quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Epígrafe - XXIX

Île de la Cité, Paris - instagram @rbueloni

"Sua imaginação está novamente afinada, excitada, e de repente, outra vez um mundo novo, uma vida nova e encantadora brilha diante dele em sua perspectiva radiante. Um novo sonho é uma nova felicidade! Uma nova dose de veneno delicado e sensual!"

Fiódor Dostoiévski
Noites Brancas
(Trad. Nivaldo dos Santos. 3a. ed. São Paulo : Editora 34, 2009, p. 36-7)


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Perdi meu candidato à Presidência



"Não vamos desistir do Brasil!"
Eduardo Campos


Não há nada mais surpreendente do que a vida. Do nada, ela interrompe o caminho, inventa um desvio, muda um dia ensolarado com uma tempestade de granizo e raios. Tudo parecia tranquilo na última quarta-feira, quando pouco antes da hora do almoço, um avião caiu em Santos no litoral paulista. Eduardo Campos, candidato à presidência pelo PSB, estava no avião e faleceu tragicamente.

Fiquei triste. Fazia tempo que um candidato não me despertava um interesse maior. Gostei de suas propostas, de suas ideias e também por se revelar como uma liderança nova no cenário nacional. Acho triste analisar o cenário eleitoral e perceber que os candidatos são os mesmos, as velhas lideranças, não importando o partido ou o Estado. Em São Paulo, Geraldo Alckmin vai atrás de seu quarto mandato; no Rio de Janeiro - pobre Rio -, o principal  candidato é Anthony Garotinho; em Minas, Pimenta da Veiga e Fernando Pimentel; no Distrito Federal, José Roberto Arruda e Agnelo Queiroz, o primeiro preso por receber propina que foi flagrada em vídeo.

Há tempos sinto-me órfão politicamente. Para recorrer a um bordão usado recentemente, é difícil achar alguém que me represente. Via em Eduardo Campos alguém que poderia marcar posição nesta campanha, alguém que agitasse a oposição amorfa que apostou suas fichas no neto do Tancredo, mas que deveria ter sido muito mais atuante durante seu mandato de senador. Aécio não me empolga. Marina é uma grande incógnita. Assume o posto de Eduardo Campos, mas tenho sérias dúvidas se ela abraçará os objetivos de Campos, como banco central independente, redução da máquina pública com  diminuição de ministérios, educação em tempo integral, preservação e incentivo do agronegócio. O fato é que aquela bagunçou o coreto da eleição e agora é uma nova corrida presidencial.

Os debates serão fundamentais, no meu caso, para formar minha convicção e decidir meu voto. E se o leitor estranhar por que não falei da Dilma, a resposta é muito simples. Não voto em partido corrupto ou que compactua com a corrupção! Quem pensa e quer um Brasil melhor, não vota no PT, não vota em branco e não vota nulo. Decida seu voto conscientemente.

Perdi meu candidato à Presidência, mas eu não vou desistir do Brasil!



quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Poesia: DOOR

Centro São Paulo / Downtown São Paulo 
instagram @rbueloni

DOOR

You knocked and I let you in.
Passed through the door
step by step, slowly but steady
nobody had gone this far
no one had the courage
to enter the door of my heart
and I let you in to where
no one had ever been
but you were afraid
you left and ran away.



quinta-feira, 31 de julho de 2014

Crônicas de uma viagem a Paris - III : Torre de Babel



Gare de Lyon, Paris (c) visão ao longe


TORRE DE BABEL


Viajar me traz um senso de nossa pequenez, de nossa insignificância no mar de pessoas que habitam este planeta. Línguas diversas, estórias múltiplas a serem contadas - ou descobertas. Uma viagem à Europa é sempre instigante e desafiadora, ao menos para mim. Diferentemente dos Estados Unidos, onde sinto-me em casa com a língua e o estilo do americano, a Europa é um convite a explorar nossa história, nossa formação cultural, nossos ancestrais. A língua - ou línguas dependendo do país a ser visitado - também traz consigo um desafio, tira-me da zona de conforto. Até em Portugal é preciso estar atento às deliciosas variações do nosso idioma.

