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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020
Trechos: Das terras bárbaras, de Ricardo da Costa Aguiar
"Afinal, se um anjo tinha sucumbido ao peso do orgulho, da inveja e da cobiça, o que esperar de nós, carne fraca? O anjo caído era uma vítima que merecia minha compaixão, eu o reconhecia em mim. Estudante, mudei essa imagem do Mal, transmutei-o em uma bela figura filosófica. Passou a ser a ausência do Bem, como o escuro é a ausência da luz. Passou a ser o lado animal dos homens, pronto a sucumbir sob a razão e o espírito. O Mal era inerte, uma sombra adormecida que se afastava na presença de tudo o que é puro. foi no calor de Maruery que o conheci como de fato ele é, viscoso e grudento. Ali eu o vi de perto, fétido e deformado, rouco e irracional."
(Ricardo da Costa Aguiar, Das terras bárbaras, São Paulo : Tordesilhas, 2019, p.112-3)
O romance de estreia de Ricardo da Costa Aguiar foi uma grata surpresa. Texto requintado, trabalho cuidadoso nas citações de latim que se espalham pelo texto. Além de ser ótima leitura, o romance ainda nos incrementa a cultura.
O romance traz duas estórias em paralelo: um jovem diplomata e sua busca pelos antepassados e um jovem jesuíta que parte da metrópole para a colônia, e na colônia se depara com sua queda, causado ou não pelo anjo caído.
Chamou-me mais atenção os detalhes com que a narrativa retrata a viagem de Lisboa a Salvador, depois a vida na colônia, a capital Salvador no seu esplendor, a pequena São Vicente e a subida da Serra do Mar até Piratininga e Maruery (hoje Barueri, e que outrora foi uma grande aldeia indígena). O escritor desvela toda sua cultura histórica e ensina enquanto entretém o leitor com uma trama bem costurada.
No final, o livro se torna um pouco previsível, mas não tira o mérito da obra. Vale a leitura.
terça-feira, 5 de novembro de 2019
A treva, de Adélia Prado
Foto: Alta noite, Renato Bueloni Ferreira |
A TREVA
Adélia Prado
Me escolhem os claros do sono
engastados na madrugada,
a hora do Getsêmani.
São cruas claras visões,
às vezes pacificadas,
às vezes o terror puro
sem o suporte dos ossos
que o dia pleno me dá.
A alma desce aos infernos,
a morte tem seu festim.
Até que todos despertem
e eu mesma possa dormir,
o demônio como a seu gosto,
o que não é Deus pasta em mim.
(Poesia Reunida, 2a. ed. Rio de Janeiro : Record, 2016, p. 249)
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quarta-feira, 21 de agosto de 2019
Saber viver, de Cora Coralina
SABER VIVER
Cora Coralina
Não sei…
se a vida é curta
ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura…
enquanto durar.
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terça-feira, 26 de março de 2019
Perfeito, de Eucanaã Ferraz
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terça-feira, 2 de maio de 2017
Beatriz Bracher e a condição feminina
O que significa "condição feminina" para você?
