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terça-feira, 22 de agosto de 2017
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Barcelona dos cinco sentidos
Palau de la Música Catalana, Barcelona
Até um ano atrás a viagem exigia um escala com troca de aeronave, sendo que a primeira parte durava longas doze horas. Na parte final do voo, para coroar o longo trajeto, minha filha e algumas outras pessoas passaram mal gastando o estoque de saquinhos coletores de vômito do Airbus 340 da Lufthansa com destino a Munique.
Em solo, o primeiro choque cultural. A passagem pela imigração foi tranquila e sem demoras. As instalações do moderno flughafen são amplas, com muita luz natural e arquitetura arrojada. A sensação de estarmos em outro mundo foi sentida de imediato, além da óbvia língua alemã com a qual não tenho a menor intimidade e cuja sonoridade lembra mais um longo desfiar de impropérios do que uma conversa amena. No terminal de embarque exclusivo da Lufthansa, não faltavam cadeiras e conforto, nem houve aquela ridícula troca constante de portões de embarque patrocinada pela nossa Infraero em todos os aeroportos brasileiros. Havia jornais do dia distribuídos gratuitamente e uma máquina de café e chocolate quente sem que houvesse cobrança pelas bebidas. Tudo organizado, limpo, bem cuidado.
Desde pequeno, sou fascinado por voar. Adoro voar e adoro passar horas nos aeroportos, explorando, vendo os aviões, observando os passageiros. O trajeto até o destino é para mim uma experiência divertidíssima. Devo confessar, porém, que ultimamente viajar de avião deixou de ser prazeroso e se transformou num suplício, com as poltronas apertadas e pouco distantes, serviço de bordo sofrível e nenhum benefício adicional, como aqueles antigos kits de higiene pessoal que o passageiro recebia no voo internacional. Os tempos são outros e agora dê-se por satisfeito se o voo sair no horário.
Voltando à estrada principal após um pequeno – mas necessário – desvio, decolamos para Barcelona. Uma vista fantástica dos Alpes num dia ensolarado e de céu claro, com sol refletindo dos picos cobertos de neve, fez parte do trajeto. Um dos pequenos ficou maravilhado, enquanto a outra sofria ainda com os efeitos da náusea que lhe afligia.
Barcelona, capital da Catalunha, é uma cidade em constante transformação e ebulição. Disseram-me que vinte dias seria muito e que me cansaria, pois a cidade não oferece tanto assim. Discordo efusivamente e retornaria para mais vinte dias por lá sem pensar duas vezes, ou melhor, fugiria do inverno brasileiro para aproveitar o verão catalão.
Barcelona no verão é invadida por turistas de todos os cantos, principalmente europeus do leste em busca de praia e de um pedacinho do Mediterrâneo, que parece uma grande lagoa salgada, de águas calmas e quentes. A mistura de povos, visitantes e residentes, permite ao turista vivenciar e explorar a vida local naquele canto ao leste da Espanha sem destoar do cenário.
O calor é seco e não incomoda quem opta por caminhar a maior parte do dia. Gosto de explorar as cidades caminhando, observando, com liberdade para parar em lojas, livrarias, bares e restaurantes. Um guia de bolso é elemento indispensável em qualquer viagem, pois chama a atenção para locais que poderiam passar despercebidos. Um prédio histórico, uma praça onde determinado fato ocorreu, um restaurante onde Picasso costumava almoçar e encontrar com outros artistas, um mercado renovado e cujo telhado em formas curvas lembra um campo florido ao balançar do vento. Uma boa pesquisa do destino garante esta imersão completa. Sou daquelas pessoas que gosta de aproveitar o tempo degustando o local, extraindo de cada passeio elementos culturais que vão compor minha bagagem na volta, sorvendo o ambiente urbano que dá o tom característico e único de cada cidade, como uma marca d’água indelével.
