terça-feira, 7 de agosto de 2018

Conto: Fino traçado

Minimal is Good 8 by Raid71


CONTO: FINO TRAÇADO



As ondas abraçavam seus pés à beira-mar com delicadeza. Um abraço mais frio do que o usual, afinal inverno no Rio de Janeiro traz consigo águas marinhas mais frias, mas nada que lhe incomodasse. Seria muita pretensão reclamar do inverno no Rio de Janeiro, se é que podemos chamar de inverno uma época onde a temperatura baixa alguns poucos graus e o sol continua a brilhar sem trégua.  

O mar estava calmo e a praia semideserta naquele ponto do Leme. Olhou para baixo e deixou-se hipnotizar pelo ritmo constante das ondas calmas, que vinham, acariciavam sua pele, depois iam-se sem cansar. Perdeu-se na contemplação do mar, algo que nunca lhe cansava. Eram mais de quarenta anos morando naquela cidade de São Sebastião, abençoada por uma beleza natural inigualável, à beira do oceano que lhe parecia infinito quando criança.

Marina nascera no Leme. Seus avós moravam em Copacabana. Seus tios entre estes dois bairros. Vivia cercada de primos e família. A vida era boa. Não havia do que reclamar. Veio a adolescência, a faculdade de economia na PUC, o casamento com o Bernardo, o nascimento de Laura, a briga, as discussões, a separação. Um roteiro tão previsível quanto tema de novela. Nenhuma separação passa incólume. Deixa cicatrizes na pele, sulcos no coração, marcas na alma.

Ficou de cócoras e passou a desenhar na areia com um dedo. Um longo e fino traçado sinuoso logo era apagado pelas ondas. Seria tão bom, pensou, se as lágrimas derramadas tivessem o poder mágico de apagar feridas como as ondas do mar alisam a areia, apagando pegadas, destruindo castelos construídos por crianças, varrendo o lixo abandonado por cidadãos mal educados. Lágrimas seriam um santo remédio, mas não são nada mais do que o acúmulo de dor em forma líquida, que jorra por um vertedouro, esvaziando o reservatório interno com capacidade que parece nunca se esgotar. Só o tempo prova que aquela caixa d’água interna é finita. Em certa hora, as lágrimas secam, a dor se esvai e a alma volta a vibrar diante da vida.

As lágrimas de Marina ainda não haviam cessado. Desejava tanto que pudessem lavar a pele e arrancar as cicatrizes, deixando a pele igual à de um recém-nascido. Quis acelerar o tempo, quis voltar no tempo. Tudo parecia confuso e embaralhado.

Voltou a desenhar na areia uma silhueta feminina, como Bernardo fazia ao percorrer cada recanto de seu corpo. Com a ponta do dedo, deslizava por sua pele, descobrindo curvas, recantos, detalhes. Ele parecia retratar seu corpo numa tela em branco, com leves pinceladas de cor e vida. Ela ficava admirada com o carinho e as palavras que marcavam aqueles momentos de início de relacionamento. O tempo parava, os problemas desapareciam, o trabalho da faculdade que estava atrasado evaporava, a doença do avô era esquecida. Tudo era simples e parecia fácil.

Uma linha. Uma onda. E tudo desapareceu.  

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Conto: Aquário, câncer




CONTO:  AQUÁRIO, CÂNCER


Pouco depois das 7 e meia da manhã achei uma vaga no Starbucks do Itaim. Algo raro e imaginei encontrar a loja vazia, afinal ainda era cedo. Ao abrir a porta, uma fila razoável e dois motoboys de serviços de entrega de comida por aplicativo se enfileiravam diante do caixa. Pensei comigo, quem pede um Frapuccino via aplicativo às 7 e meia da manhã?, seria preguiça de sair de casa ou a realidade de eremitas que não desgrudam de seus aparelhinhos e preferem degustar sua bebida em casa, longo de olhares estranhos e do convívio social? Seriam estas imensas janelas, tão generosas na iluminação natural, a dar a sensação de um enorme aquário onde seres humanos substituem os mais diversos peixes ornamentais?

