Mostrando postagens com marcador cultura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cultura. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Epígrafe - XXI



"Se houvesse apenas uma única verdade, não se poderiam pintar cem telas sobre o mesmo tema."

Pablo Picasso (1881-1973) (Revista História Viva, Ano XI, n. 121,  novembro de 2013, p. 13)


A realidade permite variadas interpretações, narrativas, versões, descrições, mas isto não a transforma a realidade única em múltipla. Da mesma forma, a verdade é única, ainda que seja descrita parcialmente ou de forma distinta. Se houvessem múltiplas verdades, o conhecimento da realidade não seria possível. 

Picasso parece confundir esta multiplicidade de versões que retratam a verdade e a realidade de forma parcial, ou seja, as várias versões sobre o mesmo tema são complementares e conduzem ao conhecimento da verdade plena e única.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Museus em alta


A reportagem de Mariana Shirai foi publicada no Valor Econômico (edição de 12 de abril de 2012, p. D5) sob o título "O ano das exposições blockbusters no Brasil" e trouxe uma nota bastante interessante: "No fim do mês passado, a exposição de Escher no Rio foi apontada pela publicação britânica 'Art Newspaper' como a mais popular no mundo (maior média diária de visitantes), com 573.691 visitantes."

O número de visitantes é um indicador muito positivo de que há interesse por cultura no Brasil. Desde que as exposições sejam relevantes e bem montadas, o público comparecerá. Os cariocas deram um exemplo com a frequência avassaladora à mostra de Escher. Não me surpreendo, pois o Rio é mais do que "apenas" uma cidade maravilhosa de praias e paisagens indescritíveis. O Rio é uma cidade de cultura pulsante e viva e o CCBB-RJ é um dos lugares mais encantadores para se visitar.

Recentemente tive a oportunidade visitar a mostra sobre a Índia no CCBB-Rio e no CCBB-SP. A mostra de São Paulo - apesar de teoricamente igual - era mais acanhada por culpa do espaço menor, mais apertado, menos iluminado. Os cariocas são privilegiados de poder desfrutar deste grande espaço cultural.

Volto a insistir no que já discuti em posts anteriores: o brasileiro é ávido por cultura e acorrerá às grandes mostras. O Brasil tem excelentes espaços culturais, basta o cidadão ir atrás. E este ano ainda promete com exposições de Leonardo Da Vinci (1452-1519) e Caravaggio (1571-1610), além de uma grande mostra sobre o impressionismo, com obras de MOnet, Renoir, Van Gogh, Degas e Manet, diretamente do acervo do Museu D'Orsay, de Paris.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A obra monumental de Portinari


Guerra, Candido Portinari


"Entre 1952 e 1956, Candido Portinari realizou seus dois últimos e maiores murais, Guerra e Paz (14 x 10 m), encomendado pelo governo brasileiro para presentear a sede da ONU, em Nova York. 

Localizados no hall de entrada da Assembleia Geral, os monumentais painéis estão em local nobre porém de acesso restrito. Por esse motivo, o Projeto Portinari sempre sonhou em expor Guerra e Paz ao grande público."
(Trecho extraído do artigo publicado no livro 'Guerra e Paz - Portinari', editado no ano do cinquentenário da instalação dos painéis na sede da ONU, NY e transcrito no folheto da mostra no Memorial da América Latina, São Paulo).

Os painéis são monumentais, impressionantes, repletos de detalhes que convidam à reflexão e uma olhar atento e demorado. Seus 14 metros de altura preenchem o Salão de Atos Tiradentes do Memorial da América Latina, em São Paulo até o dia 21 de abril, quando seguirão pelo Brasil e outros países, até seu retorno à ONU, em 2013. 

Portinari abraçou o projeto mesmo tendo sido proibido por seus médicos de continuar a pintar. Os médicos tentavam amainar o processo de envenenamento causado pelas tintas.  Ele seguiu adiante e completou sua obra, um legado para toda a humanidade, um retrato das angústias da guerra e da alegria da paz. 

Portinari morreu pela arte que lhe deu vida, pelas tintas que o imortalizaram. 

