Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 7 de março de 2024

Conto: Esquecida

 



The bridge at Herndon, Virginia - @rbueloni



ESQUECIDA


Eu me chateio. Ainda. Talvez não devesse mais, após 32 anos, mas eu havia pedido para tirar a calça de cima da cama antes dela deitar e apagar a luz do quarto. Era um pedido singelo, objetivo, direto. Bastava pendurar a calça no cabide ou deixá-la sobre a cadeira no canto do quarto. Mas ela ignorou meu pedido. Passou em branco. Aquele momento onde o ignorar se confunde com o esquecer e transforma-te em um ser invisível. Muita coisa passava em branco e cada vez com maior frequência.

 

Pedia para comprar pasta de dente no supermercado, ela esquecia. Pedia para pegar dinheiro no caixa eletrônico, ela esquecia. Perguntava se podíamos jantar com amigos, ela esquecia que iria trabalhar. E assim os dias se seguiram, um após o outro. Não me irritava, mas apenas me chateava e notava o esquecimento que recaía sobre mim. Estava sendo esquecido, abandonado, pedacinho por pedacinho, qual um navio de partida que se afasta do porto e a praia vai diminuindo de tamanho até que o horizonte se confunde com a imensidão do mar.

 

Um dia, levei-a ao médico. Desconfiava que aquele esquecimento pudesse ser algo a mais. Não deixei que fosse sozinha e marquei a consulta. Alguns exames e dias depois, veio o diagnóstico de Alzheimer em fase inicial. Ela estava se esquecendo da vida.



quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Conto: Entre corpos

 



ENTRE CORPOS


O ônibus não estava lotado naquela manhã, igual a todas as outras. Passageiros se alinhavam de forma assimétrica diante de mim, ao percorrer com os olhos a massa humana, fui arrebatado por algo inusitado. Entre braços e corpos, formava-se um espaço onde podia avistar um pescoço longilíneo, delicado, que desaparecia numa cortina de cabelos loiros. Lembrei-me de Rodin e de seus estudos das partes do corpo. Aquele pescoço seria um modelo perfeito para uma escultura do mestre francês. Como abelha atraída por uma bela flor repleta de pólen, vi-me abobalhado a admirar aquela obra de arte em forma humana. Confesso que alguns pensamentos mais sensuais me cruzaram a mente, mas aquele não era o lugar para ter estas vibrações. Era sensual, sim, não havia dúvida, mas desde quando um pescoço se tornara algo sensual para mim? Achei divertida aquela reflexão sem tirar os olhos do pescoço da bela moça.

 

A gola branca, de blusa discreta, realçava a pele amorenada que não escondia algumas pintas e uma pequena marca de nascença em forma de meia lua, bem clara, quase imperceptível. Meu olhar aguçado não poderia deixar desenhar estrelas naquelas pintas que dançavam ao redor da lua. Dois colares com correntes finas e douradas acariciavam o entorno do pescoço e repousavam sobre o colo. Alguns fios de cabelo escondiam o que seria um alvo predileto de um vampiro, que se refestelaria com uma larga mordida, a transformar a bela moça em sua seguidora noturna. Seria eu um vampiro que agora despertava diante daquele pescoço que me atraía de forma estranha e inexplicável? Teria eu algum sangue de antepassado vindo da Transilvânia ou aparentado do Conde Drácula? Ou seria algum personagem daquela série de livros de adolescentes vampiros Crepúsculo? Quase ri alto com tanta besteira a rondar minha mente com pensamentos desconexos.

 

Mas afinal, entre aqueles braços e corpos, só conseguia avistar o pescoço, um pedaço da orelha que não estava coberta pelos fios loiros e uma leve curvatura do maxilar a iniciar o desenho da face. Ela parecia hipnotizada pelo celular, totalmente alheia à minha presença e meu olhar fixo. Meu interesse passava despercebido. Quando chegou minha hora de descer do ônibus, lancei um olhar acrescido de um sorriso terno, mas ela me ignorou. Quem sabe amanhã, tomaria o mesmo ônibus. Quem sabe amanhã, poderia perguntar seu nome. Quem sabe amanhã, ela me olharia nos olhos.


