistas!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Mar Português, de Fernando Pessoa



MAR PORTUGUÊS


Ó mar salgado, quando do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!




Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

(Quando fui outro. Rio de Janeiro : Objetiva, 2006, p. 169)


Um dos poemas mais conhecidos do mestre Fernando Pessoa. Leitura obrigatória para todo aluno em fase de preparação para o vestibular, este poema foi o tema de minha redação no vestibular da Fuvest, lá pelos idos de 1988. Jovem, idealista, imbuído de fortes convicções políticas, dissertei sobre o potencial deste grande país do futuro que deveria abraçar a modernidade econômica sem medo. A redação levou o título Duc in Altum! (Mar Adentro em latim, coisa de vestibulando metido a besta).

Hoje, 20 anos depois, releio estas palavras com outra visão. Escolhi este poema para dar um toque de reflexão no final do ano. Tudo vale a pena / se a alma não é pequena. / Quem quer passar além do Bojador / tem que passar além da dor.


O ano que finda já passou, ficou no passado e este não pode ser mais alterado. O passado pode ser analisado, revisitado, mas não reescrito. O passado é a base, um alicerce, mas o projeto que se constrói sobre ele está em nossas mãos. O futuro, os dias vindouros, presenteia-nos com as ferramentas para modificar o projeto todo, para corrigir rumos, para direcionar esforços e energias, para redescobrir a coragem, a poesia da vida.


Não importam os erros e fracassos do ano que se esvai. Importa aprender com estes momentos e iniciar a jornada de forma renovada e vibrante. Tudo vale a pena / se a alma não é pequena.




segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Um marco na vida de um leitor


"- Até então para mim as leituras eram uma obrigação, uma espécie de multa a pagar a professores e tutores sem saber muito bem para quê. Eu não conhecia o prazer de ler, de explorar portas que se abrem na nossa alma, de abandonar-se à imaginação, à beleza e ao mistério da ficção e de linguagem. Tudo isso para mim começou com aquele livro. (...)

- Bem, você é ainda muito jovem. Mas é essa mesma sensação, essa chama da primeira vez que nós não esquecemos. Este é um mundo de sombras, Daniel, e a magia é um bem escasso. Aquele livro me ensinou que ler poderia me fazer viver mais e mais intensamente, que poderia devolver-me a visão que eu tinha perdido. Só por isso aquele livro, que não interessava a ninguém, mudou a minha vida."
(A Sombra do Vento. Rio de Janeiro : Objetiva, 2007, p. 27)


O trecho acima foi extraído do Best-seller de Carlos Ruiz Zafón. Clara, a titular da fala, é cega e os livros são lidos para ela. Clara conta a Daniel como um livro mudou sua vida, como descobriu o prazer de ler, tudo provocado por um livro esquecido e desprezado pelos outros.


Este trecho poderia ser a epígrafe de uma tese de doutorado ou de um longo ensaio sobre literatura e o prazer de ler. Vou pinçar alguns pedaços e idéias para uma breve reflexão de final de tarde.


No momento em que se consegue transformar a leitura em algo prazeroso, descobrimos um novo mundo. Volte no tempo. Pergunte-se qual o primeiro livro que marcou sua vida? Todos nós temos um livro que em algum momento, de forma inadvertida e silenciosa, mudou nossa forma de ver o mundo. Um livro que nos abriu os olhos para um nova dimensão , que nos permitiu ver aquilo que jamais tínhamos reparado.


Posso afirmar que o primeiro livro que li com prazer, sem ser obrigado, foi "O Velho e o Mar", de Ernest Hemingway. Li no colégio e muitos não gostaram. Eu fiquei fascinado pela persistência, pela luta, pelo esforço do velho Santiago em busca do peixe grande. Santiago arrisca a própria vida para conseguir seu maior objetivo: pescar um grande marlim azul. Santiago é bem sucedido em sua empreitada, mas ao tentar trazer o enorme peixe de volta para a praia, seu barco é atacado por um cardume de tubarões. Ele luta em vão para tentar preservar o peixe dos tubarões. Volta à praia, satisfeito, realizado, para deitar-se em sua cama e morrer.


Hemingway compara a vida a uma pescaria e tem grande êxito na comparação. Como disse, muitos não gostaram do livro, muitos não compreenderam a mensagem do livro. Eu fiquei apaixonado por Hemingway a partir daquela obra e li vários livros de sua autoria.


Meu ponto é exatamente este: um livro pode ser marcante para uma pessoa, mas não dizer nada a outra pessoa. Isto não tira o mérito do livro, nem de seu autor. Mas a leitura nos surpreende quando encontramos as palavras que precisamos ler naquele exato momento. A magia pode ser escassa no mundo, mas é abundante nos livros.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Kit Left Revolution

Um comentário político que dispensa comentários. O vídeo foi criado por estudantes de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Boas gargalhadas garantidas!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Crônica: Ondas


ONDAS

Deitou-se na cama com o leve burburinho das ondas quebrando nas rochas e trazido pela brisa morna. Voltou a pensar que tudo aquilo havia sido um erro, um grande equívoco. Foram cinco dias de suposto descanso, um momento de fuga a dois. Ela insistiu que queria viajar com ele. Ele não queria. Ela foi enfática. Com um profundo suspiro, ele aceitou. Ela anteviu seus piores temores corporificados naquele longo e profundo suspiro. Ela planejou a viagem. Ele deu de ombros. Ela escolheu a pousada. Ele assentiu com um leve gesto da cabeça.

Naqueles breves dias, ela se esforçou por reparar a ponte ruída pelo tempo. Tábuas podres precisavam ser removidas e substituídas. Os cabos de aço a sustentar a estrutura urgiam por um reforço. A estrutura era frágil e uma tempestade mais forte seria capaz de levá-la rio abaixo. As cabeceiras da ponte apresentavam sinais de erosão. Eram sinais antigos, nada de recente. Deixaram o solo rachar sem proteção, sem cuidado. Mas ela queria passar alguns dias só com ele. Precisava tentar mais uma vez para deixar claro em sua cabeça de que a culpa não havia sido só dela. Tudo aquilo a corroia internamente.

Suas pernas doíam, sua cabeça latejava. Estava cansada, ou melhor, exausta por dias que alternaram olhares distantes, gritos, silêncios longos e profundos, perguntas sem respostas. Talvez a indiferença dele a tivesse levado à exaustão. Virou-se de costas para ele, com o olhar fixo na parede. Procurava alguns pontos de claridade, alguma luz, algum sinal, alguma idéia para acalentar sua alma entristecida e murcha.

As ondas quebrando nas rochas perto da praia pareciam soar como música de orquestra. Ritmo, vida, intensidade, força, tempo...um tímido sorriso esboçou. Uma lágrima percorreu-lhe o rosto. Sentiu-se livre. De coração lavado, era hora de lançar-se ao mar e deixar-se levar.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Vulgaridade governamental

"Imagine se um de vocês fosse médico e atendesse um paciente doente. O que você falaria para ele? 'Você tem um problema, mas a medicina já avançou demais. Vamos dar tal remédio e você vai se recuperar'. Ou você diria: 'Meu, Sifu'".

A frase talvez pudesse ser dita em uma confraternização de final de ano ou numa mesa de botequim depois de algumas cervejas. Mas, não. A frase foi dita pelo presidente Lula, em discurso no lançamento do Fundo Setorial do Audiovisual, no Rio, referindo-se à atitude do governo em incentivar o consumo da população. Triste.

A Folha de S. Paulo ainda explicou ao leitor desavisado que a expressão é corruptela da expressão vulgar 'se fo....". Nem precisava explicar. Depois do famoso "relaxa e goza" da Ministra Marta Suplicy e do "top top" do Assessor Especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, agora é Lula quem adere às frases chulas.

A triste realidade de um governo vulgar!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Tatiana Salem Levy tem livro premiado.

Um dos livros que li neste ano que se encaminha para o final - e um dos que mais gostei - foi A Chave de Casa. Escrevi um post sobre a obra (Uma viagem pelo passado) em que teci meus comentários pessoais e minhas impressões sobre o livro.

Aos 29 anos, Tatiana Salem Levy recebeu esta semana o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria autor estreante. Prêmio merecido. Não li as obras dos outros concorrentes, mas a Tatiana utiliza de uma dinâmica narrativa diferente do usual. Seus capítulos são curtos e misturam a realidade com a memória. O leitor mergulha num universo que traz narrativas paralelas, de várias gerações, outorgando à estória um ritmo próprio, muito semelhante com a vida.

Poderia se comparar a forma escolhida pela autora com uma conversa com uma pessoa de idade avançada. Pensem numa tarde preguiçosa de prosa com sua avó. Ele comentará situações do presente, lembrará de coisas passadas e mencionará fatos de sua infância. Tudo se alternando ao longo da conversa, como se costurasse sua vida com a sobreposição temporal.

No post de 6 de fevereiro de 2008, conclui o texto com a seguinte frase: "Dificilmente o livro será um best-seller, mas é uma obra de grande qualidade literária." Acho que acertei. Transcrevo alguns trechos da obra. Trechos que grifei durante a leitura que me fizeram pensar.

"Vida melhor sempre se pode conseguir onde se está, mas fugir, não; para isso é preciso pegar um navio, ir para bem longe, principalmente se for de um grande amor, impossível de tão grande, como era o seu." (p. 35)

Sobre o passado, o imigrante decidido a vir ao Brasil se questiona e decide romper as amarras.

"Se ele quisesse, poderia conservar seu nome, sua origem. Preferiu criar outros, dar um novo nome e uma nova origem à vida que o aguardava. Sentia que para recomeçar precisava de outra identidade: se não deixasse para trás tudo o que havia sido seu até então, estaria para sempre amarrado ao passado." (p. 42)


E mais adiante, o passado a volta a ser questionado.


"O resto era passado, e o passado deve ser silenciado, adormecido entre os fios da memória." (p. 111)


Relendo estes trechos do livro, surgem novos comentários e divagações. Não vou me alongar. Talvez seja necessário retomar a temática do livro em outros posts.


Parabéns a Tatiana Salem Levy pelo prestigioso Prêmio e pelo reconhecimento. Aguardamos seus próximos livros.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Crônica: Espinhos

Foto by Visão ao Longe


Começaste com uma agulha. Vencido o tempo do idílio e do conto de fadas, vieram as pontadas nos dedos. Usaste o instrumento de costura para provocar pequenas feridas. Bolinhas vermelhas a tingir meus dedos. Não tinha dedal e qual mão de costureira e apareceram as primeiras marcas.