Resolvi mergulhar aos poucos, como se para evitar um choque com a transição linguística. Optei por viajar pela TAP e começar a jornada por Lisboa, mesmo sendo apenas uma conexão. No voo para Lisboa, pouco mais de 280 passageiros. Russos, belgas, brasileiros, um argelino, alemães. Muitos com ornamentos da Copa e cada um com um histórico particular. Será que existe algo realmente único a todos nós? O que será que define a humanidade? Como um escritor consegue ser universal na pletora de diferenças externas dos seres humanos? Como descobrir o que há de mais profundo no interior de cada um de nós? Comecei a jornada pensativo, ciente de que não tenho a resposta, mas certo de que há algo sim universal, valores universais, sentimentos universais a nos unir, por mais diferente que sejam nossas bagagens culturais.

A primeira fase foi tranquila, mas ao desembarcar em Paris, veio o choque. Até tentei estudar um pouco de francês para me comunicar, mas logo no táxi travei de uma forma que fiquei aliviado ao conseguir informar ao taxista o endereço do hotel. 

Paris é uma verdadeira Torre de Babel no verão, repleta de chineses por todos os lados, americanos - e outros falantes de língua inglesa -, russos, espanhóis, alemães, italianos, holandeses e pessoas oriundas do leste europeu. Não tenho a capacidade de diferenciar idiomas como húngaro, croata, eslovaco, tcheco, romeno ou sérvio. Consigo localizá-los no mapa, mas nada de comunicação. Sem falar nos japoneses, coreanos e outros asiáticos.

Paris é o destino que mais atrai turistas no mundo e esta diversidade é notada nas ruas. Além dos turistas, há muitos árabes, o que facilmente se percebe pelas vestimentas dos muçulmanos e pelo idioma. Um melting pot na expressão tão comum nos EUA, mas que não chega aos pés da verdadeira salada de culturas que Paris apresenta ao visitante. Talvez aí esteja riqueza escondida e discreta da cidade luz, esta multiplicidade de culturas que convivem em aparente estado pacífico. 

Por outro lado, vejo a importância de estarmos abertos a estudar novos idiomas, a descobrir novas palavras, a expandir os horizontes linguísticos. Meu esforço para me comunicar aos poucos foi recompensado. Não dei vexame e não passei apertos. Um francês macarrônico saiu e acabou por ser suficiente. Porém, voltei com uma vontade ainda maior de continuar a estudar o francês. Comprei livros e vou lê-los. Comprei cd's e vou ouvi-los para treinar o ouvido. Ler me parece mais fácil. Utilizando a bagagem que tenho de outros idiomas vou deduzindo o que está escrito sem efetuar a tradução. Percebi depois de alguns dias que não estava traduzindo o que ouvia e lia, mas compreendia  na língua original e aquilo me empolgou. 

Não há dúvida de que quanto mais idiomas se fala ou se conhece, mais fácil fica aprender um novo idioma. É assim com línguas pouco faladas, como o catalão. Consigo ler e compreender  o catalão usando exatamente o mix de línguas que conheço. Falar são outros quinhentos, mas ler é mais fácil.

Comecemos por valorizar a língua pátria, nosso português que anda tão mal tratado.  Depois ampliemos os nossos horizontes, incentivando as crianças a perceber a riqueza de outros idiomas e como isto nos abre portas e nos permite entender novas culturas.  É tão gostoso descobrir conexões entre as palavras de vários idiomas e suas origens, num trabalho prazeroso de genealogia semântica. Num mundo globalizado e de comunicação instantânea, quem se comunica melhor compreende melhor o complexo mundo à nossa volta.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Epígrafe - XXVIII



"O morrer pertence a Deus, o cuidado dos homens é a vida. E o homem afinal sabe que, morto ele, a vida não está morta; fica a árvore, fica o filho e fica o neto, a casa fica. A vida continua igual ao que era mil anos atrás. Porque as obras do homem podem mudar e mudam, mas o homem, que é a obra da vida, esse não muda nunca."

