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quinta-feira, 27 de abril de 2023

Cortina de ferro


by Renato Bueloni Ferreira



Sento-me às margens do rio Odra, numa tarde agradável de domingo de primavera, e tento imaginar como era a vida na Polônia durante o regime soviético.

As novas gerações têm a liberdade, algo inexistente naquela época. As novas gerações têm seus celulares, a comunicação livre com o mundo. As novas gerações têm acesso a uma universidade aberta, a programas de intercâmbio, a viajar pela Europa e explorar novos destinos.

É domingo, os sinos das igrejas badalam e as pessoas vão à missa. Avisto vários campanários de igrejas em estilo gótico, mas de tijolos à vista. As paredes externas são marrons, uma cor terrosa escura, mais sóbria e sisuda do que no sul da Europa.

Casais passeiam com crianças pequenas, há risos, jovens conversando e olhando seus celulares. Uma mulher lê algo em um Kindle. Um grupo de jovens controla um pequeno drone sobre o rio. A cidade medieval de Wroclaw abraçou a modernidade e a tecnologia sem esquecer do passado.

E como foi o passado?

Quase não há sinais do período soviético. Deparei-me com um conjunto habitacional acinzentado, quadrado, decaído que me lembrou 1984, de George Orwell. A vida devia ser triste, melancólica, sem esperança, com falta de comida, de dinheiro, de energia. A vida era controlada pelo Estado, a vida era dirigida pelo Estado, a vida era traçada pelo Estado, como um roteiro de filme onde o bom cidadão sobrevive. Entenda-se por “bom cidadão" aquele que segue as regras e se deixa escravizar pelo Estado, aquele que não critica, aquele que incensa o líder supremo.

Os mais velhos, que vivenciaram o terror, não hesitaram em dar apoio à Ucrânia e a acolher os refugiados. Os mais velhos têm a memória viva do que é perder a liberdade.

Que este terror jamais volte! 

Em tempos de tentativa de regulamentação das redes sociais, que a voz jamais seja calada, que a liberdade de opinião e de expressão continue a reinar como direito fundamental do cidadão, que o Brasil não enverede pelos negros caminhos da censura.


domingo, 10 de maio de 2020

Dom de gerar




A mulher ocupa posição privilegiada na obra da criação divina. Somente ela compartilha do ato de criar, algo único e exclusivo, capaz de gerar uma vida, acalentar e cuidar do pequeno ser gestado. 

Criar não é fazer, nem construir. Criar é erguer - a partir de um quase nada - um novo ser humano, único, irrepetível, irreplicável, com todos seus talentos, qualidades, dons. Um ser aberto a amar, um ser eternamente grato pela mãe que o gerou. Se não fosse ela contribuir com a criação, a vida não se realizaria. Ser mãe é abrigar - para sempre - no coração o filho querido. Ser mãe é participar da construção do universo. Ser mãe é levar adiante uma tarefa confiada por Deus, a tarefa da criação.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Pandemia - uma breve reflexão



Depois de 16 anos, este é o milésimo post deste blog.  Mil postagens. Sem dúvida, nos últimos anos, o ritmo diminuiu, o meio “blog” virou vintage, deixou de ser uma forma mais popular, sendo ultrapassado por podcasts, vídeos e afins. Mas o texto permanece e é atemporal. A poesia de Fernando Pessoa reina como o assunto mais pesquisado e lido neste blog.

Tinha várias ideias para celebrar este marco do blog, mas a realidade sempre nos surpreende e oferece a matéria prima de que necessitamos para refletir, pensar e trabalhar. Trabalhar a realidade, moldá-la para tentar entender este mundo contemporâneo, ou ao menos, fazer um esforço por compreendê-lo.

Eu, assim como todos os brasileiros, estou em quarentena. Um isolamento domiciliar que é compartilhado com milhões de pessoas ao redor do mundo em decorrência da pandemia causada pelo coronavírus e a Covid-19, doença causada pelo vírus.

O ser humano é um animal essencialmente social, pontificou Aristóteles. E agora, vemo-nos obrigados à reclusão, a uma clausura não voluntária, mas imposta. A clausura é uma escolha de vida para religiosos e religiosas contemplativos católicos, que se afastam do mundo e vivem uma vida de oração e trabalho. Carmelitas e beneditinos são ordens religiosas que seguem este carisma.  A vida de oração contemplativa, quase sem falar, sem convívio com o mundo exterior do convento ou do mosteiro.

Hoje, somos obrigados a abraçar um estilo de vida de isolamento, temporário claro, mas um estilo de vida que não condiz com o cosmopolitismo das cidades e com a interação social tão cara ao povo brasileiro. Iniciamos neste período de quarentena a travessia de um deserto. Não sabemos por quanto tempo ficaremos reclusos, não sabemos o que nos espera ao final da travessia, não sabemos que intempéries serão enfrentadas. A incerteza pode gerar medo. É natural, mas precisamos buscar a serenidade e a esperança para realizar a travessia deste deserto com sucesso.

Em 1374, foi ordenada a quarentena de todos os cidadãos de Veneza para evitar o contágio com o “ar envenenado” pela Peste Negra, que dizimou metade da população europeia. Em 1569, a grande peste que atingiu Lisboa levou a uma fuga em massa da cidade. Narrativas daquela época relatam que havia um ar triste na cidade, abandonada e largada ao destino.

A realidade hoje é outra. Podemos fazer a quarentena com certo conforto, com acesso a informação e aos meios de comunicação, não falta comida e nem água e a ciência evoluiu muito desde então.

Vejo muitos reclamarem. Vejo muitos apontarem o dedo e incitarem o conflito. Penso que a hora é de reflexão pessoal, penso que nos é dado uma oportunidade de vivermos de forma contemplativa por algumas semanas, reclusos como se num retiro espiritual – chame de jornada se preferir. Não por acaso, tudo isto acontece durante o período da quaresma para os católicos. Um período de penitência, de exercício fraterno de caridade, de conversão de vida, de mudança. Um período que nos leva a olhar para a frente, com fé e esperança, pois uma nova fase se inicia com a Páscoa.

Não quero aqui tentar justificar esta pandemia, não é esta minha pretensão, mas quero provocar uma reflexão – já que temos tempo sobrando para fazê-la – sobre a transcendência do ser humano, da caridade, da solidariedade, da generosidade, da empatia. Penso que este momento é muito oportuno para exercitarmos estas virtudes, estas qualidades humanas (se assim preferirem).