"No meu livro mais recente, ao escrever, percebi que esse era um tema dos mais fortes. Quis que fosse assim, conscientemente. Nos outros livros não. Para mim é muito difícil lidar com estas expressões, seja "condição feminina"ou uma ideia contemporânea de que o feminismo é das mulheres e não dos humanos, sabe? Essa coisa de que as mulheres têm que falar, têm que ter espaço. Na minha cabeça, mulheres e homens têm que falar sempre, mas entendo e sei que não é um caminho "errado". Mas é diferente do meu caminho. Tenho um pensamento que talvez não seja tão estratégico. Por isso tenho medo de criticar. Acho que as feministas têm um pensamento muito estratégico e isso nem sempre reflete uma busca de verdade. Acho que reflete uma busca da justiça. E num país como o nosso, que tem tanta violência contra a mulher, acho que elas, as feministas estão certas. Acho que a luta é esta e tem que ser desta forma. Mas alguém que é uma ficcionista não pode seguir esse caminho. Tem que complicar as coisas. Tem que virar um pouco do avesso. Colocar o homem no meio. No livro, o que eu fui descobrindo, ao escrever, lendo Milton, pensando sobre Adão e Eva, é que a condição do machismo, a cultura machista que a gente vive, faz com que todos nós estejamos sujeitos a ela. É uma cultura em que a mulher oprimida sim, mas o fato de o homem ser o opressor não quer dizer que ele também não foi levado a esse caminho. Há uma forma de violência nisso. De você ter sido levado a ser opressor. É muito difícil reconhecer isso. Às vezes você tem atitudes que nitidamente revelam que o homem é mais "forte" que a mulher, o que faz parte de um sistema de crenças. Abrir a porta do carro para mulher entrar, por exemplo, é do nosso sistema de crenças, uma gentileza. Daí a você chamar uma pessoa que tem um gesto machista, de machista, eu acho inverídico, mentiroso. E a gente sabe que é mentiroso. Só que estrategicamente é muito interessante você radicalizar, ser muito agressivo em relação a essas coisas, mesmo que não sejam verdades, porque no jogo político você lida com inverdades. Condição feminina para mim é como as mulheres vivem hoje no mundo inteiro em todas as classes. E a condição é ruim porque tem muita opressão, sofrimento e injustiça. São muitas visões. Uma é a de quem está na luta política. A de uma ficcionista é outra."
(Vila Cultural, edição 156, abril 2017, p. 8-9)
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
A sabedoria de Adélia Prado
O trecho é extraído do Valor Econômico, Caderno Eu&, de 3 de fevereiro de 2017, p. 23, em entrevista concedia por Adélia Prado à jornalista Andrea Jubé.
"(...) Pergunto o que ala acha das feministas. 'O feminismo já é um termo político, ele supõe bandeiras, isso é vão. Uma bandeira feminista que quer se afirmar como mulher em competição ou em superioridade não vai a lugar nenhum. O valor da mulher e do homem, a dignidade de cada um, não é de dignidade de gênero, é dignidade da pessoa humana. É hediondo matar a mulher só porque ela é mulher? Não, porque ela é humana. Chegamos a um tal ponto de alienação que começamos a dar esses nomes, 'feminicídio', porque os valores do feminino desapareceram, estão em baixa, as mulheres são competidoras, e não cooperadoras.'
E prossegue: 'A bandeira feminista conseguiu para nós direitos civis importantes, mas você tem de ser uma engenheira mulher, uma médica sem perder seus valores. A gente vê mulheres se tornarem companheironas dos homens', critica. 'É a coisa mais triste, se o homem me tratar como companheirona, eu fico mal, eu não sou companheirona, eu sou uma mulher em contraposição a um ser humano que é homem. Quero que permaneça essa eletricidade entre homem e mulher.'"
Adélia Prado nos brinda com palavras de sabedoria, com uma simples reflexão que tem sido sufocada por bandeiras e agendas e palavras de ordem. No meio da gritaria, surge a voz da lucidez.
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segunda-feira, 21 de março de 2016
Carlos Drummond de Andrade : Ontem
| Pinacoteca de São Paulo, instagram @rbueloni |
ONTEM
Até hoje perplexo
ante o que murchou
e não eram pétalas.
De como este banco
não reteve forma,
cor ou lembrança.
Nem esta árvore
balança o galho
que balançava.
Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado
não no ar, em mim,
que por minha vez
escrevo, dissipo.
(A Rosa do Povo. 7a. ed. Rio de Janeiro : Record, 1991, p. 58-9)
No Dia Mundial da Poesia, palavras de Drummond para que todos escrevam, dissipem e leiam poesia.
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sexta-feira, 9 de outubro de 2015
Navegando pela escrita
Um livro com uma coletânea de textos de jovens escritoras (entre 10 e 15 anos). Os textos estão em português, inglês e espanhol, uma viagem por línguas e palavras e dialetos e pela criatividade.
Prestigie o lançamento deste projeto!
sábado, 7 de março de 2015
Vinicius de Moraes : Senhor, Eu não sou digno
SENHOR, EU
NÃO SOU DIGNO
Para que
cantarei nas montanhas sem eco
As minhas
louvações?