Rachel de Queiroz ( Falso Mar, Falso Mundo. São Paulo : Arx, 2002, p. 187-8)


Fica a obra, o legado, os escritos. Numa semana que levou João Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves, e que parecem ter convidado Ariano Suassuna a se juntar a eles, fui buscar em Rachel de Queiroz algumas palavras para refletir, para ultrapassar a superfície do mar e mergulhar nas profundezas da vida.

Afinal um escritor se faz sempre presente nos seus livros, nos seus escritos, nas suas palavras.

sábado, 19 de julho de 2014

Crônicas de uma viagem a Paris - II : Onda Vermelha


Mona Lisa, no Museu do Louvre

Paris foi invadida por chineses. Bem, qual lugar do mundo não foi invadido pelos oriundos do país mais populoso do mundo? Talvez, nenhum. Mas, aqui eles estão por todos os lados, em grupos, em bandos, com guias turísticos, noivas posando diante da Torre Eiffel, de Notre Dame, na Pont des Arts. Nas Galerias Lafayette, compram e consomem com a ferocidade de uma nuvem de gafanhotos a atacar uma plantação verde e saborosa. Havia fila de chineses para aproveitar os descontos das bolsas Chanel, Prada, Bulgari, Louis Vuitton, Longchamp por mais de alguns milhares de euros. Em oferta.

No Louvre – e nos demais museus -, a coisa se torna mais grave e convida a um olhar crítico. Percorrem as salas do museu atrás das obras mais conhecidas. Param um instante para fotografar, filmar, fazer selfies, e seguem adiante. Não há contemplação, apreciação, reflexão, admiração. Tudo é digitalizado, instantâneo, como se a captação da imagem em máquina digital permitisse representar toda a experiência da contemplação de uma Mona Lisa, de uma Vênus de Milo, de uma Coroação de Napoleão.

Correm pelo museu, atropelando as pessoas, dando cotoveladas – e não pedem desculpas. Infelizmente, a falta de educação predomina. Não tem qualquer restrição a tocar na peças, nas esculturas e nos quadros. Furam filas e parecem viver numa estrutura social própria onde as regras parecem valer para os outros e não para eles que estão fora de seu país de origem e fingem não entender o que se passa.

Em um determinado momento, perdi a paciência. Andava pela galeria dos pintores italianos no Louvre, lotada, parecendo shopping no Brasil em época de Natal, e tentava apreciar as telas quando fui arrastado pela onda vermelha. Como a maioria deles eram mais baixos do que eu, interpus-me no meio da fila de uma excursão e passei a caminhar bem devagar, quase parando. Pressenti o pânico atrás de mim. Eram vários chineses tentando me ultrapassar e eu, como piloto numa prova de automobilismo oscilava da esquerda para a direita impedindo a passagem. No fim, eles me ultrapassaram, mas ficou claro que a ida ao museu fazia parte apenas de um passeio onde não se apreciava nada, apenas carimbavam o passaporte e poderiam dizer: “eu estive lá”, “eu vi a Mona Lisa”.

Na Torre Montparnasse, um edifício moderno com um terraço panorâmico no 56o. andar, há monitores com fotos da paisagem para que o visitante possa identificar os edifícios no entorno com um toque na tela. Ali presenciei outra cena bizarra. Um moço jovem fotograva a tela do computador ao invés da paisagem! Se ele queria uma foto do computador, devia ter feito o passeio pelo Google e não precisaria ir até Paris. Qual o sentido de se viajar para um lugar e apenas registrar tudo em fotos, como se o mundo fosse apenas uma realidade virtual?