Uma certa irritação começou a me dominar, porém hoje era um dia daqueles em que as irritações do cotidiano seriam solenemente desprezadas. Tinha algo muito mais sério a dominar meus pensamentos. Pensei em ir embora, dar meia volta, mas respirei fundo e voltei a ser absorvido pela efemeridade de momentos corriqueiros. Distraí-me observando os que estavam na minha frente e tentando descobrir o que se passava naquelas mentes.

No caixa, uma adolescente com uniforme de escola inglesa, saia xadrez, camisa de gola e botões na parte dianteira e uma fina gravata listrada pendurada no pescoço sem qualquer cuidado com o nó. A senha do cartão não funcionou. Ela chamou a irmã. Nova tentativa no cartão. Sem êxito. A irmã tirou uma nota de cinquenta e pagou. A atendente se atrapalhou com o troco. Perguntou se o pão de queijo era normal ou integral. A simplicidade da vida agora era atacada por opções e variantes sobre o mesmo tema. O leite podia ser de soja, integral ou desnatado. O pão de queijo integral ou tradicional. O açúcar também tinha suas variações: mascavo, orgânico, cristal. Isto sem mencionar o adoçante em gotas ou em pó.

A cliente seguinte foi mais rápida, assim como o motoboy do aplicativo. Quando chegou minha vez, já havia desistido do pão de queijo e queria apenas um café espresso. Seu nome?, veio a pergunta habitual. E eu, como de costume, inventei um: Heitor. Sempre escolho um nome diferente e fora do comum só para me divertir com o atendente escrevendo o que ouviu no copo ou no papelzinho.

Passei para o canto da loja e continuei observando os que estavam na minha frente, como se fosse um espião ou agente secreto. Uma moça de pele clara, cabelos escorridos, unhas cortadas bem curtas e sem esmalte. Deveria ser engenheira ou da área de TI. Pelo jeito não era vaidosa e não trabalhava em uma empresa ou cargo que exigisse um pouco mais de cuidado pessoal. Não era desleixada, nem feia, mas pelo visto não prezava tanto a aparência. Talvez estivesse de férias. No antebraço uma discretíssima tatuagem, um risco fino e contínuo que contornava todo o braço, dando a impressão de que seu braço havia sido cortado por uma fina lâmina de metal. Ou poderia ser apenas um risco de caneta bem fina. Mayara era o nome dela. O nome não combinava com a pessoa.

Bruno, gritou a moça com um copo na mão e o motoboy se apresentou para retirar dois Frapuccinos, um de chocolate e outro de café. Pediu um suporte de papelão para segurar os copos. Soltou um valeu e partiu para seu destino. A menina da escola inglesa ainda aguardava seu pedido. Parecia impaciente. Atrás de mim três jovens de seus vinte e pouco anos, típicos representantes da geração millenials, no vestir-se e no falar, computador a tiracolo, insistiam em falar sobre a importância de ser agressivos nesse mercado – não sei qual – e em contar com um sujeito que manje muito de finanças. Falavam mais alto que os demais, a conversa animada, qualquer um diria que já haviam tomado uma jarra de café.

O mundo para um millenial ainda é pequeno, um início de caminhada, uma dimensão a ser explorada e conquistada com um aplicativo – ou vários aplicativos – que fosse disruptivo e transformasse a forma de fazer negócio, de se viver, de pedir um café pela manhã ou de saber quanto você gasta com gasolina no final do mês, tudo organizado numa planilha.