A tristeza
de não poder atingir o infinito
Embargará
de lágrimas a minha voz.
Para que
entoarei o salmo harmonioso
Se tenho na
alma um de-profundis?
Minha voz
jamais será clara como a voz das crianças
Minha voz
tem a inflexão dos brados de martírio
Minha voz
enrouqueceu no desespero…
Para que
cantarei
Se em vez
de belos cânticos serenos
A solidão
escutará gemidos?
Antes ir.
Ir pelas montanhas sem eco
Pelas
montanhas sem caminho
Onde a voz
fraca não irá.
Antes ir –
e abafar as louvações no peito
Ir vazio de
cantos pela vida
Ir pelas
montanhas sem eco e sem caminho, pelo silêncio
Como o
silêncio que caminha…
(Vinicius de Moraes. As Coisas do Alto. São Paulo : Companhia das Letras, 1993, p. 37)
sábado, 21 de fevereiro de 2015
O "Paraíso" de Tatiana Salem Levy
Sabedor do novo livro de Tatiana Salem Levy, fui à Livraria da Vila da Lorena no início de dezembro em busca do livro. Acostumei-me a me adiantar às livrarias. Fico sabendo dos lançamentos pelos jornais ou pelos perfis dos escritores nas redes sociais e me antecipo ao mercado. Foi assim com os poemas de Fernando Pessoa declamados por Maria Bethânia e Cleonice Berardinelli. Até agora a Saraiva ainda não tem o produto disponível e a maioria das livrarias ainda não recebeu o DVD.
A vendedora me olhou com perplexidade quando perguntei sobre o livro. Ela parecia desconhecer a autora, um dos expoentes da literatura brasileira contemporânea. Foi consultar o terminal. O livro acabara de chegar. Estava na caixa no subsolo da loja. Comprei o primeiro exemplar do livro recém-chegado.
Um dileto amigo que me acompanhava e que é ávido comprador de livros (e leitor) me inquire:
- Você gosta tanto dela assim para comprar um livro sem sequer folhear e dar uma lida em alguns trechos? Você sabe do que se trata a estória?
Respondi afirmativamente às duas questões.
Encantei-me com a prosa de Tatiana Salem Levy em "A Chave de Casa". O livro ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura em 2008 por melhor autor estreante. A forma narrativa, o estilo, o despojo na escrita me cativaram. Virei fã e leitor fiel.
Em seu novo livro, a escritora trata de temas sociais e volta a dialogar com a memória como forma de compreender quem somos. Tatiana parece indagar - através de seus personagens - sobre a importância do passado na formação do nosso caráter, na construção de uma personalidade que não é inovadora e inédita, mas um somatório de fatores familiares que são transportados de geração em geração ainda que de forma silenciosa e não deliberada.
Estou a digerir as impressões sobre a saga de Ana, protagonista de Paraíso. Parece-me que o novo livro é inferior aos dois anteriores, mas não tenho a certeza. Ana refugia-se num sítio em Nogueira, na região de Petrópolis, no Rio de Janeiro em busca de paz para escrever um romance histórico e em busca de isolamento para lidar com o potencial contágio de AIDS, após uma noitada irresponsável. O título pode se revelar contraditório, pois a calmaria da serra não espanta os fantasmas interiores de Ana. E ela desfia-os ao longo do romance.
A prosa leve de Tatiana é envolvente e o livro, que como a boa literatura brasileira não se tornará um best seller, vale a leitura. E a discussão. A esta discussão retorno em outro post.
PS: clique no tag abaixo para ler mais sobre Tatiana Salem Levy.
quarta-feira, 23 de julho de 2014
Epígrafe - XXVIII
"O morrer pertence a Deus, o cuidado dos homens é a vida. E o homem afinal sabe que, morto ele, a vida não está morta; fica a árvore, fica o filho e fica o neto, a casa fica. A vida continua igual ao que era mil anos atrás. Porque as obras do homem podem mudar e mudam, mas o homem, que é a obra da vida, esse não muda nunca."