Descobriste os espinhos, meio mais eficaz para rasgar a carne e tatuar o corpo com cicatrizes póstumas ao sangue jorrado da carne dilacerada. Não me coroaste com espinhos, mas as feridas eram tão profundas e doloridas que quase sucumbi. Calos nas mãos e nos pés, defesa natural do corpo agredido, do coração esmagado. A carapaça nasceu naturalmente fruto do instinto de sobrevivência e da esperança de que um dia a flor voltaria a desabrochar. Um cactus sem flor, mas coberto de espinhos defensivos. Carapaça intransponível que criara um mundo aparte oriundo de boas lembranças e sonhos.

O arsenal foi todo testado. Dardos, flechas, zarabatanas, lanças. Talvez até uma bala não ultrapassasse o escudo formado pelos momentos de descaso. Blindado estava eu e a distância era uma proteção eficaz. Distância que permitia desviar com malabarismos dos ataques constantes e mais freqüentes. Saltos, cambalhotas, piruetas. Artimanhas aprendidas com a vida. Dolorosas para um corpo pouco flexível e desanimado.

O solo tornou-se estéril. Deserto arenoso do coração. Desterro solitário, delirando na ilusão de que a nova estação traria chuvas. Chão árido onde o cactus não dava flor e murchava com a ausência total de água e da seiva da vida. Relegado ao relento, ao frio da noite e ao sol escaldante do meio-dia. Ignorado, desprezado, imóvel. Restava aguardar abraçado ao tempo.

De forma improvável, trouxeste as primeiras gotas a regar o chão duro e rachado. Suguei o líquido vindo dos céus com um sorriso tímido. Mandaste mais chuva e adubo para o solo. Enrugado que estava pela secura, voltei a sentir a pele mais tenra. Os calos pareciam diminuir e o sangue circulava com mais vigor, levemente palpitante a irrigar todos os órgãos deste corpo. Cuidaste de mim. Podaste as folhas mortas. Inesperada chuva que aliviou a dor. E quando faltou a chuva, regaste-me com palavras.

Não estava morto. Apenas hibernara sem data para despertar. Descobri esta verdade apenas quando surgiste. O coração desfalecido, quebradiço, fragilizado, recuperava-se agora.

Incrédulo, dei me conta de que trazia boas novas. Incrédulo, recobrei o brilho no olhar. Incrédulo, voltei a notar que o solo se recobria de verde e de brotos. Incrédulo, transformaste os espinhos em um campo de flores. A noite que sucedeu era estrelada e com uma lua magnífica. As flores voltaram rejuvenescidas e trazidas como fruto de inúmeras palavras. Sempre mágicas.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Palavras sábias



"Uma palavra carinhosa é capaz de aquecer três meses de inverno"

Provérbio Japonês

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Solidariedade com Santa Catarina

Tragédias naturais são tristes e comoventes, mas acabam por trazer à tona a solidariedade do povo brasileiro. Povo que não mede esforços para ajudar quem precisa de auxílio. As chuvas que têm afetado o Estado de Santa Catarina causaram mortes e destruição, criando uma massa de desabrigados que perdeu tudo. Aqueles que sobreviveram, seguem em frente.

É preciso ajudar. Não custa nada dar uma olhada em roupas que não usamos mais e que estão em boas condições. Podem não servir mais para nós, porém, para quem não tem nada, elas são o empurrão e apoio para iniciar o recomeço.

Uma lista de locais para entrega de doações está disponível no UOL.


Para contribuições em dinheiro, transcrevo a informação do blog do Reinaldo Azevedo:

"A leitora Cris, freqüentadora deste blog, faz-me um pedido justo: que divulgue os números das contas correntes abertas pela Defesa Civil de Santa Catarina para receber doações. São eles:

Banco do Brasil – Agência 3582-3, Conta Corrente 80.000-7
Besc – Agência 068-0, Conta Corrente 80.000-0.
BRADESCO S/A - 237 Agência 0348-4, Conta Corrente 160.000-1

O nome da pessoa jurídica é Fundo Estadual da Defesa Civil, CNPJ - 04.426.883/0001-57."

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Crônica: Sorriso

No rosto sisudo, desenha-se um arco invertido. Os cantos dos lábios curvam-se diante da leitura de algumas palavras, qual meia lua no céu profundo e negro. Palavras singelas, mas carregadas de ternura. A tensão natural dos músculos dissipa-se de forma inesperada. O sorriso se alarga. Transforma-se em gargalhada contida. Ri sozinho. Relê aquelas palavras e imagina o sorriso distante que provoca uma onda de alegria. Na metrópole cinza, a aquarela tinge tudo com cor e formas inesperadas. Traços largos do pincel. Cores vivas e vibrantes contrastam com a poluição, o trânsito, o caos diurno da paulicéia em início de dia.

O sorriso transporta para longe aquele motorista. Solitário no carro, o som do riso preenche todos os cantos do veículo. Desliga o rádio e deixa o riso como trilha sonora para começar um dia. Um dia que dá seus primeiros passos de forma surpreendente. Um dia que se inicia inspirado por alguém que dividiu com ele a alegria. E o sorriso belo e cativante. Não há distância, nem obstáculo para um sorriso. Ele viaja pelas ondas do espaço, como uma semente levada pelo vento e vem a pousar no seu rosto. O rosto de um homem sorridente e contagiado pelo feitiço de uma semeadora.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Falando de Museus

A reportagem é da coluna Avant-Première do caderno de Fim de Semana do Valor Econômico. Quem assina é João Bernardo Caldeira e Robinson Borges. Comento no final.

"Cor-de-rosa

A visita aos museus paulistas é um programa majoritariamente feminino. É isso o que constata uma pesquisa do Observatório de Museus e Centros Culturais realizada em 13 instituições de São Paulo. O levantamento mostra que 62% de seus visitantes são do sexo feminino. No Rio, entretanto, um estudo similar identifica que em alguns museus o público masculino chega a ser superior ao feminino.

Fala garoto!

Dos 13 museus de São Paulo investigados pelo Observatório, o Museu de Arte Moderna (MAM) foi o que recebeu público mais jovem, com maior presença de visitantes entre 15 e 19 anos (18,4%) e de 20 a 24 anos (27,7%).

Canudo

A pesquisa verificou ainda que os visitantes de museus têm escolaridade acima da média da população em geral: 79,9% têm ensino superior completo ou incompleto, sendo 14,2% deles com pós-graduação. Na Região Metropolitana de São Paulo, apenas 17% da população têm superior incompleto ou completo."

Sintetizando: quem vai a museu em São Paulo é quem tem maior nível de escolaridade, e por conseqüência, maior poder aquisitivo. Isto pode ser visto como um diagnóstico interessante: há necessidade de maior divulgação dos museus para o público de escolaridade mais baixa. Importa não só divulgar, mas também criar visitas guiadas para explicar mostras e exposições. Muitas pessoas sentem-se inibidas de visitar um museu porque acham que não vão entender o que ali se encontra. A divulgação e a informação poderiam inverter os percentuais de visitantes encontrados na pesquisa.

Outro ponto que parece óbvio: quem tem mais conhecimento e informação, busca sempre mais conhecimento e aperfeiçoamento. Pessoas com nível superior completo ou incompleto são mais curiosas e destemidas na busca de cultura. Trata-se do "consumidor" tradicional de cultura, em todas as suas versões. É este o público que lê, que ouve música, que visita exposições de arte, que vai a museus.

A pesquisa mostra que a disponibilidade de cultura existe para toda a população, mas muitos se desinteressam por ela. Uma ampla campanha de divulgação nas escolas públicas, por exemplo, poderia atrair um novo público aos museus, que por sua vez, teria sua curiosidade aguçada. Este "despertar" da curiosidade pode conduzir o jovem a continuar seus estudos e buscar mais informação. A democratização da cultura tem uma contribuição fundamental na criação de um círculo virtuoso de aumento da escolaridade da população brasileira.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Pinacoteca: estímulos visuais

Maria Bonomi, gravura de 1971


Fundada em 1905, a Pinacoteca do Estado de São Paulo é o museu de arte mais antigo da cidade e um dos mais importantes do país. Seu acervo tem cerca de oito mil obras com ênfase na arte brasileira dos séculos XIX e XX. Apresenta 40 exposições por ano sobre as mais variadas expressões das artes visuais de artistas nacionais e internacionais e oferece atividades aos mais diferentes diferentes perfis de público.

Adentrei na Pinacoteca pela primeira vez na minha vida no dia de ontem. Sim, demorei 37 anos para descobrir um tesouro de São Paulo. É vergonhoso? Muito, mas reparei o erro em tempo. Talvez seja tão grave quanto um carioca da gema que nunca tenha ido ao Pão de Açúcar. Muitas vezes desconhecemos as jóias de nossas cidades por simples esquecimento. Ontem, feriado por aqui, não posterguei a visita. Pinacoteca e Museu da Língua Portuguesa numa tacada só, com direito a um café parte externa da Pinacoteca no Parque da Luz.

A área está completamente restaurada e inclui a Estação da Luz, a Sala São Paulo e a Pinacoteca. Um museu maravilhoso, a começar pelo prédio restaurado e que é inundado pela luz natural, realçando os pátios internos e as obras que ali se encontram. Atualmente, há uma retrospectiva de Maria Bonomi denominada Gravura Passageira, uma mostra de fotografias em preto e branco de Voltaire Fraga (Abundante Cidade - Dessemelhante Bahia), mais obras de Eliseu Visconti, Julio Landman, Cristina Iglesias e Leonardo Raimo.

Tem-se uma sensação de constante estímulo visual e mental ao percorrer as salas e corredores da Pinacoteca. Visões diferentes, artistas que usam materiais variados e expressões artísticas ímpares. A cada sala e a cada mostra, algo de surpreendente é despertado. Não é à toa que há um sem número de pessoas que visitam a Pinacoteca de fora de São Paulo. É um passeio excelente que não poderia ser adiado mais. Eu tinha que ir. E adorei.

O ingresso custa R$ 4,00 para adultos. Crianças com menos de 12 anos não pagam. A mostra de Maria Bonomi fica até o dia 7 de dezembro.

Ah, a gravura de Maria Bonomi que ilustra este post não foi tirada na Pinacoteca.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Só tinha de ser com você

Em véspera do único feriado do semestre, um pouco de bossa nova na voz de Paula Lima, interpretando "Só tinha de ser com você", de Tom Jobim.



Só tinha de ser com você

É, só eu sei
Quanto amor eu guardei
Sem saber que era só prá você

É, só tinha de ser com você
Havia de ser prá você
Senão era mais uma dor
Senão não seria o amor
Aquele que a gente não vê
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu pra você

É, você que é feita de azul
Me deixa morar nesse azul
Me deixa encontrar minha paz
Você que é bonita demais
Se ao menos pudesse saber

Que eu sempre fui só de você
Você sempre foi só de mim

Que eu sempre fui só de você
Você sempre foi só de mim

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Via Appia


VIA APPIA, de Cecília Meirelles.


