terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Crônica: Espinhos

Foto by Visão ao Longe


Começaste com uma agulha. Vencido o tempo do idílio e do conto de fadas, vieram as pontadas nos dedos. Usaste o instrumento de costura para provocar pequenas feridas. Bolinhas vermelhas a tingir meus dedos. Não tinha dedal e qual mão de costureira e apareceram as primeiras marcas.

Descobriste os espinhos, meio mais eficaz para rasgar a carne e tatuar o corpo com cicatrizes póstumas ao sangue jorrado da carne dilacerada. Não me coroaste com espinhos, mas as feridas eram tão profundas e doloridas que quase sucumbi. Calos nas mãos e nos pés, defesa natural do corpo agredido, do coração esmagado. A carapaça nasceu naturalmente fruto do instinto de sobrevivência e da esperança de que um dia a flor voltaria a desabrochar. Um cactus sem flor, mas coberto de espinhos defensivos. Carapaça intransponível que criara um mundo aparte oriundo de boas lembranças e sonhos.

O arsenal foi todo testado. Dardos, flechas, zarabatanas, lanças. Talvez até uma bala não ultrapassasse o escudo formado pelos momentos de descaso. Blindado estava eu e a distância era uma proteção eficaz. Distância que permitia desviar com malabarismos dos ataques constantes e mais freqüentes. Saltos, cambalhotas, piruetas. Artimanhas aprendidas com a vida. Dolorosas para um corpo pouco flexível e desanimado.

O solo tornou-se estéril. Deserto arenoso do coração. Desterro solitário, delirando na ilusão de que a nova estação traria chuvas. Chão árido onde o cactus não dava flor e murchava com a ausência total de água e da seiva da vida. Relegado ao relento, ao frio da noite e ao sol escaldante do meio-dia. Ignorado, desprezado, imóvel. Restava aguardar abraçado ao tempo.

De forma improvável, trouxeste as primeiras gotas a regar o chão duro e rachado. Suguei o líquido vindo dos céus com um sorriso tímido. Mandaste mais chuva e adubo para o solo. Enrugado que estava pela secura, voltei a sentir a pele mais tenra. Os calos pareciam diminuir e o sangue circulava com mais vigor, levemente palpitante a irrigar todos os órgãos deste corpo. Cuidaste de mim. Podaste as folhas mortas. Inesperada chuva que aliviou a dor. E quando faltou a chuva, regaste-me com palavras.

Não estava morto. Apenas hibernara sem data para despertar. Descobri esta verdade apenas quando surgiste. O coração desfalecido, quebradiço, fragilizado, recuperava-se agora.

Incrédulo, dei me conta de que trazia boas novas. Incrédulo, recobrei o brilho no olhar. Incrédulo, voltei a notar que o solo se recobria de verde e de brotos. Incrédulo, transformaste os espinhos em um campo de flores. A noite que sucedeu era estrelada e com uma lua magnífica. As flores voltaram rejuvenescidas e trazidas como fruto de inúmeras palavras. Sempre mágicas.

2 comentários:

Joaquim Cardoso Dias disse...

Um abraço e obrigado pela forma interessante como alimentas este blogue!

Fabiola disse...

renato:
preciso tirar uma duvida com vc]me passa seu email
bj