Rachel de Queiroz ( Falso Mar, Falso Mundo. São Paulo : Arx, 2002, p. 187-8)
Fica a obra, o legado, os escritos. Numa semana que levou João Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves, e que parecem ter convidado Ariano Suassuna a se juntar a eles, fui buscar em Rachel de Queiroz algumas palavras para refletir, para ultrapassar a superfície do mar e mergulhar nas profundezas da vida.
Afinal um escritor se faz sempre presente nos seus livros, nos seus escritos, nas suas palavras.
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quarta-feira, 30 de abril de 2014
Epígrafe - XXVI
"Se a infelicidade produz literatura, será certo também dizer que a literatura produz felicidade."
Cristóvão Tezza
A citação foi tirada da parte final da conferência de Cristóvão Tezza, proferida na Academia Brasileira de Letras, dentro do Ciclo "Vozes contemporâneas : a ficção", que traz grandes autores brasileiros.
As outras conferências estão disponíveis na íntegra no canal do Youtube da ABL.
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terça-feira, 25 de março de 2014
Inatingível, de Vinicius de Moraes
INATINGÍVEL
Vinicius de Moraes
O que sou eu, gritei um dia para o infinito
E o meu grito subiu, subiu sempre
Até se diluir na distância.
Um pássaro no alto planou vôo
E mergulhou no espaço.
Eu segui porque tinha que seguir
Com as mãos na boca, em concha
Gritando para o infinito a minha dúvida.
Mas a noite espiava a minha dúvida
E eu me deitei à beira do caminho
Vendo o vulto dos outros que passavam
Na esperança da aurora.
Eu continuo à beira do caminho
Vendo a luz do infinito
Que responde ao peregrino a imensa dúvida.
Eu estou moribundo à beira do caminho.
O dia já passou milhões de vezes
E se aproxima a noite do desfecho.
Morrerei gritando a minha ânsia
Clamando a crueldade do infinito
E os pássaros cantarão quando o dia chegar
E eu já hei de estar morto à beira do caminho.
quarta-feira, 19 de março de 2014
Epígrafe - XXV
"Desde que tudo isso começou, tenho percebido que sentir saudades significa, em alguma parcela, arrepender-se."
(Ricardo Lísias, O céu dos suicidas. Rio de Janeiro : Objetiva, 2012, p. 18)
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Sinfonia em branco
Resenha do romance Sinfonia em Branco, de Adriana Lisboa (2a. Ed. Rio de Janeiro : Objetiva, 2013), vencedor do Prêmio José Saramago.
“O amor era como a marca pálida deixada por um quadro removido após anos
de vida sobre uma mesma parede. O amor produzira um vago intervalo em seu
espírito, na transparência dos seus olhos, na pintura envelhecida da sua
existência. Um dia, o amor gritara dentro dele, inflamara suas vísceras. Não
mais. Mesmo a memória era incerta, fragmentada, pedaços do esqueleto de um
monstro pré-histórico enterrados e conservados pelo acaso, impossível recompor
um todo íntegro. Trinta anos depois. Duzentos milhões de anos depois.”(p.
15-6)
Tomás entra em cena de forma
enigmática. Um homem que aguarda a chegada de Maria Inês, irmã de Clarice.
Maria Inês era “uma mulher que a memória
sempre vestia de branco e de juventude”.
Logo no primeiro capítulo,
Adriana Lisboa, de forma lírica e provocadora, apresenta-nos Tomás, Clarice e
Maria Inês. As duas últimas são irmãs. Maria Inês casa-se com João Miguel,
primo de segundo grau, forma-se em medicina e permanece morando no Rio. Não
retorna mais para Jabuticabais, onde nascera e crescera. Clarice, após a morte
da mãe e do pai, volta para a fazenda e ali permanece, vizinha de Tomás.
Dois vizinhos que se tornam
amigos e confidentes nas madrugadas frias e insones. A conversa geralmente
orbita em torno de Maria Inês e a ansiedade do reencontro com a visita que se
torna próxima.
Clarice casou-se com Ilton
Xavier, outro vizinho da fazenda de Afonso Olímpio e Octacília. Clarice trazia
consigo o queloide nos pulsos nus resultado de uma tentativa frustrada de
cortar os punhos.