Pedras não piso, apenas:

- mas as próprias mãos que aqui as colocaram,

o suor das frontes e as palavras antigas.


Ruínas não vejo, apenas:

- mas os mortos que aqui foram guardados,

com suas coragens e seus medos da vida e da morte.


Viver não vivo, apenas:

- mas de amor envolvo esta brisa e esta poeira,

eu também futura poeira noutra brisa.


Pois não sou esta, apenas:

- mas a de cada instante humano,

em todos os tempos que passaram. E até quando?


(Canções. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 78-9)

Abraço a brisa da vida, envolvendo-a com amor e transformando cada instante em algo humano. Este "algo" humano que se manifesta em coisas singelas, em pequenos momentos de compreensão – ainda que não se expresse a necessidade de um abraço ou de um colo -, em gestos e sorrisos, em toques no ombro, em abraços apertados, em sorrisos desinteressados, em beijos no rosto, em segurar as mãos sem contar os segundos ou minutos, em correr atrás de uma borboleta, em levantar uma criança do chão para que ela posse ver mais longe, em agradecimentos desnecessários, em lágrimas que escorrem despertadas por aquela música – ou aquele texto -, em sonhos que nos visitam nas horas mais silenciosas...


O humano é dimensão da nossa dignidade única e incomparável. O humano está na nossa essência, que muitas vezes olvidamos ou afogamos. "Pois não sou esta, apenas: / - mas a de cada instante humano, / em todos os tempos que passaram. E até quando?" Somos a soma destes incontáveis instantes humanos, capazes de mudar uma vida e todas as outras que tocamos com nossa humanidade.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Solidão Dissipada





"O destino costuma estar na curva de uma esquina." (p. 188)


"Mas os anos passaram em paz. Quanto mais vazio está, mais rápido o tempo passa. As vidas sem significado passam ao largo como trens que não param na estação." (p. 354)


(A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón.)


Vazio. Desprezo. Esquecimento. Todos estes sentimentos poderiam descrever a solidão, sem, porém, captar toda a sua dor. A solidão é árida como um deserto, fria como uma paisagem gelada, invisível como o ar. A solidão é um punhal que se aprofunda na carne a cada movimento, a cada dia, a cada gesto. A solidão transforma o silêncio em algo ensurdecedor, como se a música mais odiosa estivesse ligada no mais alto volume. A solidão definha, amarfanha, corrói todo o ser.


O vazio trazido pela solidão leva a um caminhar sem rumo. Passamos a ser passageiros sentados num banco do ônibus indiferentes à paisagem que nos rodeia e entregues ao destino que o condutor nos traça. O ponto final da jornada pode chegar quando o ônibus pára; ou podemos despertar do transe ao olhar para fora da janela do veículo e captar um brilho. Uma luz que emana de um olhar de um transeunte, de alguém que ao acaso encontra-se na curva de uma esquina. O destino nos arrebata e fulmina de morte a solidão.


O campo árido, regado pela chuva, rejuvenesce e brotam os primeiros sorrisos que dissipam a solidão. Drummond, com toda sua lucidez de interpretar a vida e os sentimentos, escreveu:


"Onde não há jardim, as flores nascem de um
Secreto investimento em formas improváveis
."


Formas improváveis trazidas pelo destino. Um sorriso. Um pingo de luz notado num olhar sincero. Uma palavra carinhosa. Um simples cumprimento que nos valoriza, que nos revela que somos notados e importantes. Um sotaque aparentemente irritante se transforma em música para os ouvidos. Música que mexe com alma. Voz que mexe com o coração. Palavras que seduzem. Risos que inebriam, contagiam, que se multiplicam em dias, meses, anos...momentos inesquecíveis, rememorados nas horas de escuridão e aflição.


A solidão se dissipou. Tudo obra mágica de alguém que estendeu a mão e conduziu-me para fora do ônibus. Tudo obra de um coração precioso, de uma alma iluminada, de uma semeadora de sorrisos.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Anistia e Retrocesso – Parte 2

Certa vez recebi um cliente indiano em São Paulo. Ele vinha ao Brasil pela primeira vez e perguntou-me se havia violência religiosa no Brasil. Respondi de forma negativa. Aquela pergunta fez-me pensar na questão social brasileira e suas características peculiares. No Brasil, convivem em paz judeus e muçulmanos, católicos e protestantes, brancos e negros, além de toda uma gama enorme de imigrantes que adotaram este país como sua morada. Não estou negando a existência de violência ou preconceito nas várias camadas sociais brasileiras, mas a violência existente nas grandes cidades é semelhante à que existe em toda grande cidade do mundo.

Se voltarmos aos anos 1960 e 1970, período mais intenso da ditadura militar, notaremos que o modus operandi da ditadura era diferente da que existiu em outros países latino-americanos. No Chile e na Argentina, os tempos de ditadura foram muito mais agressivos e violentos do que no Brasil. Muitos foram torturados e mortos pelos respectivos regimes. Brasileiros morreram no período da ditadura, mas em número significativamente menor do que nestes outros países. Foi uma época negra da história que foi cicatrizada com a Lei de Anistia.

A Lei de Anistia, ampla e irrestrita, permitiu indenizar as famílias das vítimas, apaziguou ânimos e fechou feridas. O tempo encarregou-se de tornar a cicatriz quase imperceptível, sem necessidade de uma cirurgia plástica. Passados 30 anos, alguns ministros do atual Governo tentam reabrir estas feridas. Trata-se de um erro grave, de uma postura equivocada que dividirá o país de forma desnecessária.

A tortura é um crime abjeto, hediondo e covarde. Tortura motivada por objetivos políticos tem o agravante de desconsiderar integralmente a liberdade de pensamento e de expressão. Por outro lado, o terrorismo também se enquadra na categoria de crimes hediondos. Grupos armados tentavam derrubar o Governo, e o Governo tentava destruir os grupos armados de tendência esquerdista. A luta armada nunca foi a melhor solução e sempre ocasionou, ao longo da história, inúmeras mortes e perdas. A Anistia visava pacificar este conflito social e virar a página para permitir a construção de um novo tecido social e consolidar uma jovem democracia.

Participei da primeira eleição direta para presidente em 1989. Votei naquela eleição. Votei em todas as outras eleições desde aquela época. Aqueles que hoje defendem a revisão da Lei de Anistia foram eleitos graças ao sistema democrático e pluralista vigente no Brasil. Não foram eleitos a força, nem tomaram o poder com base em armas. Revisitar o passado é reabrir feridas cicatrizadas.

Não se trata de olvidar um período da história; trata-se de analisá-lo com a frieza e a distância que o tempo permite.

O tiro pode sair pela culatra, pois o que propõem Tarso Genro, Ministro da Justiça, e Dilma Roussef, Ministra da Casa Civil, é aplicar penas a torturadores, como se a Lei de Anistia não os atingisse. Ora, se os crimes de tortura são imprescritíveis e a Lei de Anistia não os atingiu, os crimes de terrorismo também são imprescritíveis. Desta feita, seria necessário processar todos aqueles que participaram de ações armadas terroristas, tais como Dilma Roussef, José Genoíno, Franklin Martins, Fernando Gabeira, entre muitos outros.

O parecer da Advocacia Geral da União, que afirmou que a anistia é ampla e irrestrita e aplica-se aos dois lados da luta, foi atacado pelo Ministro da Justiça. Não me surpreendi quando o Presidente Lula resolveu ficar em cima do muro e não manifestar sua opinião. Triste omissão. Como chefe de estado, sua função seria tomar uma posição de liderança e de manutenção da ordem e da união dos brasileiros. Mas, não, ele novamente calou-se diante de tema da maior relevância.

A posição esboçada por Tarso Genro e Dilma Roussef indica de forma inequívoca que são políticos que não evoluíram na forma de pensar, com posições revanchistas e retrógradas. Admiro a trajetória de Fernando Gabeira. Hoje Deputado Federal, quase eleito Prefeito do Rio de Janeiro, Gabeira revela lucidez e clareza na forma de analisar a realidade brasileira. O passado é o passado e é preciso olhar para o futuro. Revirar o passado em nada acrescenta para o progresso do país e para o desenvolvimento da sociedade brasileira.

Deixemos as feridas cicatrizadas, sigamos em frente com coragem para enfrentar os milhares de outros problemas mais urgentes e relevantes que afetam os cidadãos deste país.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Anistia e retrocesso - Parte 1

A discussão sobre a revisão da Lei de Anistia ganhou as primeiras páginas dos jornais. Apesar de evitar os temas políticos ultimamente neste blog, não posso deixar de opinar sobre o tema. Analisarei o tema em 2 partes para ampliar a reflexão.

Este primeiro post reproduz um texto do Reinaldo Azevedo, publicado em seu blog. Infelizmente, devido a problemas no leitor de feeds, o link é do blog e não do texto especificamente.

"OS REVANCHISTAS BRASILEIROS, A ANISTIA E CUBA

O cubanófilos brasileiros — e o maior de todos eles, como sabemos, é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva — querem revogar a Lei da Anistia. Apenas para um dos lados, é claro. Aqueles que aplicaram a Manual da Guerrilha, de Carlos Marighella, continuariam por aí — ou melhor: por lá. Alguns dão expediente no Palácio do Planalto. O manual de Marighella fazia a defesa do terrorismo. Segundo a Constituição brasileira, terrorismo é crime imprescritível.

A lambança em relação ao assunto obedece ao jeito petista de fazer as coisas. Começou com os ministros Tarso Genro (Justiça) e Paulo Vannuchi (Direitos Humanos), um tanto modestamente. De saída, ninguém comprou a tese porque, afinal, a Lei da Anistia é clara e tem uma historia política, comprometida com a pacificação do país. Eles insistiram. O PT chegou a divulgar uma nota dizendo que não era o caso de rever nada. A tese da dupla ganhou alguns simpatizantes na imprensa — os isentos de um lado só, velhos conhecidos. O parecer da Advocacia Geral da União (AGU), que só cumpriu o seu dever técnico — até Tarso admite isso —, assanhou os “vitimistas” de plantão, alguns deles usuários práticos do manual do bom terrorista de Marighella.

Lula estaria pressionando a AGU por um parecer “neutro”, já que a questão acabará mesmo sendo decidida pelo STF. Se isso acontecer, AGU pra quê? Que seja substituída pelo Magistrado-em-chefe: o próprio Apedeuta.