Sinceramente, não consigo entender o objetivo destes viajantes. Visitam museus, marcos históricos e monumentos apenas para tirar fotos. Creio que as devem postar nas suas redes sociais e ostentar afluência numa ex-sociedade comunista. Será que levam consigo um pouco da sensibilidade humana da cultura ocidental? Será que algum deles compreende a razão da construção de catedrais e igrejas? Será que conseguem penetrar na beleza de uma tela impressionista ou na leveza de um Rembrandt com seu jogo de luz? Tenho minhas dúvidas. Mas, volto com a sensação de que andei no meio de uma nuvem de gafanhotos predadores.


segunda-feira, 14 de julho de 2014

Margens do Tejo

Luar no Tejo
instagram @rbueloni

Caía a tarde, sol adormecido, lua surgindo no oriente, refletida pelas águas crispadas do Tejo. Ah, o Tejo. Reencontro-o depois de quase dezoito anos em cenário inesquecível de começo de noite, lua cheia, céu limpo, calor ameno de verão lisboeta. Paro na margem e contemplo-o com a memória repleta de imagens. A Ponte Vasco da Gama iluminada e na outra margem avisto Montijo. O silêncio quebrado apenas pelas pequenas ondas do rio a baterem na murta de pedra que ladeia a margem. Respiro fundo e sinto o cheiro levemente salgado da maré que avança sobre o rio, o maior de todos os rios, mas não tão grande quanto o rio que passa na minha aldeia.

Os versos de Camões parecem se materializar no vasto rio. Poderia sentar-me num banco e dialogar com Fernando Pessoa e seus heterônimos, ouvindo cada um deles declamar poemas sobre a beleza do Tejo. A presença do poeta é palpável, quase física. E os versos se sucedem em minha mente. Como é belo o Tejo, cantaria! 

O Tejo é o símbolo maior de Portugal, a terrinha mãe, a pátria primeira. Talvez meu sangue português tenha entrado em ebulição ao notar o rio, aguçando o lado emocional e nostálgico, ainda que não tenha mais parentes além mar. 

Ali fiquei a admirar o Tejo transformado em tela impressionista do lindo luar, suas águas salpicadas de um  cinza iluminado, suas pequenas ondas tingidas com a luz da noite, seus ruídos a embalar o início da noite.

Em clima de saudade, despedi-me dele, trazendo na bagagem alguns fados como trilha sonora para acalentar a nostalgia e as boas lembranças do grande Portugal.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Crônicas de uma viagem a Paris - I


Torre Eiffel

Um amigo - que me conhece muito bem - disse que eu iria adorar Paris. Ele tinha razão. Não me precipitaria em dizer que Paris roubou meu coração, este que ainda pertence a Barcelona, mas o charme da cidade me provoca a cada momento. A cidade flerta comigo, como só aquelas cidades com alma podem fazer. A cidade pulsa, provoca, desperta. 

Hoje o tempo mudou. Caminhei sozinho boa parte do dia e ao cruzar o Sena dei-me conta de que aquele momento era só meu, de alegria solitária, tomando chuva sem a menor preocupação numa Paris cinzenta e que me fazia transbordar num encanto silencioso. Afinal, a vida é feita de momentos e alguns deles se tornam memórias exclusivas, secretas. Outras estórias são compartilhadas, divididas, replicadas, multiplicadas e seguem na tradição oral, contadas e recontadas. Todos temos aqueles momentos que vão para os anais da família, que representaram discussões ou brigas e depois se manifestam em largas gargalhadas e gozações.