Não ri, mas senti um pouco de pena da ingenuidade destes jovens que desprezam o tempo com arrogância, como se fosse algo reutilizável, reciclável. O tempo se esvai rápido e depois que o segundo do relógio passa, ele não volta jamais. “Etor”, gritou a moça informando que meu café estava pronto, achando que era um nome inspirado em algum personagem da Marvel. Açúcar, uma rápida mexida e o café morno foi consumido. Sai da loja ainda me divertindo com o pequeno espetáculo e as pequenas preocupações daqueles personagens. Passei por eles como o homem invisível, sem ser notado. Não me importei. A única coisa que me importava naquela manhã era que haviam descoberto um novo câncer no estômago de meu pai. E a batalha pela vida recomeçava.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Saudade futura







A saudade lhe pesava como asas de chumbo num passarinho, cravado no chão, tolhido de todo o direito de voar, de fugir do caminhar rotineiro. Achava que a saudade havia sido curada com o tempo, mas num momento avassalador, fora tomada de um peso enorme, maior do que ela. Não tinha saudade do passado, tinha saudade do futuro, daquilo que nunca seria, e esta é a saudade que mais machuca. A saudade do passado parece tão bela e lírica quando passeia num fado cantado por uma voz afinada em alguma tasca de Lisboa, ou no Porto, ou qualquer recanto onde se serve um bom vinho português e assa-se o bacalhau. A saudade do que poderia ter sido, daquilo que ela achava que deveria ser, mas nunca foi e que nunca será, exatamente esta saudade que lhe invadira a alma naquela manhã.

Ela sabia a causa de tudo isto e aquilo lhe incomodava. Como poderia ainda sentir algo por ele depois de tantos meses, vinte e nove para ser exata, pensou sem se levantar da cama. Aquele sonho viera em péssima hora, adentrara seu sono tranquilo, um ladrão na calada da noite, e sua paz fora roubada. Não que a paz fosse profunda e sincera, mas ela se enganava achando que havia conquistado a paz de coração finalmente. E alguma vez o coração fica em paz?, perguntou-se. Virou para o lado e viu que o relógio marcava 7:45. Já estava atrasada, mas que importava, quem se importaria com seu atraso, com a ausência de seu sorriso, com a aparência de que tudo estava bem. Não conseguiu conter algumas lágrimas que desenharam um traçado retilíneo em sua pele macia e sedosa. Apesar dos anos, era uma mulher bonita, mas que se deixara aprisionar numa saudade futura.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Conto: A mulher do voo




 A MULHER DO VOO

O voo que me levaria de volta a São Paulo não estava muito cheio e pude escolher o assento do corredor. Impossível dizer que havia conforto, pois nos dias de hoje, voar tornou-se um tormento, um aperto, um exercício de contorcionismo. Acomodei a mala de mão no bagageiro, apertei o cinto e abri o jornal. Abrir é força de expressão, claro, pois não é possível se esticar num avião sem acertar o passageiro do lado. Apesar de todos percalços e incômodos, voar ainda me alegra. Gosto de voar. Talvez uma daquelas coisas de menino que sonha em ser piloto, em poder observar o mundo de cima, do alto, por entre as nuvens, vislumbrar o nascer do sol, admirar o poente, contemplar estrelas e a lua na imensidão da noite.

Voltei-me para o jornal após o passageiro que escolheu o assento da janela acomodou-se. Foi então que percebi, na minha diagonal, uma fileira à frente, uma mulher. Não a deixei perceber que meu olhar havia se fixado em seu belo rosto. A discrição era fundamental para que me perdesse em pensamentos e lembranças. Seu rosto me lembrava alguém, mas sou péssimo fisionomista. Sou excelente para nomes, dados, datas, mas meu cérebro não tem espaço para armazenar fisionomias.

Olhou para a direita e pude admirar a pele clara, uma boneca de porcelana, não sem vida ou de uma brancura insípida, mas de uma clareza solar, qual os primeiros raios a refletirem em gotas de orvalho na relva. Delicada, de traços bem cuidados, ângulos suaves. A maestria do artista era notada nas sobrancelhas a contornar os olhos. Percorria cada detalhe do rosto, hipnotizado e absorto. Havia um mistério naqueles olhos castanhos escuros, os cílios longos e a maquiagem leve. A boca era um capítulo à parte. Desenhada com precisão, os lábios vermelhos eram um convite para serem devorados com um beijo voluptuoso e imprudente. Contive-me e controlei aquele arroubo momentâneo. A natureza, por vezes, aproxima-se da perfeição, do convite à contemplação, e ali me perdi a contemplar seu rosto.