Antes de reclamar, agradeça pelo que tem e pelo que lhe é dado. Antes de ter medo, olhe para frente com esperança e pense como mudar sua forma de agir após a sua saída da clausura. A travessia do deserto deve ser feita um dia por vez, serenamente, com fortaleza e resiliência. Aproveite o tempo que é dado, pois o tempo é um bem muito escasso e caro na contemporaneidade.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Memória: Cemitério





instagram: @rbueloni
Cemitério Gethsêmani no início da primavera, setembro 2019


MEMÓRIA: CEMITÉRIO



O cemitério é um lugar familiar para mim. Sempre gostei de visitar cemitérios por dois motivos: pesquisas genealógicas e contemplação artística.

Desde meus 13 anos de idade ganhei gosto por pesquisa genealógica. Nunca busquei algum antepassado genial ou famoso ou importante ou rico. O que sempre fascinou foi a história, o passado, a luta de cada pessoa para sobreviver, para mudar de um país para outro e tudo isto é possível resgatar em documentos. É uma espécie de pesquisa arqueológica, onde se descobre como as pessoas viviam. Cemitérios são uma importante fonte de pesquisa e de dados. O Cemitério do Araçá e o Cemitério São Paulo foram visitados por mim várias vezes. Talvez eu seja uma das únicas pessoas da família que sabe o caminho até os jazigos naquele emaranhado de ruas parecidas entre os túmulos.

Nestes passeios pelos cemitérios, percebi que há uma riqueza arquitetônica escondida, silenciosa, pronta para ser admirada e descoberta. No Cemitério da Consolação, há um tour com guia que explica cada uma das esculturas encomendadas a artistas famosos como Bruno Giorgi, Emendabili e Victor Brecheret. No Cemitério São Paulo, há obras monumentais de beleza única e algumas tristes e melancólicas. Nunca me senti incomodado nestes lugares.

Acho curioso como o brasileiro trata cemitério com um certo receio, um medo de adentrar naquela local onde repousam nossos antepassados. Porém, é comum encontrar brasileiros no Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, ou no Cemitério Pére Lachaise, em Paris. Alguns túmulos são verdadeiras atrações turísticas. Por outro lado, após o sepultamento de um ente querido, muitos esquecem até o cemitério onde estão enterrados.

Há pouco mais de um ano e mês atrás fui ao cemitério do Araçá para fotografar as placas do túmulo de meus bisavós com os nomes e datas de nascimento e falecimento. O cemitério estava deserto naquela tarde de sábado do final de novembro de 2018. Fiquei ali mais de uma hora, contemplando, refletindo sobre a vida e a morte. O ano de 2018 havia sido um ano difícil e tudo parecia caminhar para um final de superação da luta contra o câncer, tanto da minha mãe, como do meu pai.

Um mês antes havia comparecido ao velório da mãe do meu cunhado no cemitério do Morumbi. Um cemitério jardim, um lindo campo gramado com árvores e flores e jazigos no chão. Não há obras de arte, mas há uma serenidade acolhedora naquele local. Meu pai comentou para minha mãe que precisava comprar um jazigo. Ouvi a conversa sem fazer qualquer comentário. Apenas ouvi e pensei que de fato é algo que faz parte da nossa rotina.

Pouco depois, no dia 23 de dezembro de 2019, meu pai faleceu. Ele foi enterrado no Cemitério Gethsêmani, em São Paulo. Desde então, visitar o cemitério passou a ser parte da minha rotina quinzenal ou semanal. Algumas visitas curtas e outras mais longas. Em todas, reflito sobre a morte, a vida e rezo, crente de que ele deixou este mundo para contemplar a face de Deus. Visu sin beatus tuae Gloriae.

Escrevi estas linhas mentalmente diversas vezes nestes meses. Por diversas vezes iniciei o texto diante do túmulo de meu pai. Não tinha força para escrevê-las. Mesmo agora, impossível escrevê-las sem que as lágrimas de saudade brotem. Um amigo psicólogo havia me alertado que o primeiro ano de luto é o mais difícil e que demora um ano para bem elaborar o luto. Um ano se passou e ainda que sinta saudade, a memória que fica guardada é sempre positiva e alegre. Neste Natal ele não estará presente entre nós fisicamente, mas tenho a certeza de que está olhando e intercedendo por nós lá de cima.

Ir ao cemitério, para mim, ganhou um novo relevo, uma nova razão. Deixei de ver o cemitério como um lugar triste e a lembrança do velório e do enterro – ainda tão vivas – deixaram de ser doloridas para se tornarem uma celebração da vida e da ressurreição. Todos morreremos um dia, descansaremos. Para os católicos, esperamos chegar ao Céu e alcançar a vida eterna ao lado de Deus.

Talvez alguém se pergunte a razão deste texto fúnebre num dia festa. Repito, não vejo a morte como algo que devemos temer ou algo melancólico. Há a dor da perda, mas há algo muito mais profundo que cada um de nós precisa refletir e descobrir. O tempo passa e as pessoas se vão.

Nestes dias que celebraremos o Natal, em família ou ao lado de amigos, aproveitemos para desfrutar de quem está do nosso lado. Façamos desta celebração um momento para perdoar, para acolher, para estender a mão e construir novas pontes, para abraçar a quem tanto estimamos. Não guarde aquela palavra de carinho, solte-a, lance a semente do bem a quem está à sua volta, mande aquela mensagem ao amigo que está distante, não tema ser generoso, bondoso, afável.  Como diz a canção Trem Bala, “sorria e abrace teus pais enquanto estão aqui”. Um dia, eles alçam voo para junto de Deus.


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Tempos modernos

Instagram @rbueloni

Havia um tempo em que as pessoas mantinham diários, confidentes dos segredos mais íntimos e raramente compartilhados. Se alguém descobrisse ou lesse o teor de forma indevida, armava-se um escândalo.

Hoje, as pessoas contam tudo que fazem, publicam fotos de tudo que fazem, comem, compram. E se ninguém der bola - o que se concretiza na forma de "likes" e curtidas - , as pessoas reclamam que ninguém reparou ou deu a devida atenção.

Havia um tempo em que a privacidade era coisa íntima; vivemos um tempo em que a privacidade tornou-se algo público e publicável.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Beatriz Bracher e a condição feminina




O que significa "condição feminina" para você?