Gosto de descobrir os meus cantos, os meus lugares. Fujo do lugar comum, dos roteiros sugeridos por guias. Uso-os com parcimônia e cautela. Como diria um viajante americano, I like to wander, and wandering I find myself - or try to find myself.  Gosto de deixar meu olhar viajar sem pressa, como a imagem do homem lendo o jornal no ponto de ônibus, elegante e indo trabalhar, da mulher com sua baguete a caminho de casa, com os meninos sentados num café competindo para ver qual deles conseguia arrancar mais sinais de positivo dos passantes, do pequeno restaurante libanês onde o dono preparou-me um falafel fantástico  - lugar onde só consegui comer porque estava sozinho. 

O olhar do andarilho. Um olhar atento que ajuda a descobrir estórias, a imaginar estórias. Observar e andar. Acho que as pessoas subestimam a importância de andar, sem rumo, sem mapa, apenas andando e divagando. Andar ajuda-me a pensar, ajuda-me a descobrir, ajuda-me a ter inspiração. Por vezes a inspiração é desobediente, provoca o que não deveria, mas aquieto-a. Anoto as ideias para não desperdiçá-las e aos poucos vou deitando-as no papel. Fazia tempo que alguns dias não me despertavam tantas estórias. Paris está cheia delas prontas para serem salpicadas na folha branca de papel.

A vitrine de uma loja de máquinas fotográficas em Montmartre, a simpática portuguesa dona da boulangerie ao lado do hotel, cadeados dependurados nas pontes sobre o Sena, a infinidade de pagãos que fazem fila para visitar Notre Dame e Sacre Coeur, as poses ridículas de turistas ao redor da Torre Eiffel, as pessoas nos cafés e nos restaurantes, nos barcos deslizando pelo Sena, nos labirintos do metrô desta cidade que fala uma infinidade de línguas, uma Babel terrena.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Feriados e a copa do mundo


O poste que governa São Paulo, Fernando Haddad,  tentou aprovar projeto para que a Câmara dos Vereadores aprovasse feriado na cidade de São Paulo no dia 23 de junho, dia em que haverá mais um jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo. Na última terça-feira, a cidade travou com recorde de congestionamento.

A Justiça Federal suspendeu o expediente durante todo do dia 23. A Justiça Estadual funcionará até às 12 horas, mesmo horário de funcionamento dos bancos e da maioria do comércio.

Sou contra este número excessivo de dias de folga e da falta de vontade de muitos em trabalhar. A seleção não empolga, mas parece que o brasileiro tem que assistir ao bendito jogo no conforto de seu lar. Sou do contra, sou chato. Acho um absurdo e uma estupidez se engalfinhar no trânsito de forma desesperada para chegar ao lar.

Na última terça, enquanto muitos se estressavam no trânsito e no transporte público, eu trabalhei até depois das 13 horas, fui almoçar com um amigo, assisti ao primeiro tempo do jogo de pé na calçada num bar e fui para casa no intervalo. Trânsito livre. Sem transtornos, sem confusão e com a sensação de que não perdi meu tempo como um bando de cordeirinhos que "têm que assisitir o jogo da seleção" ou então morrerão fulminados pela polícia dos traidores da pátria. Pessoalmente, acho que trabalhar honestamente é muito mais patriótico do que gastar metade do meu dia idolatrando jogadores que ganham milhões e que estão jogando para faturar mais alguns milhões. 

Não me entendam mal, eu gosto de futebol, tenho assistido a quase todos os jogos da Copa, mas não compactuo com a vagabundagem e a falta de vontade das pessoas de trabalhar. Acho um absurdo, um descalabro a quantidade de dias que a Justiça Federal declara como ponto facultativo. Quem mais se beneficia de feriados e pontes de feriados são os funcionários públicos, uma categoria que não hesita em fazer greve e que goza de benefícios não estendidos ao trabalhador comum, e muito menos aos autônomos e profissionais liberais. 

Com o feriado de Corpus Christi, este será o terceiro feriado de 5 dias neste ano! Para estes privilegiados, isto equivale à existência de 3 carnavais em um único ano! 3 carnavais! Que país pode crescer neste ritmo de produtividade? 

