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segunda-feira, 6 de abril de 2020

Microconto



- Boa noite! Sonhe comigo! - escreveu na mensagem do celular.

- Não preciso dormir para sonhar contigo. Basta-me o tempo.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Memória: Cemitério





instagram: @rbueloni
Cemitério Gethsêmani no início da primavera, setembro 2019


MEMÓRIA: CEMITÉRIO



O cemitério é um lugar familiar para mim. Sempre gostei de visitar cemitérios por dois motivos: pesquisas genealógicas e contemplação artística.

Desde meus 13 anos de idade ganhei gosto por pesquisa genealógica. Nunca busquei algum antepassado genial ou famoso ou importante ou rico. O que sempre fascinou foi a história, o passado, a luta de cada pessoa para sobreviver, para mudar de um país para outro e tudo isto é possível resgatar em documentos. É uma espécie de pesquisa arqueológica, onde se descobre como as pessoas viviam. Cemitérios são uma importante fonte de pesquisa e de dados. O Cemitério do Araçá e o Cemitério São Paulo foram visitados por mim várias vezes. Talvez eu seja uma das únicas pessoas da família que sabe o caminho até os jazigos naquele emaranhado de ruas parecidas entre os túmulos.

Nestes passeios pelos cemitérios, percebi que há uma riqueza arquitetônica escondida, silenciosa, pronta para ser admirada e descoberta. No Cemitério da Consolação, há um tour com guia que explica cada uma das esculturas encomendadas a artistas famosos como Bruno Giorgi, Emendabili e Victor Brecheret. No Cemitério São Paulo, há obras monumentais de beleza única e algumas tristes e melancólicas. Nunca me senti incomodado nestes lugares.

Acho curioso como o brasileiro trata cemitério com um certo receio, um medo de adentrar naquela local onde repousam nossos antepassados. Porém, é comum encontrar brasileiros no Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, ou no Cemitério Pére Lachaise, em Paris. Alguns túmulos são verdadeiras atrações turísticas. Por outro lado, após o sepultamento de um ente querido, muitos esquecem até o cemitério onde estão enterrados.

Há pouco mais de um ano e mês atrás fui ao cemitério do Araçá para fotografar as placas do túmulo de meus bisavós com os nomes e datas de nascimento e falecimento. O cemitério estava deserto naquela tarde de sábado do final de novembro de 2018. Fiquei ali mais de uma hora, contemplando, refletindo sobre a vida e a morte. O ano de 2018 havia sido um ano difícil e tudo parecia caminhar para um final de superação da luta contra o câncer, tanto da minha mãe, como do meu pai.

Um mês antes havia comparecido ao velório da mãe do meu cunhado no cemitério do Morumbi. Um cemitério jardim, um lindo campo gramado com árvores e flores e jazigos no chão. Não há obras de arte, mas há uma serenidade acolhedora naquele local. Meu pai comentou para minha mãe que precisava comprar um jazigo. Ouvi a conversa sem fazer qualquer comentário. Apenas ouvi e pensei que de fato é algo que faz parte da nossa rotina.

Pouco depois, no dia 23 de dezembro de 2019, meu pai faleceu. Ele foi enterrado no Cemitério Gethsêmani, em São Paulo. Desde então, visitar o cemitério passou a ser parte da minha rotina quinzenal ou semanal. Algumas visitas curtas e outras mais longas. Em todas, reflito sobre a morte, a vida e rezo, crente de que ele deixou este mundo para contemplar a face de Deus. Visu sin beatus tuae Gloriae.

Escrevi estas linhas mentalmente diversas vezes nestes meses. Por diversas vezes iniciei o texto diante do túmulo de meu pai. Não tinha força para escrevê-las. Mesmo agora, impossível escrevê-las sem que as lágrimas de saudade brotem. Um amigo psicólogo havia me alertado que o primeiro ano de luto é o mais difícil e que demora um ano para bem elaborar o luto. Um ano se passou e ainda que sinta saudade, a memória que fica guardada é sempre positiva e alegre. Neste Natal ele não estará presente entre nós fisicamente, mas tenho a certeza de que está olhando e intercedendo por nós lá de cima.