Estava séria, alheia a todo o redor, contemplativa, devia estar dialogando com seus pensamentos, preocupações. Parecia que viajava a trabalho, mas vestia-se de forma casual, a elegância de quem não precisa ostentar, de quem exala autoconfiança. Guardava a dor e o mistério dentro de si, aqueles segredos que só confidenciamos a nós mesmos e que não compartilhamos com mais ninguém.

Tentei voltar ao jornal, mas lia as notícias sem deixar de pensar naquela mulher próxima. Tirei um caderno de anotações do bolso do paletó e pus-me a rabiscar algumas linhas. Uma descrição da cena, breves palavras. Quem sabe, serviriam para algum texto, ou para uma epígrafe de livro. Cada um sabe a dor e o mistério que carrega dentro de si, escrevi.


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Tempos modernos

Instagram @rbueloni

Havia um tempo em que as pessoas mantinham diários, confidentes dos segredos mais íntimos e raramente compartilhados. Se alguém descobrisse ou lesse o teor de forma indevida, armava-se um escândalo.

Hoje, as pessoas contam tudo que fazem, publicam fotos de tudo que fazem, comem, compram. E se ninguém der bola - o que se concretiza na forma de "likes" e curtidas - , as pessoas reclamam que ninguém reparou ou deu a devida atenção.

Havia um tempo em que a privacidade era coisa íntima; vivemos um tempo em que a privacidade tornou-se algo público e publicável.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Lavar louça




Foi numa noite lavando louça, enquanto Alice dormia no sofá, que ele se deu conta da banalidade do amor.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Beatriz Bracher e a condição feminina




O que significa "condição feminina" para você?

"No meu livro mais recente, ao escrever, percebi que esse era um tema dos mais fortes. Quis que fosse assim, conscientemente. Nos outros livros não. Para mim é muito difícil lidar com estas expressões, seja "condição feminina"ou uma ideia contemporânea de que o feminismo é das mulheres e não dos humanos, sabe? Essa coisa de que as mulheres têm que falar, têm que ter espaço. Na minha cabeça, mulheres e homens têm que falar sempre, mas entendo e sei que não é um caminho "errado". Mas é diferente do meu caminho. Tenho um pensamento que talvez não seja tão estratégico. Por isso tenho medo de criticar. Acho que as feministas têm um pensamento muito estratégico e isso nem sempre reflete uma busca de verdade. Acho que reflete uma busca da justiça. E num país como o nosso, que tem tanta violência contra a mulher, acho que elas, as feministas estão certas. Acho que a luta é esta e tem que ser desta forma. Mas alguém que é uma ficcionista não pode seguir esse caminho. Tem que complicar as coisas. Tem que virar um pouco do avesso. Colocar o homem no meio. No livro, o que eu fui descobrindo, ao escrever, lendo Milton, pensando sobre  Adão e Eva, é que a condição do machismo, a cultura machista que a gente vive, faz com que todos nós estejamos sujeitos a ela. É uma cultura em que a mulher oprimida sim, mas o fato de o homem ser o opressor não quer dizer que ele também não foi levado a esse caminho. Há uma forma de violência nisso. De você ter sido levado a ser opressor. É muito difícil reconhecer isso. Às vezes você tem atitudes que nitidamente revelam que o homem é mais "forte" que a mulher, o que faz parte de um sistema de crenças. Abrir a porta do carro para mulher entrar, por exemplo, é do nosso sistema de crenças, uma gentileza. Daí a você chamar uma pessoa que tem um gesto machista, de machista, eu acho inverídico, mentiroso. E a gente sabe que é mentiroso. Só que estrategicamente é muito interessante você radicalizar, ser muito agressivo em relação a essas coisas, mesmo que não sejam verdades, porque no jogo político você lida com inverdades. Condição feminina para mim é como as mulheres vivem hoje no mundo inteiro em todas as classes. E a condição é ruim porque tem muita opressão, sofrimento e injustiça. São muitas visões. Uma é a de quem está na luta política. A de uma ficcionista é outra."
(Vila Cultural, edição 156, abril 2017, p. 8-9)

quinta-feira, 16 de março de 2017

Armadas e perigosas



A manhã de verão é cinza e regada por uma chuva constante que abafa o atrito dos carros nas ruas e o ronco dos ônibus acelerando. A chuva obriga todos a sacarem sua mais perigosa e poderosa arma: o guarda-chuva.