terça-feira, 24 de setembro de 2019

Conto: Sonhei contigo



SONHEI CONTIGO


Sonhei com você nesta noite. Assim começava o email dele, sem saudação inicial, sem um “oi” ou “bom dia”,  qual uma mensagem de texto enviada pelo celular onde sabe-se exatamente quem é o destinatário e nomes são omitidos. Ela leu a frase e notou que a mensagem sucinta seria um teste para medir a rapidez na resposta dela, ele contando os minutos e atualizando o email para ver se ela responderia logo com a indagação típica instigada pela curiosidade: “o que você sonhou? Conte-me!” Ele dominava o discurso de um jeito sutil e discreto, deixando que ela só percebesse que agia exatamente como ele queria após já ter praticado o ato. Não era manipulador, mas um profundo observador do agir feminino. A resposta era intuitiva, ou melhor, a pergunta era quase automática, ele não poderia deixá-la em suspenso, deixando correr solta a imaginação que já rascunhara um roteiro com os dois abraçados, aos beijos, talvez enrolados na cama cobertos apenas por um lençol branco, numa cama grande com vários travesseiros, a luz da manhã penetrando nas frestas da persiana delatando que o sol já brilhava num domingo – ou de algum dia de semana em que haviam perdido o horário e preferido se entregar um ao outro sem dar bola para o mundo ao redor.

Desta vez, porém, ele a surpreendia. Dava um spoiler e contava tudo. Poucas linhas, mas suficientes para narrar o que lhe havia mais cativado no sonho. Ela continuou lendo e ele então passou a descrever um longo abraço, onde as palavras estavam ausentes, mas os corações batiam ritmados, qual um dueto regido por um maestro invisível, seus braços fechavam o arco onde ela permanecia envolta, cuidada,  de olhos fechados, respiração serena, a pele arrepiada e uma paz interior a tomar-lhe todo o ser. Em quatro linhas apenas, ele a deixara com um largo sorriso desenhado, as bochechas levemente ruborizadas e uma pequena lágrima a escorrer dos olhos marejados. A vida e seus pequenos momentos de felicidade.


segunda-feira, 1 de julho de 2019

Conto: Florescendo sem máscaras


by Erika Santiago sobre criação original de @_flordesaturno 


FLORESCENDO SEM MÁSCARAS


Estava exausta no final de mais um dia atribulado, onde fora preciso esconder sentimentos, vontades, desejos, sorrisos. As máscaras serviram de escudo para disfarçar a realidade. Tirou a maquiagem e deixou-se cair sobre o sofá. Despiu-se das máscaras e deixou os pés descalços sentirem o calor do piso. Libertos, enfim! Fechou os olhos e imaginou o silêncio da noite rural, onde poderia brincar com a grama molhada pelo orvalho a cutucar seus pés, o cheiro da terra a invadir suas narinas, o ar fresco da noite recém chegada. Raízes pareciam brotar de suas pernas, solo adentro, fixando-a e dando-lhe vigor. Esticou os braços e deles brotaram ramos e galhos e folhas, lindas flores substituíram seus dedos. Floresceu sem máscaras, sem fantasias. Abelhas extraíram o pólen e as flores viraram frutos. E com os frutos maduros semeou beleza, alegria, espalhou sorrisos e percebeu que as máscaras escondem quem ela é: única e bela.


terça-feira, 24 de maio de 2016

Águas passadas




Sonhei com você noutra noite. Sentada num canto de uma sala, sorria com um copo de vinho na mão. Mirava-me, silenciosa, mas transparecia uma alegria serena. De longe, olhei-te, sorri de volta, mas não acenei. Não iria tomar a iniciativa de abordar-te e romper teu desejo expresso no passado e de forma tão contundente. Tiveste força para me calar. Eu nunca calei tua voz dentro de mim. E vez por outra, como no acaso de um encontro casual, visitas-me com teu olhar distante e levemente melancólico, um olhar que sempre parecia gritar por socorro. 

Não queimei os poucos retalhos que guardei, não formatei o HD. Na verdade, o HD se autodestruiu, uma daquelas panes inesperadas que levaram junto arquivos, contatos, fotos, textos, memórias. Curioso como uma máquina é capaz de simplesmente apagar anos de trabalho que ali estavam armazenados. Voltei a confiar no meu HD mental, na memória que agora armazena variantes de gambitos, sicilianas e Ruy Lopez. A criatividade se desenrola num tabuleiro, onde tenho um pouco mais de controle sobre o que se passa. Quando algo dá errado, a culpa é só minha e de algum erro de cálculo. A vida tem suas inesperadas mudanças.

Acordei sem sentir saudades. O tempo passou, as águas correram e o sentimento se desfez. Ou talvez esteja apenas adormecido na noite fria que avança.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Conto: Corra, corra!