“Um dia, a morte. Clarice sentiu mais uma vez com as pontas dos
polegares as duas cicatrizes gêmeas, uma em cada punho. E sorriu um sorriso
involuntário e triste, um sorriso sem mistérios, ao pensar que afinal acabara
sobrevivendo a si mesma.”(p. 35-6)
Clarice era menina obediente e
submissa; Maria Inês carregava uma vivaz insubordinação, gostava de desafiar o
proibido. O temperamento de Clarice talvez tenha contribuído para o ocorrido, e
ela carregara consigo a culpa pelo fato, ainda que de forma velada.
“Poucos anos haviam sido suficientes para escurecer Octacília, para
nublar seus olhos de águas-marinhas azuis e engravidá-los de tempestade, para
deixá-la parecida com uma madrugada fria e insone. Seu humor escurecia a cada
dia, e não havia para Clarice modo de deixa de sentir-se ao menos um pouquinho culpada. Tinha certeza de
que a mãe não a amava. Talvez porque tivesse feito algo? Alguma coisa muito feia e censurável de que nem mesmo
se lembrasse?”(p. 39)
Certo dia Octacília decide enviar
Clarice ao Rio de Janeiro para morar com uma tia solteirona e ali passar uma
temporada de estudos. Octacília e Clarice não eram próximas e uma semana após a
decisão de enviar Clarice ao Rio, Octacília chama a filha no meio da noite para
ver a lua. Conversam pouco, mas resta a impressão de que Octacília culpa
Clarice pelo ocorrido.
“Entre elas não havia confissões, não havia trocas de carinhos, mas
muitos e longos silêncios. Desde sempre. Sobretudo por isso Clarice
surpreendera-se com aquela iniciativa, mandá-la para o Rio de Janeiro. Pois se
tudo era tão subterrâneo, se tudo era tão secreto.”(p.92)
O ano era 1965 e Clarice
permaneceu no Rio por cinco anos. Nestes anos, Clarice tenta esquecer e moldar
uma nova Clarice. Dali saiu diretamente para igreja de Jabuticabais onde lhe
esperava no altar Ilton Xavier. O casamento durou 6 anos e numa manhã qualquer,
Clarice partiu sem dizer nada. Sem rumo, Clarice vive de bicos no interior até
chegar ao Rio, onde mergulha nas drogas e é “adotada” por um namorado
traficante. Passado algum tempo, ela tenta o suicídio.
Tomás é um personagem
coadjuvante, à margem das mulheres da trama, mas cuja história traz consigo um
caráter de homem-objeto, um acessório de Maria Inês. Esta, por sua vez, parece
saltar pelo mundo em busca de um amor verdadeiro, mas contenta-se com a
superficialidade da variedade. Primeiro, Tomás. Depois Bernardo, um colega de
turma que se transforma em cantor lírico e que coleciona namoradas em diversas
cidades do mundo, como um marinheiro nômade e sem residência fixa. Quando está
no Rio, protagoniza encontros sexuais com Maria Inês, onde ela se submete a ser
mais uma na coleção de Bernardo Águas. João Miguel é o marido, com queda por
jovens bonitos e moças jovens. Maria Inês nota isto num café em Veneza, ponto
de partida para uma encruzilhada em seu relacionamento.
Mas Tomás parece ser o mais
sincero em relação aos seus sentimentos. Aceita ser o “outro” de Maria Inês. E
por ela espera durante quase toda a vida. Em certo trecho, a autora ao narrar a
primeira vez em que Tomás avista Maria Inês na sacada do apartamento do
Flamengo, na rua Almirante Tamandaré, e passa a desenhá-la de forma obcecada,
sua vida termina antes de começar (“A
vida de Tomás que terminou antes de começar.” – p. 149).
Tomás insiste num amor ao qual
Maria Inês se recusa a abraçar. “Mais
tarde ela diria por favor, Tomás, não se apaixone por mim, e ele perguntaria,
sorrindo, por quê?, ao que ela responderia porque eu não estou apaixonada por
você. Naquele momento, porém, e mesmo depois da revelação da não paixão, Tomás
se assegurava: seria possível. Teria de ser possível. Porque o amor dele seria
talvez suficiente para dois, como um prato farto num restaurante. Suficiente
para alimentar duas pessoas, um desejo em dobro capaz de arcar com o peso de
dois destinos, inclusive, e irmaná-los.”(p. 157)
Tomás insiste e reclama quando
Maria Inês não lhe informa a morte de Octacília. Quando Afonso Olímpio morre,
Tomás vai a Jabuticabais, conhece Clarice e nota os olhos secos das duas irmãs
no velório.
