terça-feira, 24 de maio de 2016

Águas passadas




Sonhei com você noutra noite. Sentada num canto de uma sala, sorria com um copo de vinho na mão. Mirava-me, silenciosa, mas transparecia uma alegria serena. De longe, olhei-te, sorri de volta, mas não acenei. Não iria tomar a iniciativa de abordar-te e romper teu desejo expresso no passado e de forma tão contundente. Tiveste força para me calar. Eu nunca calei tua voz dentro de mim. E vez por outra, como no acaso de um encontro casual, visitas-me com teu olhar distante e levemente melancólico, um olhar que sempre parecia gritar por socorro. 

Não queimei os poucos retalhos que guardei, não formatei o HD. Na verdade, o HD se autodestruiu, uma daquelas panes inesperadas que levaram junto arquivos, contatos, fotos, textos, memórias. Curioso como uma máquina é capaz de simplesmente apagar anos de trabalho que ali estavam armazenados. Voltei a confiar no meu HD mental, na memória que agora armazena variantes de gambitos, sicilianas e Ruy Lopez. A criatividade se desenrola num tabuleiro, onde tenho um pouco mais de controle sobre o que se passa. Quando algo dá errado, a culpa é só minha e de algum erro de cálculo. A vida tem suas inesperadas mudanças.

Acordei sem sentir saudades. O tempo passou, as águas correram e o sentimento se desfez. Ou talvez esteja apenas adormecido na noite fria que avança.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Carlos Drummond de Andrade : Ontem


Pinacoteca de São Paulo, instagram @rbueloni


ONTEM

Até hoje perplexo
ante o que murchou
e não eram pétalas.

De como este banco
não reteve forma,
cor ou lembrança.

Nem esta árvore
balança o galho
que balançava.

Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado

não no ar, em mim,
que por minha vez
escrevo, dissipo.

(A Rosa do Povo. 7a. ed. Rio de Janeiro : Record, 1991, p. 58-9)

No Dia Mundial da Poesia, palavras de Drummond para que todos escrevem, dissipem e leiam poesia.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Epígrafe - XXXV



"A los quince años me inicié en la enseñaza en una escuela rural, sola, sin familia. En ese ambiente impregnado de tristeza y de silencio empecé a escribir; él me hizo espiritualmente lo que soy. Su influencia definitiva en mi alma."

(Gabriela Mistral. Vivir y escribir. Prosas autobiográficas. Santiago de Chile : Ediciones Universidad Diego Portales, 2013, p. 99)

Este trecho foi escrito  por Gabriela Mistral em 1925. A poetisa chilena nasceu em 1889, em Vicuña, e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1945. Faleceu em Nova York em 1957.

O ambiente rural é descrito como duro, áspero, triste. Não é nada bucólico, nem leve. O trabalho no campo é pesado. Os alunos, pode-se imaginar, deviam frequentar a escola apenas por alguns anos e depois abraçavam no trabalho no campo para ajudar as famílias. O dinheiro curto. A diversão inexistente. Gabriela Mistral mergulha no mundo melancólico de sua adolescência e transpõe tudo para sua escrita, para sua poesia.

A tristeza, a dificuldade forjam o caráter, lapidam a alma e dão fortaleza àqueles que não sucumbem diante dos infortúnios e dos percalços do caminho.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Chavões


instagram  @rbueloni


Todo carnaval tem seu fim
assim como o amor.

Todo carnaval tem seu fim
diferente de governos corruptos.

Todo carnaval tem seu fim
assim como as estações do ano.

Todo carnaval tem seu fim
diferente dos bons momentos armazenados na memória.

Todo carnaval tem seu fim
assim como as longas férias.

Todo carnaval tem seu fim
diferente da aposentadoria integral do servidor público,
com todas as benesses e vitaliciedade.

Todo carnaval tem seu fim
e agora é hora de trabalhar,
pois o ano tem que começar!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Na passarela do samba






O sol ainda ia alto na tarde que avançava com algumas nuvens amendrontadoras a surgir lá pelo lado da zona norte, quando saí de casa rumo a um ponto de encontro num bairro da zona sul paulistana. Um grupo de pouco mais de trinta pessoas abraçaria a aventura de desfilar numa escola de samba, o Grêmio Recreativo Cultural Social Escola de Samba Unidos do Peruche. Eis o nome pomposo e completo de uma agremiação sambística. No nosso grupo,  um holandês, um suíço e paulistanos de origem e rostos variados, a maioria sambistas de primeiro desfile.

