quarta-feira, 22 de maio de 2013

Epígrafe - XIX





Pela primeira vez na vida, sentiu necessidade de um horizonte mais amplo. A ilha pareceu-lhe, de repente, tão terrivelmente pequena, que se sentiu quase oprimida. Nunca antes havia experimentado fisicamente os limites de Naxos, um pequeno pedaço de terra cercado pelo mar. ‘Não sei nem nadar’, pensou ela, como se isso pudesse alterar alguma coisa.” 



(Bertina Henrichs, A jogadora de xadrez. Trad. Bernardo Ajzenberg. Rio de Janeiro : Record, 2010, p. 47 )

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Reflexões soltas



Às vezes a inspiração me foge, as palavras desobedecem, comportam-se mal, não param quietas, algo semelhante a remontar um aparelho eletrônico depois de desmontado, quando as peças não se encaixam e sempre parece sobrar algum parafuso. Talvez fosse a ausência do silêncio; talvez a falta de recolhimento; talvez a falta de leitura; talvez o excesso de trabalho; talvez a sua falta.

Um texto e mais outro que não me agradaram, ficaram disformes, sem fluidez, pedra bruta não lapidada e que ao tentar lapidar, quebrava-se. As ideias confusas e a irritação aumentava. Inspiração parecia ter-me abandonado para sempre. Frustrei-me. Deixei mais um texto de lado, pela metade e segui o conselho de Ignácio Loyola Brandão: se a inspiração lhe escapa, procura-a na rua. Lancei-me no caminho a observar. Sem sucesso. Sem aviso, bastou-me avistar teu rosto que a inspiração pareceu jorrar água da mina mais pura.

Josué Montello tinha por hábito iniciar sua jornada como escritor com o dia ainda escuro. Sempre estranhei tal hábito, pois demorava um pouco a despertar e a organizar as ideias. Com os anos de vida percorridos, as horas frescas da manhã são as mais prolíferas. A mente limpa torna as ideias mais cristalinas e precisas, os resquícios dos sonhos da noite anterior dão pistas e sugestões para o dia que nasce, alimentam a inspiração, sugerem uma conduta ou aventura a algum personagem. Basta vencer a preguiça que as palavras se comportam igual às crianças com seus uniformes ainda limpos no início de uma jornada escolar.

sábado, 20 de abril de 2013

Poesia: ABRAÇO


ABRAÇO


tem abraço que parece beijo
tem beijo que parece morte
tem morte que parece festa
tem festa que parece reunião
tem reunião que parece descaso
tem descaso que parece amor
tem amor que parece sofrimento
tem sofrimento que parece alegria
tem alegria que parece carência
tem carência que parece grito
tem grito que parece suspiro
tem suspiro que parece socorro
tem socorro que parece abraço

(c) RLBF

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Um livro, dois momentos


"'Would you tell me, please, which way I ought to go from here?'
'That depends a good deal on where you want to get to,' said the Cat.
'I don't much care where - ' said Alice.
'Then it doesn't matter which way you go,' said the Cat.
'- so long as I get somewhere,' Alice added as an explanation."

(Lewis Carroll. Alice's Adventures in Wonderland. Penguin Books : London, 2008, p. 66-7)

Outro dia, percorrendo a esmo a seção de literatura estrangeira da Livraria da Vila do Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, deparei-me com uma coletânea de textos de Edgar Allan Poe, edição em inglês da Penguin Books, em brochura. Abri o livro e deparei-me com um conto que li na adolescência. The Fall of the House of Usher foi um daqueles textos que odiei ter que ler. A obrigação de lê-lo tirou a beleza e a relevância do texto, deixando-o sem compreensão suficiente. Seguiram-se The Raven, The Tell-tale Heart e alguns outros. 

Aos poucos fui encaixando Poe no contexto histórico do século XIX e seus textos passaram a fazer algum sentido. A obrigação transformou-se em leve prazer, mas a obrigação de ler os textos ainda pesava. Entendia que era necessário para minha formação e que era necessário conhecer os textos clássicos. Alguns deixaram suas marcas, outros meros riscos superficiais que imaginava terem sido apagados pelo tempo. Até outro dia...

O outro dia deu-se no meu reencontro com Poe. Comprei a coletânea e reli os mesmos contos da adolescência. Descortinou-se diante de mim um mundo novo, uma compreensão mais aguda dos complexos personagens criados e suas crises, manias, visões de mundo, aflições e angústia. Como os anos de vida nos concedem um entendimento maior da conduta humana! O mesmo texto e dois olhares completamente diferentes!