CONTO: Corra, corra!


Fazia questão de acordar cedo todos os dias, exceção feita aos sábados, domingos e feriados. Nos demais, levantava-se pouco antes do nascer do sol de modo a estar na rua e ter a face acariciada pelos primeiros raios solares. Gostava de contemplar a luminosidade matinal, como uma cortina que se abre e revela o cenário do palco, a cidade que despia sua roupa escura, cenário conhecido mas que ganhava tonalidades e cores inesperadas conforme a estação do ano,  a bruma matinal, a maresia, o cheiro. A corrida era uma necessidade, uma forma de espantar a preguiça do corpo e punir a carne com esforço e sacrifício, para ao final desfrutar de uma descarga benéfica de hormônios.

O silêncio da manhã, da cidade ainda adormecida, instigava-lhe a imaginar as vidas ao seu redor, as pessoas que cruzava – algumas habitualmente – em caminhadas ou corridas na orla da praia, faça chuva ou faça sol, sem intempérie a detê-los. Era uma disciplina quase fanática, quase militar, um exército de viciados em atividade física. Se ela fosse um robô agiria igual, pensou alongando os braços e pernas antes dos exercícios. Hoje dispensara a música. Optara pelo silêncio de seu universo próprio, como fazia todo dia 5 de cada mês.

A dor se misturava com a nostalgia, a melancolia com a saudade, a raiva com a compaixão. Nestes dias, era um cadinho de sentimentos em ebulição. Sensações que beiravam a dor física. Passaram-se seis anos desde aquele dia de novembro, mas tudo permanecia vivo e ela se odiava por isso. Deveria ter morrido o sentimento. Ele deveria ter  morrido. Não bastava fechar os olhos. O coração não tem olhos, pensou. Deixou-se abraçar pelo sol, deu dois saltos para sair do transe que lhe arrastava sem rumo e começou a correr.

Março trazia a instabilidade de um mês de transição. As manhãs não eram tão quentes, menos úmidas que nos meses anteriores. Fim de verão com as águas de março, mas hoje o dia resplandecia com toda sua majestade.  O vento era leve e lhe beijava o rosto com delicadeza. Seu cabelo preso num rabo de cavalo balançava num movimento pendular e ajudava a marcar o ritmo das passadas. Precisava se concentrar no começo, até que o ritmo lhe dominasse o organismo e tudo ficasse cadenciado numa máquina azeitada. Respiração, passada, braços, batimentos, olhar altivo. O cronômetro acionado para registrar tudo na planilha de treinos. A disciplina era rigorosa. Ela riu ao pensar em quantos lançamentos fizera nas planilhas de treino, quantos minutos correndo, quantos quilômetros correndo, quantos momentos da vida foram passados ali à beira-mar correndo, delirando com a paisagem da cidade sonolenta, lutando contra seu segredo, esforçando-se por esquecer o que nunca esqueceria. A corrida era uma tortura prazerosa que lhe permitia momentos de plena solidão, de pleno esforço e luta, de dominação do corpo pela mente e imaginava que isto algum dia, lhe permitiria esmigalhar por completo o sentimento guardado.

Uma bicicleta passou buzinando e ela se distraiu, atrapalhou-se no ritmo da passada, não a ponto de cair, mas revelando-se desengonçada. Achava-se pouco ágil, pesada demais para correr longas distâncias, mas percorria diuturnamente os oito quilômetros da beira-mar, quatro de ida e quatro de volta, concluindo o treino com uma refrescante água de coco. Ao menos, a corrida lhe dera mais resistência, pernas firmes, pele viçosa, colesterol baixo e um tornozelo que por vezes fazia questão de lembrar-lhe que os 40 anos já haviam sido superados. Ela ria de si mesma. Não corria para ficar gostosa. Corria para ter a sensação de que tinha condições de fugir, de escapar da realidade, como se a corrida lhe condicionasse e lhe preparasse para um momento de reencontro e então ela correria e correria e correria, sem olhar para trás, sem hesitar, sem temer o coração e com total racionalidade.

Ela tinha medo do reencontro. Tinha medo de emails, de presentes, de livros, de textos, de cartas, de recados, de bilhetes, de telefonemas, se bem que telefonemas eram coisa do passado. Achava mais arriscado encontrar um recado no whatsapp. Tudo se rompera em determinado momento. De uma única vez, como arrancar esparadrapo. Ele insistira. Ela calara. Um ano se passou e ele continuava a mandar sinais de fumaça, sem insistência, de forma delicada e carinhosa. Ela foi firme. Um dia ele desistiu, ou assim, achava ela. No fundo, desconfiara que em algum momento inesperado ele reapareceria e então ela teria que retomar sua fuga. Tinha que estar preparada e treinada. A corrida era a solução. Tinha que correr. Tinha que fugir. Tinha que estar alerta. Dispararia como um cometa, um cavalo chucro a correr numa planície qualquer.


