quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Memória faceira

Fui tomado de uma singela leveza ao caminhar ao lado de enormes paredes espelhadas que refletiam meus passos firmes e certeiros, levemente lépidos. A memória faceira, arteira como ela só, escureceu o céu claro, encobriu o sol, trouxe gotas de chuva e o clima frio daquela tarde em que passei pelo mesmo local, alheio ao que me cercava, pensamento distante e sorriso largo estampado no rosto. A chuva, o frio, os pés molhados e gelados, o terno amarfanhado. Nada – absolutamente nada – poderia entristecer-me naquele dia. Estava feliz, leve, enamorado. Sorrateira, a memória faceira conduziu-me pela mão até o passado e a leveza antes sentida, retornou a se hospedar no meu âmago, espantando a amuada fisionomia que teimava em se instalar no meu pobre ser.

Memória que brinca como uma menina cheia de energia, que rodopia, salta e dança, alegre e rutilante. Menina que brilha e contagia com sua energia, sua vibração, seu doce sotaque. Volto a ser criança guiado pela memória viva e que descortina diante de meus olhos o túnel do tempo na vívida impressão do passado repetido no momento presente. Sorrio e sorvo a leveza que reveste meu ser. 

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Bola de cristal eleitoral

Os eleitores de São Paulo, quero crer que por ingenuidade ou traquinagem, mas penso ser por burrice e ignorância, devem eleger Tiririca para Deputado Federal. Tudo indica que ele será um dos 5 candidatos mais votados. Assim como Enéas e Clodovil foram grandes puxadores de foto, Tiririca é um candidato fabricado em laboratório – assim como Dilma Roussef – e serve para tentar eleger alguns candidatos que não se (re) elegeriam, como Valdemar Costa Neto e José Genoíno. Torço para estar errado, mas minha bola de cristal, em temporada eleitoral, não costuma falhar.


O problema central é que o suposto voto de protesto em Tiririca nada mais é do que um voto em favor de pessoas que não tem escrúpulo com o uso do dinheiro público, não tem compromisso com o eleitor e sequer sabem o que é uma Constituição. São manipuláveis, venais e sem qualquer convicção política. Este tipo de candidato – há vários assim – não contribui para a melhoria do país e não valoriza a ética na política.


Há algum tempo este blog profetizou que Protógenes Queiroz, o ex-delegado da Polícia Federal responsável pela Operação Satiagraha que prendeu Daniel Dantas e outros, sairia candidato a Deputado Federal. Dito e feito. A vidência do blog funcionou, está lá no útlimo parágrafo deste post de 2 anos atrás. Acho que ele não se elege, mas é candidato pelo mesmo partido do Netinho de Paula (PC do B) e daí você, meu caro leitor, já pode tirar suas conclusões sobre a seriedade do partido.


Na mesma toada, e falando de Netinho de Paula, ele deve ser eleito Senador e pode deixar Marta Suplicy de fora. A esperança de alguns é que Aloysio Nunes consiga fazer uma boa atropelada na reta final e desbancar Marta. Os petistas estão assustados com a subida de Netinho de Paula e de Aloysio Nunes.


Se Netinho de Paula e Marta Suplicy forem eleitos, teremos 3 senadores representando São Paulo que poderiam nos finais de semana interpretar uma peça de Nelson Rodrigues. Eduardo Suplicy, ex-marido de Marta, tem mais 4 anos de mandato e completa o trio.

Os três são personagens rodriguianos. Marta é madame da sociedade que diz defender os pobres e oprimidos, uma feminista convicta e que faz dupla de chapa com um pagodeiro que tem em seu passado um histórico de agressões a mulheres – e repórteres. Eduardo Suplicy apenas assiste a tudo e se encanta pela Mulher Pera, sugerindo o voto nela. Tudo beira o surreal, mas daria uma excelente trama no melhor estilo do universo rodriguiano.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Poesia: Esparadrapo



ESPARADRAPO

De uma única vez,
arranquei o esparadrapo.
Gesto firme,
decidido.
Rasgou-me a pele,
doeu por um minuto.
Não mais.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Em defesa da Democracia

Hoje será realizado em São Paulo um ato a favor do controle da imprensa no Sindicato dos Jornalistas. No Rio de Janeiro, no Clube Militar, haverá um debate a favor da democracia e da liberdade de imprensa.

Veja a que ponto chegamos no Brasil: "jornalistas" defendem a censura e controle sobre a imprensa e os militares defendem o Estado de Direito, a Democracia e a liberdade de imprensa.

Isto tem nome: governo do PT. Esta é a cara do PT. Se estiver conosco e pensar com o partido, ótimo, caso contrário deverá ser extirpado. Qualquer semelhança com Fidel Castro, Hugo Chávez e aquele barbudinho do Irã não é mera coincidência.
Se você não concorda com o que estão fazendo com o Brasil, assine o Manifesto em Defesa da Democracia.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O Brasil não é do PT

A propaganda é forte, mas é preciso sacudir o país às vésperas da eleição.


segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A visão "curta" da liberdade de imprensa


A imagem que ilustra este post foi retirada do blog Seja dita a verdade. Trata-se de um blog, assim como tantos outros, que retratam a versão oficial e defendem o governo. Há vários jornalistas que afirmam ser imparciais, mas na verdade são bancados por estatais e outras formas indiretas de custeio pelo governo. Se você é amigo do chefe, ganha um patrocínio. Se você é independente, você é inimigo.

Para a militância oficial do governo, a imprensa é chamada de PIG - Partido da Imprensa Golpista. Toda denúncia ou crítica feita ao governo é retratada como "factóide eleitoral", "intriga da oposição", mentira, conspiração das elites. Curioso que quando meios de comunicação "idôneos" como a revista Carta Capital criticam algum integrante da oposição, estes militantes aplaudem.

Há uma perigosa visão curta, limitada, autoritária por parte destas pessoas. Já escrevi sobre isto antes e voltarei ao tema enquanto for necessário, enquanto houver o risco de ter minha voz calada por líderes que não sabem respeitar a democracia e uma visão diferente da deles. Se dependesse de Lula, todos os brasileiros seriam petistas, não haveria necessidade de eleição e todos adulariam o líder supremo. Algo como é feito com Fidel Castro e Hugo Chávez.

Lula, no dia 18 de setembro, em comício em Campinas, voltou a atacar a imprensa. A OAB - que demorou para acordar - e a ANJ divulgaram nota de repúdio, que pode ser lida aqui.

Os ataques têm sido reiterados e partindo de fontes diferentes. Na semana passada, foi José Dirceu. Agora Lula voltou à carga. E tem gente no PT que ainda tenta sustentar que Lula não é contrário à liberdade de expressão. Em outras palavras, tentar dizer que Lula não disse o que disse.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Crônica: Uma Data


UMA DATA

Gosto de lembrar de datas especiais. Não precisa ser aniversário, Natal, Páscoa, Ano Novo, nem precisa ser comemorado por todos. Gosto especialmente daquelas datas que têm significado somente para mim, e talvez para mais alguém. Datas especiais, mas secretas. Datas que não perdem o significado num único dia, não se exaurem. Elas transformam de forma tão profunda que seus efeitos se prolongam e estão presentes constantemente.


Estão discretamente encobertas, como raízes que se espalham, ou escuras como túneis que atravessam montanhas, ou altaneiras como pontes que cruzam o mar ou um pequeno riacho. Um dia especial deixa a marca do sorriso que é lembrado num momento de escuridão e perplexidade, num momento em que tudo – e todos – parecem se esquecer.

Uma data inesperada, que poderia ser um dia rotineiro, mas que foi um dia em que os olhos brilharam de outra forma, onde o coração não bateu, mas dançou, num dia em que o sorriso não foi um simples sorriso, mas um convite, uma abertura da alma.

Datas que trazem vagarosas saudades, uma leve chama que nunca se apaga, cujo óleo da lamparina é infinito, que permanece acesa e fulgurante, ainda que seja tímida. O tempo pode passar, podemos envelhecer, as estações se sucedem, algumas rugas desenham-se na pele, o silêncio pode se instalar, mas aquela data tem a força da juventude. Hoje é um dia destes. Um dia do qual não me esqueço. Um dia do qual jamais esquecerei.



segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Ferreira Gullar e a poesia - II

Mais um trecho da conversa de Ferreira Gullar com os editores da Dicta & Contradicta:

"D&C: Uma aventura prazerosa ou dolorosa?"

"Prazerosa, é claro. Quem diz que dói escrever um poema mente. Não tem nada disso. T.S.Eliot dizia: 'Escrevo para me libertar da emoção'. O poema é cura, não doença. Escrevo para ser feliz,  para me libertar do sofrimento, não para sofrer. É a alquimia da dor em alegria estética. Mesmo quando a coisa é doída, amarga, naquele momento a transformo no ouro que é o poema. O prazeroso é não saber o que vai acontecer. É claro que há o rigor, pois a criação e a crítica são simultâneas. Há sempre uma escolha. Criar é sempre criticar, mas não sei de onde vem. É como digo: 'A Divina Comédia podia nunca ter sido escrita ou ter sido escrita diferente da maneira como foi'. Há um lado que é a necessidade, que é o que eu vou fazer. Por exemplo, se quero falar sobre uma pêra, não estou falando sobre uma praia, e isso condiciona o que vou dizer. Mas como o discurso da poesia não é lógico, não é previsível, então começa a aventura, e o que me acode, que vem através das palavras, está condicionado por certos fatores, como o sujeito que me falou algo na rua ou um trecho de um romance que li à noite. Há sempre uma relação de acaso e necessidade que determina o poema."
(número 05, Junho 2010, p. 16)

Difícil acrescentar algo ou comentar sobre esta passagem da entrevista. Mas vou destacar alguns aspectos da lição do grande poeta:
- o poema surge do acaso;
- o poema é uma aventura: sabe-se o ponto de partida, mas não se sabe o ponto de chegada;
- escrever é um exercício de felicidade;
- a escrita é transformadora, transforma a dor e algo belo.

Ferreira Gullar revela algo mágico sobre o processo criativo e que me parece tão atraente aos jovens: escrever é uma aventura, a poesia é uma aventura, que não é lógica, mas bela.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Microconto - VI

- Ela era bonita? - indagou a curiosidade feminina.

- Ela ERA muito bonita. Não é mais. - respondeu com segurança.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Ferreira Gullar e a poesia - I


O poema, para mim, é a grande aventura de como fazer. Costumo dizer em palestras para estudantes que, quando vou escrever um poema, a página está em branco e isso significa que todas as possibilidades estão abertas, são infinitas. No momento em que sorteio uma palavra, reduzo as possibilidades, o acaso é menor. Mas não sei o que vai acontecer, é uma aventura…" (grifo no original)

O trecho acima foi extraído de uma entrevista concedida por Ferreira Gullar à revista Dicta & Contradicta (número 05, Junho 2010, p. 16). 

Ferreira Gullar disseca o seu processo criativo e afirma que o poema tem um ponto de partida: a folha branca; mas o poeta não sabe aonde vai chegar. A razão, o sentimento - ou os sentimentos -, a percepção, a intuição. Tudo guiará o poeta para que coloque as palavras na folha em branco e traduza o etéreo em palavras compreensíveis.

Fazer poesia é uma grande aventura. 

sábado, 4 de setembro de 2010

Crônica: A Parede


A PAREDE


Permaneceu em pé, num canto, durante a maior parte do almoço festivo, ao lado da esposa, deixando que ela falasse e fosse o centro das atenções. Ria discretamente, contido, quase tímido, como se estivesse fora de seu ambiente familiar. 

Fitava as crianças que corriam de um lado para o outro, sem preocupações maiores, sem entender a vida, apenas vivendo o tempo presente. Os adolescentes, com suas namoradas - e namorados - a tiracolo discorriam sobre projetos de vida, sobre cursos, sobre a faculdade, sobre grandes planos de transformação, donos de si e de um conhecimento que pensavam ser detido apenas por eles. Consideravam-se os iluminados, os eleitos para finalmente colocarem o mundo nos eixos, para acabar com a pobreza, a miséria, a poluição, as armas nucleares.

Num outro canto, um jovem casal com mais de trinta anos vigiando atentamente o pequeno rebento que descia hesitante um pequeno degrau. A vida para eles se renovava, venceram a juventude e acalmaram os ânimos idealistas para fincar raízes no solo. 

Na mesa redonda diante dele, os mais velhos já estavam sentados, cansados de ficar de pé, cansados da luta. Alguns ainda vibrantes e sorridentes, outros ranzinzas, feição fechada e séria, reclamavam de tudo: o trânsito, o preço das coisas, o barulho, a juventude perdida. 

A festa comemorava os 75 anos de um primo e a família estava toda lá. Todos reunidos, as várias fases da vida, as várias etapas, o ciclo completo. 

Ele estava aflito com a última consulta no cardiologista. A cirurgia não tinha resolvido o problema de uma das válvulas do coração e iria novamente ao médico amanhã. Sentia-se caminhando lentamente, constantemente, em direção a uma parede. Conseguia avistar a parede e não havia como ultrapassar a parede. Era imensa, intransponível. Para qualquer lado que olhasse, via-se apenas a parede. Seus pés moviam-se a passos lentos, mas sempre rumo à parede.

Uma de suas netas, reparando o rosto sério do avô, veio conversar com ele.

- O senhor não quer sentar, Vovô? Parece cansado. - disse a menina.

- Estou bem, minha filha.

- O senhor está com cara de preocupado. O que aconteceu?

- Vovô vai ao médico amanhã para examinar o coração.

- Não fica preocupado Vovô. Sabe o que senhor deve fazer? Pede para o seu anjo da guarda de ajudar. Ele tem asas bem fortes e vai te ajudar. - disse a menina com toda a ingenuidade infantil.

À noite, ele rezou ao seu anjo da guarda, pediu forças como não fazia há anos. Rezou com fé. Chorou silenciosamente. Dormiu sossegado e calmo, confiante de que quando estivesse diante da parede, alçaria voo e ultrapassaria.


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Dilma Guerrilheira - O Clipe (Sátira do Jingle)

Algo leve e divertido para embalar o feriado.

E antes que reclamem, eu continuo falando mal e criticando o PT.