A nostalgia me conduziu ao livro - e entendo melhor como é importante ler os clássicos na juventude, ainda que por obrigação - e me deu enorme prazer na sua leitura. Da mesma forma que a epígrafe deste texto, dica do excelente Terapia da Palavra. Fui atrás do livro para deixar a citação mais precisa. Alice só pode escolher o caminho se sabe para onde QUER ir. E quantos de nós não sabem para onde caminham?

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Conto: Meu medo


O grito, de Edvard Munch

MEU MEDO


Levantou-se da cama afastando o lençol e caminhou até a mesinha onde repousava o maço de cigarros dela. Estava nu, porém não se intimidara com o fato de que o corpo não guardava mais a firmeza da juventude. Lembrava mais uma gravura do Gustavo Rosa, do que o Davi de Michelangelo. Pegou o maço e fez um gesto silencioso pedindo-lhe autorização para subtrair o pequeno bastonete de tabaco de propriedade dela.  Ela não se espantou com o pedido, apesar dele não fumar. Sentou-se na cama, coberta pelo lençol, deixando apenas os ombros de fora, o que propiciou o rápido comentário dele.

- Está parecendo uma ninfa, minha querida!

Abriu a porta da sacada e deu uma longa tragada, totalmente indiferente ao fato de que estava nu. Era final de tarde e ainda havia luz suficiente para que um vizinho do hotel pudesse observá-lo.

- Não tem medo de que alguém te veja aí fora peladão? – perguntou a bela companheira com um ar cômico.

- Não....meu medo é outro.

E fez uma longa pausa, aguardando que ela interrompesse o silêncio com a pergunta.  Se ela aquiescesse ao silêncio, saberia que aquele encontro seria apenas um momento de luxúria perdido no tempo, numa tarde qualquer; se ela perguntasse, teria a certeza de que o que acontecera entre eles havia ultrapassado o meramente carnal.

Não tardou a que a doce voz dela soasse com a interrogação: qual é seu medo?


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Primeiro de Abril


Verdades que poderiam ser mentiras (notícias de hoje):

- Dilma cria o 39o. ministério no governo federal.

- Rendimento dos alunos de matemática piora entre o 5o. e o 9o. ano. MEC minimiza queda e afirma que as perspectivas são positivas.

- Rondônia supera Pará no número de mortes por disputas de terras.

- Inflação dos alimentos afeta mais a baixa renda.




Mentiras que poderiam ser verdades (manchetes de um sonhador):

- PEC que reduz número de deputados e senadores é aprovada no Congresso Nacional.

- ENEM deve ser extinto, após desempenho excelente dos alunos em redação.

- Paulo Maluf reconhece que dinheiro nas Ilhas Jersey é fruto de desvio de recursos durante suas gestões.

- Coreia do Norte destrói todos seus mísseis e assina tratado de paz com a Coreia do Sul.

- Inflação deve ficar abaixo do piso da meta pela primeira vez.


sábado, 30 de março de 2013

Quem é o autor?


Em tempos de redações desastrosas no ENEM, reveladoras da péssima qualidade de nossa educação fundamental, de erros - ou como prefere o MEC "desvios" - ortográficos graves, textos sem lógica e com argumentos repetitivos, além de receita de miojo e hinos de clubes de futebol, resolvi tratar uma simples questão deixa num comentário de um post deste blog de forma mais demorada.

Em 9 de junho de 2007, publiquei uma poesia que identificava ao final que era de minha autoria. Alma Iluminada é seu título. Outro dia veio o comentário e a pergunta: "Linda poesia, quem é o autor????" O comentário foi deixado de forma anônima. Respondi num comentário seguinte acusando-me como o autor daquele texto. 

Inicialmente, pensei que a pergunta comportava uma resposta óbvia: os textos deste blog são meus, do autor do blog, salvo quando há indicação clara e direta do autor do texto. E há muitas poesias, trechos de livros e textos diversos cujos autores são nominados e indicados. Quase todos os textos publicados de outros autors são transcritos por mim e oriundos de livros, sempre citando a fonte e cujos originais disponho. Desconfio de algumas fontes na internet e sou zeloso em dar crédito aos devidos autores. 

Superando a resposta que me parecia óbvia, sobreveio-me outra questão: será que as pessoas sabem procurar a fonte, o autor real e será que tem a visão crítica o suficiente para desconfiar de que um determinado texto não pertence a determinado autor? 

A resposta parece ser negativa. Por exemplo: se vou ao blog do Reinaldo Azevedo, sei que os textos serão dele, salvo quando indica outro autor - o que faz com frequência, pois transcreve muitos artigos de jornais. Se alguém visita este blog, deveria desconfiar que a maioria dos textos são de autoria do responsável pelo blog, aquele cara feio na fotinho do canto direito logo no início da página. 