Além dos dois maravilhosos painéis, a mostra traz cerca de 100 estudos realizados pelo artista antes da elaboração dos painéis. 

Programa imperdível e que pode ser aproveitado com a cidade mais vazia durante o carnaval.

Guerra e Paz, de Portinari 
Exposição dos painéis pintados por Candido Portinari
Período: 7 de fevereiro a 21 de abril de 2012
Local: Fundação Memorial da América Latina,
Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664,
nos seguintes espaços:
Salão de Atos, Galeria Marta Traba e Biblioteca Latino-americana Victor Civita.
Horário: terça a domingo, das 9h às 18h
ENTRADA FRANCA

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Mais cultura ao alcance de todos


Escrevi o post Cultura ao alcance de todos no final da noite de sábado. A ideia era festejar o aniversário de São Paulo com uma abordagem diferente. Pois bem, uma querida amiga chamou-me a atenção para uma novidade que começa no final de janeiro: um passeio gratuito pelo Centro de São Paulo e que resgata  pontos importantes na vida de escritores. 

A notícia completa pode ser lida no portal G1 aqui.

Sem querer antecipar a pauta do G1 (a notícia foi ao ar na manhã do último domingo), esta iniciativa pelo Centro reforça ainda mais a minha tese: a cultura está ao alcance de todos, basta ter vontade e aproveitar os recursos disponíveis.

Aliás, o Centro de São Paulo tem ótimas atrações e todas podem ser percorridas a pé e com segurança. Da     Praça da Sé até o Centro Cultural Banco do Brasil são apenas 5 minutos de caminhada. Incluiria também o Centro Cultural CEF, o Pátio do Colégio, a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP), a Igreja de São Bento (talvez a mais bonita de São Paulo), a Bolsa de Valores, o Edifício do Banespa e o Mercado Municipal. Todos podem ser visitados a pé e de forma gratuita.

A ótima ideia bem que poderia ser seguida por outras cidades brasileiras. O Rio de Janeiro, por exemplo, poderia criar vários roteiros e passeios com referências a escritores e personagens da nossa história. 

domingo, 22 de janeiro de 2012

Cultura ao alcance de todos


Faz algum tempo ouvi da boca de uma amiga - ex-paulistana que hoje mora fora do país - que São Paulo não tinha o que mostrar para visitantes, que não tinha o que fazer, que era uma cidade sem graça. Fiquei irritado ao ouvir a agressão gratuita à minha cidade e provoquei-lhe com a seguinte pergunta:

- Você já foi ao MASP? E a Pinacoteca, conhece?

O silêncio da resposta indicava que não conhecia.

Hoje poderia acrescentar o Museu da Língua Portuguesa, do Futebol, os parques, as lojas, a gastronomia etc. Há muito o que fazer em São Paulo, basta querer e estar atento. Vou me deter apenas na cultura, pois com mais um verão chuvoso nesta minha cidade, as alternativas para locais fechado ganham relevo.

A reclamação daquela cidadã é repetida por muitos paulistanos e por pessoas que vivem reclamando da falta de acesso à cultura. Pois discordo desta postura simplista; há muita cultura disponível em São Paulo e muita cultura disponível gratuitamente.

Além do MASP e da Pinacoteca, há o Centro Cultural Banco do Brasil, as diversas unidades do Sesc espalhadas pela capital, teatros, musicais, centro culturais. Basta procurar que se acha!

A crítica muitas vezes é ouvida em outras cidades brasileiras, mas a resposta será equivalente. As grandes cidades brasileiras têm muita programação cultural a oferecer. Esta semana estive no Rio e aproveitei para visitar o CCBB - Rio que tem uma excelente exposição sobre a Índia. Estava a trabalho, mas foi fácil me programara para aproveitar a oportunidade. Além de ser um belíssimo prédio ao lado da Candelária, a exposição é fascinante e consegue retratar traços de uma cultura tão diferente da nossa. E mais, a mostra é gratuita.