"No meu livro mais recente, ao escrever, percebi que esse era um tema dos mais fortes. Quis que fosse assim, conscientemente. Nos outros livros não. Para mim é muito difícil lidar com estas expressões, seja "condição feminina"ou uma ideia contemporânea de que o feminismo é das mulheres e não dos humanos, sabe? Essa coisa de que as mulheres têm que falar, têm que ter espaço. Na minha cabeça, mulheres e homens têm que falar sempre, mas entendo e sei que não é um caminho "errado". Mas é diferente do meu caminho. Tenho um pensamento que talvez não seja tão estratégico. Por isso tenho medo de criticar. Acho que as feministas têm um pensamento muito estratégico e isso nem sempre reflete uma busca de verdade. Acho que reflete uma busca da justiça. E num país como o nosso, que tem tanta violência contra a mulher, acho que elas, as feministas estão certas. Acho que a luta é esta e tem que ser desta forma. Mas alguém que é uma ficcionista não pode seguir esse caminho. Tem que complicar as coisas. Tem que virar um pouco do avesso. Colocar o homem no meio. No livro, o que eu fui descobrindo, ao escrever, lendo Milton, pensando sobre  Adão e Eva, é que a condição do machismo, a cultura machista que a gente vive, faz com que todos nós estejamos sujeitos a ela. É uma cultura em que a mulher oprimida sim, mas o fato de o homem ser o opressor não quer dizer que ele também não foi levado a esse caminho. Há uma forma de violência nisso. De você ter sido levado a ser opressor. É muito difícil reconhecer isso. Às vezes você tem atitudes que nitidamente revelam que o homem é mais "forte" que a mulher, o que faz parte de um sistema de crenças. Abrir a porta do carro para mulher entrar, por exemplo, é do nosso sistema de crenças, uma gentileza. Daí a você chamar uma pessoa que tem um gesto machista, de machista, eu acho inverídico, mentiroso. E a gente sabe que é mentiroso. Só que estrategicamente é muito interessante você radicalizar, ser muito agressivo em relação a essas coisas, mesmo que não sejam verdades, porque no jogo político você lida com inverdades. Condição feminina para mim é como as mulheres vivem hoje no mundo inteiro em todas as classes. E a condição é ruim porque tem muita opressão, sofrimento e injustiça. São muitas visões. Uma é a de quem está na luta política. A de uma ficcionista é outra."
(Vila Cultural, edição 156, abril 2017, p. 8-9)

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Quebrando barreiras


O vídeo é extramente ilustrativo e quebra barreiras do pensamento chapado que vem ganhando espaço em mentes obtusas.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Novos atalhos para velhos caminhos

Foto: portaldotransito.com.br


Se queres bom conselho, pede-o ao homem velho.”

O ditado popular associa a velhice à sabedoria dos anos vividos, dos fatos presenciados, das músicas ouvidas, das transformações sentidas. O bom e lúcido idoso é um poço de bons conselhos, simples considerações sobre a longa estrada da vida percorrida.

Quando criança, passava horas ouvindo minha tia avó contar sobre a infância, sobre uma São Paulo querida e romântica, imaginada em branco e preto, em tempos de bondes puxados por mulas, por ruas de terra e depois de paralelepípedos, com meninas com fitas no cabelo, vestidos rodados, sapatinhos de verniz. Uma cidade provinciana, quase bucólica em alguns bairros, onde não existia telefone, televisão, congestionamento, poluição, ruído em excesso, mas que teimava em se movimentar, em crescer, em autoproclamar-se a locomotiva do Brasil. Non ducor, duco, reza o lema no brasão da velha freguesia erguida nos campos de Piratininga.

Ela não tinha medo da morte. Dizia, com serenidade, que esperava apenas a hora que fosse chamada para descansar. A vida tinha outra ritmo e não me lembro com que idade ela faleceu, apenas me lembro que chorei ao receber a notícia.

A sabedoria, por vezes, é afogada pela teimosia, por hábitos arraigados e que são difíceis de quebrar e de mudar. Reparei nestes dias que idosos insistem em atravessar a rua fora da faixa de pedestres. Uma senhora quase foi atropelada ao cruzar no meio dos carros na Brigadeiro Luis Antônio e ainda se arriscar quando o semáforo abriu no contra fluxo. Outro, ao invés de caminhar alguns passos, corta a rua em diagonal, sem olhar e força uma freada brusca.

Estariam estes idosos tomados de um empoderamento tão forte que os faz se sentir imbatíveis, inquebráveis, indestrutíveis? Será que acham que a legislação que os protege também obriga motoristas de veículos a dar preferência a todos os idosos em qualquer lugar da via pública? Ou será que estão cansados e querem apenas pegar um atalho?

Preste atenção quando trafegar pelas ruas de São Paulo e veja se estou exagerando. Com a velocidade máxima reduzida, fica mais fácil notar estas atitudes que geralmente passam despercebidas.


Tomar atalhos novos e deixar caminhos velhos, diz um outro ditado popular. Talvez seja um bom momento para os idosos abandonarem os atalhos velhos no meio das ruas e adotarem um caminho novo pela faixa de pedestre.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Gotas políticas


Há uma proposta de reajuste de 78% dos salários dos servidores do judiciário. A presidente vetou a proposta. O Congresso pode derrubar o veto.

Com toda sinceridade, no momento atual, nenhum aumento deve ser concedido a qualquer servidor público. O momento exige corte de despesas. Por que só os funcionários do setor privado devem perder o emprego e amargar o não rejuste de salários?

Se não gosta da remuneração do servidor público, pede demissão - ops, exoneração - e vem pro mercado competir. Venha ver como é a vida de um empregado do setor privado, sem quinquênio, licença prêmio, jornada de 6 horas, abonos, feriados que não constam do calendário dos demais mortais como o dia da Justiça, dia do funcionário público, recesso de 20 dias no final do ano....ufa, até cansa de pensar em tanto benefício. #prontofalei

*  *  *  *  * 



Algumas situações do mercado empresarial são realmente curiosas e a forma como as empresas enfrentam crises reflete um bocado do caráter de seus líderes, que por sua vez reflete a cultura e a mentalidade da empresa.

A Volkswagen viu-se envolvida num gigantesco escândalo diante de órgãos ambientais dos EUA, pois seus veículos estavam equipados com um software que maquiava a emissão de poluentes dos motores a diesel. Resultado: um pedido de desculpas de seu CEO e a sua renúncia. Transparência diante do erro e punição dos envolvidos, que certamente sofrerão processos pelos danos causados.

A Petrobras, nosso dinossauro estatal do petróleo, viu-se envolvida num fantástico escândalo de corrupção e propina, tudo descoberto na Operação Lava Jato. Alguns personagens já foram condenados, outros estão presos, e outros ainda respondem criminalmente pelos seus atos.

