Os dias são feitos de vida e tudo que ela nos oferece.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
De que são feitos os dias?
Os dias são feitos de vida e tudo que ela nos oferece.
segunda-feira, 8 de março de 2010
Mulheres, mulheres...
“Se estivesse no mundo
ou fora do mundo...?
Mas que lhe respondo,
se o Arcanjo pergunta,
num tempo profundo?
No mundo passava:
porém muito longe.
Por sonhos e amores
me desintegrava.
O mundo não via:
minha permanência
foi, por toda parte,
fantasmagoria.
Dava, mas não tinha.
E, nessa abundância,
nada me ficava:
nem sei se fui minha.
Se estivesse no mundo
ou fora do mundo?
- Assim me apresento,
se o Arcanjo pergunta
meu nome profundo.”
Cecília Meirelles
(Canções. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 24-5)
Parabéns a todas as mulheres no seu dia.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Via Appia
VIA APPIA, de Cecília Meirelles.
Pedras não piso, apenas:
- mas as próprias mãos que aqui as colocaram,
o suor das frontes e as palavras antigas.
Ruínas não vejo, apenas:
- mas os mortos que aqui foram guardados,
com suas coragens e seus medos da vida e da morte.
Viver não vivo, apenas:
- mas de amor envolvo esta brisa e esta poeira,
eu também futura poeira noutra brisa.
Pois não sou esta, apenas:
- mas a de cada instante humano,
em todos os tempos que passaram. E até quando?
(Canções. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 78-9)
Abraço a brisa da vida, envolvendo-a com amor e transformando cada instante em algo humano. Este "algo" humano que se manifesta em coisas singelas, em pequenos momentos de compreensão – ainda que não se expresse a necessidade de um abraço ou de um colo -, em gestos e sorrisos, em toques no ombro, em abraços apertados, em sorrisos desinteressados, em beijos no rosto, em segurar as mãos sem contar os segundos ou minutos, em correr atrás de uma borboleta, em levantar uma criança do chão para que ela posse ver mais longe, em agradecimentos desnecessários, em lágrimas que escorrem despertadas por aquela música – ou aquele texto -, em sonhos que nos visitam nas horas mais silenciosas...
O humano é dimensão da nossa dignidade única e incomparável. O humano está na nossa essência, que muitas vezes olvidamos ou afogamos. "Pois não sou esta, apenas: / - mas a de cada instante humano, / em todos os tempos que passaram. E até quando?" Somos a soma destes incontáveis instantes humanos, capazes de mudar uma vida e todas as outras que tocamos com nossa humanidade.
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Cecília Meirelles - Metal Rosicler

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
Um pouco de Cecília Meirelles

sexta-feira, 4 de maio de 2007
Poesia: Cecília Meireles
Não fiz o que mais queria.
Nem há tempo de cantar.
Basta que fiquem suspiros
na boca do mar.
Basta que lágrimas fiquem
nos olhos do vento.
Não fiz o que mais queria
e assim me lamento.
E a minha pena é tão minha,
quem a pode consolar?
Chorava caminhos claros
noutro lugar.
Chorava belos desertos
felizes de pensamento.
Mas a alma é de asas velozes
e o mundo é lento.
(Canções. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 150-1)
Já que hoje consegui ficar no escritório o dia inteiro, vou tirar o atraso nos posts. Tenho descoberto Cecília Meirelles com toda sua delicadeza e sensibilidade. Interessante como um poema pode ser lido num dia e não nos dizer absolutamente nada. Em outro dia qualquer, como que atraídos por uma força invisível, deparamo-nos com o mesmo poema e um mundo novo se descortina diante de nossos olhos. Não precisa ser um poema, pode ser aquele livro que sussurra baixinho: "Olha eu aqui! Me compre!"
O mundo é lento e testa nossa paciência. Queríamos que tudo fosse mais rápido, que pudéssemos nos transformar sem esforço, sem enfrentar os defeitos e os erros. Queríamos que num passe de mágica a realidade se transmudasse para os nossos sonhos. Mas o mundo é lento e as almas velozes devem ser pacientes.
sexta-feira, 27 de abril de 2007
Poesia: Cecília Meireles
14
"Oh, quanto me pesa
este coração, que é de pedra.
Este coração que era de asas,
de música e tempo de lágrimas.
Mas agora é sílex e quebra
qualquer dura ponta de seta.
Oh, como não me alegra
ter este coração de pedra.
Dizei por que assim me fizestes,
vós todos a quem amaria,
mas não amarei, pois sois estes
que assim me deixastes amarga,
sem asas, sem música e lágrimas,
assombrada, triste e severa
e com o meu coração de pedra.
Oh, quanto me pesa
ver meu puro amor que se quebra!
O amor que era tão forte e voava
mais que qualquer seta!"
(Canções. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 158-9)
Coração de pedra ou de gelo. Basta um olhar, um momento, um encontro para ele se descongelar e a pedra arder em brasa e novamente voar com asas.
quinta-feira, 12 de abril de 2007
Poesia: Cecília Meirelles
e que a nuvem contempla
vai-se mudando noutro
só pelo que relembra.
De caminhos andados,
se levanta e suspira,
contando sonhos gastos
e palavras perdidas.
Tudo o que parecia,
tudo quanto não era,
tirou-lhe o gosto à vida
e a ternura da terra.
Guardei para o silêncio
os tempos de renúncia:
quando meus sonhos penso,
vejo que sempre é nunca.
E é tão bela a tristeza,
que nem o amor alado
deixará dentro dela
mais que um desenho vago.
(Areia que aparece
dentro de águas que fogem,
sinto que te disperses
pela memória, longe...)
(Canções. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 31-2)
Na tristeza o rosto se modifica, o olhar se torna ausente, e diante da impotência de estampar no teu rosto um sorriso, fico na memória, nas boas boas memórias do riso solto, do olhar brilhante, da vivacidade juvenil. Não te disperses, não fuja para longe, volte com os pés no chão.