Mas volto ao primeiro parágrafo. Apedeutakoba, que deixou prosperar esse debate bizantino, lembrou de pedir a Barack Obama o fim do embargo a Cuba. Embutiu a sua reivindicação nas primeiras palavras de saudação ao presidente eleito dos Estados Unidos. Lula quer uma espécie de “anistia” histórica para o regime criminoso de Fidel e Raúl Castro sob o pretexto de que está defendendo os interesses do sofrido povo cubano. O embargo, hoje, já não tem efeito pratico nenhum. A ditadura e a miséria em Cuba são obras dos facínoras que a governam e nada tem a ver com o dito-cujo. Seu fim, sem a exigência da contrapartida democrática, seria admitir a tirania como aceitável.

Não! Os cubanófilos não querem saber de anistia política em Cuba. Tampouco de condenar torturadores — porque, claro, teria de começar pelo seus dois maiores homicidas: Fidel e Raúl Castro. Ao contrário, não é? Lula está empenhado em garantir a sobrevida da ditadura desses dois humanistas, que são 2.700 vezes mais homicidas — considerando-se os mortos por 100 mil — do que a ditadura militar que houve no Brasil.

Assim, segundo os critérios do PT, as 424 (¹) mortes havidas durante a ditadura brasileira fazem os facínoras, mas as 95 mil (²) havidas em Cuba fazem os heróis. Essa gente pouco séria tem, no entanto, de ser levada a sério. E combatida.

***
(1) Os números não são meus. Estão no livro Dos Filhos Deste Solo, do petista Nilmário Miranda. Mas atenção! Pessoas mortas ou desaparecidas efetivamente ligadas a organizações de esquerda somam 293 (ver lista abaixo), incluindo guerrilheiros e terroristas que morreram de arma na mão e quatro justiçamentos (esquerdistas executados pelos próprios “companheiros”). Para se chegar a 424, incluem-se supostos casos, mas sem comprovação. A lista é esta:
ALN-Molipo – 72 mortes (inclui quatro justiçamentos)
PC do B – 68 (58 no Araguaia)
PCB – 38
VPR – 37
VAR-Palmares – 17
PCBR – 16
MR-8 – 15
MNR – 10
AP – 10
POLOP – 7
Port - 3

(2) Fidel mandou matar em julgamentos sumários 9 479 pessoas. Estima-se que os mortos do regime cheguem a 17 000. A fonte: O Livro Negro do Comunismo. Dois milhões de pessoas fugiram do país – 15% dos 13 milhões de cubanos. Isso corresponderia a 27 milhões de brasileiros no exílio. Dados esses números, Fidel matou, pois, 130,76 indivíduos por 100 000 habitantes; Pinochet, o facínora chileno, 24; a ditadura brasileira, 0,3.

O Coma Andante é 435,86 vezes mais assassino do que a ditadura brasileira, que encheu de metáforas humanistas a conta bancária de Chico Buarque. A história dirá quem foi Fidel? Já disse! Permaneceu 49 anos no poder; no período, passaram pela Casa Branca, lá no "Império" detestado por Niemeyer, dez presidentes!Atenção: 78 mil pessoas morreram afogadas tentando fugir de Cuba. Sair de lá, como sabem, era e é proibido. Assim, o regime de Fidel matou 95 mil pessoas — o que torna o tirano 2.700 vezes mais assassino do que a ditadura brasileira. "

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Barcelona enevoada



Terminei de ler A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón (Rio de Janeiro : Objetiva, 2007). Estava meio sem rumo na leitura até que este livro me foi recomendado. E recomendado por quem foi, levei muito a sério a indicação. Mas, quando notei que iria enfrentar 399 páginas, confesso que fiquei com preguiça, torci o nariz e fingi que o livro não me olhava com aquele ar de tentação. Lembrei-me das palavras entusiasmadas e apaixonadas sobre o livro e criei coragem.


Fazia tempo que não lia uma estória tão cativante. As páginas se sucederam rapidamente e não queria que o livro acabasse. Era quase como se não quisesse deixar de ter notícias de Daniel Sempere e de sua livraria, e de seus livros e aventuras.


O best-seller vendeu mais de 6,5 milhões de exemplares em todo o mundo e é sucesso de vendas no Brasil também. A Sombra do Vento foi finalista dos prêmios literários espanhóis Fernando Lara (2001) e Llibreter (2002). O primeiro romance de Zafón, O Príncipe da Névoa, foi laureado com o prêmio Ebedé de literatura em 1993. Recentemente, O Jogo do Anjo foi lançado no Brasil, que é seu mais novo romance.

Voltemos ao assunto, ciente de que este será o primeiro post sobre o livro. Introduzir o assunto, porém, era necessário.

A estória se passa em Barcelona, entre os anos 1945 e 1966. Uma cidade açoitada pelo final da 2a. Guerra Mundial e pela Guerra Civil Espanhola. Um período violento e intolerante, um período que destroçou vidas e esperanças, mas que fez renascer destas cinzas a vibração de uma nova jornada.

Zafón utiliza a cor e a descrição do ambiente como um referencial importante ao longo da obra. Há um clima melancólico que permeia toda a narrativa, quase que reproduzindo a foto que estampa a capa do livro. Cinza, névoa, escuridão, frio, garoa. Lembrei-me de O Mar, de John Banville (vide o post Cores Gris). O artifício não é meramente poético e retórico, mas conduz o leitor a explorar o contexto histórico em que se situa a narrativa. O clima reflete a penúria, a dureza dos tempos de guerra.

Poderia ser melancólico, pessimista, porém, ocorre exatamente o inverso. Na aparente aridez, descobre-se a amizade intensa. Vive-se a lealdade e o companheirismo. Daniel, protagonista da estória, e Fermín Romero de Torres formam uma dupla inseparável. A amizade dos dois contrasta com a amizade de Daniel e Tomás Aguilar.

No primeiro caso, Daniel, seja por caridade ou por retribuição, tira Fermín de sua condição sub-humana de morador de rua. Não se trata de um malandro aproveitador, mas de uma alma que exala gratidão infinita para com o gesto de Daniel, a ponto de sacrificar-se - fisicamente - pelo amigo.

No segundo caso, a timidez de Tomás e o temor que tinha do pai criam um corte na relação de amizade que não seria capaz de cicatrizar mesmo com o passar do tempo.

Terminei o livro com a sensação de que Zafón quis discorrer sobre a amizade em suas mais variadas formas. E o instrumento para unir pessoas, ou separá-las, é um livro. Mas isto é tema para um próximo post.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Gastrossexuais

Parece que o mundo moderno adora rotular as pessoas. Quer sejam categorias criadas por publicitários para vender e divulgar seus produtos a um determinado segmento, ou criativos pesquisadores que adoram inventar moda, sempre aparece uma notícia explicando o surgimento de um novo grupo de pessoas.

"A pesquisa do instituto britânico Future Foundation, feita com mil homens no Reino Unido, mostra que 48% dos entrevistados dizem que ser capaz de cozinhar os torna mais atraentes para as mulheres", publicou a Folha de São Paulo em reportagem de 12 de outubro de 2008. Segundo explica a reportagem, o homem que cozinha passa uma imagem menos machista, menos preconceituosa e mais carinhosa. A explicação psicológica tem lá seu fundamento, mas vejo isto de um ponto de vista diferente.

Hoje em dia, as pessoas estão mais independentes. O homem moderno tende a assumir um papel mais participativo, mais colaborativo nas tarefas domésticas, tanto no aspecto da paternidade, como no aspecto da vida individual. Independência significa saber escolher suas roupas, a cuidar dos filhos, a cuidar de algumas tarefas domésticas. O novo homem age de forma diferente da geração dos seus pais.

Homens que moram sozinhos, por exemplo, tem que lavar e muitas vezes passar suas próprias roupas; vão ao supermercado e preparam suas refeições; cuidam da aparência, sem descambar ou ficar horas na frente de um espelho com cremes. A febre dos metrossexuais parece ter ficado para traz, então agora surgem os gastrossexuais.

Porém, há uma outra característica de gostar de cozinhar. Não se trata de usar a culinária para "fisgar" as mulheres, mas sim de uma atividade manual e sensorial que apetece aos sentidos e relaxa a mente.

Pessoalmente gosto muito de cozinhar. Não só de ir para a cozinha, mas de toda a preparação, da escolha dos alimentos, de planejar um cardápio, de ser criativo, de cortar e lavar os alimentos. Cozinhar é um hobby, um contraponto à atividade intelectual do meu trabalho diário. Cozinhar é um exercício que explora os sentidos e a criatividade de criar de algo inesperado, de surpreender-se com a mistura dos temperos e ingredientes.

Meu avô, sujeito nascido no interior de São Paulo, era um cozinheiro de mão cheia. Quando criança, ele costumava me levar ao supermercado com ele para escolher os ingredientes e depois preparar o almoço. Era um divertimento familiar, um elo de ligação entre gerações. A afinidade, a cumplicidade daqueles momentos ficaram guardadas com carinho. Convivi pouco com meu avô, pois ele morreu quando eu tinha 6 anos, mas aqueles instantes de convívio permanecem vivos na memória.

Rótulos são desnecessários e incabíveis para estas situações. Talvez funcione para os ingleses, mas acho muita invencionice. O homem muita vezes aprende a cozinhar por necessidade e por exigência das condições de vida, onde a mulher trabalha fora, ou então, para aqueles que moram sozinho. Com rótulo ou sem rótulo, a experiência de cozinhar é enormemente prazerosa. E deve ser prazerosa também - principalmente - para quem saboreia os pratos.

domingo, 2 de novembro de 2008

Crônica: Fio de Luz





FIO DE LUZ



A insônia tinha-o impedido de descansar durante a noite. Dormiu mal. O rádio-relógio marcava 5 e alguma coisa. Não conseguiu reconhecer a hora exata pois a vista ficava embaçada sem os óculos. A casa ressoava um silêncio que era apenas interrompido pelo barulho de um ou outro ônibus que passava pela rua. Ao longe, ouviu um pássaro solitário a cantar e aquele som deu-lhe a certeza de que o dia nasceria em breve.

Deitado de costas, olhava fixamente para o teto do quarto completamente escuro. A ansiedade da conversa que teria no final do dia roubou-lhe o sono. Sentia-se cansado, a cabeça levemente pesada, como se tivesse bebido muito na noite anterior. Pelo contrário. Recolheu-se cedo na companhia de um livro. Leu poucas páginas. Releu as páginas pois não havia prestado a mínima atenção. Seus pensamentos oscilavam e divagavam. Lia, sem compreender, sem se atentar para a história. Foi tolo, pois naquelas linhas poderia ter encontrado um pouco de paz ou um exemplo a seguir. Poderia ter descoberto a coragem que necessitava. Poderia ter achado um fio de luz para iluminar a escuridão de sua mente confusa, das palavras que lhe escapavam e teimavam em se embaralhar, impedindo-o de organizar as idéias e de saber o que dizer a ela.