A estética arquitetônica é instigante em Barcelona. O olhar fica irrequieto, varrendo o cenário sempre a se maravilhar com algo diferenciado e inovador, saltado da prancheta de um famoso arquiteto. A Igreja da Sagrada Família, os edifícios projetados por Gaudí, o Parque Güell, a Torre Agbar e tantos outros edifícios e construções que marcam Barcelona como um showroom vivo e concreto da arquitetura.
A visão, porém, não é o único sentido a ser agradado pela cidade. O paladar e o olfato também são muito bem tratados. Nos pequenos bares e restaurantes, uma mistura de aroma de alho misturado com a fumaça de cigarro permeia o ar. Decidira que pararia de fumar nesta viagem e aquele cheiro de tabaco era um pequeno consolo para um – agora – ex-fumante. Os temperos e condimentos ressaltam o paladar dos produtos vindos do mar, verdadeiro banquete para quem gosta de pescados e frutos do mar. Servidos a la plancha, ou seja, cozidos na chapa com alho, cebola, sal e pimenta do reino, chegam fumegantes à mesa sem que o gosto seja mascarado pelos condimentos. E vale lembrar que os preços, com a crise na Europa, deixam qualquer boteco de São Paulo parecendo um roubo diante do preços praticados por lá. A Europa deixou de ter preços proibitivos e passou a ser um destino acessível.
Tapas podem ser encontradas em diversos locais da cidade e são um convite a pular de bar em bar. Saborosas, variadas e criativas, as tapas provocam novas sensações gustativas, brindando o paladar com uma explosão de sabores. Ciutat Comtal é um destes formidáveis lugares. Localizado na Rambla de Catalunya, 18, paralela da Passeig de Gràcia, charmosa avenida onde se localizam as lojas de grifes internacionais, o restaurante fica movimentado o dia todo até altas horas da noite, pois os catalães geralmente jantam após as 22 horas.
No Palau de la Música Catalana, a audição é o sentido premiado. Localizado no Bairro Gótico, próximo ao restaurante Els 4 Gats, frequentado por Picasso e pela classe artística de outrora, o grande templo musical foi construído entre 1905 e 1908 por Lluís Domènech i Montaner. No dia de minha visita, Paco de Lucía seria a estrela da noite. O mais renomado guitarrista espanhol, mestre do flamenco com sua batida peculiar que nos remete a imagens de castanholas e uma donzela a dançar com um vestido em negro e vermelho, faria a primeira de uma série de apresentações. Era a última noite em Barcelona e tive que me contentar com a aquisição de um CD duplo de um show que mais se assemelha a uma generosa antologia musical do artista.
A cidade espraia-se entre as montanhas e o mar e pode ser contemplada por inteira do alto de Montjuïc. Um forte utilizado com ponto de resistência durante a Guerra Civil Espanhola, agora convida o indivíduo a olhar pacificamente, a sonhar e a deixar a imaginação viajar. O vento que sopra acaricia o rosto como a pedir que o visitante não se vá, abraçando-o com afeto e convidando-o a voltar sempre. O tato é contemplado coroando o festival de sensações que uma verdadeira viagem deve proporcionar.
Seria Montjuïc o ponto final da viagem? Não, apenas uma pausa para sintetizar e arrumar na bagagem da memória tudo que foi descoberto e tudo que se enriqueceu nestes dias. Nestas linhas não coube tudo e nem poderia caber tudo. Os sentidos agraciados com a fantástica Barcelona nada mais são do que uma forma de enlevar o espírito e nutrir a memória com uma carga cultural renovadora e inolvidável.
(Convidado a escrever sobre viagens, nasceu este post sobre Barcelona, que visitei no ano passado. Mais sobre posts sobre o tema podem ser localizados nas tags Barcelona e viagem).