E todo dia 5 a tensão atingia níveis extremos de ansiedade. Ele nunca mais aparecera, mas o que será que o destino guarda, ela pensou. Será que teria coragem de fugir? Será que seria forte o suficiente para fugir? Ou o coração me trairia novamente? As dúvidas açoitavam seus pensamentos com pontadas firmes, como se estivesse presa ao pelourinho recebendo chibatadas pelo seu mau comportamento. A ternura de seu olhar seria um bálsamo para o corpo cansado e teimoso. Por que fugir? Por que correr? Pare de pensar e corra. Corra. Corra!


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Conto: Cadeira na Janela




CADEIRA NA JANELA

Puxo a cadeira para bem perto da janela, onde possa observar o movimento da rua. A sala escura com as luzes apagadas. Sinto-me esmagado pelo mundo, sufocado por uma realidade que me visitou de forma repentina. Estava inebriado, entorpecido por um olhar que me abraçava com um carinho jamais sentido e toda vez me perguntavas a razão de te olhar em silêncio completo. As lágrimas não vêm. Secaram ou hibernam na confusão de pensamentos, aguardando o momento exato da erupção, do desmoronamento, da queda.

Avisto um carro laranja no posto de gasolina. O que isto importa? Nada, mas distrai-me o olhar perdido. O que importa chorar na solidão da noite? Ninguém me verá, ninguém saberá, ninguém se importará. Parece que o mundo moderno afasta, isola-nos em cubículos, em caixas que costumamos chamar de apartamentos.  A dor alfineta meu coração. Ouço tua voz com a entonação delicada e atenciosa a pronunciar meu nome.  O coração aperta mais uma vez. O carro laranja ainda está no posto de gasolina. Um helicóptero sobrevoa a avenida. O vizinho dá um grito de gol e comemora. Nem sei quem joga e também não me importo. Ninguém se importa comigo, porque haveria de importar-me com jogadores de futebol que ganham fortunas para brincar como crianças e correr atrás de uma bola.

Não liguei o rádio. Nem o iPod. Nem o celular. Minha trilha sonora é composta pelos ruídos da cidade que inicia seu recolhimento noturno, cansada, em câmara lenta a cidade se aquieta. Agora há um carro verde no posto de gasolina. Reclino a cabeça apoiando-a no encosto da cadeira. Fecho os olhos e respiro fundo. A pressão sobre meu peito rouba-me o ar. Respiro lenta e profundamente. Se eu tiver um enfarte agora, ninguém se importará. Se eu morrer agora, ninguém se importará. Se hoje fosse meu aniversário, ninguém se importaria. Se a felicidade existisse, ela também não se importaria comigo. Será que Deus se importa? Será que ele existe? Ou será que ele também já desistiu de mim?


O carro verde deixa o posto e uma viatura de polícia para diante da loja de conveniência. Não há mais nenhum carro no posto. A avenida, quase vazia.  Não sinto fome, apesar da hora e de não ter comido nada. Ela sentiria fome.  Mas ela não está aqui. Estou só, como tantas e tantas outras vezes. Os policiais conversam diante da viatura e comem um lanche. Meu estômago ronca e pede alimento. Ignoro-o. Quem se importa em perder tempo com alimentação num momento destes? Nova pontada no peito, agora, um pouco mais forte. Respiro fundo. Tusso forte para aumentar a circulação sanguínea. Disseram-me, uma vez, que isto ajudava. Não tenho a menor ideia se funciona, mas começo a suar frio e percebo que o físico se rende ao psicológico. Curvo-me com a dor. A respiração se torna difícil, a dor aumenta e caio desfalecido no chão. 


terça-feira, 17 de junho de 2014

Conto: Um dia após o outro


Instagram @vai_literatura

UM DIA APÓS O OUTRO

Foi o primeiro dia que saiu de casa desde o ocorrido. Tomou seu café da manhã, um copo de leite, uma torrada com geleia de damasco, uma fatia de queijo branco e vários remédios. Coloridos e multiformas. Alguns pela manhã, outros no meio do dia e os da manhã se repetiam à noite antes de dormir. O dia estava cinzento, uma garoa fina e constante a cair sobre a pauliceia desvairada. Olhou pela janela do apartamento. Recusou o guarda-chuva e fisgou um boné azul escuro e bem desgastado do armário.