Se a pessoa não consegue identificar o autor, não tem condições de criticar suas ideias, não tem bagagem intelectual para discutir, debater e argumentar. E por consequência, qualquer dissertação será superficial, rasteira, sem argumentação sólida, ou seja, as redações do ENEM são um reflexo do (des)preparo dos nossos jovens. Eis o problema que surge de uma simples e banal questão. 

Faço uma ressalva -  e não vou me alongar - sobre a má-fé de alguns que claramente copiam e plagiam textos inteiros ou somente trechos de textos. O plágio é a cópia ilegal que viola o direito do autor, que rouba uma ideia produzida sem dar o devido crédito. O plágio é uma praga e um indicativo da preguiça mental de muitos que preferem utilizar a cópia à botar o cérebro para funcionar! O famoso "recorta e cola" é um lamentável atalho que mantém o indivíduo na ignorância.

É importante ensinar os jovens - e adultos também - a procurar sempre a fonte original, a aprender a pesquisar consultando várias e diversas fontes, sempre dando o devido crédito ao autor. Perguntar quem é o autor não é uma falha; a falha está em não conseguir identificar o autor que está indicado de forma clara e transparente. O plágio deve ser sempre rechaçado e repelido! Progresso intelectual dá trabalho e este trabalho deve ser recompensado com o devido crédito.

Não há caminho fácil para escrever bem: é preciso ler e treinar a escrita. A recompensa do esforço vale a pena!

Boa Páscoa a todos!

terça-feira, 19 de março de 2013

O primeiro dia frio


Tenho uma grande simpatia por Lygia Fagundes Telles e Tatiana Salem Levy. São duas escritoras que me agradam em demasia. Na edição de sexta-feira, dia 15 de março, a primeira foi a convidada da coluna À Mesa com Valor, que teve o encontro relatado por José Castello, cujos textos são um convite a sentar-se à mesa com o convidado. Há uma proximidade do entrevistado, uma intimidade recheada de notas e frases que permitem ao leitor penetrar um pouco no processo criativo do escritor (quando entrevistado é um escritor). A coluna pode ser lida aqui.

Destaco dois trechos do que foi dito por Lygia Fagundes Telles: "É preciso enxergar mais do que as coisas nos mostram, ou não vemos nada." E mais adiante afirma que "está tudo inscrito na realidade. A um escritor, basta ler. Não sei por que gostam de atacar a realidade."

Em certo trecho, Lygia narra como surgiu o conto Helga, de Antes do Baile Verde. De uma notícia de jornal, de uma sugestão do marido, o caso narrado transmuda-se em conto de ficção. A realidade é contada pelo escritor com novas cores, mas sem deixar de ser real. A realidade é fonte de inspiração, é o ponto de partida de escritor, na visão de Lygia. 

Descobri Lygia lendo Conspiração de Nuvens (2007). A memória é um elemento muito presente em suas crônicas, servindo-lhe de matéria prima para analisar a realidade que procura enxergar de esguelha, com outro viés daqueles que a olham somente como plana. Encantei-me com o livro, com os textos e com esta grande escritora. Apaixonei-me pela forma como ela trata de um tema que me é tão caro: a memória. 

E minha alegria aumentou quando no final do caderno de final de semana do Valor deparei-me com um ensaio de Tatiana Salem Levy sobre um livro de Sándor Márai, De Verdade (Companhia das Letras, 2008), em que ela discute a existência de múltiplas verdades (leia aqui). Tatiana lança a pergunta: existe amor de verdade? existe mulher de verdade?

A discussão acerca da existência de uma única verdade ou de múltiplas verdades é muito familiar para um advogado. No direito penal, busca-se a verdade material, que deveria ser a real, ou seja, aquela que retrata o que efetivamente aconteceu a ponto de se poder condenar aquele que praticou o delito. No direito civil, prevalece a verdade formal, aquela que está presente nos autos, aquela pela qual o magistrado é convencido a acreditar com base nas versões e provas apresentadas.

Ressalvo que, do ponto de vista filosófico, discordo da afirmação de que existem múltiplas verdades no plano metafísico e do conhecimento, mas não vou me desviar do assunto principal que é a literatura.

Versões e pontos de vista é o que Márai traz para sua narrativa. Discordo de Tatiana de que há múltiplas verdades; há múltiplas versões da realidade, contadas pela ótica do observador e pelo critério do observador, geralmente tomados de parcialidade na sua análise. Mas Tatiana destaca que todos narram após os acontecimentos, ou seja, no passado, revivendo a memória do outro ou como o outro era visto no momento em que os fatos ocorreram. A memória pode ser traiçoeira, nebulosa!