Museu Oscar Niemeyer, Curitiba


Neste mês também - agora gozando férias -, estive em Curitiba e conheci o Museu Oscar Niemeyer. Várias salas com mostras variadas e excelentes. Uma retrospectiva da pintora Anita Malfatti e uma extensa exposição da Coleção Brasiliana do Itaú com gravuras de Debret e Rugendas foram os pontos altos. Encantaram a mim e a meus filhos. Preço do ingresso: R$ 4,00. 

Apreciar arte e saber valorizar a cultura é algo que se incute nas crianças desde pequenos. Antes de dizer que não há nada para fazer, verifique o caderno de cultura do jornal, faça uma pesquisa na internet, pergunte a amigos. A cultura está ao alcance de todos, basta querer.  

São Paulo faz aniversário na quarta-feira e é feriado. Aproveite o dia e desfrute do que ela tem a lhe oferecer.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A polêmica meia-entrada


A meia-entrada foi concebida como um instrumento de acesso à cultura, permitindo que estudantes pagassem apenas metade do valor dos ingressos de espetáculos teatrais, musicais, mostras e demais eventos. Como muitas coisas neste país, algum espertalhão resolveu deturpar a boa ideia e aplicou a mentalidade cartorial e nefasta que ainda vigora nos ambientes estudantis brasileiros.

Algumas entidades estudantis avocaram para si a exclusividade de outorgar o título de estudante a quem lhe pagasse uma taxa para receber uma carteirinha, e assim poderia pagar meia-entrada.

Esta ideia foi ampliada para os idosos, para os alunos cursos de pós-graduação, para alunos de curso técnico, professores de todos os níveis, deficientes e por aí vai. Sou da opinião de que alguns fazem mais jus ao benefício do que outros, mas é fato que a meia-entrada se transformou em instrumento de abuso e aproveitamento indevido. É a famosa regra do “levar vantagem em tudo”, só falta o Gérson e o cigarro Continental (para aqueles que ainda lembram).

Nunca compactuei com esta excrescência e esta deturpação. Quando era estudante universitário, só poderia pagar meia se tivesse a carteirinha da UNE. Por questões ideológicas, preferi pagar inteira a dar um centavo àqueles sujeitos da UNE, muitos deles hoje em cargos públicos.

O fato de tratar do assunto em nada se relaciona com a discussão acerca da meia-entrada para jogos da Copa do Mundo.  Acho um absurdo a imposição da FIFA e não questiono a meia-entrada por causa da FIFA; questiono a meia-entrada como um conceito que foi aplicado de forma exagerada e que, portanto, prejudica a produção cultural e artística brasileira. A lei que deveria beneficiar a classe artística, aumentando o número de pessoas com acesso a estes espetáculos, hoje reduz o faturamento das produções que almejava incrementar. O tiro saiu pela culatra porque deturparam a finalidade da lei.

Consumidores empunhando o Código de Defesa do Consumidor revoltam-se contra quotas impostas por produtores. Órgãos de defesa do consumidor impõem exigências aos produtores e empresários artísticos com fiscalização rigorosa. Multas são aplicadas e reclamações deságuam nos Procons espalhados pelo território brasileiro. Tudo isto acarreta o aumento dos preços dos ingressos e faz com que certos eventos reduzam os pontos de venda para verificar se o comprador de fato tem direito à meia-entrada.

Talvez o momento seja inoportuno, mas a classe artística poderia aproveitar a polêmica causada pela imposição da FIFA e rediscutir esta questão da meia-entrada.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Poesia Completa de Vinicius de Moraes



O Projeto Brasiliana USP disponibilizou a obra poética completa de Vincius de Moraes. As obras estão digitalizadas e acessíveis no site da biblioteca. Trata-se de mais uma etapa na digitalização de obras importantes para a cultura brasileira. Organizadas em ordem cronológica, a poesia de Vinicius fica acessível a pesquisadores e ao público em geral. Os arquivos estão em formato pdf e podem ser baixados e arquivados.