Visto do alto de algum prédio em uma movimentada avenida, parecem coreografados, em diversas cores e estampas, bolinhas, desenhos, marcas, listras. Numa São Paulo de outrora, eram todos pretos, sisudos e carregados por senhores usando chapéus. Na sampa moderna, o guarda-chuva ganhou cor, passou a ser fabricado na China e surgem no mais impressionante fenômeno de geração espontânea às portas do metrô com camelôs vendendo 1 por 10, 2 por 18 e 3 por 25. Basta começar a chover, que aparecem num passe de mágica.


Os guarda-chuvas, Renoir


Mas toda a beleza e serenidade da dança dos guarda-chuvas na cidade banhada pela chuva transmuda-se em aventura radical e perigosa. Se você, caro leitor, tem pouco mais de 1,75m, com certeza irá se deparar com as perigosas agentes armadas de uma arma letal: o guarda-chuva. Sim, ele pode ser usado para lhe tirar a vida. Sejamos mais realistas, podem lhe cegar, causar alguns hematomas, mas matar seria um exagero.

Vou revelar a identidade secreta destas agentes perigosas, que armadas vagueiam por dias chuvosos escondidas debaixo de seus guarda-chuvas. Refiro-me às senhoras idosas e a todo e qualquer cidadão com menos de 1,65m e que ande com o guarda-chuva praticamente colado na cabeça. Ao caminhar pela calçada, estas agentes não desviam – e também não te veem. É preciso ficar esperto para desviar dos pontiagudos ferros que seguram o plástico da camada protetora do pedestre. Estas agentes caminham em linha reta, obrigam-no a sair debaixo de marquises e lançam qualquer pedestre que vier em sentido contrário no meio da rua. E se você reclamar, é capaz de levar uma guarda-chuvada na cabeça ou no braço.

Repare, meu caro leitor, como o ato de caminhar por uma rua movimentada num dia de chuva pode ser uma perigosa aventura. Qualquer dia algum prefeito ainda vai inventar o rodízio de guarda-chuva definido por data de aniversário: dias ímpares para quem nasceu em dia ímpar e dia par para quem nasceu em dia par. E ai de quem reclamar!


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A sabedoria de Adélia Prado



O trecho é extraído do Valor Econômico, Caderno Eu&, de 3 de fevereiro de 2017, p. 23, em entrevista concedia por Adélia Prado à jornalista Andrea Jubé.

"(...) Pergunto o que ala acha das feministas. 'O feminismo já é um termo político, ele supõe bandeiras, isso é vão. Uma bandeira feminista que quer se afirmar como mulher em competição ou em superioridade não vai a lugar nenhum. O valor da mulher e do homem, a dignidade de cada um, não é de dignidade de gênero, é dignidade da pessoa humana. É hediondo matar a mulher só porque ela é mulher? Não, porque ela é humana. Chegamos a um tal ponto de alienação que começamos a dar esses nomes, 'feminicídio', porque os valores do feminino desapareceram, estão em baixa, as mulheres são competidoras, e não cooperadoras.'

E prossegue: 'A bandeira feminista conseguiu para nós direitos civis importantes, mas você tem de ser uma engenheira mulher, uma médica sem perder seus valores. A gente vê mulheres se tornarem companheironas dos homens', critica. 'É a coisa mais triste, se o homem me tratar como companheirona, eu fico mal, eu não sou companheirona, eu sou uma mulher em contraposição a um ser humano que é homem. Quero que permaneça essa eletricidade entre homem e mulher.'"