É preciso mudar a mentalidade e o prefeito podia dar o exemplo obrigando as repartições municipais a fecharem apenas 30 minutos antes dos jogos. Assim, todos encontrariam um lugar próximo ao trabalho para assistir o jogo. Isto movimentaria a economia da cidade e escalonaria o trânsito. Qualquer boteco tem uma televisão hoje e muitos celulares já tem capacidade de captação de sinal da TV aberta. Falta vontade política de mudar um hábito que precisa ser mudado. O Brasil precisa de gente disposta a trabalhar e não daqueles que só querem aproveitar mais um feriado.


terça-feira, 17 de junho de 2014

Conto: Um dia após o outro


Instagram @vai_literatura

UM DIA APÓS O OUTRO

Foi o primeiro dia que saiu de casa desde o ocorrido. Tomou seu café da manhã, um copo de leite, uma torrada com geleia de damasco, uma fatia de queijo branco e vários remédios. Coloridos e multiformas. Alguns pela manhã, outros no meio do dia e os da manhã se repetiam à noite antes de dormir. O dia estava cinzento, uma garoa fina e constante a cair sobre a pauliceia desvairada. Olhou pela janela do apartamento. Recusou o guarda-chuva e fisgou um boné azul escuro e bem desgastado do armário.

Tinha medo de voltar a caminhar sozinho. Suas mãos tremiam ao segurar as chaves para abrir a porta. Hesitou. Fechou os olhos e a imagem se repetiu mais uma vez, como tantas outras vezes nestes últimos quatro meses. Com a mão esquerda, ajudou sua mão direita a encontrar o buraco da fechadura. Girou a chave e deu um passo para o hall do elevador. A jaqueta que vestia e que deveria lhe proteger da chuva, agora impedia o suor frio de evaporar. Tentou relaxar. Soltou os braços e balançou-os lentamente. Um homem de setenta e dois anos não devia temer a morte, pensou. Mas não era a morte que ele temia, era o rancor, os assuntos mal resolvidos, era o tempo se esgotar antes de que pudesse terminar o que havia começado – ou tantos outros assuntos que haviam terminado mal.

A avenida Paulista, em seu trecho final no Paraíso,  era seu quintal há mais de quarenta anos. Por trás do portão do prédio observou uma infinidade guarda-chuvas coloridos, dançando e girando, formando uma massa disforme se observado do alto, alguns movimentando-se de forma apressada, outros a passos lentos, como se a vida e o tempo pudessem desacelerados. Antes, todos os guarda-chuvas eram pretos e duravam uma vida toda. Agora são chineses, vagabundos, frágeis, descartáveis, como os aparelhos eletrônicos, os móveis, os utensílios domésticos, os relacionamentos, o amor, a vida. Vivemos num mundo descartável. É mais fácil – e barato – trocar do que consertar, do que por dinheiro bom num conserto realizado por alguém incapaz ou despreparado. Sabem vender, mas não sabem remendar.

Um pouco mais sereno, abriu o portão e deu o primeiro passo na calçada lisa da Paulista. Enfiou as mãos no bolso e deixou que seu rosto fosse beijado pelas gotículas geladas da garoa forte. Uma bruma gris, quase uma névoa formara-se cobrindo o cume dos prédios e as antenas de TV da avenida tão paulistana. Os primeiros passos foram temerários, depois, aos poucos, encontrou um ritmo cadenciado, nem apressado, nem lento, mas reflexivo. Observava os rostos anônimos que cruzavam seu caminho nas largas calçadas. Sempre gostou de agir assim, de analisar os outros, os rostos, de tentar adivinhar o que se passava em suas vidas. Perguntava-se o porquê daquelas pessoas não serem seus amigos, seus conhecidos, por que apenas algumas pessoas entram em nossas vidas e por que as deixamos ficar. Talvez a culpa seja das estrelas ou dos dias de um futuro esquecido, pensou reparando em cartazes que anunciavam os filmes no circuito de cinemas. Em exibição em grande circuito, pensou e riu lembrando dos anúncios de filmes de tempos passados. Agora havia TV a cabo, netflix, sites piratas para baixar filmes. Permanecia antiquado e preferia ir ao cinema, ou assistir na televisão. Nada de pirataria. Era um cumpridor da lei.