Seria meu primeiro desfile numa escola de samba, pela primeira vez a entrar no sambódromo do Anhembi, na passarela do samba. Memorizei o samba-enredo, li sobre o enredo, mas não fui a nenhum ensaio e nem pus os pés na quadra da escola na zona norte. Aceitei o convite, mas avisei que estava com uma agenda complicada para participar de ensaios. Comprometi-me a fazer a tarefa mínima: pagar pela fantasia, decorar o samba-enredo e estar em condições físicas de ajudar a escola. Tinha a doce ilusão de que seria mais um daqueles itens a marcar na longa lista de “1000 coisas a fazer antes de morrer”. Tudo bem, não é a Marquês de Sapucaí, mas é o GRCSES Unidos do Peruche, um integrante do Grupo Especial do Carnaval de São Paulo. Convenci-me de que o desfile contaria como válido para a lista.

No ponto de encontro, o salão de festas havia se transformado num camarim de teatro, nos bastidores de uma companhia mambembe em preparação para o espetáculo. O samba-enredo tocava nos alto-falantes oriundo de um telefone celular. A modernidade auxiliando na preparação. O clima descontraído, divertido, alguns cantando, outros ensaiando e repassando a coreografia de uma das alas. Neste momento, dei-me conta da grandeza da tarefa de organizar um desfile e aquela sensação só iria se aprofundar ao longo da noite que viria. As fantasias, ainda que de material simples, eram bem acabadas e elaboradas com dedicação e amor por todo um enorme grupo de pessoas apaixonadas pela Peruche.

A palavra “Comunidade”, que me lembro de ter ouvido pela primeira vez numa daquelas aulas de Estudos Sociais lá no 2o. ano do ensino fundamental, ganhava vida e vigor, uma nova perspectiva. Em qualquer desfile de escola de samba, talvez comunidade seja o vocábulo mais falado por todos os envolvidos, comentaristas, puxadores de samba, letras de samba, diretores de escola. Há uma sobreposição entre a comunidade e a escola, quase uma confusão de ambas. A escola é a manifestação física da comunidade, uma forma de demonstração do que a comunidade é capaz de fazer, ainda que os recursos sejam escassos e as dificuldades imensas. Descobriria, mais tarde, que ao vestir a fantasia da ala “Boemia”, por alguns momentos, passaria a integrar o exército da comunidade, ainda que na qualidade de soldado mercenário.

Um ônibus partiu às 17:30 rumo à quadra da Peruche. Os neocarnavalescos entoavam o samba com animação, o que mais parecia um ônibus de torcida organizada ou talvez um grupo de jovens escolares em uma excursão. Numa São Paulo sem trânsito, o ônibus foi limitado apenas pelo absurdo limite de velocidade imposto pelo prefeito Fernando Haddad, que – esperamos – inicia seu último ano de mandato.

A parada na quadra era necessária para que nos juntássemos ao comboio de ônibus credenciados com acesso direto ao Anhembi e para que as últimas fantasias fossem ajustadas. Um temporal desabou enquanto esperávamos a partida rumo ao destino final. A espera foi um pouco cansativa e suficiente para reduzir os níveis de adrenalina e amenizar a empolgação do grupo. O clima, porém, permanecia em ebulição. Com a parada da chuva e a temperatura mais amena, era hora de partir para o sambódromo. Passava das 21 horas e o início do desfile estava previsto para as 22:30.

No Anhembi, a chegada foi tranquila e agora era necessário localizar o chefe de ala para pegar o costeiro que complementava a fantasia e alinhar na ordem correta de entrada na avenida. A organização novamente me surpreendeu. Os chefes de ala uniformizados com a camisa da agremiação, calça branca e sapatos brancos eram fáceis de localizar. O costeiro era maior do que imaginava. O peso não incomodava, mas era grandioso e ampliava o espaço lateral do corpo não permitindo passar por espaços pequenos sem esbarrar em pessoas. Na área que antecedia a concentração, grupos de iguais se formavam, fantasias de cores variadas e em cada setor uma cor predominava. A ala Boemia trazia chapéus azuis, uma camisa listrada de azul e branco na horizontal, calça branca e um costeiro preto que lembrava uma clave de sol e penas azuis na parte superior. Diante de nós, uma ala toda vermelha e atrás uma ala onde o verde claro era a cor predominante.