A memória, com as experiências colhidas no passado, agrega ao conhecimento do momento presente, deixando-o mais claro e mais profundo, como se fossem camadas do solo que vão se sobrepondo. Um corte lateral permite conhecer o presente e o passado.

Após um verão quente, somos brindados com um dia frio em São Paulo, o primeira dia frio do ano. E todos saem agasalhados na rua, com cachecóis, casacos e botas. Parece um dia de inverno, mas temperatura é de agradáveis 19o C. Nosso corpo, acostumado com o calor, ainda traz a memória térmica dos dias de verão, e a temperatura amena, parece-nos mais fria do que realmente é do ponto de vista objetivo.

Eis que me deparo com uma segunda-feira fria, garoenta, úmida. Um aparente típico dia de invernopaulistano! Mas calma, meu querido amigo, não se precipite, ainda estamos no verão, nos estertores do verão, ainda na estação do astro rei. Hoje foi o primeiro dia de frio do ano. Comentei com minha filha que o que é cinza e melancólico para alguns, pode ser poético para outros, basta ler a realidade. O primeiro dia frio do ano parece convidar ao aconchego do lar, a saborear memórias, a enclausurar-se no silêncio interior, a degustar uma taça de vinho, a preparar uma sopa quentinha, a enrolar-se no cobertor... O primeiro dia frio do ano não precisa ser negro, nem o presságio de uma estação terrível e pouco tolerável. Prefiro o calor, mas cada estação tem suas qualidades, sua inspiração, sua cor. Basta ler a realidade, como nos ensina Lygia Fagundes Telles.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Poesia: PALAVRAS ARISCAS



PALAVRAS ARISCAS


Palavras ariscas ciscam ao meu redor
Rodeiam-me
Provocam
Escapam-me.

Desobedientes
Irriquietas
Perturbam-me constantemente
E só me resta o vazio do nada dizer.

Flutuam como nuvens
Dão rasantes como aves de rapina
Cercam-me
Cutucam-me
E fogem faceiras e risonhas.

Despertam-me do sono
Atiçam-me
Tento cativá-las a se comportarem
A deitarem sobre o papel de forma ordeira
E elas insistem na desfaçatez da fuga
Do silêncio
Do absoluto silêncio.

Calo-me
E sucumbo.
A inspiração há de voltar
E as palavras hão de se comportar.

(c) RLBF

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Crônica: Segredos

Sombras, por Ana Luiza


SEGREDOS


Os maiores segredos nunca são compartilhados, contados, anotados. Permanecem guardados a sete chaves no silêncio interior, sem que alguém os tenha visto ou percebido. São segredos confidenciados em diálogos solitários com o próprio eu, naqueles momentos do meio-sono ou na tranquilidade do banho ou numa caminhada bucólica sem companhia humana. Não há sequer um diário que os tenha acolhido em suas páginas; talvez o fiel cachorro seja um bom confidente, sempre paciente e solícito a ouvir. Melhor que as paredes que permanecem imóveis e tomadas de impáfia, indiferentes a qualquer emoção ou sem revelar compreensão.

Com o tempo, os segredos parecem aumentar. Guardo em segredo as tantas vezes que sonhei com você – como na noite passada. Não haveria razão para guardá-los, mas penso que te canso ou que pareço obcecado, quase um psicopata a lhe perseguir. Mas na verdade, quem me persegue é você. Não, estou sendo injusto. Nunca me sentiria perseguido por você e a cada vez que vens me visitar nos sonhos, acordo tomado de uma alegria inebriante, que guardo em segredo – apesar de já ter lhe contado isto.

Guardo em segredo as palavras ditas na solidão, o sorriso espontâneo que brota ao admirar uma foto tua, dialogando sozinho e tentando entender a complexidade da vida e dos sentimentos deste indomável e surpreendente órgão denominado coração.

Guardo em segredo as palavras escritas em algum caderno ou email – nunca enviado -, nalgum diário largado no fundo da gaveta, quando as palavras sufocam e transbordam, sendo impossível contê-las e domá-las.

Guardo em segredo minhas orações por ti, diárias, constantes, permanentes, rogando a Deus que te proteja, que te abençoe e te permita sempre sorrir.

Guardo cada segredo como uma moedinha, como uma criança que cuidadosamente deposita sua preciosa moeda no cofrinho, crente de que se transformará num baú do tesouro. 

No fim, os segredos perecem, são esquecidos, perdem a importância; no fim, os segredos apodrecem, nutrindo o solo fértil das lembranças e das memórias ricas de saudade.