Levantamento feito pelo Jornal Valor Econômico identificou que a Petrobras já gastou em torno de R$ 390 milhões apenas com os processos judiciais e pareceres jurídicos para se defender - e defender seus diretores - das acusações e ações de indenização.

Perto de R$ 1 bilhão já foi recuperado e que havia sido desviado dos cofres da empresa.

Qual a conduta de seus diretores e presidente, na época, Graça Foster? Nada. Fingir que estavam fazendo algo, fingir que não sabiam de nada, fingir que medidas estavam sendo tomadas, afinal o que importava era preservar seu cargo e o salário. A postura da diretoria da Petrobras é lastimosa e indicativa de como se trata a coisa pública no Brasil.

Não achava necessária a privatização da Petrobras, mas depois do que se encontrou naquele antro de corrupção e fonte de abastecimento do caixa de um partido político que saqueou a empresa (empresa pública repita-se!), estou convencido que a privatização da Petrobras seria uma ótima forma de cobrir as receitas necessárias para o ajuste fiscal do Levy.

Se bem que as ações da Petrobras estão tão desvalorizadas que vamos precisar esperar um pouco antes de privatizá-la, caso contrário, ninguém vai querer.


segunda-feira, 22 de junho de 2015

A poesia que nos falta




Eu leio poesia. Eu compro poesia. Eu não sou um consumidor de poesia, pois poesia não se consome, desfruta-se. Penso que a poesia é um convite à contemplação, a ultrapassar a superfície das coisas, um mergulho nas profundezas do cotidiano e dos sentimentos, da vida e dos objetos, da realidade que nos cerca. A poesia me transporta para o mundo da reflexão, do devaneio, da tentativa de melhor compreender este mundo.

Creio que nos falta poesia no dia a dia. Talvez você, meu caro leitor, perguntará onde existe poesia num metrô lotado, num engarrafamento de final de dia quando se está cansado a caminho de casa, numa notícia de jornal que reproduz a violência e a barbárie de crimes cometidos. Onde está a poesia deste mundo cruel?

Quem sabe, se olhássemos o mundo com um olhar poético, contemplativo, poderíamos ultrapassar a casca que recobre a realidade e penetrar mais fundo no transcendental. 

Outro dia, um amigo criticou de forma ácida o grande sucesso do momento, os livros de colorir para adultos. Para adultos? Quer dizer que criança não pode colorir aqueles desenhos elaborados? Lógico que pode, mas são planejados para adultos lidarem com o estresse. 

Curioso como a atividade lúdica, como o contato com a arte, ainda que de forma primitiva, seja utilizada como elemento terapêutico. A escrita já é usada como terapia, assim como a leitura. Agora, é a vez dos livros de colorir. O adulto dá um primeiro passo para ter contato com a arte visual. Digo primeiro passo, pois poderia sentar-se num banco em uma das galerias do MASP e contemplar Rembrandt, Picasso, El Greco, Goya, Modigliani, Monet, Manet...

Contemplar é mais trabalhoso do que simplesmente pintar com canetinhas e lápis de cor. Contemplar exige que se silencie o interior, que nossos sentidos estejam focados no objeto. A poesia faz isto, transporta-nos para o mundo da contemplação. Falta-nos poesia no mundo de hoje, mas quem sabe alguns não descubram que a Arte não é restrita a livros de colorir para adultos.


sábado, 21 de fevereiro de 2015

O "Paraíso" de Tatiana Salem Levy



Sabedor do novo livro de Tatiana Salem Levy, fui à Livraria da Vila da Lorena no início de dezembro em busca do livro. Acostumei-me a me adiantar às livrarias. Fico sabendo dos lançamentos pelos jornais ou pelos perfis dos escritores nas redes sociais e me antecipo ao mercado. Foi assim com os poemas de Fernando Pessoa declamados por Maria Bethânia e Cleonice Berardinelli. Até agora a Saraiva ainda não tem o produto disponível e a maioria das livrarias ainda não recebeu o DVD. 

A vendedora me olhou com perplexidade quando perguntei sobre o livro. Ela parecia desconhecer a autora, um dos expoentes da literatura brasileira contemporânea. Foi consultar o terminal. O livro acabara de chegar. Estava na caixa no subsolo da loja. Comprei o primeiro exemplar do livro recém-chegado.

Um dileto amigo que me acompanhava e que é ávido comprador de livros (e leitor) me inquire:

- Você gosta tanto dela assim para comprar um livro sem sequer folhear e dar uma lida em alguns trechos? Você sabe do que se trata a estória?

Respondi afirmativamente às duas questões. 

Encantei-me com a prosa de Tatiana Salem Levy em "A Chave de Casa". O livro ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura em 2008 por melhor autor estreante. A forma narrativa, o estilo, o despojo na escrita me cativaram. Virei fã e leitor fiel. 

Em seu novo livro, a escritora trata de temas sociais e volta a dialogar com a memória como forma de compreender quem somos. Tatiana parece indagar - através de seus personagens - sobre a importância do passado na formação do nosso caráter, na construção de uma personalidade que não é inovadora e inédita, mas um somatório de fatores familiares que são transportados de geração em geração ainda que de forma silenciosa e não deliberada.

Estou a digerir as impressões sobre a saga de Ana, protagonista de Paraíso. Parece-me que o novo livro é inferior aos dois anteriores, mas não tenho a certeza. Ana refugia-se num sítio em Nogueira, na região de Petrópolis, no Rio de Janeiro em busca de paz para escrever um romance histórico e em busca de isolamento para lidar com o potencial contágio de AIDS, após uma noitada irresponsável. O título pode se revelar contraditório, pois a calmaria da serra não espanta os fantasmas interiores de Ana. E ela desfia-os ao longo do romance.

A prosa leve de Tatiana é envolvente e o livro, que como a boa literatura brasileira não se tornará um best seller, vale a leitura. E a discussão. A esta discussão retorno em outro post.

PS: clique no tag abaixo para ler mais sobre Tatiana Salem Levy.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Um atentado à liberdade de expressão



O jornal francês Charlie Hebdo sofreu um ataque terrorista no dia 7 de janeiro de 2015 com a morte de 12 chargistas e profissionais que ali trabalhavam. O ataque gerou uma comoção mundial tanto em relação ao fato de tratar de um ataque terrorista, como ao fato simbólico de se tratar de um ataque à liberdade de expressão, conceito tão importante e fundamental para as verdadeiras democracias ocidentais. Ponho ênfase na palavra verdadeira, pois há inúmeros regimes que se passam por democráticos, mas na verdade não o são, como a Venezuela, por exemplo.

Li diversos artigos sobre o atentado, opiniões das mais variadas e de correntes opostas antes de escrever este post. Escrevi, corrigi, apaguei. Escrevi de novo, repensei e novamente apaguei. Tinha desistido de opinar sobre o tema, mas hoje pela manhã veio-me a necessidade de não me calar. 

Eu não sou Charlie e não concordo com a linha editorial adotada pelo jornal. O Charlie era antes de tudo um jornal panfletário de anarquistas que não respeitam nada, não importando se o assunto é religião, política, esportes, filosofia, literatura. Achavam-se todo poderosos, acima do bem e do mal e é exatamente neste ponto que reside o erro. A liberdade de expressão é garantia fundamental, mas não é um direito ilimitado.

O Charlie, na minha modesta opinião, ultrapassa a fronteira da liberdade de expressão protegida como direito humano, para invadir o campo da calúnia, da injúria, da difamação, do achaque descarado. E um estado de direito não pode amparar tal conduta.

Não estou a justificar o ataque terrorista, pois a violência não se justifica em hipótese alguma, salvo nos casos de legítima defesa e estado de necessidade. Mas parece-me que houve exagero no conteúdo do Charlie a ponto de perder a credibilidade, a ponto de acirrar ainda mais a intolerância. Em outras palavras, a conduta do Charlie foi um tiro pela culatra. Alegava proteger a liberdade de expressão, mas suas ações provavelmente terão consequências em sentido contrário.

É notório que os regimes islâmicos são mais conservadores e com viés mais intolerante. Não é possível compreender a lógica islâmica sob o ponto de vista ocidental. O sistema erige-se com base em princípios muito diversos dos princípios ocidentais. O que é preciso - e isto é fundamental - é garantir que os princípios ocidentais e os direitos fundamentais não sejam diluídos ou contaminados pela intolerância.

E quando me refiro a intolerância, é importante que olhemos para dentro do nosso país. A liberdade de expressão e de opinião deveria garantir que eu pudesse ler Monteiro Lobato sem ser rotulado de racista. A liberdade de expressão e de opinião deveria garantir que eu expusesse uma opinião contrária ao casamento civil de pessoas do mesmo sexo sem ser considerado homofóbico. A liberdade de expressão precisa garantir o direito à crítica, o direito a expor ideias de forma clara sem a censura do politicamente correto!

O nosso país tem se tornado intolerante com as ideias que fogem do lugar comum. O direito à crítica tem sido sufocado e esta conduta é um sinal claro de intolerância, um sinal claro de que a liberdade de expressão sofre ameaças no nosso suposto regime democrático.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Estradas





A vida é uma estrada. Sabemos o ponto de partida e ponto de chegada. Desconhecemos o trajeto, as curvas, o traçado, as retas, o tempo de viagem, o clima. Porém, todas têm um final, um destino derradeiro. Algumas são curtas e outras longas. Algumas são retilíneas e outras curvilíneas. Algumas planas e outras repletas de montanhas, planaltos, planícies, serras, pradarias, campos, vales. Algumas desérticas e outras arborizadas, floridas, com rios e cachoeiras. Algumas têm pontes e viadutos e outras túneis. Algumas são perigosas e outras seguras. Algumas são rápidas, com muitas pistas, sem desvios, sem bifurcações e outras se apresentam com inúmeras decisões e escolhas de rota ao longo do trajeto. Algumas são asfaltadas e outras de terra, esburacadas, sem acostamento, sem sinalização. Algumas estão sempre ensolaradas e outras mergulhadas em neblina densa.

Partimos e planejamos um roteiro. Olhamos para  a frente até onde o horizonte toca o infinito e o olhar se perde na incerteza do traçado da estrada. Seguimos com passos firmes, por vezes, diminuindo a velocidade, por vezes cansados e necessitados de repouso, de alimento, de forças para avançar. Por vezes, até retrocedemos, como se derrapássemos na pista enlameada e que ameaça nos atolar e impedir o avanço na rota.

O momento em que atingiremos o ponto final da estrada ninguém sabe, ninguém tem esta informação. Temos consciência de que a estrada termina, mas não sabemos o dia, a data, nem como isto se dará. Impossível parar e evitar o final da estrada. Se ficarmos parados, a estrada avança como uma esteira rolante e o tempo não perdoa, conduzindo-nos contra a nossa vontade para o ponto final da estrada.


A vida é uma estrada que vale a pena ser percorrida. Com todos os percalços, obstáculos, barreiras no meio do caminho, pedras, avalanches, inundações, neblina, tempestades. O traçado não é calmo e tranquilo, nem retilíneo. O traçado é de constante aprendizado e a cada etapa percorrida desta longa estrada da vida, como canta o cancioneiro popular, aprendemos e crescemos e amadurecemos. A vida não teria graça se fosse uma estrada sem curvas, sem obstáculos, sem paradas, sem pausas, sem hesitações. O importante é seguir na jornada e percorrer a estrada até seu final.


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Pobre debate




O primeiro debate do segundo turno das eleições presidenciais foi realizado pela Band. Mais do mesmo e menos do que importa. 

"No meu governo a educação é prioridade... O Pronatec... A inflação está sob controle... O aeroporto de Claudio..." 

"A inflação está pesando no bolso do brasileiro... O Paulo Roberto Costa não foi demitido da Petrobrás.... A corrupção... A senhora está sendo leviana..."

O debate foi reduzido a uma sequência de frases e slogans elaborados por marketeiros, programas enlatados (Mais Médicos, Minha Casa, minha vida, Pronatec, Belo Monte, Transposição do São Franscisco...) sem qualquer discussão de projeto de Brasil, de conceito de Estado, de visão de longo prazo.

Pergunto ao leitor, quais eram os temas dos debates de 2010? Dilma alardeava que resolveria o problema da violência vigiando as fronteiras com VANTs (veículos aéreos não tripulados), que o Bolsa Família seria ampliado, que não haveria privatizações, que o trem bala Rio-SP estaria pronto antes da Copa e por aí vai. Ninguém lembra da maioria destas coisas e muitas delas se exauriram quando Dilma foi eleita. A função era o efeito eleitoral apenas. Mentiras, ou melhor, "programas" criados para mostrar que o governo agiria e tudo se transformaria num país de mil maravilhas, algo como a propaganda do PT.

Eleição no Brasil é sinônimo de slogan e frases de efeito para enganar o eleitor. O brasileiro não se preocupa em pensar o país, em discutir o futuro, em definir prioridades e planejamento.

Tomemos um exemplo: o BNDES deve financiar projetos fora do país? E se o recebedor dos recursos for empresa brasileira? Para que tipo de projeto - humanitário, de infraestrutura? E se o recebedor de recursos for companhia aberta e com fácil acesso ao mercado de capitais, deve haver financiamento? Deve-se privilegiar as pequenas e médias empresas? 

Pessoalmente, responderia que a política de financiamento do BNDES deveria estar inserida numa política de comércio exterior ampla e deveria se coadunar com a política externa brasileira. Qual o papel do Brasil no mundo? A quem devemos nos alinhar? Quais blocos econômicos? Nossa influência deve ser regional ou global? Qual o futuro dos BRICS?

Qual o papel do Estado no Brasil? A reforma política deve reduzir o número de deputados e senadores? Deve haver reeleição? Os cargos públicos comissionados devem ser extintos? Deve haver limite para aumento de despesas pelo Governo Federal?

E caberia ainda discutir educação, saúde, infraestrutura, segurança, saneamento básico, transporte e mobilidade urbana, previdência, mercado de trabalho e legislação trabalhista, tributação.

Nenhuma destas questões foi respondida ou discutida no debate. Elas não ganham voto e não são compreendidas pelo eleitor comum. Dilma, por exemplo, quer dialogar com Estado Islâmico. A grande maioria das pessoas não têm a menor ideia do que seja o Estado Islâmico.

A crítica vale para os dois candidatos. A culpa é dos partidos que esvaziou o conteúdo do debate ao delegar as campanhas para marketeiros que não se preocupam com o país, mas apenas em ganhar a eleição.

A continuar assim, nosso debate será pobre. Pobre de nós eleitores.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O poste e as eleições




Eis o molusco e sua criatura, o poste - ou talvez a "posta", declinando o gênero como ela tanto gosta, mas "posta" (feminino de poste) tem um proximidade sonora muito grande uma palavra de baixo calão iniciada com a letra "b". A expressão seria uma afirmação sintética do nível de governo realizado por esta senhora.


Quando Lula lançou Dilma Rousseff como sua candidata à presidência da república, o humilde molusco se vangloriou afirmando que seu governo tinha sido tão bom, que ele era tão idolatrado, que poderia indicar um poste para seu lugar que o poste ganharia. Fez isto com Dilma. Fez isto com Fernando Haddad. Agora, parece que o eleitor que foi iludido começou a pensar e percebeu que a enganação acabou, que poste pode até governar, mas uma hora a exigência por competência aparece.

O Brasil vive hoje uma grave crise econômica, ética e de credibilidade. Nossa política externa é capenga, sem objetivos claros, com alinhamentos retrógrados a países que não respeitam as liberdades e os direitos humanos mais básicos. Recentemente, Dilma Rousseff manifestou sua simpatia pelo Estado Islâmico na ONU, o que indica claramente a trajetória e o rumo de nossa política externa.

Durante o governo Dilma, perdemos a força do crescimento econômico em parte por culpa de um ministro da fazenda incompetente, de um Banco Central refém dos melindres da presidente e do aparalhemanto maciço das empresas estatais, que foram reduzidas a supridoras de caixa do PT. A Petrobras foi saqueada, os Correios roubados.

Assisti a todos os debates e o discurso de Dilma só engana quem não pensa, não observa o país, quem não lê. Ela mente de forma descarada, tenta enganar e iludir. Dilma é um estelionato eleitoral! Seu partido parte da ideia de que uma mentira repetida mil vezes se torna verdade, e quem lapidou esta frase foi Goebbels, o chefe de comunicação de Adolf Hitler, na Alemanha nazista.

Não consigo conceber que uma pessoa de boa-fé e honesta vote em Dilma. Até tentei, mas não consigo. Minha capacidade intelectual não alcança a mesquinhez de pensamento petista. Não consigo ter respeito pela opinião de alguém que manifesta seu voto em Dilma Rousseff. Poste serve para iluminar, mas este poste nem iluminar consegue!

Domingo teremos a chance de varrer esta quadrilha que governa o país para bem longe. Ainda é tempo de salvar o Brasil, mas é preciso votar conscientemente, pensando na importância do voto. Vote consciente! Seu voto tem consequências!


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Perdi meu candidato à Presidência



"Não vamos desistir do Brasil!"
Eduardo Campos


Não há nada mais surpreendente do que a vida. Do nada, ela interrompe o caminho, inventa um desvio, muda um dia ensolarado com uma tempestade de granizo e raios. Tudo parecia tranquilo na última quarta-feira, quando pouco antes da hora do almoço, um avião caiu em Santos no litoral paulista. Eduardo Campos, candidato à presidência pelo PSB, estava no avião e faleceu tragicamente.

Fiquei triste. Fazia tempo que um candidato não me despertava um interesse maior. Gostei de suas propostas, de suas ideias e também por se revelar como uma liderança nova no cenário nacional. Acho triste analisar o cenário eleitoral e perceber que os candidatos são os mesmos, as velhas lideranças, não importando o partido ou o Estado. Em São Paulo, Geraldo Alckmin vai atrás de seu quarto mandato; no Rio de Janeiro - pobre Rio -, o principal  candidato é Anthony Garotinho; em Minas, Pimenta da Veiga e Fernando Pimentel; no Distrito Federal, José Roberto Arruda e Agnelo Queiroz, o primeiro preso por receber propina que foi flagrada em vídeo.

Há tempos sinto-me órfão politicamente. Para recorrer a um bordão usado recentemente, é difícil achar alguém que me represente. Via em Eduardo Campos alguém que poderia marcar posição nesta campanha, alguém que agitasse a oposição amorfa que apostou suas fichas no neto do Tancredo, mas que deveria ter sido muito mais atuante durante seu mandato de senador. Aécio não me empolga. Marina é uma grande incógnita. Assume o posto de Eduardo Campos, mas tenho sérias dúvidas se ela abraçará os objetivos de Campos, como banco central independente, redução da máquina pública com  diminuição de ministérios, educação em tempo integral, preservação e incentivo do agronegócio. O fato é que aquela bagunçou o coreto da eleição e agora é uma nova corrida presidencial.

Os debates serão fundamentais, no meu caso, para formar minha convicção e decidir meu voto. E se o leitor estranhar por que não falei da Dilma, a resposta é muito simples. Não voto em partido corrupto ou que compactua com a corrupção! Quem pensa e quer um Brasil melhor, não vota no PT, não vota em branco e não vota nulo. Decida seu voto conscientemente.

Perdi meu candidato à Presidência, mas eu não vou desistir do Brasil!



quinta-feira, 19 de junho de 2014

Feriados e a copa do mundo


O poste que governa São Paulo, Fernando Haddad,  tentou aprovar projeto para que a Câmara dos Vereadores aprovasse feriado na cidade de São Paulo no dia 23 de junho, dia em que haverá mais um jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo. Na última terça-feira, a cidade travou com recorde de congestionamento.

A Justiça Federal suspendeu o expediente durante todo do dia 23. A Justiça Estadual funcionará até às 12 horas, mesmo horário de funcionamento dos bancos e da maioria do comércio.

Sou contra este número excessivo de dias de folga e da falta de vontade de muitos em trabalhar. A seleção não empolga, mas parece que o brasileiro tem que assistir ao bendito jogo no conforto de seu lar. Sou do contra, sou chato. Acho um absurdo e uma estupidez se engalfinhar no trânsito de forma desesperada para chegar ao lar.

Na última terça, enquanto muitos se estressavam no trânsito e no transporte público, eu trabalhei até depois das 13 horas, fui almoçar com um amigo, assisti ao primeiro tempo do jogo de pé na calçada num bar e fui para casa no intervalo. Trânsito livre. Sem transtornos, sem confusão e com a sensação de que não perdi meu tempo como um bando de cordeirinhos que "têm que assisitir o jogo da seleção" ou então morrerão fulminados pela polícia dos traidores da pátria. Pessoalmente, acho que trabalhar honestamente é muito mais patriótico do que gastar metade do meu dia idolatrando jogadores que ganham milhões e que estão jogando para faturar mais alguns milhões. 

Não me entendam mal, eu gosto de futebol, tenho assistido a quase todos os jogos da Copa, mas não compactuo com a vagabundagem e a falta de vontade das pessoas de trabalhar. Acho um absurdo, um descalabro a quantidade de dias que a Justiça Federal declara como ponto facultativo. Quem mais se beneficia de feriados e pontes de feriados são os funcionários públicos, uma categoria que não hesita em fazer greve e que goza de benefícios não estendidos ao trabalhador comum, e muito menos aos autônomos e profissionais liberais. 

Com o feriado de Corpus Christi, este será o terceiro feriado de 5 dias neste ano! Para estes privilegiados, isto equivale à existência de 3 carnavais em um único ano! 3 carnavais! Que país pode crescer neste ritmo de produtividade? 

É preciso mudar a mentalidade e o prefeito podia dar o exemplo obrigando as repartições municipais a fecharem apenas 30 minutos antes dos jogos. Assim, todos encontrariam um lugar próximo ao trabalho para assistir o jogo. Isto movimentaria a economia da cidade e escalonaria o trânsito. Qualquer boteco tem uma televisão hoje e muitos celulares já tem capacidade de captação de sinal da TV aberta. Falta vontade política de mudar um hábito que precisa ser mudado. O Brasil precisa de gente disposta a trabalhar e não daqueles que só querem aproveitar mais um feriado.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Sinfonia em branco




Resenha do romance Sinfonia em Branco, de Adriana Lisboa (2a. Ed. Rio de Janeiro : Objetiva, 2013), vencedor do Prêmio José Saramago.



O amor era como a marca pálida deixada por um quadro removido após anos de vida sobre uma mesma parede. O amor produzira um vago intervalo em seu espírito, na transparência dos seus olhos, na pintura envelhecida da sua existência. Um dia, o amor gritara dentro dele, inflamara suas vísceras. Não mais. Mesmo a memória era incerta, fragmentada, pedaços do esqueleto de um monstro pré-histórico enterrados e conservados pelo acaso, impossível recompor um todo íntegro. Trinta anos depois. Duzentos milhões de anos depois.”(p. 15-6)

Tomás entra em cena de forma enigmática. Um homem que aguarda a chegada de Maria Inês, irmã de Clarice. Maria Inês era “uma mulher que a memória sempre vestia de branco e de juventude”.

Logo no primeiro capítulo, Adriana Lisboa, de forma lírica e provocadora, apresenta-nos Tomás, Clarice e Maria Inês. As duas últimas são irmãs. Maria Inês casa-se com João Miguel, primo de segundo grau, forma-se em medicina e permanece morando no Rio. Não retorna mais para Jabuticabais, onde nascera e crescera. Clarice, após a morte da mãe e do pai, volta para a fazenda e ali permanece, vizinha de Tomás.

Dois vizinhos que se tornam amigos e confidentes nas madrugadas frias e insones. A conversa geralmente orbita em torno de Maria Inês e a ansiedade do reencontro com a visita que se torna próxima.



Clarice casou-se com Ilton Xavier, outro vizinho da fazenda de Afonso Olímpio e Octacília. Clarice trazia consigo o queloide nos pulsos nus resultado de uma tentativa frustrada de cortar os punhos.

Um dia, a morte. Clarice sentiu mais uma vez com as pontas dos polegares as duas cicatrizes gêmeas, uma em cada punho. E sorriu um sorriso involuntário e triste, um sorriso sem mistérios, ao pensar que afinal acabara sobrevivendo a si mesma.”(p. 35-6)

Clarice era menina obediente e submissa; Maria Inês carregava uma vivaz insubordinação, gostava de desafiar o proibido. O temperamento de Clarice talvez tenha contribuído para o ocorrido, e ela carregara consigo a culpa pelo fato, ainda que de forma velada.

Poucos anos haviam sido suficientes para escurecer Octacília, para nublar seus olhos de águas-marinhas azuis e engravidá-los de tempestade, para deixá-la parecida com uma madrugada fria e insone. Seu humor escurecia a cada dia, e não havia para Clarice modo de deixa de sentir-se ao menos um pouquinho culpada. Tinha certeza de que a mãe não a amava. Talvez porque tivesse feito algo? Alguma coisa muito feia e censurável de que nem mesmo se lembrasse?”(p. 39)

Certo dia Octacília decide enviar Clarice ao Rio de Janeiro para morar com uma tia solteirona e ali passar uma temporada de estudos. Octacília e Clarice não eram próximas e uma semana após a decisão de enviar Clarice ao Rio, Octacília chama a filha no meio da noite para ver a lua. Conversam pouco, mas resta a impressão de que Octacília culpa Clarice pelo ocorrido.

Entre elas não havia confissões, não havia trocas de carinhos, mas muitos e longos silêncios. Desde sempre. Sobretudo por isso Clarice surpreendera-se com aquela iniciativa, mandá-la para o Rio de Janeiro. Pois se tudo era tão subterrâneo, se tudo era tão secreto.”(p.92)

O ano era 1965 e Clarice permaneceu no Rio por cinco anos. Nestes anos, Clarice tenta esquecer e moldar uma nova Clarice. Dali saiu diretamente para igreja de Jabuticabais onde lhe esperava no altar Ilton Xavier. O casamento durou 6 anos e numa manhã qualquer, Clarice partiu sem dizer nada. Sem rumo, Clarice vive de bicos no interior até chegar ao Rio, onde mergulha nas drogas e é “adotada” por um namorado traficante. Passado algum tempo, ela tenta o suicídio.



Tomás é um personagem coadjuvante, à margem das mulheres da trama, mas cuja história traz consigo um caráter de homem-objeto, um acessório de Maria Inês. Esta, por sua vez, parece saltar pelo mundo em busca de um amor verdadeiro, mas contenta-se com a superficialidade da variedade. Primeiro, Tomás. Depois Bernardo, um colega de turma que se transforma em cantor lírico e que coleciona namoradas em diversas cidades do mundo, como um marinheiro nômade e sem residência fixa. Quando está no Rio, protagoniza encontros sexuais com Maria Inês, onde ela se submete a ser mais uma na coleção de Bernardo Águas. João Miguel é o marido, com queda por jovens bonitos e moças jovens. Maria Inês nota isto num café em Veneza, ponto de partida para uma encruzilhada em seu relacionamento.

Mas Tomás parece ser o mais sincero em relação aos seus sentimentos. Aceita ser o “outro” de Maria Inês. E por ela espera durante quase toda a vida. Em certo trecho, a autora ao narrar a primeira vez em que Tomás avista Maria Inês na sacada do apartamento do Flamengo, na rua Almirante Tamandaré, e passa a desenhá-la de forma obcecada, sua vida termina antes de começar (“A vida de Tomás que terminou antes de começar.” – p. 149).

Tomás insiste num amor ao qual Maria Inês se recusa a abraçar. “Mais tarde ela diria por favor, Tomás, não se apaixone por mim, e ele perguntaria, sorrindo, por quê?, ao que ela responderia porque eu não estou apaixonada por você. Naquele momento, porém, e mesmo depois da revelação da não paixão, Tomás se assegurava: seria possível. Teria de ser possível. Porque o amor dele seria talvez suficiente para dois, como um prato farto num restaurante. Suficiente para alimentar duas pessoas, um desejo em dobro capaz de arcar com o peso de dois destinos, inclusive, e irmaná-los.”(p. 157)

Tomás insiste e reclama quando Maria Inês não lhe informa a morte de Octacília. Quando Afonso Olímpio morre, Tomás vai a Jabuticabais, conhece Clarice e nota os olhos secos das duas irmãs no velório.

Estavam secos.
Como estavam também os olhos de Maria Inês: secos. Estranhamente secos, mais secos que os olhos das pessoas quando estão secos. E a ausência de lágrimas pesava naqueles olhos marejados de falta, marejados de silêncio.”(p. 237-8)

Tomás não pergunta, não inquire, não invade. A sua presença no velório já era uma invasão. A invasão de um segredo que é compartilhado num único olhar entre Clarice, Maria Inês e Tomás. Ele de nada sabia, mas desconfia de algo muito bem guardado pelas irmãs.

Após a morte do pai, Maria Inês fica noiva de João Miguel e comunica a Tomás. “Uma paixão muito jovem. Que dividiu a existência de Tomás em duas metades, em dois hemisférios. Em dois períodos: um a.M.I. e um d.M.I.”(p. 241)

Maria Inês foi embora, mas não definitivamente. Voltou três meses depois, e continuou voltando ao longo dos dois anos seguintes. Uma Maria Inês clandestina que mais tarde haveria de se culpar e acreditar que o belo Paolo em Veneza era somente uma espécie de troco.”(p. 243).

Ao final, descobre que Eduarda, a moça que tem os seus olhos transparentes, é sua filha. 

Maria Inês, a protagonista, parece ter medo do amor, da entrega, do sacrifício que um relacionamento exige. João Miguel, o primo que virou marido, é o companheiro conveniente, conquistado sem esforço. Tomás, o devotado e apaixonado amante, é posto de escanteio, quase esquecido, mas Tomás não teve medo de arriscar, de abraçar a paixão que lhe assolara. Maria Inês, por sua vez, segue sua vida sem se amarrar, sem criar fundações definitivas e mais profundas. Sim, Maria Inês tem medo do amor, medo de encontrar o amor verdadeiro e duradouro.



Havia uma pedreira perto da fazenda e Maria Inês e Clarice sobem ao alto da pedreira num dia de junho, após a tradicional festa junina.

Maria Inês sentiu a pele da nuca eriçar-se, como se ela fosse um gato, e perguntou com a voz forte para que ele pudesse ouvi-la de onde estava: o que houve? O que veio fazer aqui?

Não fale assim com ele, Clarice censurou.

As distorções dela eram filhas das distorções dele. Claro.

Diante de Maria Inês e de Clarice, plantado no meio daquelas pedras como um fantasma, os cabelos ralos esvoaçando, Afonso Olímpio viu o rosto das coisas que ele poderia ter feito, mas não fizera. E também aquele sombrio das coisas que ele não deveria ter feito, mas fizera, ainda assim. Um homem carente da melhor parte de si mesmo, daquilo que agora pudesse sustentá-lo de pé.

Você acredita em inferno, pai?, Maria Inês perguntou.” (p. 288-9)

Ela surpreendeu-se por ouvir-se dizendo aquela palavra, pai, que foi a última que disse a ele e a última que ele próprio ouviu. Depois, muito levemente, empurrou.” (p. 293)

O tão desejado esquecimento se resume a um momento em que Clarice vê o pai despencar do alto da pedreira. E a partir daquele momento, inicia o processo de cicatrização.

O Esquecimento Profundo não existia. Clarice sabia. Nunca fora capaz de esculpi-lo – de reivindicá-lo para si. Também não existia algo como uma lembrança inócua, uma ferida cauterizada. Um bicho sem as presas e sem os dentes, sendo, apenas. A pacificação do passado com tudo aquilo que ele comportava. Existia uma cidade na memória de Clarice, uma cidade destruída pela guerra ou por um terremoto. Agora, havia construções novas e o entulho já fora removido e os mortos, enterrados – porém, haveria como reverter aquela memória? Como atualizá-la?” (p. 303-4)