Aos poucos, a ala ganhou corpo com todos os integrantes prontos. Diretores de ala checavam as fantasias, ajustavam costeiros, davam instruções preliminares. Então, começamos a andar em direção à concentração. Um diretor passa por entre as alas, vestido de terno azul, falando com voz forte e dando a palavra de ordem: “Superação! Superação Peruche! A palavra é superação comunidade!”. Alguém grita o nome da escola e a massa repete em coro, uma torcida animada, um time pronto para entrar em campo.

A caminhada cessa na área da concentração, onde é possível contemplar a grandiosidade dos carros alegóricos, muito mais belos ao vivo do que retratados na televisão. Os puxadores de samba ainda não iniciaram o esquenta. Um telão mostra que ainda é horário de BBB. Um chefe de ala informa que serão fileiras de 8 pessoas e que é preciso ficar alinhado. Ele cumprimenta um a um, cada integrante da ala, pedindo garra, vontade, que todos cantem o samba, que todos sorriam. Alinhamos como um batalhão de exército, uma tropa pronta para a batalha.  Senti-me um soldado, já vestido de armadura e pronto para lançar-me no campo de batalha, de peito aberto, como aqueles escoses liderados por Mel Gibson em Bravehart (Coração Valente). O sentimento era de pertencimento, ali, naquela hora, você faz parte da comunidade, você é uma peça daquela engrenagem que se chama escola de samba.

O presidente faz um breve discurso, chamando todos para o desfile, convocando seu séquito para dar o melhor de cada um, para lutar na avenida pelo pavilhão da escola. Segue-se o puxador oficial da escola a conclamar todos com o esquenta, a cantar sambas de outros carnavais. Um arrepio percorre toda a espinha. A emoção toma conta e contagia toda a escola que começa a cantar o samba enredo de 2016.

Firma o pandeiro e o tan-tan
Tem samba até de amanhã
E a nação perucheana faz a festa
O meu batuque ecoou
Um lindo canto de amor
A filial chegou


O refrão é repetido e será repetido por dezenas de vezes até o final do desfile. Não sei quantas vezes cantei o samba, mas dois dias depois do desfile, acordo com o samba na cabeça, a ecoar mentalmente no aparente silêncio da pauliceia em dias de carnaval. A bateria e sua batida, o ritmo contagiam de forma única e inebriante. Não há cansaço, ou calor, ou fome que impeçam a entrada no palco com energia total. Uma imensa alegria inunda o corpo e o espetáculo começa. Desta vez, você é o artista, você é o espetáculo, ou parte do grande espetáculo, mas cuja performance é essencial para o todo, para o triunfo da comunidade.

O tempo na passarela é curto. Pouco mais de vinte minutos e acaba. A missão foi cumprida. O cansaço só é sentido depois da dispersão. Só na dispersão você olha para trás e vê um enorme carro alegórico que lhe seguiu por toda a avenida, mas não se olha para trás durante o desfile. Observo por alguns instantes a parte do desfile que não vi, as alas que estavam na parte final da escola, com um sentimento de realização, de alegria e de poder ter contribuído um pouco com a escola e a comunidade.

No ano que vem voltarei.  Agora é aguardar a apuração e torcer. Quem sabe não voltamos no desfile das campeãs?



quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Novos atalhos para velhos caminhos

Foto: portaldotransito.com.br


Se queres bom conselho, pede-o ao homem velho.”

O ditado popular associa a velhice à sabedoria dos anos vividos, dos fatos presenciados, das músicas ouvidas, das transformações sentidas. O bom e lúcido idoso é um poço de bons conselhos, simples considerações sobre a longa estrada da vida percorrida.

Quando criança, passava horas ouvindo minha tia avó contar sobre a infância, sobre uma São Paulo querida e romântica, imaginada em branco e preto, em tempos de bondes puxados por mulas, por ruas de terra e depois de paralelepípedos, com meninas com fitas no cabelo, vestidos rodados, sapatinhos de verniz. Uma cidade provinciana, quase bucólica em alguns bairros, onde não existia telefone, televisão, congestionamento, poluição, ruído em excesso, mas que teimava em se movimentar, em crescer, em autoproclamar-se a locomotiva do Brasil. Non ducor, duco, reza o lema no brasão da velha freguesia erguida nos campos de Piratininga.