Tinha medo de voltar a caminhar sozinho. Suas mãos tremiam ao segurar as chaves para abrir a porta. Hesitou. Fechou os olhos e a imagem se repetiu mais uma vez, como tantas outras vezes nestes últimos quatro meses. Com a mão esquerda, ajudou sua mão direita a encontrar o buraco da fechadura. Girou a chave e deu um passo para o hall do elevador. A jaqueta que vestia e que deveria lhe proteger da chuva, agora impedia o suor frio de evaporar. Tentou relaxar. Soltou os braços e balançou-os lentamente. Um homem de setenta e dois anos não devia temer a morte, pensou. Mas não era a morte que ele temia, era o rancor, os assuntos mal resolvidos, era o tempo se esgotar antes de que pudesse terminar o que havia começado – ou tantos outros assuntos que haviam terminado mal.

A avenida Paulista, em seu trecho final no Paraíso,  era seu quintal há mais de quarenta anos. Por trás do portão do prédio observou uma infinidade guarda-chuvas coloridos, dançando e girando, formando uma massa disforme se observado do alto, alguns movimentando-se de forma apressada, outros a passos lentos, como se a vida e o tempo pudessem desacelerados. Antes, todos os guarda-chuvas eram pretos e duravam uma vida toda. Agora são chineses, vagabundos, frágeis, descartáveis, como os aparelhos eletrônicos, os móveis, os utensílios domésticos, os relacionamentos, o amor, a vida. Vivemos num mundo descartável. É mais fácil – e barato – trocar do que consertar, do que por dinheiro bom num conserto realizado por alguém incapaz ou despreparado. Sabem vender, mas não sabem remendar.

Um pouco mais sereno, abriu o portão e deu o primeiro passo na calçada lisa da Paulista. Enfiou as mãos no bolso e deixou que seu rosto fosse beijado pelas gotículas geladas da garoa forte. Uma bruma gris, quase uma névoa formara-se cobrindo o cume dos prédios e as antenas de TV da avenida tão paulistana. Os primeiros passos foram temerários, depois, aos poucos, encontrou um ritmo cadenciado, nem apressado, nem lento, mas reflexivo. Observava os rostos anônimos que cruzavam seu caminho nas largas calçadas. Sempre gostou de agir assim, de analisar os outros, os rostos, de tentar adivinhar o que se passava em suas vidas. Perguntava-se o porquê daquelas pessoas não serem seus amigos, seus conhecidos, por que apenas algumas pessoas entram em nossas vidas e por que as deixamos ficar. Talvez a culpa seja das estrelas ou dos dias de um futuro esquecido, pensou reparando em cartazes que anunciavam os filmes no circuito de cinemas. Em exibição em grande circuito, pensou e riu lembrando dos anúncios de filmes de tempos passados. Agora havia TV a cabo, netflix, sites piratas para baixar filmes. Permanecia antiquado e preferia ir ao cinema, ou assistir na televisão. Nada de pirataria. Era um cumpridor da lei.

Uma freada brusca de um carro assustou-o com o barulho, tanto que deu um sobressalto, coração disparado. Olhou ao redor. Avistou dois policiais mais adiante e tranquilizou-se. Deixou que seus devaneios voltassem às pessoas que vinham na direção contrária. Algumas falavam no telefone, outras com os fones de ouvido conectados ao celular e alienadas do mundo e do entorno. Quando deixou de escrever sua coluna quinzenal na Folha por conta do ocorrido, as estórias que encontrava escondidas por aí deixaram de ter importância. A escrita fora silenciada pelo barulho ensurdecedor do tiro. Aquela manhã era a primeira vez que sentira saudade de escrever. Seu editor insistiu que ele continuasse a escrever, iria lhe fazer bem, disse, ocupará sua mente, seria uma forma de terapia, de avançar, de seguir com a vida. Mas ele fora intransigente. Precisava de uma pausa, de uma longa pausa, talvez até de uma pausa definitiva.

O tempo é cruel e repleto de mudanças. A casa que outrora fora o símbolo dos industriais paulistas havia sido demolida. A casa dos Matarazzo agora cedera espaço a um shopping, um hotel e um edifício comercial. A construção subia rapidamente na esquina da Paulista com Pamplona. A caminhada seguia bem e estava surpreso em como estava calmo, aquele território era o seu chão, sua ligação com a cidade, com as pessoas, com a vida.