“Estavam secos.
Como estavam também os olhos de Maria Inês: secos. Estranhamente secos,
mais secos que os olhos das pessoas quando estão secos. E a ausência de
lágrimas pesava naqueles olhos marejados de falta, marejados de silêncio.”(p.
237-8)
Tomás não pergunta, não inquire,
não invade. A sua presença no velório já era uma invasão. A invasão de um
segredo que é compartilhado num único olhar entre Clarice, Maria Inês e Tomás.
Ele de nada sabia, mas desconfia de algo muito bem guardado pelas irmãs.
Após a morte do pai, Maria Inês
fica noiva de João Miguel e comunica a Tomás. “Uma paixão muito jovem. Que dividiu a existência de Tomás em duas
metades, em dois hemisférios. Em dois períodos: um a.M.I. e um d.M.I.”(p.
241)
“Maria Inês foi embora, mas não definitivamente. Voltou três meses
depois, e continuou voltando ao longo dos dois anos seguintes. Uma Maria Inês
clandestina que mais tarde haveria de se culpar e acreditar que o belo Paolo em
Veneza era somente uma espécie de troco.”(p. 243).
Ao final, descobre que Eduarda, a
moça que tem os seus olhos transparentes, é sua filha.
Maria Inês, a protagonista, parece ter medo do amor, da entrega, do sacrifício que um relacionamento exige. João Miguel, o primo que virou marido, é o companheiro conveniente, conquistado sem esforço. Tomás, o devotado e apaixonado amante, é posto de escanteio, quase esquecido, mas Tomás não teve medo de arriscar, de abraçar a paixão que lhe assolara. Maria Inês, por sua vez, segue sua vida sem se amarrar, sem criar fundações definitivas e mais profundas. Sim, Maria Inês tem medo do amor, medo de encontrar o amor verdadeiro e duradouro.
Havia uma pedreira perto da
fazenda e Maria Inês e Clarice sobem ao alto da pedreira num dia de junho, após
a tradicional festa junina.
“Maria Inês sentiu a pele da nuca eriçar-se, como se ela fosse um gato,
e perguntou com a voz forte para que ele pudesse ouvi-la de onde estava: o que
houve? O que veio fazer aqui?
Não fale assim com ele, Clarice censurou.
As distorções dela eram filhas das distorções dele. Claro.
Diante de Maria Inês e de Clarice, plantado no meio daquelas pedras
como um fantasma, os cabelos ralos esvoaçando, Afonso Olímpio viu o rosto das
coisas que ele poderia ter feito, mas não fizera. E também aquele sombrio das
coisas que ele não deveria ter feito, mas fizera, ainda assim. Um homem carente
da melhor parte de si mesmo, daquilo que agora pudesse sustentá-lo de pé.
Você acredita em inferno, pai?, Maria Inês perguntou.” (p. 288-9)
“Ela surpreendeu-se por ouvir-se dizendo aquela palavra, pai, que foi a
última que disse a ele e a última que ele próprio ouviu. Depois, muito
levemente, empurrou.” (p. 293)
O tão desejado esquecimento se
resume a um momento em que Clarice vê o pai despencar do alto da pedreira. E a
partir daquele momento, inicia o processo de cicatrização.
“O Esquecimento Profundo não existia. Clarice sabia. Nunca fora capaz de
esculpi-lo – de reivindicá-lo para si. Também não existia algo como uma
lembrança inócua, uma ferida cauterizada. Um bicho sem as presas e sem os
dentes, sendo, apenas. A pacificação do passado com tudo aquilo que ele
comportava. Existia uma cidade na memória de Clarice, uma cidade destruída pela
guerra ou por um terremoto. Agora, havia construções novas e o entulho já fora
removido e os mortos, enterrados – porém, haveria como reverter aquela memória?