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Uma personagem em Barcelona
“Os primeiros bondes começavam a cruzar a cidade, e o tilintar da campainha de um deles, abafado pela casa fechada, chegou até mim como naquele verão dos meus sete anos, quando da minha última visita aos meus avós. Imediatamente tive uma percepção nebulosa, mas vívida e fresca como o cheiro da fruta apanhada do pé, do que era Barcelona na minha lembrança: esse barulho dos primeiros bondes, quando a tia Angustias passava rente à minha caminha improvisada para fechar as persianas que já deixavam entrar muita luz. Ou de noite, quando o calor não me deixava dormir e a trepidação subia a ladeira da rua Aribau, enquanto a brisa trazia o cheiro dos plátanos, que abriam seus galhos verdes e poeirentos sob a sacada aberta. Barcelona era também umas calçadas largas molhadas de chuva, e muita gente bebendo refrescos num café... Tudo o mais, as grandes lojas iluminadas, os automóveis, a agitação e até o próprio passeio da estação no dia anterior, que eu já acrescentara à minha ideia da cidade, era pálido e falso, artificialmente construído, como as coisas que, de tão trabalhadas e manuseadas, perdem seu frescor original.”
(Nada, de Carmen Laforet. Rio de Janeiro : Objetiva, 2008, p. 23)
Os bondes não circulam mais por Barcelona, mas as calçadas permanecem largas e impecáveis, os cafés continuam lotados no verão e os plátanos revelam toda sua formosura com a bela folhagem verde.
Fui até a Carrer D´Aribau, uma rua paralela das Ramblas e da Passeig de Gràcia. Esta última, uma rua movimentada, ampla, charmosa e com lojas de todas as grifes internacionais de luxo. Tinha ido à uma loja da Editora Marcial Pons, editora jurídica espanhola, que fica próxima à Passeig de Gràcia. Depois das compras, fui em sentido contrário à estação de metrô, esticando a caminhada na tarde quente até o cenário de Nada.
O livro foi escrito em 1944 e o tempo não tirou o charme da rua, dos prédios baixos, das sacadas que se debruçam sobre a rua. Viajar no tempo foi fácil. O cenário literário materializava-se diante dos meus olhos. Andrea, a protagonista, parecia ter passado a pouco por aquela rua. As palavras saltaram do objeto inerte chamado livro e ganharam uma nova dimensão, real, viva, vibrante. Como é gostoso visitar o cenário de um livro e notar a genialidade do escritor! E este primeiro encontro é permeado pelo frescor original que a personagem diluiu na sua rotina.
Postado por
Renato
às
6:58 PM
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segunda-feira, 26 de julho de 2010
Olhares de Barcelona - II
Torre Agbar, à noite (acima) e durante o dia.
Concluída em 2005, o edifício projetado por Jean Nouvel destaca-se em Barcelona, uma cidade onde os prédios têm altura equivalente e quase uniforme, sinal do bom planejamento e organização. A expressão Agbar não é uma palavra em árabe mas a abreviatura da empresa Águas de Barcelona, responsável pelo saneamento básico e pelo fornecimento de água na cidade.
O edifício lembra um pepino gigante, ou um monolito de um filme de ficção científica. Durante o dia, sua aparência é árida, porém, à noite, com a iluminação especial, o prédio ganha vida de forma surpreendente.
O hotel em que estava hospedado era ao lado da Torre Agbar. Diariamente caminhava para a estação Glòries do metrô e passava ao lado do prédio. O que mais me impressionou era a quantidade de pessoas fotografando o edifício e diante do edifício, algumas naquelas tradicionais poses, muitas delas cômicas. A Torre Agbar parece ter um campo magnético capaz de atrair toda e qualquer máquina fotográfica.
Suspeito que algum dia, algum fotógrafo ainda fará uma série de fotos de pessoas fotografando a Torre Agbar, enquadrando as imagens nos sujeitos que fotografam e não no objeto fotografado. Nos últimos dias em que passava por ali, deixei de observar a Torre Agbar e fixei o olhar atento na infinidade de pessoas que paravam alguns minutos para levar consigo uma lembrança de mais um marco arquitetônico de Barcelona.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Barcelona cosmopolita
Mosaico de Antoni Gaudí na entrada do Parc Güell, em Barcelona.
