sábado, 28 de abril de 2007

Garota da Vitrine

Assisti o filme Garota da Vitrine (Shopgirl), com Steve Martin, no Telecine ontem. Era o filme da sessão das 10 e não tinha a menor idéia do que se tratava. Achei que ia dormir no meio, pois na 6a. feira chego tão cansado que geralmente caio no sono. Por mais interessante que seja o programa, sempre acabo dormindo. Ontem não dormi.

É um filme que consegue provocar reflexões interessantes. A estória é simples. Uma moça de Vermont - leia-se de cidade pequena - muda-se para Los Angeles tentando alavancar sua carreira de artista plástica. Ela trabalha na loja de departamento Saks 5th Avenue, vendendo luvas. O setor dela tem pouco movimento. Vive uma vida de rotina monótona. Conhece então Jeremy, um sujeito estranho, sem grana e sem rumo na vida. Quase simultaneamente aparece em sua vida Ray Porter, cinquentão, rico, separado e charmoso. Um sujeito elegante que sabe conquistar Maribelle.

Ray Porter vive um dilema: entregar-se ou não a Maribelle. Ele nega o seu próprio sentimento e recusa a aceitar que se apaixonou por ela. O medo de comprometer-se novamente e não dar certo, o medo de ser rejeitado por uma moça mais jovem. Tudo isto conduz ao final do filme. Ray diz a Maribelle que não futuro para eles. Em outras palavras, ele externaliza a Maribelle que não a ama. Nesta cena, Maribelle diz: "Então posso sofrer agora ou depois." E ela vai embora.

Mas há uma cena, em seguida, que trata do mesmo tema da última crônica que escrevi. Ray Porter está na varanda de sua casa, numa noite estrelada, e o narrador conta que Ray pensava em Maribelle e Maribelle pensava em Ray, ainda que nenhum dos dois soubesse destes pensamentos. O pensar no outro não era notado porque a comunicação se acabara. Mas a falta de comunicação não significa que um não pensava no outro.

No final do filme, Ray vai a uma exposição de desenhos de Maribelle. É o primeiro encontro depois da despedida. Olhos marejados, Ray diz a Maribelle que ele a amou. Um abraço demorado e cada um segue seu caminho.

Gostei do filme. Algo leve mas divertido. Vale a pena ver e vale a pena pensar nestas simples questões. Estou provocando sim. Depois dos comentários à última crônica, vou insistir no tema: fazer ou não fazer. Tal como aquela carta, ou melhor email nos dias de hoje, que foi escrito e não enviado, o telefonema que não foi feito, as palavras que não foram ditas são produto da dúvida que muita vezes nos paralisa.

A idéia da crônica partiu da leitura de blogs escritos por mulheres. Por que leio blogs escritos por mulheres? Porque elas são mais abertas e expõe sentimentos de forma mais clara que nós homens. Dúvidas como ligar ou não ligar, falar ou não falar são expressadas por mulheres. Homens a calam internamente. Se não agem, a dúvida é digerida e destruída internamente. O bem que se poderia fazer, o elogio que não foi feito, o agradecimento pelo carinho dado. Tudo isto deixa de transbordar para o exterior e deixa de alegrar e fazer bem.

3 comentários:

eu também queria saber disse...

olha, Renato, isso me faz lembrar um torpedo lindo que recebi de uma amiga virtual que mudou meu dia. Uma coisa tão simples mas se ela tivesse guardado, não teria mudado meu dia pra melhor. Eu procuro não adiar essas coisas mas estou com um telefonema de reconciliação com uma ex-amiga pendente faz tempo e não consigo ligar. É fácil falar mas fazer nem tanto. Pelo menos essa, pra mim, tem sido bem difícil pq tivemos uma briga beeeem feia. Eu vou superar a barreira e vou ligar. Ah, vou! O medo do rídiculo, do "não", que paralisa. Quem ousa ser "ridículo" acaba sendo mais feliz, eu acho.

Renato Bueloni Ferreira disse...

o ridículo me lembra um poema do Fernando Pessoa que diz que todas as cartas de amor são ridículas...mas conclui que ridículo é quem nunca mandou uma carta de amor.

Fernanda disse...

Nós vivemos uma eterna briga: razão x sentimento. São duas coisas que definitivamente não andam juntas, não tem jeito.
Confesso que sou muito mais sentimento do que razão e pago um preço alto por isso, mas não me arrependo.
Um amigo me disse não faz muito tempo, que ele sentia inveja do poder de expressar as coisas que eu tenho. Eu disse a ele que sou assim, porque falo com o coração.
Das vezes que deixei de ligar, falar ou fazer algo que senti vontade, me arrependi e esse momento nunca mais voltará.
Procuro terminar meu dia com o sentimento de ter feito e falado as coisas que gostaria e esse sentimento é muito bom!