Ir ao cemitério, para mim, ganhou um novo relevo, uma nova razão. Deixei de ver o cemitério como um lugar triste e a lembrança do velório e do enterro – ainda tão vivas – deixaram de ser doloridas para se tornarem uma celebração da vida e da ressurreição. Todos morreremos um dia, descansaremos. Para os católicos, esperamos chegar ao Céu e alcançar a vida eterna ao lado de Deus.

Talvez alguém se pergunte a razão deste texto fúnebre num dia festa. Repito, não vejo a morte como algo que devemos temer ou algo melancólico. Há a dor da perda, mas há algo muito mais profundo que cada um de nós precisa refletir e descobrir. O tempo passa e as pessoas se vão.

Nestes dias que celebraremos o Natal, em família ou ao lado de amigos, aproveitemos para desfrutar de quem está do nosso lado. Façamos desta celebração um momento para perdoar, para acolher, para estender a mão e construir novas pontes, para abraçar a quem tanto estimamos. Não guarde aquela palavra de carinho, solte-a, lance a semente do bem a quem está à sua volta, mande aquela mensagem ao amigo que está distante, não tema ser generoso, bondoso, afável.  Como diz a canção Trem Bala, “sorria e abrace teus pais enquanto estão aqui”. Um dia, eles alçam voo para junto de Deus.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Distorcendo a realidade


instagram @rbueloni

"A lágrima é a saudade em forma líquida."

Renato Bueloni Ferreira

quarta-feira, 28 de março de 2018

Saudade futura







A saudade lhe pesava como asas de chumbo num passarinho, cravado no chão, tolhido de todo o direito de voar, de fugir do caminhar rotineiro. Achava que a saudade havia sido curada com o tempo, mas num momento avassalador, fora tomada de um peso enorme, maior do que ela. Não tinha saudade do passado, tinha saudade do futuro, daquilo que nunca seria, e esta é a saudade que mais machuca. A saudade do passado parece tão bela e lírica quando passeia num fado cantado por uma voz afinada em alguma tasca de Lisboa, ou no Porto, ou qualquer recanto onde se serve um bom vinho português e assa-se o bacalhau. A saudade do que poderia ter sido, daquilo que ela achava que deveria ser, mas nunca foi e que nunca será, exatamente esta saudade que lhe invadira a alma naquela manhã.

Ela sabia a causa de tudo isto e aquilo lhe incomodava. Como poderia ainda sentir algo por ele depois de tantos meses, vinte e nove para ser exata, pensou sem se levantar da cama. Aquele sonho viera em péssima hora, adentrara seu sono tranquilo, um ladrão na calada da noite, e sua paz fora roubada. Não que a paz fosse profunda e sincera, mas ela se enganava achando que havia conquistado a paz de coração finalmente. E alguma vez o coração fica em paz?, perguntou-se. Virou para o lado e viu que o relógio marcava 7:45. Já estava atrasada, mas que importava, quem se importaria com seu atraso, com a ausência de seu sorriso, com a aparência de que tudo estava bem. Não conseguiu conter algumas lágrimas que desenharam um traçado retilíneo em sua pele macia e sedosa. Apesar dos anos, era uma mulher bonita, mas que se deixara aprisionar numa saudade futura.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Barquinhos

instagram @missuniversoproprio

Buscou um banco que estivesse sombreado por uma ampla copa de árvore e sentou-se à beira-mar, num recuo onde barcos repousavam depois de uma madrugada de trabalho. Nunca fora bom pescador, nem de homens, nem de mulheres, e riu de si mesmo com a péssima piada. Lembrou de Santiago, o velho pescador cubano imortalizado por Hemingway e que ficou oitenta e cinco dias sem pegar um peixe.  Quando fisgou um enorme marlim-azul, este foi devorado por tubarões. Santiago chegou à praia depois de dois dias e duas noites, cansado, exausto e com apenas um esqueleto para comprovar seu feito. Azar? Ele não acreditava nestas coisas de azar, de sorte, de tarô, de horóscopo, de almas gêmeas. Talvez ele fosse incompatível com as mulheres que se aproximavam dele - ou das mulheres das quais se aproximava. 

