quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Solidão Dissipada





"O destino costuma estar na curva de uma esquina." (p. 188)


"Mas os anos passaram em paz. Quanto mais vazio está, mais rápido o tempo passa. As vidas sem significado passam ao largo como trens que não param na estação." (p. 354)


(A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón.)


Vazio. Desprezo. Esquecimento. Todos estes sentimentos poderiam descrever a solidão, sem, porém, captar toda a sua dor. A solidão é árida como um deserto, fria como uma paisagem gelada, invisível como o ar. A solidão é um punhal que se aprofunda na carne a cada movimento, a cada dia, a cada gesto. A solidão transforma o silêncio em algo ensurdecedor, como se a música mais odiosa estivesse ligada no mais alto volume. A solidão definha, amarfanha, corrói todo o ser.


O vazio trazido pela solidão leva a um caminhar sem rumo. Passamos a ser passageiros sentados num banco do ônibus indiferentes à paisagem que nos rodeia e entregues ao destino que o condutor nos traça. O ponto final da jornada pode chegar quando o ônibus pára; ou podemos despertar do transe ao olhar para fora da janela do veículo e captar um brilho. Uma luz que emana de um olhar de um transeunte, de alguém que ao acaso encontra-se na curva de uma esquina. O destino nos arrebata e fulmina de morte a solidão.


O campo árido, regado pela chuva, rejuvenesce e brotam os primeiros sorrisos que dissipam a solidão. Drummond, com toda sua lucidez de interpretar a vida e os sentimentos, escreveu:


"Onde não há jardim, as flores nascem de um
Secreto investimento em formas improváveis
."


Formas improváveis trazidas pelo destino. Um sorriso. Um pingo de luz notado num olhar sincero. Uma palavra carinhosa. Um simples cumprimento que nos valoriza, que nos revela que somos notados e importantes. Um sotaque aparentemente irritante se transforma em música para os ouvidos. Música que mexe com alma. Voz que mexe com o coração. Palavras que seduzem. Risos que inebriam, contagiam, que se multiplicam em dias, meses, anos...momentos inesquecíveis, rememorados nas horas de escuridão e aflição.


A solidão se dissipou. Tudo obra mágica de alguém que estendeu a mão e conduziu-me para fora do ônibus. Tudo obra de um coração precioso, de uma alma iluminada, de uma semeadora de sorrisos.

2 comentários:

[ rod ] disse...

Onde há um ser sozinho... há um caminho escuro e denso.

Nascemos para sermos o todo.


Obrigado amigo por atender ao chamado.


Novo Dogma:
o caminHo secreTo do eXistir...


dogMas...
dos atos, fatos e mitos...

http://do-gmas.blogspot.com/

Fabiola disse...

lindo lindo lindo