A Brasiliana USP é um projeto da Reitoria da USP e é depositária do fantástico acervo de José e Guita Mindlin, que dão nome à biblioteca física. A digitalização do acervo permite o acesso amplo a documentos e livros antigos, fonte inesgotável de pesquisa sobre a cultura brasileira.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Book

Para muitos, ainda hoje, trata-se de algo totalmente desconhecido, tanto em sua parte externa, como em seu conteúdo.

terça-feira, 16 de março de 2010

Oficina Literária



A Oficina Literária divulgada neste post é organizada pelo Terapia da Palavra. O grupo é do Rio de Janeiro, mas há turmas remotas não presenciais.


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

100 anos

Retrato de Euclides da Cunha, Cândido Portinari (1944)


Neste ano, comemora-se o centenário da morte de Euclides da Cunha, que faleceu em 15 de agosto de 1909. No ano passado, comemoramos o centenário da morte de Machado de Assis. No ano que vem, será comemorado o centenário de Tolstói. E assim se sucederão datas comemorativas.


Entre datas natalícias e datas de falecimento, estes momentos são de grande valia para o jovem leitor - ou para o leitor maduro, como no meu caso - descobrir o brilhantismo de um escritor.


Na sexta-feira, deparei-me com uma promoção de livros na Livraria da Vila e adquiri um exemplar de "Sermões" do Padre Antônio Vieira. Nunca tinha lido nada do grande orador e pregador. Confesso, sem qualquer vergonha, que minhas leituras de juventude foram todas de escritores europeus e americanos, tendo lido muito pouco de literatura brasileira e portuguesa.


Foi exatamente numa destas datas comemorativas que me aventurei a ler Érico Veríssimo e assim descobri a grandeza deste nome maiúsculo das letras brasileiras. Resolvi a partir de então intercalar nas minhas leituras um autor clássico, com o intuito primordial de corrigir as lacunas da minha formação.


Ler estas obras clássicas quando se não é mais um jovem preocupado com o vestibular e com uma maior experiência de vida permitem perceber a beleza da obra. Aproveite também estas datas comemorativas para mergulhar no que nossa literatura tem de melhor.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Falando de Museus

A reportagem é da coluna Avant-Première do caderno de Fim de Semana do Valor Econômico. Quem assina é João Bernardo Caldeira e Robinson Borges. Comento no final.

"Cor-de-rosa

A visita aos museus paulistas é um programa majoritariamente feminino. É isso o que constata uma pesquisa do Observatório de Museus e Centros Culturais realizada em 13 instituições de São Paulo. O levantamento mostra que 62% de seus visitantes são do sexo feminino. No Rio, entretanto, um estudo similar identifica que em alguns museus o público masculino chega a ser superior ao feminino.

Fala garoto!

Dos 13 museus de São Paulo investigados pelo Observatório, o Museu de Arte Moderna (MAM) foi o que recebeu público mais jovem, com maior presença de visitantes entre 15 e 19 anos (18,4%) e de 20 a 24 anos (27,7%).

Canudo

A pesquisa verificou ainda que os visitantes de museus têm escolaridade acima da média da população em geral: 79,9% têm ensino superior completo ou incompleto, sendo 14,2% deles com pós-graduação. Na Região Metropolitana de São Paulo, apenas 17% da população têm superior incompleto ou completo."

Sintetizando: quem vai a museu em São Paulo é quem tem maior nível de escolaridade, e por conseqüência, maior poder aquisitivo. Isto pode ser visto como um diagnóstico interessante: há necessidade de maior divulgação dos museus para o público de escolaridade mais baixa. Importa não só divulgar, mas também criar visitas guiadas para explicar mostras e exposições. Muitas pessoas sentem-se inibidas de visitar um museu porque acham que não vão entender o que ali se encontra. A divulgação e a informação poderiam inverter os percentuais de visitantes encontrados na pesquisa.

Outro ponto que parece óbvio: quem tem mais conhecimento e informação, busca sempre mais conhecimento e aperfeiçoamento. Pessoas com nível superior completo ou incompleto são mais curiosas e destemidas na busca de cultura. Trata-se do "consumidor" tradicional de cultura, em todas as suas versões. É este o público que lê, que ouve música, que visita exposições de arte, que vai a museus.