Estava novamente só. A brisa cálida lhe acariciava o rosto, mas a escuridão lhe dominava. Nem a luz do meio da tarde era capaz de desamarrar a feição fechada e amuada. O silêncio era cortado apenas pelo leve balançar dos barquinhos e das pequenas ondas batendo na mureta que ladeava o calçadão naquele braço de mar, na entrada do porto dos pescadores. Seu interior ainda estava desarrumado, entristecido pelo silêncio agressivo dela. Viajara na vã tentativa de se desvencilhar de um breve passado que lhe incomodava. Sucumbira diante do fracasso do relacionamento. Mais uma vez não deu certo, repetia à exaustão ao longo dos dias. Os repetidos desastres lhe cansavam a ponto de lhe afetar fisicamente. Perdera três quilos desde que ela com secura e frieza lhe dispensara. O dilema se apresentava novamente e imaginara que a perseverança fosse uma prova de amor capaz de demovê-la da ideia, de tirá-la do isolamento, como se ele fosse despachado para uma ilha distante, um exílio imposto por ela, uma censura que mais se assemelhava a um campo de refugiado supervisionado pela ONU. 

Ela se recusara a atender suas ligações, recusara seus presentes, seus mimos, seus gestos carinhosos, seus pedidos de desculpas, sua ida em vão até o portão da casa dela na serra e da qual ela jamais soube, pois diante da campainha, ele recolheu a mão, enfiou a no bolso e recuou cabisbaixo. Mudou de ideia no dia seguinte. Resolveu escrever uma longa carta, certo de que ela a leria. Então por que perder tempo escrevendo?, perguntou-se várias vezes. Porém, insistente, escreveu a carta. Trazia consigo no bolso, dentro de um belo envelope bege, comprado especialmente e escolhido na melhor papelaria da cidade. Ela gostava de receber cartas escritas à mão. Custou-lhe escrever, teve que caprichar na letra, a mão doeu-lhe. Não estava mais acostumado a escrever à mão. Não escrevia longos textos à mão desde as provas do mestrado. O esforço vai ser recompensado, repetia silenciosamente em forma de mantra motivacional. Insistiria mais uma última vez. Era preciso. Era preciso debelar a escuridão que lhe acometia e lhe murchara. 

Tirou uma mariola do bolso e deu duas mordidas. Olhou fixamente o horizonte e suspirou, deixando o aroma do sal invadir-lhe as narinas. Os barquinhos permaneciam em suave dança com as ondas que lhes conduziam. A dança era cadenciada, ritmada, como a vida. No bolso de trás da calça estava a carta, num envelope agora amassado. Olhou para a caligrafia e o nome dela. De uma vez, sem hesitar, rasgou a carta ao meio. Levantou-se e lançou as duas metades na primeira lata de lixo que avistou.


sexta-feira, 16 de maio de 2014

Desassossego


imagem: instagram @rbueloni


Sinto o peso das noites insones, em horários variados, na manhã seguinte. É uma ressaca de você, algo que não deveria ocorrer, algo ao qual deveria ser totalmente indiferente, dar de ombros, olvidar sem demasia. Esquecer parece mais difícil do que viver.

Há dias de calmaria e noites estreladas quando navego no mar plácido e nas águas sem ondas, até que algo dispara o inesperado alarme causando um desassossego na alma. Desassossego. Palavra complicada até para escrever com este monte de esses. Letra sinuosa que retrata tão bem as surpresas e as peças que a vida nos prega. Faz-se uma curva e pronto, depara-se com um nome que dispara uma viagem no tempo da memória e tudo se materializa. O sorriso, a voz, o perfume, o jeito.

Partidas nunca são algo corriqueiro, salvo se tivesse um gélido coração, coisa que descobri ser inexistente. A tranquilidade é afastada de forma imprevisível, quando a solidão cala fundo e tua ausência se faz tão presente. Sei que um dia não haverá espaço para isto e lágrimas serão poucas e hão de secar. Basta ler teu nome que os momentos de inquietação me tomam o ser e isto ocorre na quase totalidade das vezes.

