sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Crônica: Mentiras




MENTIRAS


Poderia mentir. Disseram-me que homens são bons mentirosos. Que sabem mentir melhor que as mulheres. Estas sabem iludir. Ah, como sabem. São mestres no assunto. Políticos, sim, estes são os melhores mentirosos de todos. Não precisam nem óleo de péroba para lustrar a tamanha cara-de-pau que expõe na propaganda política ou em longos e enfadonhos discursos. E se tiver língua presa, melhor ainda. A mentira fica mais crível e o indivíduo passa um certo ar de vítima, de pobre coitado e pode ser contemplado com uma polpuda soma em dinheiro pela comissão de anistia.

Desculpem, ia fugindo do assunto. A mentira não ia fazer mal; ia apenas evitar constrangimento, ia passar despercebida. Poderia me martirizar e mentir. Não preciso expor a verdade. Dizem que a verdade dói. Não sei, será? Poderia mentir e dizer que gosto de um dia sem sol, daqueles bem nublados e garoentos, com um ventinho frio que congela até os ossos. Poderia mentir e dizer que gosto do ruído da cidade com todos os tons e timbres de buzinas, freadas e xingamentos. Poderia mentir que adoro café fraco e frio. Poderia mentir que o dia de trabalho não foi cansativo. Poderia mentir que uma noite de lua nova é tão agradável quanto uma noite de lua cheia. Poderia mentir que a brisa do mar num final de tarde não me faz falta nenhuma. Poderia mentir que não senti sua falta hoje. Ou em qualquer outro dia que não nos falamos. Poderia mentir e dizer que não sinto saudades, que estou acima deste sentimento.

Poderia dizer que queria escrever em prosa, mas seria mentira. Tentei versos. As palavras indisciplinadas rasgaram o verso do papel, revoltando-se com a minha inabilidade em manuseá-las. Agruparam-se, reorganizaram-se e veio a prosa fruto da minha fraqueza e incapacidade. Isto é verdade.

Poderia mentir. Não seria aceitável? Não vale a pena. O silêncio guarda a verdade, acalenta-a, abraça-a. Não vou mentir. A verdade é conhecida, ainda que não dita ou que dita por fragmentos. A verdade brota no interior. A verdade alegra. A verdade estampa sorrisos e provoca arrepios. Bons ou maus.


3 comentários:

GUILHERME PIÃO disse...

Se reparar a vida é uma mentira...
Abraços

Quase Trinta disse...

Já menti, mais de uma vez, com razão, sem razão. Quem nunca mentiu. Mas procuro me lembrar que é melhor uma dura verdade do que uma doce mentira

Edna Federico disse...

Eu prefiro a verdade sempre, mesmo que doa.

em tempo...também não sou muito hábil com algumas coisas de informática, por isso que vou atrás de templates prontos, riso...se quiser te passo o link, tem uns ótimos.
Beijo