Ao visitar uma cidade pela primeira vez, uma daquelas cidades que parecemos já conhecer pelos livros e fotos, mas não pessoalmente, criamos uma imagem mental do que iremos encontrar. Uma infinidade de peças visuais, olfativas, gustativas que se organizam num grande mosaico, falho na maior parte das vezes. A realidade da visita corrige as falhas ou rejeita por completo a concepção criada de forma cerebrina.
Barcelona me surpreendeu. E muito! Talvez nunca tenha sido tão surpreendido por uma cidade como por Barcelona. Achava exagerado alguns comentários de amigos, mas estava enganado. A paisagem árida e as montanhas a oeste eram esperadas. A primeira visão casou com a imagem virtual projetada mentalmente. A surpresa veio com os primeiros passos pelas ruas, o contato com as pessoas, os aromas nos bares e restaurantes, o calor de dias ensolarados.
Barcelona erupciona no verão. Ao andar nas ruas mais movimentadas – e turísticas -, praticamente não se ouve espanhol. Fala-se alemão, holandês, francês e uma infinidade de línguas do leste europeu que não me atrevo a diferenciar. Há coreanos e japoneses também. Os brasileiros somem no meio da grande mistura. O catalão é a língua oficial que está em todas as placas, na locução das estações do metrô, em canais de televisão e outdoors. Uma mistura de português, espanhol, francês e italiano, o catalão – falado – é mais facilmente compreensível do que o espanhol, lembrando por diversas vezes o português falado em Portugal.
A cidade é um grande centro de encontro de africanos e latino-americanos que deixaram seus países tentando ganhar a vida por aqui. Muitos deixaram-se levar pelo crime quando a crise assolou o território europeu. É fácil encontrar mulheres muçulmanas falando árabe; indianos e paquistaneses falando seus idiomas; africanos falando francês.
Barcelona é de um cosmopolitismo ímpar no verão, um caldeirão em ebulição, em movimento, uma cidade onde as culturas e povos se encontram. Alguns para lazer e descanso; outros para sobreviver.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
terça-feira, 13 de julho de 2010
Ares de Barcelona
Plátanos carregados de folhas bem verdes desenharam a primeira imagem de Barcelona que me remontou aos livros. Carmen Laforet, em Nada, relaciona a passagem das estações à coloração das folhas dos plátanos. O exato período de um ano em que o romance transcorre, permite ao leitor imaginar a chegada do inverno com a variação da coloração das folhas. Barcelona está repleta destas árvores em todas as suas ruas.
A cidade foi planejada por um engenheiro e agrada-me muito mais do que as obras criadas por Oscar Niemeyer, que podem ser belas, mas cansam rapidamente. Barcelona relembra um pouco de Curitiba, mas as ruas de Curitiba são confusas e a tradicional bagunça brasileira permite construções de alturas diferentes, o causa uma certa desordem e quebra a harmonia da cidade.
Este planejamento racional e típico de um engenheiro foi o berço da falta de regras na arquitetura. Puig i Cadafalch e Gaudí lideraram o movimento modernista e presentearam a cidade com edifícios onde a curva predomina sobre a linha reta. O belo é o inesperado, o que rompe com a homogeneidade do passado. Não há nada de anarquista ou político na concepção de Gaudí, mas uma forma de externar o que ele concebe como belo do ponto de vista arquitetônico. Esta influência se propaga por toda a cidade, nas praças, bancos de jardim, novos edifícios, igrejas e tudo mais. Sempre há algo inusitado para um olhar atento.
Barcelona incorporou o espírito de Gaudí e isto a transformou num importante centro mundial de design e inovação.
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