Virou-se para a janela. Um fio de luz atravessava uma pequena fresta da janela entreaberta. Fez-se o desenho de uma linha reta e iluminada na parede branca do quarto. A luminosidade da manhã trouxe consigo a luz. Como um encantamento, seu olhos seguiam a reta que se revelava e aparecia para quebrar a escuridão da dúvida que lhe assolava. Tudo clareava e passava a fazer sentido, como se aquela pequena fresta trouxesse consigo o código para desvendar sua alma.

Sentou-se na cama, esfregou os olhos, aproximou os joelhos do peito e abraçou as pernas. Aquele fio de luz era um presságio. Percebeu que tinha todo um dia pela frente e que falar o que pensava e sentia não podia ser adiado. Não havia porque perder mais noites de sono, de remoer o passado, de cultivar angústias, de nutrir sentimentos e inseguranças. Era preciso tomar uma decisão, fazer uma loucura e seguir. Sim, era preciso abrir mais que uma fresta da janela, mas escancará-las. Arrombá-las com força e deixar jorrar o sentimento e as palavras guardadas no seu âmago, palavras que corroíam seus órgãos e matavam-no lentamente, qual poderoso e doloroso veneno. O medo o aprisionava. Aquele fio de luz cortou as amarras, como uma lâmina de navalha. Naquele instante, descobriu dentro de si uma coragem inimaginável.

Não iria esperar até o jantar. Iria esperar o relógio marcar uma hora decente, pegaria o telefone e ligaria para ela. Era chegado o momento de não titubear. Respirou fundo, transparecendo alívio e um sentimento interior de profunda certeza. Ele teve a certeza, pela primeira vez na vida, de que era hora de atirar-se e falar.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Dicas da Dani: Jason Mraz

Jason Mraz. Nunca ouviu falar nele? Então, lembre-se que ouviu aqui primeiro.

Nascido no estado americano da Virginia, em 1977, sua música é eclética e mistura vários estilos para compor. Suas influências incluem o pop, o country, o folk e o jazz. Não há uma linha única e cada um dos estilos se sobressai mais nesta ou naquela música.

Seu mais recente álbum, lançado em maio de 2008, é We sing. We dance. We steal.

O clipe é da música I´m Yours, número 1 na Billboard nesta semana na categoria Hot Adult Top 40 e entre as 10 músicas mais vendidas na iTunes Store. Divirtam-se.



I´m Yours

Well you done done me and you bet I felt it
I tried to get you but you're so hot that I melted
I fell right through the cracks
and now I'm trying to get back
Before the cool done run out
I'll be giving it my bestest
Nothing's going to stop me but divine intervention
I reckon it's again my turn to win some or learn some

I won't hesitate no more, no more
It cannot wait, I'm yours

Well open up your mind and see like me
Open up your plans and damn you're free
Look into your heart and you'll find love love love love
Listen to the music of the moment people dance and sing
We're just one big family
And It's our God-forsaken right to be loved love loved love loved

So I won't hesitate no more, no more
It cannot wait I'm sure
There's no need to complicate
Our time is short
This is our fate, I'm yours

Scooch on closer dear
And I will nibble your ear

I've been spending way too long checking my tongue in the mirror
And bending over backwards just to try to see it clearer
But my breath fogged up the glass
And so I drew a new face and laughed
I guess what I'm be saying is there ain't no better reason
To rid yourself of vanity and just go with the seasons
It's what we aim to do
Our name is our virtue

I won't hesitate no more, no more
It cannot wait I'm your's

Well open up your mind and see like me
Open up your plans and damn you're free
Look into your heart and you'll find that the sky is yours
Please don't, please don't, please don't
There's no need to complicate
Cause our time is short
This this this is out fate, I'm yours!

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Observando fotos

Parei no final de um dia corrido, de uma semana que começou cedo e termina tarde. Sem trilha sonora, degustando o silêncio exterior e mergulhando numa conversa interior.

Parei para ver fotos. Fotos que já olhei outras vezes, mas que sempre volto a olhar. Sempre há algo novo a observar, a descobrir. Fotos que fazem viajar e me transportam a lugares distantes no espaço e no tempo. Fotos que trazem consigo sorrisos e alegrias. Fotos que são preservadas na memória, ainda que não as tenha diante do meus olhos.

As fotos guardam uma semelhança muito grande com obras de arte. Podem ser vistas e revistas. Nunca cansam. Para um olhar atento e preciso, há novas descobertas, nuances a reparar, luz que incide de um jeito nunca antes notado. Cenários que trazem memórias e lembranças de conversas e fatos narrados.

Percebo-me falando em voz alta, quase conversando com a imagem estampada na tela do computador, palavras que são lançadas ao vento para percorrer um caminho imprevisível. Talvez cheguem aos ouvidos de alguém. Talvez se percam nesta sala. Talvez sejam pacientemente compreendidas pelas paredes que me cercam.

Ditas em voz alta, parecem amenizar a solidão. Uma solidão que não é solidão. Uma distância que não é distância, pois é vencida pelo pensamento inundado de coisas boas. Momentos que recarregam energias. Sorrisos que são divididos, ainda que de forma solitária, mas que alguém há de perceber.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Time out!

(cena do filme My Best Friend´s Girl)



Em plena manhã de terça-feira, pouco depois das dez horas, parti rumo ao aeroporto. Uma viagem a trabalho, bastante simples, para protocolar uma contestação em Joinville, Santa Catarina. Simples, pois se tudo corresse como programado, terminaria minhas obrigações profissionais por volta das 14 horas e teria o resto do dia livre. Carregando um livro de crônicas de Jorge Luis Borges (O Fazedor), meu iPod e várias folhas em branco para escrever, estava ciente de que era um dia para arejar a cabeça. O vôo de volta seria apenas às 20:30. Uma pausa no meio da correria, ou para ser fresco, "time out".



Tudo correu como planejado. Missão cumprida, saí caminhando do fórum de Joinville rumo ao centro da cidade. Segui minha intuição e meu "GPS" interno, observando o fluxo de pessoas que me indicavam a direção. Poderia ter mandado outra pessoa no meu lugar, mas fiz questão de ir pessoalmente. Primeiro, porque adoro viajar. Segundo, porque precisava de uma pausa destas. Locais novos e ambientes novos são um ótimo incentivo para a criatividade e para novas situações que volta e meia repousam em personagens das crônicas.



Tinha lido metade do livro. Já tinha escrito algumas coisas sentado numa praça de alimentação deserta de um shopping no meio da tarde. Então, resolvi ir ao cinema. Pegar uma sessão no meio de uma tarde de trabalho tem um gosto de transgressão, algo completamente diferente da rotina. A escolha recaiu sobre uma comedia romântica, cujo título em português é sofrível: Amigos, amigos, mulheres à parte (My Best friend´s girl, no original). Na platéia, algumas senhoras da melhor idade, um ou outro casal de adolescentes e eu de terno, o que fez com que algumas pessoas me olhassem de forma estranha. Pouco me importa o que pensaram e em nada me incomodou.



Diversão leve e agradável. Porém, há uma cena no filme que me fez pensar. Não sei passei a ser mais observador depois que comecei a escrever algumas crônicas; não sei se percebo estas coisas agora depois de ficar mais maduro; não sei se houve alguma identificação com aquela cena. O fato é que estas comédias românticas sempre trazem de forma discreta uma revelação sobre relacionamentos. São pequenas situações, algumas sutis, outras mais escancaradas, mas todas passam ao público algo de verdadeiro e algo a refletir. Escrevi um pouco sobre isto no post Garota da Vitrine.



Na cena, a que me refiro, o mocinho leva a mocinha para um passeio surpresa. Faço um pequeno parênteses: trata-se de um baile de formatura. O baile de formatura nos EUA é o auge da vida social de qualquer aluno do ensino médio. É algo marcante e inesquecível. Ao chegar ao baile de formatura, ela fica boquiaberta, seu rosto brilha. Ela diz que não tinha ido ao baile de formatura dela. Ele responde: eu lembro quando me contou! Ela sorri.



A cena pode ser boba, banal, mas há algo neste pequeno diálogo. Ele prestou atenção nela! Ele ouviu o que ela disse! Ele agiu pensando nela! Detalhes. Pequenos detalhes podem fazer a diferença em qualquer relacionamento, seja ele de amizade, seja ele de caráter mais íntimo. Tenho cá com meus botões, que todos estes tipos de relacionamentos são modos diferentes do amor, matizes de um sentimento que podem variar dependendo das situações concretas. Por vezes mais contido, por vezes mais direto e intenso, mas sempre amor. Em todos os casos, porém, os detalhes revelam uma preocupação gratuita e desinteressada que valoriza a pessoa que está ao nosso lado. Detalhes que podem aparentemente passar despercebidos, ditos no meio de uma conversa, pequenos gestos inadvertidos, mas que são notados e guardados, até que num momento, como num passe de mágica, eles reaparecem e lançam luz nova naquele momento sombrio.



Reparar e prestar atenção é valorizar, é demonstrar com gestos o quanto uma pessoa é especial e querida. Afinal, gestos nascem de dentro do coração.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Poesia: PENUMBRA




PENUMBRA


Os dias passam

imagem nítida

clara

traços precisos

pintura realista transforma-se.


Linhas nervosas

traços rudes

distorcidos por emoções

pelo olhar do sentimento

misturam-se as cores

os tons, os detalhes

revoltam-se as formas.


O jogo da imagem

distorce a realidade

e tua imagem,

lentamente, confunde-se

com a penumbra do dia.


Inabalável sentimento

intocado pela névoa da distância

pulsa e pula

arrepia a cútis

anseia o calor, o abraço

penumbra que não me afastas

penumbra que não me afetas.

Só tu me afetas

Só tu, no silêncio que fala

que sussurra palavras doces

que dissipa a fumaça

que irradia a luz do dia, a tua luz.


(RLBF)



segunda-feira, 20 de outubro de 2008

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Dia do Professor


Professor é aquela pessoa que deixa uma marca indelével em nossa formação. Em algum momento de nossas vidas, encontramos pessoas que têm o dom de mostrar o caminho, de despertar a paixão e o desejo de sonhar alto. Não importa a fase da vida ou o grau de formação, cada um lembra-se de algum mestre que fez a diferença. Pode ser aquela professora de jardim de infância, ou aquela outra que nos alfabetizou. Ou então o docente na adolescência que cativou-nos com sua paixão pela matemática ou pela biologia.