Ela não tinha medo da morte. Dizia, com serenidade, que esperava apenas a hora que fosse chamada para descansar. A vida tinha outra ritmo e não me lembro com que idade ela faleceu, apenas me lembro que chorei ao receber a notícia.

A sabedoria, por vezes, é afogada pela teimosia, por hábitos arraigados e que são difíceis de quebrar e de mudar. Reparei nestes dias que idosos insistem em atravessar a rua fora da faixa de pedestres. Uma senhora quase foi atropelada ao cruzar no meio dos carros na Brigadeiro Luis Antônio e ainda se arriscar quando o semáforo abriu no contra fluxo. Outro, ao invés de caminhar alguns passos, corta a rua em diagonal, sem olhar e força uma freada brusca.

Estariam estes idosos tomados de um empoderamento tão forte que os faz se sentir imbatíveis, inquebráveis, indestrutíveis? Será que acham que a legislação que os protege também obriga motoristas de veículos a dar preferência a todos os idosos em qualquer lugar da via pública? Ou será que estão cansados e querem apenas pegar um atalho?

Preste atenção quando trafegar pelas ruas de São Paulo e veja se estou exagerando. Com a velocidade máxima reduzida, fica mais fácil notar estas atitudes que geralmente passam despercebidas.


Tomar atalhos novos e deixar caminhos velhos, diz um outro ditado popular. Talvez seja um bom momento para os idosos abandonarem os atalhos velhos no meio das ruas e adotarem um caminho novo pela faixa de pedestre.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Navegando pela escrita


Um livro com uma coletânea de textos de jovens escritoras (entre 10 e 15 anos). Os textos estão em português, inglês e espanhol, uma viagem por línguas e palavras e dialetos e pela criatividade.

Prestigie o lançamento deste projeto!

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Gotas políticas


Há uma proposta de reajuste de 78% dos salários dos servidores do judiciário. A presidente vetou a proposta. O Congresso pode derrubar o veto.

Com toda sinceridade, no momento atual, nenhum aumento deve ser concedido a qualquer servidor público. O momento exige corte de despesas. Por que só os funcionários do setor privado devem perder o emprego e amargar o não rejuste de salários?

Se não gosta da remuneração do servidor público, pede demissão - ops, exoneração - e vem pro mercado competir. Venha ver como é a vida de um empregado do setor privado, sem quinquênio, licença prêmio, jornada de 6 horas, abonos, feriados que não constam do calendário dos demais mortais como o dia da Justiça, dia do funcionário público, recesso de 20 dias no final do ano....ufa, até cansa de pensar em tanto benefício. #prontofalei

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Algumas situações do mercado empresarial são realmente curiosas e a forma como as empresas enfrentam crises reflete um bocado do caráter de seus líderes, que por sua vez reflete a cultura e a mentalidade da empresa.

A Volkswagen viu-se envolvida num gigantesco escândalo diante de órgãos ambientais dos EUA, pois seus veículos estavam equipados com um software que maquiava a emissão de poluentes dos motores a diesel. Resultado: um pedido de desculpas de seu CEO e a sua renúncia. Transparência diante do erro e punição dos envolvidos, que certamente sofrerão processos pelos danos causados.

A Petrobras, nosso dinossauro estatal do petróleo, viu-se envolvida num fantástico escândalo de corrupção e propina, tudo descoberto na Operação Lava Jato. Alguns personagens já foram condenados, outros estão presos, e outros ainda respondem criminalmente pelos seus atos.

Levantamento feito pelo Jornal Valor Econômico identificou que a Petrobras já gastou em torno de R$ 390 milhões apenas com os processos judiciais e pareceres jurídicos para se defender - e defender seus diretores - das acusações e ações de indenização.

Perto de R$ 1 bilhão já foi recuperado e que havia sido desviado dos cofres da empresa.

Qual a conduta de seus diretores e presidente, na época, Graça Foster? Nada. Fingir que estavam fazendo algo, fingir que não sabiam de nada, fingir que medidas estavam sendo tomadas, afinal o que importava era preservar seu cargo e o salário. A postura da diretoria da Petrobras é lastimosa e indicativa de como se trata a coisa pública no Brasil.