A pesquisa mostra que a disponibilidade de cultura existe para toda a população, mas muitos se desinteressam por ela. Uma ampla campanha de divulgação nas escolas públicas, por exemplo, poderia atrair um novo público aos museus, que por sua vez, teria sua curiosidade aguçada. Este "despertar" da curiosidade pode conduzir o jovem a continuar seus estudos e buscar mais informação. A democratização da cultura tem uma contribuição fundamental na criação de um círculo virtuoso de aumento da escolaridade da população brasileira.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Na minha cabeceira



Último livro lido: A Sonata a Kreutzer, de Lev Tolstoi (Editora 34).


Leitura atual: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (Ateliê Editorial).




Detenho-me nas revistas.


A Dicta & Contradicta é uma revista de humanidades editada pelo Instituto de Formação e Educação e foi lançada em 10 de junho de 2008. Artigos sobre filosofia, arte, culutura e literatura. Uma visão aprofundada de temas que provocam a reflexão. Na edição de número 1, há uma das três últimas aulas dadas pelo poeta Bruno Tolentino, que preocupava-se com o esvaziamento cultural no Brasil. Gostei muito de dois artigos em especial: um sobre Hayek, econcomista ganhador do Prêmio Nobel e um crítico voraz do socialismo e do totalitarismo, e outro artigo sobre uma obra de Newmann, The Idea of the University, que trata da função e dos objetivos da universidade.




A Granta, por sua vez, dispensa apresentações. É a revista literária mais antiga em publicação, tendo sua origem na Inglaterra. A edição brasileira está a cargo da Editora Objetiva, com o selo Alfaguara. A segunda edição traz como tema a viagem, qualquer viagem, seja ela imaginária ou real. São ao todo 11 textos, entre autores nacionais e estrangeiros, o que dá um sabor muito interessante. Há uma variedade nos textos - tanto nos estilos, como nos enfoques - que distrai e enriquece o leitor. Dentre os brasileiros, há textos de Arnaldo Jabor, Carlos Diegues e Ignácio de Loyola Brandão.


Boa leitura!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Mutações Carnavelescas

Última noite de um carnaval tranquilo, com clima ameno e cinza. Exceção feita ao sábado, onde o sol brilhou em São Paulo como há muito não brilhava. De resto, tempinho de latitudes temperadas. Mas vamos ao assunto. Vou falar de tempo, mas não de clima.


Fui um carnavalesco fanático. Desde os tempos de criança, gostei de carnaval, dos bailes, das marchinhas, do samba. O carnaval mudou, assim como eu que ganhei uns bons anos a mais. É interessante reparar como o carnaval em São Paulo mudou drasticamente. A cidade ganha um ar de cidade-fantasma, com um carnaval estritamente profissional. Poderiam dizer que é a cara de São Paulo.


Quando era criança, nos anos 80, era comum passarmos o carnaval no sítio, em São Roque, e retornar na 3a. feira pela manhã para aproveitar a matinê do Pinheiros, um tradicional clube paulista. Os pequenos ficavam no mezanino do salão de baile. O sonho era poder descer e pular o carnaval com os maiores, coisa que só possível quando fiz 12 anos. Era uma época em que os clubes realizavam bailes de carnaval muito concorridos, num ambiente relativamente tranquilo e comportado, tanto matinês como bailes noturnos. Estes bailes praticamente acabaram em São Paulo. Descobri, pelos jornais, que só o Juventus realizou bailes de carnaval este ano e não achei matinês para as crianças.


Outra manifestação popular que acabou foram os blocos de rua. O Guéri-guéri era um tradicional bloco dos Jardins e que saía todo ano no sábado anterior ao carnaval. Desapareceu por falta de local para desfilar. Outro evento era o Folia na Faria. Durou uns 5 anos e acabou pelo mesmo motivo. Em 1996, fiz uma maratona carnavalesca: sábado saí no Guéri-guéri, e domingo, no Bloco da Bolsa de Valores no Folia na Faria. Foi divertidíssimo e ainda por cima apareci num flash da TV Globo para o Jornal Nacional - pelo menos, foi o que me contaram.