Lembro-me com carinho de vários professores. Minha rota profissional, porém, foi mais afetada por um professor no 1º colegial (hoje ensino médio) que me ensinou a gostar de ler, a descobrir na literatura um mundo aparte. Foi ele que me ensinou a escrever de forma lógica e organizada, com argumentos, de forma fluida e interessante. Foi com este professor que descobri minha vocação para o Direito. Sua paixão pela literatura era perceptível e contagiava os seus pupilos. Era um professor exemplar e atencioso, exigente e que sabia provocar o aluno para que ele atingisse seu potencial, superando-se em suas metas.

William Daly é seu nome e lecionava Literatura Ocidental na HH Dow High School, na Cidade de Midland, Estado de Michigan, no norte dos Estados Unidos. Sei que ele não lerá isto, afinal, ele não lê português, mas ele marcou minha formação de maneira fundamental.

Olhando por outro lado, cada um de nós é um pouco professor; não no sentido estrito, mas no sentido lato. Aprendemos com amigos, com colegas de trabalho, com pessoas de nossa convivência. Assim há professores que sequer são conhecedores do quanto ensinam, do quanto mudam, do quanto transformam. Alguns não estão nem presentes; alguns estão distantes fisicamente, mas presentes em pensamento e na rotina diária.

Não poderia de homenagear todos os mestres no seu dia. Não poderia deixar de fora todos aqueles que me ensinaram o ofício desde a época de estágio – profissionais que também foram professores. Não poderia olvidar dos amigos que sabem ensinar de um jeito diferente, carinhoso, compreensivo, paciente e sempre sorridente.

A todos os mestres, o meu carinho!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Selo: Prêmio Dardos



Recebi esta homenagem da Edna, do Pensamento Nosso. Agradeço a honra e assino embaixo das recomendações que ela fez. Algumas indicações serão repetidas, mas isto só valoriza a qualidade dos indicados.

Vamos as informações sobre o Prêmio Dardos:

“Com o Prêmio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.Quem recebe o “Prêmio Dardos” e o aceita deve seguir algumas regras:

1. exibir a distinta imagem;

2. linkar o blog pelo qual recebeu o prêmio;

3. escolher quinze (15) outros blogs a que entregar o Prêmio Dardos.”

1. 30 & Alguns

2. Bossa Nova Café

3. Intimidade

4. Lonely Avenue

5. Sentimento Infinito

6. Simples Coisas da Vida

7. Uma estrela no céu

8. Gotas diárias de sentimentos

9. Pensar de uma mulher

10. O Avesso da Vida - mesmo que encerrado, os textos merecem a visita.

11. Bicho Solto

12. [re]tratos

13. Pérolas das Flores

14. Centelhas de idéias

Aparentemente falta um, mas fica reservado para um blog que está em gestação e que merece ser indicado, diferente dos outros indicados acima. Mas é preciso aguardar.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Crônica: (In)Completo

(IN)COMPLETO

Achava-me completo. Sentia-me completo, sem lacunas, sem espaços, sem dúvidas ou questionamentos metafísicos que me aturdissem ou roubassem meu sono. Rumo traçado que era percorrido sem muitos solavancos. Alguns tropeços, sem quedas ou membros mutilados. Alguns soluços, mas nenhuma enfermidade que deitasse na cama por meses ou tolhesse minha liberdade. Alguns momentos de cansaço, porém uma breve pausa era suficiente para recuperar as forças e a vitalidade. Seguia em frente.

Olhar fixo no destino, no alvo. A correnteza surpreendeu-me, tirou-me do prumo, fiquei tonto. Atordoado pelo enorme buraco que descobri dentro de mim, pela cratera. Um vulcão adormecido que trepidava com abalos sísmicos. Lava que ressuscitava borbulhante e escaldante. Algo inexplicável fez-me questionar o caminho. Parei de pronto! Sentei-me debaixo de uma árvore e contemplei ao redor e o interior. O vazio não era de agora; já carregava a bolsa vazia nesta jornada. Os ventos, os terremotos, os maremotos, as chuvas com trovões e raios. Não era o aquecimento global ou o fim dos tempos. Era o aquecimento interior. Um turbilhão me atingia com uma força que pensava inexistir neste mundo, coisa de ficção científica ou de uma feiticeira poderosa.

Minhas pernas tremeram de medo; meu estômago revirou-se nauseado; minha cabeça pesou e quase desfaleci num desmaio profundo. Aquilo tudo era real. Sentia a realidade. Percebia a realidade. Não era efeito de droga alucinógena, mas um sentimento real que se descortinava diante de meus olhos através do reflexo dos teus olhos. Teus olhos.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Poesia da vida



"Às vezes temos percepções espantosas de que a realidade é dom de Deus. São momentos que chamo de epifanias – na verdade, simplesmente uso o termo para essa súbita aparição do ser em sua plenitude. É algo muito difícil de explicar, mas recentemente, por exemplo, eu estava andando numa das ruas mais prosaicas de São Paulo, a tal Cardoso de Almeida. Não sou paulista, fui conhecer a Cardoso de Almeida recentemente e quase a contragosto. Até que um dia estava andando nessa rua, entre um ônibus e duas árvores completamente empoeiradas, e subitamente aquilo tudo me causou um grande espanto. Foi um maravilhamento que não se explicava nem se justificava de maneira alguma, mas é como se aquele enigma que você é o obrigasse a espantar-se e ficar profundamente emocionado."


(TOLENTINO, Bruno. "Do Enigma ao Mistério". Revista Dicta & Contradicta, Junho 2008, número 01, p. 19)


Bruno Tolentino descreve a epifania do poeta. Aquele momento de transe, em que o poeta é arrebatado pelo banal e pelo simples, e com um olhar diferente, com óculos da emoção, vislumbra uma realidade diferente e profunda, aparentemente incompreensível ou imperceptível.


A poesia tem esta capacidade: arrebatar. Fazer-nos viajar sem sair do lugar. Fazer-nos sonhar acordados. Fazer-nos mergulhar no nosso interior e descobrir aqueles recantos escondidos de sentimentos e memórias.


A poesia é um arrebatamento do cotidiano. É olhar pela janela, como fazemos diariamente, mas notar algo de diferente. O canto de um pássaro, os brotos na árvore no início da primavera, uma criança a brincar, um idoso a caminhar seus passos lentos.




A poesia inebria, enleva, desperta-nos para algo de novo. A poesia descortina uma vida nova, um momento único que deve ser saboreado e desfrutado. Um dom de Deus, que compartilha a seiva divina com pobres e limitados mortais.




Encontrar o poema certo é muito relativo. A poesia depende do estado de espírito – assim como a música – para tocar a alma de forma gratuita e inesperada. A poesia pode ser singela. A poesia é sempre surpreendente. Como a vida. Como os sentimentos. Como um sorriso da pessoa amada. Podemos denominar estes momentos de maravilhamento por outros nomes, mas simpatizei com epifania. Todos temos momentos de epifania, basta observar!




Arrisque. Abra um livro de poesia a esmo e leia. Deixe a poesia inundar a vida.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Notas curtas e observações

Algumas notas curtas sobre fatos recentes.

1. O Código de Defesa do Consumidor foi alterado para determinar que as cláusulas contratuais de contratos de adesão sejam redigidas com letra não inferior a corpo 12. Agora tamanho de letra em contrato virou lei. Para que serve isto? Para absolutamente nada. Uma análise jurídica da questão está no Informativo Legal, para quem tiver interesse.

2. As pesquisas de boca de urna erraram de novo. Em São Paulo, as pesquisas indicavam que Marta Suplicy ficaria em primeiro lugar. Amargou o segundo lugar. A briga agora vai ser feia. E divertida. Quando Marta fica acuada e irritada, revela-se arrogante e solta pérolas como o famoso "relaxa e goza".

Vamos aguardar. Continuo achando que Kassab vai ser reeleito.

3. Domingo de eleição e comprei O Globo. Encontrar o jornal nas bancas de São Paulo é bastante fácil. O Globo traz uma excelente revista semanal encartada na edição dominical e é uma boa forma de arejar a cabeça com uma leitura diferente.

Mas, voltando à política, no Rio também o Ibope errou. Indicava Eduardo Paes e Crivella no segundo turno. Deu Gabeira. Confesso que torcia pelo Gabeira. Fiquei contente com o resultado da eleição carioca.

4. Talvez poucos tenham notado, mas repararam como a cidade de São Paulo não ficou suja com a eleição? Não houve boca de urna, não haviam outdoors pela cidade, nem pichações ou propagandas em muros. Nem faixas de candidatos. Incrível, mas o Cidade Limpa funcionou até na eleição.

Cidade Limpa é um programa da prefeitura que baniu outdoors da cidade. Sim, meus caros, em São Paulo outdoor é proibido. Retiraram a poluição visual da cidade. Muitas fachadas já foram pintadas e a cidade se descortinou. Achava que a proposta era pura demagogia, mas teve grande êxito e virou referência para outras grandes metrópoles. O Cidade Limpa ganhou meu voto e acho que de muitos outros paulistanos. Fui de Kassab e vou de novo!

5. Chegou a primavera e chegaram as chuvas. Tempo com cara de outono: chuva e friozinho.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Faça sua parte: vote consciente!


Volto ao tema às vésperas da eleição, pois não é possível ficar indiferente ao tema. Aproveito para dar sequência e responder aos comentários feitos no post Dito e Feito!

Horário eleitoral, debates, propaganda política. Sei que tudo isto é descartado pela maioria das pessoas. Sei – e noto nas conversas – que há um clima generalizado de desilusão com a classe política, com a falta de propostas, com a demagogia e a hipocrisia. A indignação "boa" arrefeceu no em todos os cantos do país. Muitos só votam por obrigação. Eu sou teimoso. Entendo a desilusão e a revolta, mas não concordo.

Votar é fundamental, principalmente numa eleição municipal, pois o prefeito afeta nossas vidas de forma mais direta e próxima. Posso ser repetitivo e "chover no molhado", mas é sempre possível encontrar um candidato que esteja próximo de nossas idéias e convicções. O voto nulo ou em branco é um voto no primeiro colocado da eleição. Explico. Juridicamente, voto branco ou voto nulo são considerados inválidos e não são computados pela justiça eleitoral. Ganha a eleição quem obtiver nas urnas a maioria dos votos VÁLIDOS. Protesto em eleição com urna eletrônica deixa de ter qualquer significado e não afeta o resultado, pois os votos inválidos são descartados. Seria o equivalente a dizer que o voto não existiu.