Não achava necessária a privatização da Petrobras, mas depois do que se encontrou naquele antro de corrupção e fonte de abastecimento do caixa de um partido político que saqueou a empresa (empresa pública repita-se!), estou convencido que a privatização da Petrobras seria uma ótima forma de cobrir as receitas necessárias para o ajuste fiscal do Levy.

Se bem que as ações da Petrobras estão tão desvalorizadas que vamos precisar esperar um pouco antes de privatizá-la, caso contrário, ninguém vai querer.


terça-feira, 22 de setembro de 2015

Epígrafe - XXXIV



"A pequena alameda continuava descendo até uma clínica que se encontrava no meio do parque. Tinham parado de falar, mas ouvia o rumor das rodas da cadeira no cascalho. Gostaria de ter se virado, mas não conseguiu. A coisa mais linda do mundo. Disse uma menina careca em uma cadeira de rodas, conduzida por uma enfermeira. Ela sabia qual era a coisa mais linda do mundo. Ele, ao contrário, não sabia. Como era possível que na sua idade, com tudo aquilo que vira e conhecera, ainda não soubesse qual era a coisa mais linda do mundo?"

(Antonio Tabucchi. O tempo envelhece depressa. trad. Nilson Moulin. São Paulo : Cosac Naify, 2010, p. 47)

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Fantasma


www.emiliesugai.com.br - Cinema de Sombras


Não me tenhas como um fantasma do passado a assombrar teus dias, tuas tardes preguiçosas, tuas madrugadas insones, tuas noites solitárias, tuas manhãs de ressaca. Não sou eu a desfazer os espirais de fumaça que fluem de seus cigarros, assoprando as belas esculturas que se desenham no ar. Sei que está só e te observo de longe, em pensamentos e desejos, com a boca costurada pela censura que me impusestes. Não me procures mais, chega! O grito escrito num email saltou do fundo da garganta e me ensurdeceu. Calei-me como pediste por quase dois anos, mas uma serena vontade me consome e sou tomado pela impotência de não resistir. Quero te escrever, mas temo que seja tido como um fantasma, daqueles esqueletos do fundo do armário, esquecidos e que quando revelados assombram, causam taquicardia, suores, um forte aperto no coração.

Não quero ser um pesadelo, não quero tirar teu sono, nem tua paz - se é que em algum momento nos últimos tumultuados meses atingistes a paz de espírito. Do jeito que te conheço, ouso dizer, sem medo de errar, que teu interior inquieto e ansioso, extremamente analítico jamais lhe concedeu a paz interior.

O mundo é muito turbulento para ti. O mundo está em constante mutação, tanto o material como o espiritual e tentas captar tudo, usas do conhecimento para tentar atingir o impossível controle sobre o destino, sobre a razão e o mais utópico: sobre o coração e os sentimentos. Suas tentativas de negar e rejeitar o sentimento despertado, por mim confessado, foram em vão. Negaste de forma reiterada, acreditando que o silêncio me induziria ao erro. A negação se transformou em agressão verbal e escondida por detrás de um colete à prova de flechadas do cupido. Fingiu que estava intacta ao que fora despertado no seu âmago. Jamais acusaste o golpe e sei que és orgulhosa por demasia para reconhecer que se apaixonara por alguém que lhe faria fugir e correr e correr. A contradição posta lhe embaralhou o raciocínio e a filosofia foi escassa, insuficiente, não lhe dando os instrumentos para dissecar a sua própria alma e tomar de conselho a lição primordial: conhece-te a ti mesmo! 


Falhaste e me condenaste ao limbo das almas penadas, dos fantasmas do passado. Deixei de ser um sonho bom para me tornar um pesadelo dos mais traumáticos e inquietantes. Não sou um fantasma e não quero morrer como fantasma. Será que em algum momento do futuro, à luz do dia, o espectro se transformará de novo em um inofensivo amigo?

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Lançado conto em ebook





Lançado na semana passada, já está à venda na loja da Amazon o conto Taquaral,  escrito para o concurso do Globo e da Amazon, Brasil em Prosa. O conto só está disponível em formato de ebook.

O conto pode ser adquirido na loja da Amazon aqui.