Como atualizá-la?” (p. 303-4)
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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Epígrafe - XXIII
"De minha parte eu também não saberia explicar, se foi algo que ela disse durante nossa primeira conversa, se foi o perfume dela, a roupa, os cabelos, as mãos, o jeito como ela segurava o garfo, como limpava a boca antes de pegar o copo, como deixou que eu encostasse o meu joelho nela e em um único momento ao longo da noite me olhou mostrando que sabia que eu estava sentindo o calor da perna dela, e numa fração de segundo tanto eu quanto ela nos mantivemos firmes em vez de desviar o rosto ou afetar algum gesto de naturalidade ou distanciamento irônico relativo àquele contato, uma fração de segundo e o que você foi até ali vira passado, um estalo e o jantar e a conversa e os dias e anos seguintes viram outra coisa, e é muito rápido e muito delicado mas inconfundível porque em quatro décadas você nunca teve esse pressentimento."
(Michel Laub. Diário da Queda. São Paulo : Companhia das Letras, 2011, p. 149)
Em um único momento, o encontro se aperfeiçoa e a partir daquele único momento - que pode não ser notado, reparado ou percebido - a vida nunca mais é a mesma. O foco se direciona a um novo ser que causa frio na barriga, arrepios, sorrisos, alegria.
Uma janela se abre e a luz inunda o quarto escuro da alma apagada e à deriva, vagando sem rumo, apenas esperando. Esperando o quê? Ele não sabia. Apenas esperava. E um dia, num único momento, no primeiro beijo a vida toma um novo rumo. Impossível negar, impossível rejeitar o que aconteceu. É fato e ainda que o silêncio substitua as longas conversas regadas a sorrisos, a carinho, a ternura, ao cuidado sempre dispensado de parte a parte, ele espera pacientemente.
E como um cão à espera de seu dono, senta-se à porta e fica a esperar o dia em que o silêncio será quebrado.
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terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Essa amplidão, de Marina Colasanti
ESSA AMPLIDÃO
Abertas pernas neste fim de tarde
não é apenas teu corpo que me invade
deitado sobre o meu.
Essa amplidão lá fora entre as montanhas
o ouro dos ipês, as quaresmeiras,
o chamar-se dos cães, os
sons distantes
tudo me adentra e lambe
como água
tudo me acaricia
tudo me expande.
Mury 2008
(Passageira em trânsito. Rio de Janeiro : Record, 2009, p. 121)
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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Michel Laub e seu Diário da Queda
"Naquela época eu falava muito pouco com o meu pai. Ele chegava em casa à noite, exausto, e eu já tinha jantado e na maioria das vezes estava dormindo. Se eu fosse contar o tempo que passávamos juntos por semana não daria mais que algumas horas, e como nessas horas estavam incluídos os discursos sobre os judeus que morreram nas Olimpíadas de 1973, os judeus que morreram em atentados da OLP, os judeus que continuariam morrendo por causa dos neonazistas na Europa e da aliança soviética com os árabes e da inoperância da ONU e da má vontade da imprensa com Israel, é possível que mais da metade das conversas com ele teve comigo girassem em torno desse tema."
(Diário da Queda. São Paulo : Companhia das Letras, 2011, p. 36)
"É a quinta vez que venho à Alemanha, e a primeira deois de ter um livro publicado aqui. Meu pai era de Berlim, emigrou para o Brasil por causa do nazismo e morreu antes do lançamento de Diário da Queda, que tem um personagem com trajetória semelhante, embora seja menos autobiográfico do que parece. Às vezes passo semanas sem pensar no meu pai, mas nos últimos dias sinto saudades dele. a viagem ganha um toque sentimental inesperado, que me faz contar em público histórias sobre ele que nunca contei. Ao mesmo tempo, a ideia de usar a memória privada de alguém para promover um livro me constrange."