Uma freada brusca de um carro assustou-o com o barulho, tanto que deu um sobressalto, coração disparado. Olhou ao redor. Avistou dois policiais mais adiante e tranquilizou-se. Deixou que seus devaneios voltassem às pessoas que vinham na direção contrária. Algumas falavam no telefone, outras com os fones de ouvido conectados ao celular e alienadas do mundo e do entorno. Quando deixou de escrever sua coluna quinzenal na Folha por conta do ocorrido, as estórias que encontrava escondidas por aí deixaram de ter importância. A escrita fora silenciada pelo barulho ensurdecedor do tiro. Aquela manhã era a primeira vez que sentira saudade de escrever. Seu editor insistiu que ele continuasse a escrever, iria lhe fazer bem, disse, ocupará sua mente, seria uma forma de terapia, de avançar, de seguir com a vida. Mas ele fora intransigente. Precisava de uma pausa, de uma longa pausa, talvez até de uma pausa definitiva.

O tempo é cruel e repleto de mudanças. A casa que outrora fora o símbolo dos industriais paulistas havia sido demolida. A casa dos Matarazzo agora cedera espaço a um shopping, um hotel e um edifício comercial. A construção subia rapidamente na esquina da Paulista com Pamplona. A caminhada seguia bem e estava surpreso em como estava calmo, aquele território era o seu chão, sua ligação com a cidade, com as pessoas, com a vida.

A garoa apertou e entrou no Conjunto Nacional para se abrigar e tomar um café. Ali o tempo quase congelara. A arquitetura mantida quase que original, o piso de pedra portuguesa em preto e branco, as agências bancárias, os escritórios, o burburinho constante de gente passando. O cine Astor cedera lugar a uma gigantesca livraria, o que muito lhe agradava. As enormes rampas curvas no centro do saguão pareciam se enroscar na coluna dos elevadores como cobras abraçando uma árvore. Os resquícios de seu tempo ainda eram visíveis naquele cenário, algo que lhe trazia um certo conforto e paz interior.

Seguiu a diante, cruzou a Augusta e a garoa havia cedido, quase parado. O boné estava molhado. A jaqueta era impermeável e gotas haviam escorrido sem impregnar o tecido. Parou numa banca de jornal e comprou umas balinhas. Passou os olhos pelas manchetes dos jornais. O assunto era a Copa do Mundo, o discurso ridículo e ufanista da anta que governava o país, da greve dos metroviários que acabara quando os pelegos foram postos na rua – lugar onde todo vagabundo que não quer trabalhar deveria ir -, da previsão do FMI de que o país terá um crescimento pífio e mais algumas desgraças, como de costume.

Entrou na rua Haddock Lobo e desceu duas quadras em direção aos Jardins. Parou diante do número 961. Tocou a campainha e esperou o porteiro perguntar o que ele queria. Com vez fraca e titubeante, respondeu:


- Gostaria de falar com a  Sra. Alice do apartamento 41.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Conto: Montjüic



MONTJÜIC

Subiu ao alto de Montjüic, sentou-se num banco com vista para o Mediterrâneo e deixou que a brisa fria daquela tarde lhe acariciasse o rosto, uma leve lembrança da morte. O céu de outono estava sem nuvens, mas a temperatura trazia sinais de que o verão partira mais uma vez. O olhar fixo no horizonte azul, céu e mar fundiam-se no infinito em uma única massa, ar e água unidos de forma indissociável e imperceptível ao olho nu e a visão embaçada de Pedro que recorria aos óculos desde a mais terna idade dava-lhe a sensação de um cenário surrealista, esfumaçado.

