terça-feira, 17 de abril de 2007

Crônica: Desencontros

Mariana notou que já se passara das 9 da noite. Saulo estava atrasado novamente, como sempre. Estavam separados há 4 meses e ele havia lhe pedido uma nova chance para conversarem. Ela foi reticente, mas cedeu diante da insistência de que seriam apenas 30 minutos. Não era um jantar, nem um encontro, apenas uma conversa. Uma tentativa de reconstruir a ponte do diálogo.

Os atrasos de Saulo, o descaso com os horários, a falta de consideração eram motivos que irritavam Mariana. Uma pedra a mais que fora retirada do edifício do relacionamento deles e que ruiu aos poucos. Ficaram casados 6 anos, sem filhos. Quando Mariana começava a se enervar, o interfone tocou. Era ele.

- Desculpe, Mari! – foi se justificando. O trânsito estava péssimo e meu chefe me ligou na hora em que estava saindo.

Não houve beijos trocados. Cumprimentaram-se de longe. Ela conhecia bem a ladainha. Ele nunca chegava no horário. O trabalho era primordial na vida dele e isto sim tinha sido um motivo grave para as brigas infindáveis que tiveram nos últimos 8 meses antes de decidirem partir por caminhos diferentes.

- Estou aqui te esperando. Sente-se. Sou toda ouvidos. – disse enquanto sentava numa poltrona que ficava na diagonal de onde Saulo já tinha se acomodado.

- Queria saber como você está, como tem passado. Sinto sua falta.

- Estou bem. Descobrindo meu novo momento, refletindo, repensando a vida e descobrindo quantas coisas deixei de fazer por sua causa. Quantas noites fiquei te esperando e nem um telefonema, nem um sinal de vida. Quantas vezes senti-me desprezada, sem carinho, sem atenção, sem uma palavra amiga. Quantas vezes chorei e não te tinha ao meu lado para me abraçar. Descobri tudo isto, claro que com muita conversa com minhas amigas. Amigas de verdade que estiveram do meu lado nestas horas duras. Sim, foram duras. Mas estou bem e tenho estado bem no último mês. Confesso que não sinto saudades de você, Saulo. E vc sente minha falta? Falta é algo frio. Falta eu supro com amigos que me fazem companhia, algo que você não fazia.

- Não foi bem isto que quis dizer.

- Foi sim. Você nunca soube usar as palavras de forma adequada. Você nunca soube me entender, você nunca conseguiu ler meus pensamentos ou adivinhar o que se passava na minha cabeça. Você não reparava nem quando eu ficava gripada e minha voz saía toda fanha. Você pensou em quantas vezes jantamos em silêncio, sem uma palavra, sem um olhar trocado, sem sequer perguntarmos sobre o dia do outro?

Mariana sabia que ele não se recordaria. O silêncio tinha sido o companheiro de Mariana nos meses finais do relacionamento. Saulo ficou mudo, congelado, sem dizer palavra alguma. Ela continuou.

- Eu sei que você não se lembra. Sempre foi um egoísta que só pensa em você mesmo. Deixou de pensar em mim há muito tempo. Eu sei bem disto. Não adianta vir dar uma de coitado pra cima de mim. Precisava de seu apoio, de seu companheirismo, de seu ombro. Você me perdeu. Você estava mais interessado na carreira, nas estagiárias, nas secretárias...- suspirou profundamente, abortando a continuação, pois estes pontos eram por demais dolorosos. Mariana sabia das aventuras de Saulo e de suas fãs no trabalho.

E continuou:

- Agora vou tocar minha vida. Agora vou seguir adiante. Estou bem sim e não preciso e não quero nem pensar em tentar de novo. Acabou. Não perca seu tempo comigo. Não vou ser um capacho para você. Cansei de ser tratada com desprezo. Cansei de ser um estepe para você. Agora não tem mais hora para chegar em casa e pode ficar com suas coleguinhas de trabalho no happy hour.

Saulo não esperava este longo sermão que o rejeitava e destruia toda sua linha de argumentação. Estava perplexo, indefeso. Seu olhar perdeu-se nos olhos de Mariana. Olhava-a fixamente tentando ler seus pensamentos, tentando perceber o que se passava naquela cabecinha. Queria descobrir alguma luz ou trilha a seguir para mudar o rumo da conversa. Mas ele nunca tinha sido um bom leitor de pensamentos, ele nunca conseguira perceber o que se passava na cabeça da ex-mulher apenas com um olhar. Ela notou e sua intuição foi mais ágil,

- Você nunca foi capaz de entender meu silêncio! Você nunca foi capaz de pensar em mim como eu sou, como alguém que te amou e te amava. Repito: amava!

Abaixou a cabeça, olhou-a nos olhos e saiu sem dizer uma palavra.

2 comentários:

Anônimo disse...

Uau...começar o dia lendo uma crônica sobre a clássica "DR" e escrita por um homem, é no mínimo estimulante, riso!
Achei o texto bom, mas não sei se na vida real um homem ouviria tudo isso que a Mariana disse sendo tão complacente...um homem raramente concorda com os pontos de vista feminino, mesmo qdo sabe que eles estão corretos.
É interessante ver como vc procura desenvolver, digamos, "seu lado feminino" (sem ser pejorativa), ao escrever suas crônicas e poesias...é sensível assim tb no dia a dia, na vida real?
Sabe o que gostaria? Gostaria de um dia ler uma crônica sua que tivesse um final feliz...em que um encontro desse certo, em que o casal tivesse uma simbiose...gostaria de saber se vc é tão bom tb escrevendo algo assim...que tal?
Não esqueci seu desafio, viu, é que ainda não tive tempo de ler o livro, mas, me aguarde...

Fernanda

Fernanda disse...

Uau...começar o dia lendo uma crônica sobre a clássica "DR" e escrita por um homem, é no mínimo estimulante, riso!
Achei o texto bom, mas não sei se na vida real um homem ouviria tudo isso que a Mariana disse sendo tão complacente...um homem raramente concorda com os pontos de vista feminino, mesmo qdo sabe que eles estão corretos.
É interessante ver como vc procura desenvolver, digamos, "seu lado feminino" (sem ser pejorativa), ao escrever suas crônicas e poesias...é sensível assim tb no dia a dia, na vida real?
Sabe o que gostaria? Gostaria de um dia ler uma crônica sua que tivesse um final feliz...em que um encontro desse certo, em que o casal tivesse uma simbiose...gostaria de saber se vc é tão bom tb escrevendo algo assim...que tal?
Não esqueci seu desafio, viu, é que ainda não tive tempo de ler o livro, mas, me aguarde...

Fernanda