Há ainda um outro lado importante para ser lembrado. A forma como os adultos abordam e discutem o voto reflete na conduta da nova geração. Conscientizá-los é de suma importância, pois eles são o futuro do país e futuros eleitores. Se fizermos nossa parte – vote em quem quiser -, esta nova geração tomará consciência da importância do voto e agirá de acordo com sua visão de mundo. Nossos governantes são um reflexo dos eleitores. Afinal, foram escolhidos por nós!

Então, antes de reclamar, pense e faça sua parte: vote consciente!

Em tempo: Sobre o uso da máquina de governo, aguardem o 2o. turno em São Paulo para ver o que é uso da máquina de governo. A candidata que lidera as pesquisas já começou a tremer. Vai jorrar dinheiro de Bolsa Família em São Paulo.

Dicas da Dani: Céu


De vez em quando você se depara por acaso com um artista que já ouvira falar, mas que não havia degustado ainda. Foi assim que encontrei o primeiro álbum de Céu, cantora brasileira da nova geração da MPB, que se junta ao time de Vanessa da Mata, Roberta Sá, Mariana Aydar e das consagradíssimas Marisa Monte e Maria Rita.

Gravado pela Ambulante Discos, selo indenpendente, o álbum leva seu nome. Céu é paulistana, filha de músicos e seu primeiro trabalho veio à tona no segundo semestre de 2005. Dona de uma voz deliciosa, suas músicas têm um fundo de percussão que oscila entre o samba e o jazz, com pitadas típicas da mesclagem da música brasileira.

Diria que não fiz nenhuma descoberta. Apenas venho compartilhar o que não sabia, ou que talvez não tivesse ousado em experimentar.

O clipe é da música Malemolência.



MALEMOLÊNCIA (Alec Hait/Céu)

Veio até mim
Quem deixou me olhar assim
Não pediu minha permissão
Não pude evitar
Tirou meu ar
Fiquei sem chão
Menino bonito
Menino bonito ai
Ai menino bonito
Menino bonito ai
É tudo o que eu possolhe adiantar
O que é um beijo
Se eu posso ter o teu olhar
Cai na dança cai
Vem pra roda da malemolência

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Dito e Feito!


 

Sábado passado, Ibope e Datafolha divulgaram pesquisas de opinião para as eleições municipais. Na eleição paulistana, Kassab passou Alckmin e deve disputar o 2º. Turno com Marta Suplicy. Surpresa para alguns, mas não para mim. Explico. Eu sei, meu caro leitor, que o tema é meio chato para muitos, mas como gosto de fazer previsões neste blog e de lançar uma análise além do óbvio, vou falar um pouco de eleição. A vantagem de um blog é esta: quem não quiser ler este post, dê uma olhada nos anteriores.


 

Quando foram definidos os candidatos ao pleito paulistano, afirmei com segurança: Kassab vai ao 2º. Turno e vai ganhar da Marta no 2º. Turno. Riram de mim, afinal Kassab tinha míseros 10% nas pesquisas, quase igual ao Maluf. O horário eleitoral começou, os debates se realizaram e Kassab subiu. Alckmin deu um tiro no pé ao insistir em sua candidatura e rachar a aliança PSDB-DEM. Alckmin ficou sem programa, sem propostas. Se ataca, ataca o próprio partido. Se não fala nada, revela-se apenas um candidato a mais. Ficou insosso, ou como diria o José Simão, da Folha, um "picolé de chuchu"!


 

Prefeito tem que cuidar da cidade. Prefeito tem que tapar buraco de rua, gerenciar a coleta de lixo, fazer obras viárias e cuidar do transporte público. Prefeito tem que pensar na cidade e não usar a prefeitura como emprego temporário para futuros vôos mais altos. Não tenho dúvida de que Marta sonha com o Palácio dos Bandeirantes, e, se eleita, ficará no cargo apenas 2 anos para tentar o governo do estado. Assim como José Serra. Mas há um porém: o vice de Marta é Aldo Rebelo. O deputado federal cujo projeto mais relevante era um projeto de lei que proibia o uso de qualquer palavra em língua estrangeira no Brasil. Isto mesmo! Nada de falar email (teria que ser mensagem eletrônica), nada de delivery (teria que ser entrega a domicílio), nada de sale, wi-fi, shopping, check-in...e por aí vai! Ter Aldo Rebelo como prefeito ia ser uma lástima, mas acho que Marta não ganha a eleição aqui em São Paulo.


 

Acho e torço muito para que isto não aconteça. Ela foi uma das piores prefeitas que esta cidade já teve!


 

PS: Em tempo, para quem assistiu ao debate da TV Record ontem, Marta quando falava parecia que tinha voltado ao consultório de sexóloga. Seus gestos, com os braços levantados e as mãos paralelas para referir-se a "tamanho" do caos no trânsito....na verdade, parecia mais um gesto obsceno.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Crônica: Mentiras




MENTIRAS


Poderia mentir. Disseram-me que homens são bons mentirosos. Que sabem mentir melhor que as mulheres. Estas sabem iludir. Ah, como sabem. São mestres no assunto. Políticos, sim, estes são os melhores mentirosos de todos. Não precisam nem óleo de péroba para lustrar a tamanha cara-de-pau que expõe na propaganda política ou em longos e enfadonhos discursos. E se tiver língua presa, melhor ainda. A mentira fica mais crível e o indivíduo passa um certo ar de vítima, de pobre coitado e pode ser contemplado com uma polpuda soma em dinheiro pela comissão de anistia.

Desculpem, ia fugindo do assunto. A mentira não ia fazer mal; ia apenas evitar constrangimento, ia passar despercebida. Poderia me martirizar e mentir. Não preciso expor a verdade. Dizem que a verdade dói. Não sei, será? Poderia mentir e dizer que gosto de um dia sem sol, daqueles bem nublados e garoentos, com um ventinho frio que congela até os ossos. Poderia mentir e dizer que gosto do ruído da cidade com todos os tons e timbres de buzinas, freadas e xingamentos. Poderia mentir que adoro café fraco e frio. Poderia mentir que o dia de trabalho não foi cansativo. Poderia mentir que uma noite de lua nova é tão agradável quanto uma noite de lua cheia. Poderia mentir que a brisa do mar num final de tarde não me faz falta nenhuma. Poderia mentir que não senti sua falta hoje. Ou em qualquer outro dia que não nos falamos. Poderia mentir e dizer que não sinto saudades, que estou acima deste sentimento.

Poderia dizer que queria escrever em prosa, mas seria mentira. Tentei versos. As palavras indisciplinadas rasgaram o verso do papel, revoltando-se com a minha inabilidade em manuseá-las. Agruparam-se, reorganizaram-se e veio a prosa fruto da minha fraqueza e incapacidade. Isto é verdade.

Poderia mentir. Não seria aceitável? Não vale a pena. O silêncio guarda a verdade, acalenta-a, abraça-a. Não vou mentir. A verdade é conhecida, ainda que não dita ou que dita por fragmentos. A verdade brota no interior. A verdade alegra. A verdade estampa sorrisos e provoca arrepios. Bons ou maus.


terça-feira, 23 de setembro de 2008

O mundo dá voltas

Sábio é o dito popular que diz que o mundo dá voltas. E algumas delas são mais rápidas do que imaginamos. Voltas rápidas que com o tempo passamos a perceber.

Desde pequeno convivo com as músicas do Abba. Meu pai adora Abba. Sempre gostou. Quando achava um DVD do Abba, éramos todos convocados a assistir. Sinceramente achava aquilo tudo muito brega, velho, antiquado, ultrapassado. Poderia jurar para mim mesmo que jamais compraria algum cd do Abba ou que meu iPod fosse incluir músicas do Abba. Bem, o mundo dá voltas...

Talvez de tanto ouvir Abba, aquelas músicas foram guardadas no incosciente. Lançado o filme Mamma Mia! fui dar uma olhada na trilha sonora. SÓ ABBA! Como que enfeitiçado pelo canto da sereia. ouvi o cd. Foi fatal! Acho que nestes últimos dias tenho ouvido Abba quase o tempo todo.

Pior é começar a cantar as músicas - que grudam - no meio do dia e alguém vir até minha sala para saber quem é o maluco que fica cantando Abba dentro de um escritório de advocacia. Confesso que adorei a trilha sonora. Confesso que as músicas contagiam. Tá bem, confesso que meu pai tinha razão, os "caras" são bons!

Não sei o filme é bom, mas trilha sonora é nota 10! Trilha sonora para levantar o astral e alegrar qualquer dia. Boa trilha para o começo de primavera.
Deixo-os com Dancing Queen, do Abba. Para quem tiver curiosidade, as músicas antigas estão todas no Youtube com clipes que são uma viagem no tempo.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Sobre blogs e comentários

Qualquer pessoa que se disponha a escrever um blog provavelmente enfrentará comentários - pelo blog ou via email - não muito simpáticos. Alguns chegam a ser grosseiros e indelicados. Outros são ofensivos e acabem apagados pelos moderadores.

No blog Pensamento Nosso, aconteceu isto na semana passada. Em post do sábado, a Tâmara respondeu a um email inadequado. Na semana passada, recebi também um email com um monte de baboseiras. Estes fatos me levaram a pensar um pouco sobre estes comentários.

Em primeiro lugar, o "dono" do blog tem todo direito de aceitar ou não o comentário que é feito. Há vários tipos de blogs. Os blogs com estilo diário pessoal tendem a receber comentários mais invasivos e críticos. Sempre tem alguém para palpitar - ou criticar. Em blogs temáticos, mais impessoais, as críticas - geralmente - são de opinião. Respeito estas críticas. Se são pertinentes, mantenho o comentário, afinal não sou dono da verdade e gosto do debate.

Mas há um limite para exercer a crítica. Limite parece ser algo que as pessoas perderam hoje em dia. Leio vários blogs e quando me deparo com um blog no estilo pessoal, confesso que muitas vezes sinto-me encabulado de comentar. Seria semelhante a uma invasão da vida daquela pessoa e do grupo de conhecidos. Olho, leio e saio de mansinho.

Há 2 exemplos que mostram bem com lidar com os comentários.

O blog do Reinaldo Azevedo faz parte da minha leitura matinal diária. Reinaldo Azevedo escreve sobre política no site da Revista Veja. Além de muito bem escrito, Reinaldo tem uma capacidade intelectual invejável e um poder de crítica raro neste país. Além do que, ele expõe suas idéias com clareza, sem ficar em cima do muro. Podem discordar dele, mas ele vai dizer o que acha. Recebe muitas críticas e comentários contrários às suas posições no blog, mas lida com isto com maestria.