(Michel Laub, "Semimorto em Frankfurt" in Revista Piauí 86, novembro de 2013, p. 34)
Meu primeiro contato com Michel Laub foi na cerimônia de entrega do Prêmio Portugal Telecom de Literatura de 2012, quando concorreu na categoria romance. Troquei algumas palavras com o escritor. No final, os convidados podiam escolher um livro para levar para casa. Escolhi o Diário da Queda (Companhia das Letras, 2011). Logo em seguida, li seu texto publicado na Granta em português (volume 9) e gostei do estilo, da forma narrativa, da novidade.
Confesso que sempre busco algo novo nos livros que leio. Quer seja um estilo narrativo, quer seja um ponto de vista ou uma forma de contar a estória. A mesmice é bestificante e pouco provoca o leitor.
Somente em outubro deste ano iniciei a leitura da obra. O primeiro terço fluiu muito rapidamente e o estilo de Michel Laub ficava mais patente a cada parágrafo, a cada página. Em dado momento, pareceu-me que ele perde o foco narrativo, a estória derrapa, pois é contada em camadas espiraladas e a cada volta no espiral, compreende-se melhor a estória.
O livro é narrado em primeira pessoa, em tom confessional. O final surpreende pela beleza e pela epifania do narrador que aparenta redescobrir a alegria de viver.
Em síntese, o livro trata do relacionamento entre um pai e o filho (narrador), suas crises, a revolta diante da religião da família, conflitos diante da herança familiar - não do ponto de vista financeiro, mas do ponto de vista histórico e cultural -, a descrença no ser humano, a perda da razão de viver com o alcoolismo e a epifania final.
Michel Laub trabalha com a memória, tema que tem sido tão bem explorado por escritores brasileiros contemporâneos e jovens, tais como Daniel Galera e Tatiana Salem Levy. Esta última trabalha a memória tanto em Dois Rios, como em A Chave de Casa (2007). Seria esta uma temática dominante nos jovens escritores brasileiros? Só tempo dirá.
Postado por
Renato
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10:55 AM
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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
O Livro das Palavras: uma contribuição sobre o processo criativo
"Em que medida as constantes mudanças de seus primeiros onze anos de vida e os cenários de infância ajudaram a definir seu caminho literário?
Em todas as medidas. Ao estabelecer a característica itinerante da minha vida, me deram desde o início a consciência da solidão - você é mais só quando é diferente - e da multiplicidade do mundo. E me deram, tesouro maior, a leitura - porque tudo ficava para trás a cada mudança, meus pais supriam com livros esse vazio."
(O Livro das Palavras : conversas com os vencedores do Prêmio Portugal Telecom. org. José Castello e Selma Caetano. São Paulo : Leya, 2013, p. 131)
A resposta foi dada por Marina Colasanti em excelente obra lançada pela Leya no dia da entrega do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2013.
A obra traz entrevistas com os vencedores anteriores do Prêmio e discute o processo criativo da escrita, a literatura, a construção das personagens, dos diálogos, dos enredos. A lista contém 27 nomes da prosa e da poesia, mas todos tratando do mesmo assunto.
Para quem gosta de escrever, é leitura imprescindível e de grande valia.
Curiosas são as respostas de Dalton Trevisan, que ganhou o Prêmio, mas não compareceu à cerimônia de entrega e respondeu às perguntas por escrito.
"Nada a dizer for dos livros. Só a obra interessa, o autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor que o contista.
Vampiro, sim de almas. Espião de corações solitários. Escorpião de bote armado, eis o contista.
Para escrever o menor dos contos a vida inteira é curta. Uma história nunca termina, ela continua depois de você." (p. 70)
domingo, 10 de novembro de 2013
Barcarola, de Vinicius de Moraes
BARCAROLA
Parti-me,
trágico, ao meio
De mim
mesmo, na paixão.
A amiga
mostrou-me o seio
Como uma
consolação.
Dormi-lhe
no peito frio
De um sono
sem sonhos, mas
A carne no
desvario
Da manhã,
roubou-me a paz.
Fugi,
temeroso, ao gesto
Do seu
receio modesto
E cálido;
enfim, depois
Pensando a
vida adiante
Vi o
remorso distante
Desse crime
de nós dois.
(As Coisas do Alto. São Paulo : Companhia das Letras, 1993, p. 113)
Postado por
Renato
às
8:35 PM
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