Adélia Prado nos brinda com palavras de sabedoria, com uma simples reflexão que tem sido sufocada por bandeiras e agendas e palavras de ordem. No meio da gritaria, surge a voz da lucidez.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O filhote da propina





Final de ano e a ladainha se repete. Uma infindável lista de generosos e eficientes prestadores de serviço batem à sua porta com cartões natalinos e pedidos de caixinha. Em qualquer padaria, cafeteria, lanchonete e no comércio em geral, pequenas caixas vistosas proliferam nos balcões e ao lado dos caixas. Os nomes podem variar. Alguns chamam de caixinha, livro de ouro, lembrança de natal, bônus, presente...todos, não importa o rótulo que lhe seja dado, são na verdade uma forma disfarçada de propina.

Sim, meus caros, não vou poupar nenhum deles com compaixão ou condescendência. Digo de forma clara: eu não dou caixinha! Acho um absurdo, um achaque, afinal você paga um valor adicional ao que você já pagou para que o serviço seja prestado de forma adequada. É obrigação do funcionário prestar o serviço para o empregador e prestá-lo bem! Se você deixar de pagar o empregador, o funcionário pode perder o emprego e aí você fica livre da caixinha.

A lógica é cruel, mas simples e verdadeira. Dar caixinha é sinônimo de pagar duas vezes pelo mesmo serviço. Se você se revolta com as operadoras de telefonia, com a banda larga que não entrega a velocidade prometida, com o banco que cobra tarifas abusivas, você não deveria dar caixinha.

Pensem um pouco: a caixinha é uma versão em escala micro do caixa 2, da propina da Odebrecht, da Camargo Correa, da Braskem, da OAS... Caixa 2 é toda aquela receita que a pessoa jurídica esconde para não pagar imposto. O prestador de serviço que recebe a caixinha de natal também não vai declarar ao fisco o recebimento, logo, haverá sonegação e você, meu amigo, pode ser considerado cúmplice desta conduta.

Tudo bem, ninguém vai te pegar, mas você já pensou que as duas condutas são análogas? Por que será que condenamos aqueles simpáticos senhores que estão passando uma temporada num aprazível presídio nos arredores de Curitiba e não condenamos o porteiro, o zelador, o manobrista, o entregador de jornal – aliás, profissão em extinção -, o gari, o entregador de água e a lista não acaba nunca.

Talvez eu esteja meio revoltado, talvez esteja me faltando espírito natalino, mas se o momento é de mudança no Brasil, devemos fazer nossa parte. E de minha parte, não dou caixinha para ninguém!

Sugiro que cada pessoa, ao invés de dar caixinha, doe o valor para uma instituição de caridade, uma ONG, uma entidade beneficente, um grupo na igreja. Há várias entidades que precisam de recursos para doar cestas básicas e itens básicos para famílias carentes que realmente precisam. Estes verdadeiramente precisam de uma caixinha de Natal! 


terça-feira, 22 de novembro de 2016

Conto: Olhar Furtivo



OLHAR FURTIVO


Foi ela quem primeiro puxou papo. No mundo conectado por aplicativos, solitários vagam pelos corredores e vitrines do mundo virtual usando seus celulares como instrumentos de caça. Feito o match, ela não tardou a chamá-lo. Ele preferia esta virtualidade, que domava sua timidez sufocante. Se a encontrasse num café, lendo um livro, sozinha, não puxaria assunto. Ficaria com medo, desviaria o olhar constrangido. Poderia ser considerado assédio, abuso, uma conduta inapropriada, não saberia nem como começar a conversar. Um simples "oi" poderia ser tido como ofensivo, ainda mais se ela fosse uma feminista, empoderada, daquelas que luta contra a cultura do estupro, que grita aos quatro cantos "meu corpo, minhas regras", que vê golpe em cada decisão judicial que reafirma a Constituição, que proclama "Fora, Temer", mas no fundo da alma, sente um desejo enorme de não pensar assim.