Por outro lado, vou mencionar o blog do Delegado Protógenes. Escrevi sobre ele num post recente. O blog é mal escrito, confuso e sem nexo. Um verdadeiro altar ao culto pessoal do seu "dono". Não há uma crítica. Ele apaga todas. Acho isto anti-democrático, pois seu blog visa discutir sobre corrupção e atuação policial no Estado de Direito. Porém, como todo ditador e líder totalitário, a visão do Estado de Direito é aquela que lhes convém.

Pelo visto, lidar com comentários inóspitos e grosseiros faz parte da vida do blogueiro. Mas bem que as pessoas poderiam ter um pouco mais de bom senso. Ah, esqueci, bom senso é algo que está em extinção no mundo moderno!

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Cardápio Musical

Depois de uma semana corrida, um pouco de música para embalar o fim de semana. Deixo algumas sugestões para quem gosta de descobrir coisas novas.

A primeira dica é Monica Besser. Jovem cantora carioca com um timbre de voz que lembra um pouco Ana Carolina. Suas músicas podem ser ouvidas diretamente no perfil dela no My Space. Cantora e compositora, Monica traz em sua bagagem mais de 100 compoisções próprias.

Outra dica vem do Bossa Nova Café! Trata-se de Carla Bruni e seu novo trabalho No Promises. Não tinha ouvido nada dela ainda, mas fui atrás, gostei da sugestão e repasso a todos. E recomendo também uma visita no blog dele.

Por último, vou fazer um pouco de auto-promoção. Faz algum tempo, demos 2 dicas musicais neste blog. Dicas certeiras que estouraram. Em 22 de junho de 2007, sugerimos Gotan Project. Em 3 de setembro de 2007, sugerimos Bajofondo Tango Club. Músicas dos dois grupos fizeram parte de trilha sonoras de novelas e Pa´Bailar, do Bajofondo tem frequentado o Top 5 do TVZ (Programa do canal a cabo Multishow). Pa´Bailar é exatamente a trilha sonora de nosso post sobre o Bajofondo.


Álbuns dos dois grupos podem ser facilmente encontrados no Brasil. Tango eletrônico, num estilo lounge. Música excelente e que merece ser ouvida. Algo diferente para variar um pouco de estilo e nós falamos antes!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Viajar







Um verbo com duplo significado. No sentido literal, viajar é o deslocamento físico de um lugar a outro. No sentido coloquial, sinônimo de devaneio e delírio, um transe que nos transporta para lugares distantes sem qualquer deslocamento físico. Dois significados quase opostos. O primeiro é material; o segundo espiritual ou talvez seja melhor usar mental ou metafísico.


Escrever é uma viagem neste segundo sentido. Eu viajo quando escrevo. Talvez seja este o maior prazer: viajar sem sair do lugar. Escrever é criar. Escrever permite fantasiar-se do personagem e viver vidas possíveis, mas que não sejam nossas. É um mergulho no universo de outrem, que deve ser realista, caso contrário, as pessoas não se identificarão com o drama e a situação da personagem.


Estou lendo A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, e num determinado momento, um dos personagens solta a seguinte frase: "os livros são um reflexo de nós mesmos." Um mesmo texto literário pode ter significados totalmente diferentes para os leitores, pois estes se identificarão com o que lhes é familiar. A leitura permite esta viagem, este mergulho no universo criado pelo autor, em um mundo aparentemente irreal, mas que nos conduz e nos auxilia a viver individualmente o momento real.


Quando escrevo, busco reproduzir a realidade, mas de forma ficcional. Nos comentários à última crônica que publiquei, alguns leitores sugeriram ser ela real. Recebi os comentários como elogio. Os textos devem parecer reais, críveis, convincentes, humanos, ou quem sabe até universais. Ao menos, é isto que almejo como humilde aprendiz do ofício de escrever.


A vida imita a arte. Ou seria a arte imitando a vida?

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Introspecção, de Vinicius de Moraes


 

INSTROSPECÇÃO

 
 

Nuvens lentas passavam

Quando eu olhei o céu.

Eu senti na minha alma a dor do céu

Que nunca poderá ser sempre calmo.

 
 

Quando eu olhei a árvore perdida

Não vi ninhos nem pássaros.

Eu senti na minha alma a dor da árvore

Esgalhada e sozinha

Sem pássaros cantando nos seus ninhos.

 
 

Quando eu olhei minha alma

Vi a treva.

Eu senti no céu e na árvore perdida

A dor da treva que vive na minha alma.

 
 

(As Coisas do Alto. São Paulo : Cia. das Letras, 1993, p. 39)

domingo, 14 de setembro de 2008

Crônica: Café Odeon







CAFÉ ODEON



Desci na Praça Floriano por volta das 18 horas. Era um final de tarde quente de final de inverno no Rio de Janeiro. Estávamos no dia 14 de setembro e aguardava ansiosamente um encontro. Liguei pelo celular e avisei-a que já estava livre. Ela confirmou que me encontraria e só restava esperar.

Caminhei pela praça enquanto aguardava, admirando o Teatro Municipal, o Centro Cultural da Justiça Federal. Tudo em meio a dezenas de transeuntes apressados que deixavam os locais de trabalho. No Amarelinho, várias pessoas já desfrutavam de um chopp geladinho e de petiscos típicos dos bons botecos cariocas.

Retornei ao Café Odeon e procurei uma mesa. Não havia uma mesa mais de canto ou em local mais reservado. Escolhi uma no centro do Café. Sentei de frente para a porta para vê-la quando chegasse e para não perder um minuto do encontro. Celular sobre a mesa aguardava-a. O aparelhinho tocou duas vezes antes que ela me avisasse que estava saindo. A cada toque meu coração saltava. Na terceira vez ela ligou e disse que estava saindo. Minhas mãos suavam um pouco, senti um frio na barriga e procurei o copo de chopp para me acalmar.

Finalmente iria encontrá-la depois de vários meses conversando. Tinha uma necessidade de vê-la, de olhar nos seus olhos....de falar-lhe ao vivo e presente. Havia pensando em coisas para lhe dizer, mas sabia – conhecendo-me – que não teria coragem, que engasgaria, ou simplesmente ficaria com vergonha. Deixaria o tempo ditar o momento certo para dizer algumas coisas – ou talvez jamais dizê-las.

De repente ela apareceu na porta, como uma brisa fresca que acaricia a pele. Um largo sorriso dominou meu rosto. Inclinou a cabeça para olhar para dentro do Café e avistou-me. “A foto é tão pequenininha que não sabia se ia te achar” – disse sorrindo.

Abraçou-me e dei-lhe um beijo no rosto. Quando fui dar o segundo beijo – coisa de paulista – me atrapalhei e senti seus cabelos macios na minha pele. Ela estava linda com um vestido preto de mangas curtas e detalhes contornando o decote, sandálias pretas com brilhos, um colar e um escapulário de cordão, anéis e as unhas perfeitamente feitas para marcar as lindas mãos. Os lábios delineados por um batom suave, ou talvez não fosse batom, talvez fosse o brilho natural daqueles lábios que emolduravam o sorriso que só conhecia por fotos. A pele morena, as pernas, os pés...tudo nela era encantador. Tudo nela superava o que tinha imaginado e sonhado.

Sua beleza natural enfeitiçou-me. Percebi naqueles momentos iniciais que o meu sentimento não era loucura, nem tampouco um devaneio platônico. Tudo era real e agora se concretizava. O que será que ela pensava de mim? O que será que sentia? O que será que o futuro nos traria? Aquelas dúvidas cutucavam meu inconsciente, mas queria me concentrar nela. O futuro não importava naquele momento. Só o presente era fundamental. O tempo congelou-se e sabia que aquelas imagens, conversas, palavras iam ficar marcadas de forma permanente na minha memória.

Resolvemos pedir algo para comer. Mal conseguia folhear o cardápio. Ela pediu um suco de laranja, que veio sem açúcar e estava azedo, e um croissant de presunto e queijo. Pedi o mesmo para comer e mais um chopp. Este segundo chopp era para me deixar menos tímido.

Diante de mim materializava-se a mulher que dominava meus pensamentos diurnos e noturnos, por todos os dias dos últimos meses. Ganhara forma e cor, relevo e vida. Senti-me no céu. A conversa fluiu facilmente, como todas as nossas conversas. Ela talvez um pouco nervosa, mas disfarçou-o bem. Eu, bem eu, acompanhava a conversa, mas estava inebriado, enlevado pela presença dela, pela voz e pelos sorrisos.

Meus olhos registravam o rosto, os brincos, os cabelos, o colo que discretamente olhava e admirava, descendo sorrateiramente pelo decote levemente sedutor. Mas os olhos me hipnotizaram. Percebi que quando a olhava fixamente, seu olhar fugia do meu de quando em quando...e isto era um bom sinal. A mesa impedia de olhar suas pernas ou pés, mas tudo aquilo não importava. Finalmente estava na presença dela. Importava que naqueles minutos, naquela hora a minha atenção era só dela e a atenção dela só minha.






Engraçado como as coisas mudam. Há um ano atrás, teria implicado com o sotaque carioca, com a cidade, com o calor, enfim com tudo que fosse carioca. Agora, a voz dela e o jeitinho de falar eram música para os meus ouvidos. A cidade do Rio de Janeiro me encantava, pois ela ali morava. Copacabana passara a ser o centro das minhas atenções. Ela havia permitido que eu entrasse na vida dela e ela fazia parte da minha vida de forma definitiva. Mexeu comigo de um jeito inesperado e como era bom aquele sentimento.

Acercava-se das 20 horas quando pedimos a conta e partimos. Fomos em busca de um táxi e meus olhos puderam novamente percorrer o seu corpo pelas costas. As pernas morenas desapareciam debaixo do vestido solto logo acima do joelho. Poderia ficar contemplando-a por horas, como faço com suas fotos.

Entramos no táxi e rumamos para Copacabana. Não queria que terminasse aquele encontro, não queria que a noite a levasse de mim, mas tinha a certeza de que seria o primeiro de muitos. Quando ela pediu para o táxi encostar, me atrapalhei todo. Abracei-a e beijei seu rosto. Não me lembro dos detalhes, porque não queria deixá-la ir. Ela saiu do carro sorrindo. Eu ali fiquei sonhando e voando.

Ela partiu e senti que aquele primeiro encontro para sempre me marcaria e que se abria diante de mim um novo caminho. Tive a certeza, naquele dia, de que estava diante da mulher mais encantadora que já conheci, da mulher mais bela que meus olhos já avistaram.

Voltei ao hotel e fiquei horas sonhando acordado, num longo devaneio, quase um transe profundo. Não saí para jantar. Apenas fiquei ali relembrando cada detalhes, curtindo cada momento daquele encontro. A trilha sonora deu o pano de fundo de uma noite inesquecível. Um dia banal, que se tornou imensamente especial.