- É possível encontrar a felicidade até na dor.

Estas palavras de Carmen Ferret não faziam o menor sentido para ele. Como aquela mulher tinha sido capaz de superar a dor da morte, da traição, do abandono, da solidão? Onde encontrara forças para sobreviver e seguir adiante? Que tipo de ser com forças sobre humanas era ela? Uma santa a caminhar na terra? Um espírito elevado que alcançara algum grau de nirvana e que mantivera-se impassível e sereno diante da guerra, da indiferença do marido, do esquecimento dos filhos, da ingratidão dos colegas de universidade, da falta de reconhecimento de seu trabalho humilde e perseverante, mas genial?

As perguntas se repetiam e bombardeavam a mente de Pedro. Estava convencido de que precisava se contentar com a inexistência da felicidade, de que amor verdadeiro não existia e de que a vida não passava de uma sucessão de eventos que culminavam com a morte, o último ato de uma longa peça teatral e cujo final era imprevisto e para qual não havia ensaio, chance de repetir as cenas. Algumas peças eram de curta duração. Outras alongavam-se de forma exagerada, de forma tediosa e despidas de sentido. Algumas eram cômicas, algumas trágicas, mas na sua maioria doloridas e melancólicas. Esta era a palavra que buscava. A vida era melancólica, como nos inúmeros romances de Dostoievski. A felicidade era uma criação do marketing para vender livros de autoajuda, para enganar os pobres mortais, para incentivar o consumismo desenfreado de drogas, bebidas e aparelhos eletrônicos hipnotizantes e bestificantes.

Lembrou-se de uma viagem a Atlanta, a trabalho, quando teve a oportunidade de visitar a sede mundial da Coca-Cola. Aquele slogan repetido à exaustão em filmes, comerciais e painéis eram um indicativo claríssimo do poder do marketing e da prevalência da mentira sobre a realidade. Open happiness. Abra a felicidade. Abra uma garrafa de coca-cola e consuma açúcar, conservantes cancerígenos, produtos químicos cujas propriedades são desconhecidas, ganhe vários quilos a mais. Afinal, obesidade é a nova tendência mundial. Uma latinha de coca-cola pode lhe trazer a felicidade momentânea, mas pode lhe brindar com efeitos colaterais nefastos. Ou talvez, não. Talvez eles tenham razão. Se o refrigerante lhe faz mal, então o líquido abrevia sua vida, encurta o sofrimento e se a morte é a felicidade suprema e derradeira, de fato, consumir a bebida deixa a felicidade mais próxima.

Balançou a cabeça em repugnância àquelas ideias malévolas e conspiratórias tão próprias de algum inimigo do capitalismo, de algum defensor do regime cubano.  Mas era verdadeiro que ficou decepcionado quando se deu conta de que a Coca-cola não passava de uma empresa de marketing, não uma empresa de bebidas.

Tentou ordenar suas ideias, retornar o foco ao ponto de partida e deixou seu olhar passear pelo mar em busca de algum barco ou navio. Um ferry boat aproximava-se do porto trazendo pessoas vindas de Mallorca. Ao redor, poucos turistas se aventuravam naquele vento, agora mais gelado, no alto de um dos melhores pontos de observação da bela Barcelona. Algumas crianças brincavam nos canhões usados na Guerra Civil e que agora repousavam silenciosos, lembrança de tempos sombrios e de constante turbulência.


Será que Alice está feliz, onde quer que ela esteja? Será que ela zela por mim? Será que ela me ouve? Será que eu a encontrarei algum dia? Ao pensar isto, seus olhos marejaram e ele suspirou profundamente. A saudade lhe assombrava com força ainda maior. Apoiou os cotovelos nos joelhos, mergulhou a face por entre as mãos e chorou. Novamente.