Os blocos acabaram pelas inúmeras reclamações de moradores da cidade. O barulho, a sujeira, as interdições nas ruas, enfim tudo era problema. O paulistano ficou chato. Quer silêncio e sossego no carnaval, tanto que foge da cidade. Acho triste que os blocos e bailes tenham sumido, blocos que proliferam no Rio de Janeiro.


O carnaval de São Paulo ficou profissional, restrito aos desfiles do sambódromo para turistas e alguns poucos artistas. Chateia-me o fato de que meus filhos não compartilharão das marchinhas, do confete e da serpentina, da bagunça sadia do carnaval.


O carnaval de sampa não é mais o mesmo, coisas do progresso, coisas da modernidade. Mas triste a modernidade que esquece o passado, a tradição e a cultura popular.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Feriado com Goya

O dia em São Paulo estava simplesmente impecável. Um daqueles dias de sol vibrante, céu azul sem uma nuvem, mas no clima ameno de outono. Um dia que contribuía para manter o bom humor o dia todo, daqueles que nada pudesse estragar - se bem que tentaram. Depois de alguns dias de ventos e chuvas, a poluição foi-se embora e ar da cidade se tornou mais interiorano, sem o barulho usual do trânsito. A luminosidade do outono, com raios mais inclinados, revela uma nova cor na cidade, e o calor recente mantém as árvores verdes e floridas. Um dia perfeito para curtir a cidade no feriado.

Resolvi ir ao Masp ver a exposição de gravuras de Goya, coleção da Caixanova que pela primeira vez deixa a Espanha. Goya é um daqueles pintores que me marcou na juventude. A forma com que pinta o sofrimento humano em cenas de guerra me marcou. E fui ao Masp para ver a Série Desastres de Guerra. As gravuras estão divididas em séries, com temáticas diferentes.

Ao chegar havia uma pequena fila. Cheguei pouco antes do museu abrir, pois não queria arriscar. Surpreendi-me ao saber que hoje a entrada era gratuita. Fiquei contente por não pagar, mas sabia que ia enfrentar a turba dentro do museu. Como havia chegado cedo, consegui ver tudo que queria. Talvez volte outro dia na hora do almoço com mais calma, pois neste horário o museu é quase vazio, mais parecendo uma igreja de tão silencioso.

De fato, por volta das 12 horas, a fila para ver as gravuras era longa. Isto prova algumas coisas. O brasileiro sabe aproveitar das mostras culturais desde que divulgadas e disponibilizadas a preços acessíveis. Segundo, é preciso educar o visitante para que saiba apreciar o que está vendo. O Masp disponibilizou um belo folheto, em português e espanhol, explicando a mostra. Porém, era fácil ouvir comentários de pessoas totalmente desinformadas. Na Série Desastres de Guerra, uma senhora dizia a outra atrás de mim: "Nossa, estas gravuras parecem cenas de guerra! Que trágico!". Claro que fiquei quieto, mas ela queria cenas bucólicas e campestres, ou talvez bailarinas no estilo Degas? Se a Série era sobre guerra, as gravuras obviamente seriam sobre guerra.

Este exemplo revela a importância dos museus, dos centros culturais, dos recintos de exposições em divulgar e informar o visitante sobre o conteúdo da mostra. Isto faz parte de um processo educativo fundamental para amadurecer o cidadão que poderá usufruir da cultura de forma mais consciente.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Getulio: uma revista ousada

Recebi o exemplar número 1 da Revista Getúlio, editada pela Fundação Getulio Vargas, e mais especificamente pela Direito GV. O publisher e editor Leandro Silveira Pereira encabeça mais esta etapa do projeto da Escola de Direito da GV.

Acompanho o projeto da Escola de Direito desde seus alicerces e leciono, como professor convidado, no GVLaw, curso de educação continuada da Escola de Direito em São Paulo. Apesar de crítico - talvez mais cético do que crítico - em relação ao projeto, vejo com admiração o que se tem feito no campo do Direito pela FGV e sua Escola de Direito. De fato, a proposta é inovadora e o projeto também.