Sinto o desassossego daquilo que poderia ter sido e não foi, sinto o desassossego de não ter tido mais tempo, de não poder me despedir. E terei eternamente saudade daquilo que não foi.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Microconto: Medusa


Medusa, de Glen Vause (2004)

MEDUSA

Ela dormiu com os cabelos ainda molhados. Acordou com eles desarrumados e desgrenhados, com leve semelhança a uma peruca de palhaço, pensou. Olhou-se no espelho e ficou petrificada. Minha doce medusa, ele diria. E ela sentiu saudade.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Frases rabiscadas


A dimensão da saudade somente é sentida no momento do reencontro. É então que o tempo revela o peso da ausência.


Difícil é deixar partir. 


Um abraço de despedida é a tentativa de eternizar o momento, de congelar o tempo, de reverter a partida.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Poesia: SAUDADE


SAUDADE


A saudade é uma chama
Pode ser fraca, quase invisível
Que queima ao se aproximar
Uma chama imperceptível, por vezes
Adormecida sob as cinzas de um braseiro
Quase desfalecida
Esmaecida
Que ruboriza ao sopro sutil da brisa da memória
Incandescente
Volta a bruxulear e ganha vigor
Arde e queima intensamente

A saudade não deixa que se olvide
Não deixa que a chama apague
Incendeia a memória
Aquece a alma de forma inexplicável
Revigora os sentidos
E dança no silêncio
E ilumina a escuridão.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Poesia: DESPERTAR


DESPERTAR

Beleza esfumaçada
Na aurora rósea
Nas cores da manhã
No primeiro pensamento que me acomete
ao despertar do sono
Do sonho em que me visitaste
Do delírio noturno onde tudo é possível.

E não tenho controle
E não tenho medo
E as palavras saltam de minha boca
Lançadas no etéreo
Carregadas por um redemoinho de vento
Sussurradas ao longe de teus ouvidos
Recebidas com o apelo da alma.

Respondes com um sorriso
Bálsamo que inflama a brasa do meu ser
Pedra preciosa que não pode ser garimpada
Nem roubada
Nem fabricada pelo engenho humano.
Sorriso que só o sentimento produz
O mais puro sentimento
Gratuito e divino
Mágico e inebriante
Sentimento inexplicável,
Sentimento insuperável!


RLBF - 21 outubro 2008.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Saudade


"A saudade existe no coração, sem necessidade de recordações externas."

Machado de Assis

(Migalhas de Machado de Assis. São Paulo: Migalhas, 2008).


"Tive ouro, tive gado, tive fazendas.

Hoje sou funcionário público.

Itabira é apenas uma fotografia na parede.

Mas como dói!"

Carlos Drummond de Andrade

("Confidência do Itabirano". Antologia Poética. 26ª. Ed. Rio de Janeiro : Record, 1991).


"Eu próprio, ao refletir sobre os percalços do ano-velho, vejo agora neles a provocação que nos faz amar a vida com outra intensidade. Os calhaus do caminho ficaram para trás. Nossa vida nada mais é do que a transformação do dia de hoje em dia de ontem, enquanto esperamos o dia de amanhã. O que é bom lembrar também se chama saudade."

Josué Montello

(Diário da Noite Iluminada. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994, p. 214)


A memória, intangível, silenciosa, guarda, como uma caixinha de joias, os detalhes de tantos momentos vividos, imaginados, sentidos. Fundem-se emoções, realidade, sonhos, vibrações, alegrias, lágrimas e tristezas. Cria-se algo novo, fruto desta mistura de dádivas, que percorre o corpo até o coração. Este, órgão tão potente, estremece diante da saudade e precipita o anseio pelo reencontro.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Crônica: Mentiras




MENTIRAS


Poderia mentir. Disseram-me que homens são bons mentirosos. Que sabem mentir melhor que as mulheres. Estas sabem iludir. Ah, como sabem. São mestres no assunto. Políticos, sim, estes são os melhores mentirosos de todos. Não precisam nem óleo de péroba para lustrar a tamanha cara-de-pau que expõe na propaganda política ou em longos e enfadonhos discursos. E se tiver língua presa, melhor ainda. A mentira fica mais crível e o indivíduo passa um certo ar de vítima, de pobre coitado e pode ser contemplado com uma polpuda soma em dinheiro pela comissão de anistia.

