terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Crônica: Ondas


ONDAS

Deitou-se na cama com o leve burburinho das ondas quebrando nas rochas e trazido pela brisa morna. Voltou a pensar que tudo aquilo havia sido um erro, um grande equívoco. Foram cinco dias de suposto descanso, um momento de fuga a dois. Ela insistiu que queria viajar com ele. Ele não queria. Ela foi enfática. Com um profundo suspiro, ele aceitou. Ela anteviu seus piores temores corporificados naquele longo e profundo suspiro. Ela planejou a viagem. Ele deu de ombros. Ela escolheu a pousada. Ele assentiu com um leve gesto da cabeça.

Naqueles breves dias, ela se esforçou por reparar a ponte ruída pelo tempo. Tábuas podres precisavam ser removidas e substituídas. Os cabos de aço a sustentar a estrutura urgiam por um reforço. A estrutura era frágil e uma tempestade mais forte seria capaz de levá-la rio abaixo. As cabeceiras da ponte apresentavam sinais de erosão. Eram sinais antigos, nada de recente. Deixaram o solo rachar sem proteção, sem cuidado. Mas ela queria passar alguns dias só com ele. Precisava tentar mais uma vez para deixar claro em sua cabeça de que a culpa não havia sido só dela. Tudo aquilo a corroia internamente.

Suas pernas doíam, sua cabeça latejava. Estava cansada, ou melhor, exausta por dias que alternaram olhares distantes, gritos, silêncios longos e profundos, perguntas sem respostas. Talvez a indiferença dele a tivesse levado à exaustão. Virou-se de costas para ele, com o olhar fixo na parede. Procurava alguns pontos de claridade, alguma luz, algum sinal, alguma idéia para acalentar sua alma entristecida e murcha.

As ondas quebrando nas rochas perto da praia pareciam soar como música de orquestra. Ritmo, vida, intensidade, força, tempo...um tímido sorriso esboçou. Uma lágrima percorreu-lhe o rosto. Sentiu-se livre. De coração lavado, era hora de lançar-se ao mar e deixar-se levar.

2 comentários:

Carolzita! disse...

Ahh a indiferença dói mais que o desamor.

Edna Federico disse...

As pessoas sempre querem salvar um relacionamento quando se está na beira do precipício...é tão mais fácil cuidar antes, né?
Beijo