Mas voltemos à revista, senão a divagação se torna muito extensa. Diz o editor:

"Esta revista surge na esteira de um projeto maior, dentro da Fundação Getulio Vargas, resultado de muitas reflexões. A fundação nasceu com a preocupação de formar quadros, produzir conhecimento, para auxiliar o desenvolvimento do país. "

De fato o primeiro número da revista segue a proposta deste ousado projeto. Destaco 2 artigos que me chamaram a atenção. O primeiro deles intitulado "Machado de Assis e o Direito", por Luisa Destri, que traz uma entrevista com o Professor de Literatura Brasileira da USP, Valentim Facioli. A entrevista trata das críticas de Machado de Assis ao moroso processo brasileiro (já era moroso no final do século XIX) e de uma abordagem jurídica de Dom Casmurro, tema este que pretendo retomar em um futuro post.

O segundo artigo, escrito por Carlos Guilherme Mota, historiador e professor titular de História Contemporânea da FFLCH da Universidade de São Paulo, intitulado "Os Livros que Fizeram Minha Cabeça", revela a importância dos livros na formação intelectual de um professor, pesquisador, ou simplesmente, de um indivíduo. Outro bom tema para um post exclusivo, principalmente quando se constata que um aluno de 5o. ano de um curso de direito raramente leu os autores clássicos e importantes na formação do pensamento jurídico.

Um breve trecho do artigo que trata de uma obra clássica e essencial na formação humanística de qualquer aluno ou pesquisador na área de ciências humanas:
"Um livro que marcou e ainda diz muito é Os Donos do Poder, em que Raymundo Faoro estuda a formação do patronato político brasileiro desde suas raízes ibéricas no século XIV, e como constituiu essa carapaça jurídico-política asfixiante atual (o livro foi escrito em 1958, ampliado e reeditado em 1973). Considero-o obrigatório, fundamental, incontornável."
As sugestões para a boa formação humanística são muitas. É triste, para não dizer lamentável, como os alunos dos cursos de direito hoje em dia pouco conhecem das obras clássicas. Neste ponto, a Escola de Direito da GV merece aplausos. A importância dada, pelo programa, às obras clássicas, buscando uma análise interdisciplinar é única no país.
A Revista Getulio vem contribuir de forma ousada a este projeto e contêm artigos de reflexão e diferentes, que fogem do lugar comum. É uma revista que se propõe a pensar o Direito de forma mais abrangente.
Boa sorte e sucesso aos editores e à equipe da Revista Getulio!

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Lembrando Paulo Francis

Como o tempo passa rápido! Faz 10 anos que morreu Paulo Francis. A imprensa brasileira perdeu um jornalista insubstituível. Seu estilo, por vezes arrogante, ferino e desbocado ganhou admiradores e desafetos. Era impossível dar uma de tucano e ficar em cima do muro com os artigos do Paulo Francis.

Assistia com prazer ao programa Manhattan Connection quando Paulo Francis era vivo. Depois de sua morte, o programa perdeu a graça. Bem que o Diogo Mainardi tenta seguir seus passos, mas Paulo Francis era Paulo Francis.

Um homem de vasta cultura, um intelectual no melhor estilo, e que não tinha papas na língua. Se achava o escritor medíocre, dizia com todas as letras. Se gostava, elogiava de forma única.
Daniel Piza escreveu ontem no Estadão um artigo lembrando Paulo Francis. Mencionou algo de passagem que me chamou a atenção. Paulo Francis usava muito a onomatopéia em seus artigos. Sempre terminava com um "waal", sua assinatura característica. Em seu artigo, Daniel Piza diz: "Tudo isso era banhado no humor carioca dos bons tempos, debochado e onomatopaico (pfui, sifu, duca), e dava um resultado que ninguém pode repetir."

Ainda que os mais novos não tenham tido a oportunidade de ler Paulo Francis, fica aqui a dica e a sugestão para uma leitura que sempre provoca.
Quem tiver interesse, segue o link do artigo de Daniel Piza: