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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

De que são feitos os dias?


De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encandeia
todas essas mudanças.

Dentro dele vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

(Cecília Meirelles, Canções, Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 25-6).

Vagarosas saudades que nos acompanham ao longo da jornada, despontando em momentos de solidão, surgindo alegres em momentos de tristeza para nos animar e equilibrar - ou desequilibrar.

Tudo cabe num único dia. Para alguns, nada cabe num dia; para outros, um dia é tempo para mudar o mundo, para dividir um sorriso, para mudar a rotina, para olhar para o lado e descobrir, para abrir os olhos do coração e ver.

Os dias são feitos de vida e tudo que ela nos oferece.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mulheres, mulheres...

A Família, Tarsila do Amaral

Se estivesse no mundo

ou fora do mundo...?
Mas que lhe respondo,
se o Arcanjo pergunta,
num tempo profundo?

No mundo passava:
porém muito longe.
Por sonhos e amores
me desintegrava.

O mundo não via:
minha permanência
foi, por toda parte,
fantasmagoria.

Dava, mas não tinha.
E, nessa abundância,
nada me ficava:
nem sei se fui minha.

Se estivesse no mundo
ou fora do mundo?
- Assim me apresento,
se o Arcanjo pergunta
meu nome profundo.”

Cecília Meirelles
(Canções. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 24-5)



No dia internacional da mulher, tracei a meta de escrever um texto especial para homenagear a todas as mulheres. Fugir do lugar comum. Eis meu objetivo. Poderia dar um tom social ao texto e bradar contra as desigualdades, as injustiças, a violência, o preconceito, a opressão, o sofrimento pelo qual tantas mulheres enfrentam diuturnamente ao redor do mundo. Não me omito quanto a isto tudo, mas vou deixar as palavras festejarem as mulheres no dia de hoje.

Palavras e mulheres. Palavras lançadas pela ótica feminina, escritas pela pena feminina. Protagonistas de estórias contadas e poesias sublimes de delicadeza ímpar. Mulheres escritoras. Vou louvar minhas diletas escritoras, que me ensinam a olhar a palavra de outra forma, que ensinam a olhar – e ver – a mulher com toda a beleza e encantamento que Deus lhe deu. Digo olhar, pois compreender a alma feminina parece estar aquém da minha limitada inteligência. E isto é bom, pois o mistério sempre permanece, a curiosidade sempre resta aguçada. Alma complexa a feminina.

Seria Clarice Lispector o melhor espelho da alma feminina com seus textos, com sua melancolia, com sua perplexidade diante da vida, com seus questionamentos constantes?

Seriam Cecília Meirelles e Cora Coralina o melhor retrato da doçura e da ternura feminina, da entrega da mulher, do sacrifício de quem se dá quando aparenta nada ter?

Lygia Fagundes Telles que mistura a realidade da memória com a ficção e deixa lições de vida através de personagens. Ou seriam todos os personagens um pedaço da escritora?

Tatiana Salem Levy, em sua obra de estréia A Chave de Casa, capta esta complexidade feminina. Forte, guerreira, determinada, impassível, corajosa, dedicada. Frágil, meiga, dócil, temerosa, cândida. Momentos distintos da mesma mulher. Adjetivos que se sucedem e se alternam.

Exaurir a alma feminina deve ser impossível. Deus deve ter querido assim. Fê-lo como presente aos homens que se superam em descrições, poemas, textos, músicas, pinturas, que festejam este ser esplendoroso que é a mulher, fonte inesgotável de inspiração e de beleza insuperável.

Parabéns a todas as mulheres no seu dia.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Via Appia


VIA APPIA, de Cecília Meirelles.


Pedras não piso, apenas:

- mas as próprias mãos que aqui as colocaram,

o suor das frontes e as palavras antigas.


Ruínas não vejo, apenas:

- mas os mortos que aqui foram guardados,

com suas coragens e seus medos da vida e da morte.


Viver não vivo, apenas:

- mas de amor envolvo esta brisa e esta poeira,

eu também futura poeira noutra brisa.


Pois não sou esta, apenas:

- mas a de cada instante humano,

em todos os tempos que passaram. E até quando?


(Canções. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 78-9)

Abraço a brisa da vida, envolvendo-a com amor e transformando cada instante em algo humano. Este "algo" humano que se manifesta em coisas singelas, em pequenos momentos de compreensão – ainda que não se expresse a necessidade de um abraço ou de um colo -, em gestos e sorrisos, em toques no ombro, em abraços apertados, em sorrisos desinteressados, em beijos no rosto, em segurar as mãos sem contar os segundos ou minutos, em correr atrás de uma borboleta, em levantar uma criança do chão para que ela posse ver mais longe, em agradecimentos desnecessários, em lágrimas que escorrem despertadas por aquela música – ou aquele texto -, em sonhos que nos visitam nas horas mais silenciosas...


O humano é dimensão da nossa dignidade única e incomparável. O humano está na nossa essência, que muitas vezes olvidamos ou afogamos. "Pois não sou esta, apenas: / - mas a de cada instante humano, / em todos os tempos que passaram. E até quando?" Somos a soma destes incontáveis instantes humanos, capazes de mudar uma vida e todas as outras que tocamos com nossa humanidade.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Cecília Meirelles - Metal Rosicler





Metal Rosicler foi publicado em 1960. Este é o primeiro poema do livro:


1


Não perguntavam por mim,
mas deram por minha falta.
Na trama da minha ausência,
inventaram tela falsa.

Como eu andava tão longe,
numa aventura tão larga,
entregue à metamorfose
do tempo fluido das águas;
como descera sozinho
os degraus da espuma clara,
e o meu corpo era silêncio
e era mistério minha alma -
- cantou-se a fábula incerta,
segunda a linguagem da harpa:
mas a música é uma selva
de sal e areia na praia,
um arabesco de cinza
que ao vento do mar se apaga.

E o meu caminho começa
nessa franja solitária,
no limite sem vestígio,
na translúcida muralha
que opõem o sonho vivido
e a vida apenas sonhada.

(Canções. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 147)

A ausência pode não ser física, mas interior. Mergulhada na alma, imersa na metamorfose, pronta para ressurgir e iniciar a nova aventura. Mudar sem deixar vestígio, sem deixar que "a tela falsa" pintada pelos outros influencie "a vida apenas sonhada", imaginada na aparência, mas distante da realidade.

A realidade é única, mas perceptível em sua integralidade, apenas por quem a vive. Os espectadores sempre desenharam na "tela falsa", notando por vezes a ausência, mas jamais compreendendo a ausência em sua completude.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Um pouco de Cecília Meirelles



"De um lado cantava o sol,

do outro, suspirava a lua.

No meio, brilhava a tua

face de ouro, girassol!


Ó montanha de saudade

a que por acaso vim:

outrora, foste um jardim,

e és, agora, eternidade!


De longe, recordo a cor

de grande manhã perdida.

Morrem nos mares da vida

todos os rios do amor?


Ai! celebro-te meu peito,

em meu coração de sal,

ó flor sobrenatural,

grande girassol perfeito!


Acabou-se-me o jardim!

Só me resta, do passado,

este relógio dourado

que ainda esperava por mim..."

(Canções. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 18-9)


Tantos sentimentos unidos num breve poema que integra Canções. Fico na saudade. Acho que foi o tema da semana neste blog. Um daqueles temas que ganham o inconsciente e só percebo depois que há uma união nos temas. "Montanha de saudade" que traz lembranças e desperta sentimentos bons, desejos bons, anseios bons. Saudade talvez seja o sentimento mais puro e despido de egoísmo. Um sentimento humano essencialmente inocente, inevitável, mas que enche de alegria a quem é dirigido.


Saudade só é sentida de um ente querido, de quem é importante, de quem é especial. Uma dor que pode levar a lágrimas, mas estas lágrimas semeiam alegria e felicidade. A felicidade de voltar, o júbilo do reencontro, de estar perto. Saudade que preenche o vazio da distância com o pensamento, ainda que silencioso.


Saudade não é uma simples palavra. É emoção rica e profunda, é dizer que moras no coração.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Poesia: Cecília Meireles

4

Não fiz o que mais queria.
Nem há tempo de cantar.
Basta que fiquem suspiros
na boca do mar.

Basta que lágrimas fiquem
nos olhos do vento.
Não fiz o que mais queria
e assim me lamento.

E a minha pena é tão minha,
quem a pode consolar?
Chorava caminhos claros
noutro lugar.

Chorava belos desertos
felizes de pensamento.
Mas a alma é de asas velozes
e o mundo é lento.

(Canções. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 150-1)

Já que hoje consegui ficar no escritório o dia inteiro, vou tirar o atraso nos posts. Tenho descoberto Cecília Meirelles com toda sua delicadeza e sensibilidade. Interessante como um poema pode ser lido num dia e não nos dizer absolutamente nada. Em outro dia qualquer, como que atraídos por uma força invisível, deparamo-nos com o mesmo poema e um mundo novo se descortina diante de nossos olhos. Não precisa ser um poema, pode ser aquele livro que sussurra baixinho: "Olha eu aqui! Me compre!"

O mundo é lento e testa nossa paciência. Queríamos que tudo fosse mais rápido, que pudéssemos nos transformar sem esforço, sem enfrentar os defeitos e os erros. Queríamos que num passe de mágica a realidade se transmudasse para os nossos sonhos. Mas o mundo é lento e as almas velozes devem ser pacientes.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Poesia: Cecília Meireles

Tarde de 6a feira, com chuva e friozinho. Tempo que convida à leitura, a ficar em casa com um bom livro, solitário nos pensamentos e devaneios, descansando dos dias de labuta. Termino o dia com Cecília Meireles que tanto sucesso tem feito neste blog.

14

"Oh, quanto me pesa
este coração, que é de pedra.
Este coração que era de asas,
de música e tempo de lágrimas.

Mas agora é sílex e quebra
qualquer dura ponta de seta.

Oh, como não me alegra
ter este coração de pedra.

Dizei por que assim me fizestes,
vós todos a quem amaria,
mas não amarei, pois sois estes
que assim me deixastes amarga,
sem asas, sem música e lágrimas,

assombrada, triste e severa
e com o meu coração de pedra.

Oh, quanto me pesa
ver meu puro amor que se quebra!
O amor que era tão forte e voava
mais que qualquer seta!"

(Canções. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 158-9)

Coração de pedra ou de gelo. Basta um olhar, um momento, um encontro para ele se descongelar e a pedra arder em brasa e novamente voar com asas.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Poesia: Cecília Meirelles

"O rosto em que me encontro
e que a nuvem contempla
vai-se mudando noutro
só pelo que relembra.

De caminhos andados,
se levanta e suspira,
contando sonhos gastos
e palavras perdidas.

Tudo o que parecia,
tudo quanto não era,
tirou-lhe o gosto à vida
e a ternura da terra.

Guardei para o silêncio
os tempos de renúncia:
quando meus sonhos penso,
vejo que sempre é nunca.

E é tão bela a tristeza,
que nem o amor alado
deixará dentro dela
mais que um desenho vago.

(Areia que aparece
dentro de águas que fogem,
sinto que te disperses
pela memória, longe...)

(Canções. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 31-2)

Na tristeza o rosto se modifica, o olhar se torna ausente, e diante da impotência de estampar no teu rosto um sorriso, fico na memória, nas boas boas memórias do riso solto, do olhar brilhante, da vivacidade juvenil. Não te disperses, não fuja para longe, volte com os pés no chão.