Foi ela quem soltou o primeiro "oi" e ele respondeu. Ela logou alertou: "sou de esquerda!". Assustou-se, mas aqueles olhos castanhos sorriam-lhe. Engoliu seco e deixou a serenidade tomar-lhe a alma. Ela pensava de forma diametralmente oposta à dele, mas havia algo que aplainava as ideias tão discrepantes. Em meio à ebulição política dos tempos de impeachment, ele foi cauteloso com as palavras. Evitaria temas políticos e tentaria decifrá-la. Marcaram um primeiro encontro.

 - Não gosto de italiano. Prefiro algo mais leve no almoço.

Versátil em termos gastronômicos, a culinária pouco lhe importava. Queria desvirtualizar a conversa e deixaria que ela escolhesse o lugar. A curiosidade, tão própria nas mulheres, estava aguçada e começara a montar, peça por peça, o perfil da bela mulher cujo caminho cruzava o dele.

Ela se atrasou. Ele tinha certeza que isto ocorreria. Errara o caminho, avisou pelo celular. A espera tem sempre o condão de aumentar a expectativa. Tentou manter-se calmo, composto, sereno, domando a ansiedade.

Quando ela chegou, apressada, desculpando-se pelo atraso, ele sorriu, "não tem problema, não tinha mesa, sentei faz pouco" - uma leve mentira para amenizar o atraso. Começou a narrar que havia subido a Consolação, ao invés de vir pela Campinas e que o trânsito na Santos estava horrível. Ele observava cada gesto, cada palavra, divertindo-se com as explicações dela como se ele fosse algum dignatário importante, mas para ele, quem fazia o favor de estar ali era ela a compartilhar com ele o almoço.

Deixou-a falar, contando do trabalho, das pesquisas, das viagens. Com olhar furtivo, quando ela mirava pela ampla janela do restaurante, ele reparava nos seus cabelos, no sorriso contido, nas unhas pequenas, nas curvas do rosto, nos óculos que ajeitava com charme natural. Discreta, contida, mas vibrante. Cada palavra era dita com intensidade, uma vivacidade que ultrapassava a mera vibração das cordas vocais e preenchia o ambiente com fogo. A indignação não se media pela frustração com o que destino lhe oferecia, mas em como teria de lutar para mudar o presente e assim construir um futuro muito diverso do atual.

Ela não discursava, falava com fluência e segurança, sorrindo de forma esporádica, com um toque melancólico. Talvez cética fosse a palavra mais adequada a descrever o estado de espírito dela. Estava desacreditada do que acontecia no país. Esbravejou contra a professora que lhe roubara o projeto de pesquisa sem a menor cerimônia e ele notou o desgosto disfarçado pelo discurso de fatalidade.

- Coisas do mundo acadêmico! - desabafou.

Percebeu que sentia enorme prazer naquele diálogo, em ouvir cada narrativa, cada reclamação, cada crítica, cada comentário. Manteve-se receptivo, mas muito reservado. Deixava o olhar ser seu único instrumento invasivo. Quando ela ajeitou os cabelos longos, perdeu-se por alguns segundos contemplando o ombro esquerdo desnudo, quando a blusa escorregou e revelou um pouco mais da pele. Imaginou a textura, o cheiro, a temperatura, mas logo se recompôs do devaneio que claramente seria inadequado a este encontro. Ao menos no primeiro encontro, pensou.

Na despedida, na calçada movimentada, barulhenta, poluída da metrópole, olhou-o nos olhos e disse com firmeza:

- Não vai sumir!

E abraçou-o, delatando o grito silencioso de fragilidade, a súplica que tentara esconder, mas que a mão acariciando as costas dele denunciavam. O enlace dos braços lhe dava um confortante sentimento de segurança, carinho e afeto que ele deixara transparecer e agora confirmava com o demorado abraço. A solidão se esvaia e o vazio era preenchido.

- Não vou sumir. - respondeu acolhedor. E ela, depois daquele encontro, mudou-se para a França.