Desculpem, ia fugindo do assunto. A mentira não ia fazer mal; ia apenas evitar constrangimento, ia passar despercebida. Poderia me martirizar e mentir. Não preciso expor a verdade. Dizem que a verdade dói. Não sei, será? Poderia mentir e dizer que gosto de um dia sem sol, daqueles bem nublados e garoentos, com um ventinho frio que congela até os ossos. Poderia mentir e dizer que gosto do ruído da cidade com todos os tons e timbres de buzinas, freadas e xingamentos. Poderia mentir que adoro café fraco e frio. Poderia mentir que o dia de trabalho não foi cansativo. Poderia mentir que uma noite de lua nova é tão agradável quanto uma noite de lua cheia. Poderia mentir que a brisa do mar num final de tarde não me faz falta nenhuma. Poderia mentir que não senti sua falta hoje. Ou em qualquer outro dia que não nos falamos. Poderia mentir e dizer que não sinto saudades, que estou acima deste sentimento.

Poderia dizer que queria escrever em prosa, mas seria mentira. Tentei versos. As palavras indisciplinadas rasgaram o verso do papel, revoltando-se com a minha inabilidade em manuseá-las. Agruparam-se, reorganizaram-se e veio a prosa fruto da minha fraqueza e incapacidade. Isto é verdade.

Poderia mentir. Não seria aceitável? Não vale a pena. O silêncio guarda a verdade, acalenta-a, abraça-a. Não vou mentir. A verdade é conhecida, ainda que não dita ou que dita por fragmentos. A verdade brota no interior. A verdade alegra. A verdade estampa sorrisos e provoca arrepios. Bons ou maus.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Um pouco de Cecília Meirelles



"De um lado cantava o sol,

do outro, suspirava a lua.

No meio, brilhava a tua

face de ouro, girassol!


Ó montanha de saudade

a que por acaso vim:

outrora, foste um jardim,

e és, agora, eternidade!


De longe, recordo a cor

de grande manhã perdida.

Morrem nos mares da vida

todos os rios do amor?


Ai! celebro-te meu peito,

em meu coração de sal,

ó flor sobrenatural,

grande girassol perfeito!


Acabou-se-me o jardim!

Só me resta, do passado,

este relógio dourado

que ainda esperava por mim..."

(Canções. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 18-9)


Tantos sentimentos unidos num breve poema que integra Canções. Fico na saudade. Acho que foi o tema da semana neste blog. Um daqueles temas que ganham o inconsciente e só percebo depois que há uma união nos temas. "Montanha de saudade" que traz lembranças e desperta sentimentos bons, desejos bons, anseios bons. Saudade talvez seja o sentimento mais puro e despido de egoísmo. Um sentimento humano essencialmente inocente, inevitável, mas que enche de alegria a quem é dirigido.


Saudade só é sentida de um ente querido, de quem é importante, de quem é especial. Uma dor que pode levar a lágrimas, mas estas lágrimas semeiam alegria e felicidade. A felicidade de voltar, o júbilo do reencontro, de estar perto. Saudade que preenche o vazio da distância com o pensamento, ainda que silencioso.


Saudade não é uma simples palavra. É emoção rica e profunda, é dizer que moras no coração.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Crônica: Copo d´água


COPO D´ÁGUA

Os lençóis grudavam em seu corpo. Despertou do sono pesado com o calor da madrugada, apenas aliviado pela leve brisa do ventilador ao pé da cama. As gotículas de suor molhavam seu pescoço, as costas e embebiam o travesseiro. Jogou as pernas para fora da cama, desvencilhando-se dos lençóis. Abriu e fechou os olhos algumas vezes, atordoado pela sonolência que ainda pesava.

Pôs-se de pé e rumou para a cozinha, tateando no escuro, em silêncio, os pés descalços saboreando as tábuas do chão que guardavam o calor do dia. Tinha descoberto o prazer de andar descalço, ou melhor, redescoberto. Ao chegar em casa, dispensava chinelo ou qualquer calçado: preferia ficar com os pés a acariciar o solo. Coisa de criança poderia dizer alguém, mas ele não se importava. Rejuvenescia com este simples gesto, despia-se dos trajes talares, deixava de lado a fantasia e o personagem que encenava na vida profissional. Ultimamente vinha se questionando, revendo idéias e preconceitos. Aos 32 anos, reavaliava o sucesso profissional, reavaliava a falsidade e a malícia que o cercavam em seu ambiente de trabalho que mais parecia uma floresta tropical, com feras e índios, com caçadores inescrupulosos e senhores que melhor se situariam em uma corte européia do tempo do imperador.

Abriu a geladeira e buscou a garrafa de água gelada. Tomou no gargalo, afinal estava sozinho em casa. Ninguém ia saber, ninguém iria recriminá-lo. A água gelada desceu por sua garganta aliviando o calor da madrugada abafada. Vários goles. Sua língua percorreu os lábios enxugando-os, num movimento instintivo. Deixou a garrafa de lado e ergueu a mão, encostando-a nos lábios cerrados, frios e úmidos. Um arrepio percorreu-lhe a espinha, um sentimento de saudade tomou-lhe todo o ser.

Imóvel, no escuro completo da noite, foi acometido de algo estranho. Saudade de algo que nunca tivera, que nunca provara, que nunca recebera, que nunca ganhara. Um nó formou-se no peito e os dedos deslizaram pelos lábios, como se fosse ela a tocar seus lábios. Podia sentir o gosto – ainda que imaginário -, podia vê-la diante de si, como naquela foto em que sorria de lado com o rosto virado como que o convidando a ir a ela. Podia sentir o toque da mão dela acariciando a sua mão. A pele sedosa e suave, delicada, sempre mais fria que a dele. O olhar com um brilho todo dela. Era saudade que jorrava e aumentava o desejo de tê-la perto. Era saudade de um beijo que nunca recebera. Incontrolável anseio por um beijo que nunca provara. Ainda.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Poesia: SAUDOSO

SAUDOSO


Hoje acordei saudoso
Saudoso da minha infância
Saudoso dos tempos das paixões efêmeras
Paixões que se sucediam com as horas
E adormeciam com o pôr do sol

Hoje acordei saudoso
Saudoso de amores passados
Saudoso de sentimentos antigos
Sentimentos que aqueciam a alma
E embalavam os sonhos

Hoje acordei saudoso
Saudoso da ingenuidade
Saudoso de sonhar
Devaneios nos quais esperava
E a esperança nutria a seiva da vida,
E a vida era a esperança.

(24 de março de 2007)

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Crônica: Brisa


BRISA


O vento brincou com seus cabelos, desarrumando-os e lançando uma mecha que lhe cobriu parte do rosto. Ela coçou o nariz duas vezes e puxou os cabelos para trás, prendendo-os num rabo-de-cavalo alto. O rosto livre dos fios aloirados e domesticados pelo elástico. Os longos cabelos presos revelavam toda a beleza do rosto sem maquiagem. O contorno do pescoço exposto com sua suave curva. Pedro gostava de apreciar as linhas que desciam de sua nuca e uniam-se aos ombros desnudos. Talvez fosse o tom da pele, talvez simplesmente fosse ela.

Ela permanecia imóvel, olhos fixos no mar, alheia ao ruído da Avenida Atlântica. A água de coco refrescava-lhe numa tarde quente de primavera. O pensamento longe tinha na saudade o conforto. Queria Pedro ao lado dela, naquele quiosque, naquela tarde, no meio do expediente, como fizera algumas vezes. Escapavam do trabalho para conversar e rir. Lembrou-se de quando ele percebeu a discreta cicatriz sobre a sobrancelha direita, um pequeno risquinho, quase imperceptível, mas que ele notara. Ele notava tudo. Não dizia tudo para não parecer paranóico, mas ela sabia que ele notava tudo. O silêncio, o olhar, o sorriso, os gestos. Ao rememorar estes fatos, alegrou-se, sorriu. Com a brisa do mar, afastou-se a saudade.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Crônica: Tarde no Café



No meio da tarde de sábado, final de verão, Pedro escolheu uma mesa perto da calçada, num simpático café da Rua Oscar Freire. Queria ver gente. Observar as pessoas. Analisar. Distrair-se com as divertidas figuras do coração do luxo e da elegância paulistana. Pediu um café puro e um pão de queijo. Deixou o livro recém-adquirido sobre a mesa, cruzou as pernas e preguiçosamente deixou seu olhar passear.

Passeavam pela calçada, ou melhor, desfilavam mulheres com sacolas, com cachorrinhos embonecados, com óculos escuros largos sobre a face, com amigas a falar e a gargalhar alto. Uma fauna de mulheres ricas, de peruas, de patricinhas, de todas as tribos urbanas e cosmopolitas. Umas medindo as outras de cima abaixo. Grifes caras e famosas e outras nem tanto. Uma variedade de roupas e estilos, de tamanhos e de rostos, de aromas de perfumes caros e de cores. Tudo se mesclava numa tela impressionista, sem precisão, como um emaranhado de sons, aromas e formas.

Pedro fitava-as discretamente, de relance. Começou pelos pés. Admirou-se com a variedade de sapatos, sandálias, unhas, pés que por ali passavam. Achava defeito em todos. Simpatizou com alguns. Mas algo incomodava-lhe.

Distraiu-se então com os rostos. Reparou nos cabelos, alguns longos, outros curtos, presos, soltos, loiros, ruivos e castanhos. Cortes variados, visuais esquisitos, outros elegantes, outros mais simples. “Qual o mais bonito”, perguntava-se. “Qual a forma da beleza?” Uma beleza abstrata rondava sua mente e não se materializava diante dele naquela tarde. Pensou em Platão e no mundo das idéias. “Seria a beleza perfeita algo inatingível, algo invisível, algo que somente pode ser criado em nossas mentes? Haveria um molde perfeito?” O molde de beleza de Pedro estava silente, escondido em seu inconsciente.

Continuou a observar de forma incessante a procura de algo que sabia existir, que sabia estar presente dentro de si ou no mundo exterior. Sentiu-se criando um Frankesntein feminino. Juntava partes e pedaços de mulheres, misturava estilos e roupas, mas nada lhe apaziguava o espírito. Inquieto não desistia em sua busca.

Estava ali há mais de uma hora e meia, quando uma moça perguntou-lhe se queria mais alguma coisa. Despertou do transe ao ouvir a indagação. Olhou-a e o reflexo da luz sobre um ponto brilhante que repousava sobre o nariz da funcionária alvejou-o como um raio. “Por isso encontrava defeito em todas as mulheres!”, disse a si mesmo. “Você é e sempre será única. Não há substituta, não há outra igual a você. Nunca serei indiferente ao seu nome. Sempre que o ouvir, lembrarei de ti. Sempre!” O pequeno piercing acima da narina esquerda havia trazido Pedro de volta à realidade. Pediu mais um café e sorriu. Encontrara o que buscava.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Crônica: Cores da Manhã


Pouco depois das 6 da manhã Carol estava pronta para sair para uma caminhada no calçadão da praia. Hoje não iria à academia. Algo diferente lhe dizia, naquela manhã, que devia mudar a rotina. Dois quarteirões andando pela Rua Sousa Lima e chegou na Av. Atlântica. De frente para o Leme, abastecida com seu ipod, iniciou mais um dia. O céu avermelhado dava indícios de que o sol brilharia forte num contraste com o céu azul e sem nuvens.

Passos rápidos e ritmo acelerado foi cruzando rostos e pessoas, na maioria idosos que também aproveitavam o clima fresco da manhã. Quantos rostos e quantas pessoas cruzava diariamente? Quantas histórias não contadas? Quantas vidas com seus problemas pessoais e dúvidas? Quantas pessoas com angústias e alegrias? Será que alguém passava pelas mesmas aflições que ela? Quantos eram felizes? Quantos simplesmente passavam pela vida como um barco à deriva, sem rumo, sem direção, apenas existindo? Tudo aquilo embaralhava-se nos seus pensamentos. Carol estava perdida e sabia disto. Por que ele, exatamente ele, num momento e ao acaso havia mexido com ela? Por que agora e não antes? Por quê? As perguntas se repetiam e ela nem reparava na trilha sonora que brotava de seu ipod.

Buscava no ar fresco da manhã, num ímpeto, que todo aquele mistério se desfizesse. Tinha medo de tomar certas decisões e isto a afligia. A incerteza do futuro deixava-a intranqüila. Seria tudo isto apenas uma noite deveras longa ou criações fantasiosas de sua mente criativa? Ela não sabia a resposta.

Ao cruzar a Siqueira Campos, reparou na escultura do Tenente Siqueira Campos. Tantas vezes já havia feito aquele trajeto sem se atentar àquela escultura. Quase uma foto congelada no tempo. O artista havia captado o momento em que o Tenente era alvejado e levado deste mundo. A plasticidade do corpo imóvel, os braços estendidos para trás, os joelhos dobrados projetando o corpo para a frente, a expressão de dor. Num momento, a vida desapareceu daquele homem. Vida breve.

Aqueles segundos de contemplação deram-lhe um senso de brevidade, um senso de que o tempo não é eterno, e não seria eterna sua angústia. Apenas uma travessia e logo o sol voltaria a aparecer, numa nova manhã radiante. Mas tinha pressa, queria voltar a sorrir. Queria voltar a sentir seu coração bater com força e vibração, queria deixar de lado o passado que lhe pesava e arrastava-se.

Seus olhos marejaram. Sentiu saudade de Roberto. Apenas 2 semanas haviam transcorrido desde aquele encontro, mas estava certa de que havia sido o último. Não tinha coragem de ouvir seu coração. Não tinha coragem de enfrentar o passado e criar para si um novo futuro. Deixaria o destino levá-la, por onde o destino quisesse.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Crônica: Devaneio de final de tarde


Eduardo fumava preguiçosamente debruçado na janela aberta. A sala escura, com as luzes apagadas, trazia-lhe o conforto após a longa jornada de trabalho. Observava a fumaça que saía do cigarro e dava piruetas no ar. O chão molhado da rua, as sirenes das ambulâncias, as buzinas dos carros que inundavam o ar no final de tarde não lhe incomodavam. Estava absorto no seu devaneio.

Recostou-se na parede, meio de lado e sorriu. Sua alma transbordava de alegria. Uma alegria interior misturada com saudade, relembrando palavras que ela havia lhe dito. Sentia como se a abraçasse, sentia-a junto dele, envolta por seus braços que a consolavam e lhe davam segurança. Um simples abraço que a distância impedia. A certeza de que os pensamentos se cruzavam no espaço etéreo inundou-o com uma profunda tranqüilidade.

“Saudade Edu!” ela havia escrito. Pensou em ligar. Pegar o telefone e simplesmente perguntar como havia sido seu dia, ouvir sua voz por alguns minutos, ouvir seu riso ou quem sabe fazê-la rir um pouco, mesmo cansada no final de dia. “Mas o que vou dizer? O que vou falar? O que vou perguntar? Será que ela está ocupada? Será que ela vai gostar? Será que não vou ser chato?”.

Aquelas idéias metralharam sua cabeça rapidamente, num instante.

- Ah, deixa pra lá! – disse em voz alta. – Ela sabe que estou pensando nela. Quem sabe amanhã eu ligo.

Naquele instante tocou o telefone. “Será?”, disse a si mesmo. Do outro lado da linha era um cliente, e rapidamente o mundo dos sonhos evaporou e Eduardo voltou à realidade.