A garoa apertou e entrou no Conjunto Nacional para se abrigar e tomar um café. Ali o tempo quase congelara. A arquitetura mantida quase que original, o piso de pedra portuguesa em preto e branco, as agências bancárias, os escritórios, o burburinho constante de gente passando. O cine Astor cedera lugar a uma gigantesca livraria, o que muito lhe agradava. As enormes rampas curvas no centro do saguão pareciam se enroscar na coluna dos elevadores como cobras abraçando uma árvore. Os resquícios de seu tempo ainda eram visíveis naquele cenário, algo que lhe trazia um certo conforto e paz interior.

Seguiu a diante, cruzou a Augusta e a garoa havia cedido, quase parado. O boné estava molhado. A jaqueta era impermeável e gotas haviam escorrido sem impregnar o tecido. Parou numa banca de jornal e comprou umas balinhas. Passou os olhos pelas manchetes dos jornais. O assunto era a Copa do Mundo, o discurso ridículo e ufanista da anta que governava o país, da greve dos metroviários que acabara quando os pelegos foram postos na rua – lugar onde todo vagabundo que não quer trabalhar deveria ir -, da previsão do FMI de que o país terá um crescimento pífio e mais algumas desgraças, como de costume.

Entrou na rua Haddock Lobo e desceu duas quadras em direção aos Jardins. Parou diante do número 961. Tocou a campainha e esperou o porteiro perguntar o que ele queria. Com vez fraca e titubeante, respondeu:


- Gostaria de falar com a  Sra. Alice do apartamento 41.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Conto: Montjüic



MONTJÜIC

Subiu ao alto de Montjüic, sentou-se num banco com vista para o Mediterrâneo e deixou que a brisa fria daquela tarde lhe acariciasse o rosto, uma leve lembrança da morte. O céu de outono estava sem nuvens, mas a temperatura trazia sinais de que o verão partira mais uma vez. O olhar fixo no horizonte azul, céu e mar fundiam-se no infinito em uma única massa, ar e água unidos de forma indissociável e imperceptível ao olho nu e a visão embaçada de Pedro que recorria aos óculos desde a mais terna idade dava-lhe a sensação de um cenário surrealista, esfumaçado.

- É possível encontrar a felicidade até na dor.

Estas palavras de Carmen Ferret não faziam o menor sentido para ele. Como aquela mulher tinha sido capaz de superar a dor da morte, da traição, do abandono, da solidão? Onde encontrara forças para sobreviver e seguir adiante? Que tipo de ser com forças sobre humanas era ela? Uma santa a caminhar na terra? Um espírito elevado que alcançara algum grau de nirvana e que mantivera-se impassível e sereno diante da guerra, da indiferença do marido, do esquecimento dos filhos, da ingratidão dos colegas de universidade, da falta de reconhecimento de seu trabalho humilde e perseverante, mas genial?

As perguntas se repetiam e bombardeavam a mente de Pedro. Estava convencido de que precisava se contentar com a inexistência da felicidade, de que amor verdadeiro não existia e de que a vida não passava de uma sucessão de eventos que culminavam com a morte, o último ato de uma longa peça teatral e cujo final era imprevisto e para qual não havia ensaio, chance de repetir as cenas. Algumas peças eram de curta duração. Outras alongavam-se de forma exagerada, de forma tediosa e despidas de sentido. Algumas eram cômicas, algumas trágicas, mas na sua maioria doloridas e melancólicas. Esta era a palavra que buscava. A vida era melancólica, como nos inúmeros romances de Dostoievski. A felicidade era uma criação do marketing para vender livros de autoajuda, para enganar os pobres mortais, para incentivar o consumismo desenfreado de drogas, bebidas e aparelhos eletrônicos hipnotizantes e bestificantes.

Lembrou-se de uma viagem a Atlanta, a trabalho, quando teve a oportunidade de visitar a sede mundial da Coca-Cola. Aquele slogan repetido à exaustão em filmes, comerciais e painéis eram um indicativo claríssimo do poder do marketing e da prevalência da mentira sobre a realidade. Open happiness. Abra a felicidade. Abra uma garrafa de coca-cola e consuma açúcar, conservantes cancerígenos, produtos químicos cujas propriedades são desconhecidas, ganhe vários quilos a mais. Afinal, obesidade é a nova tendência mundial. Uma latinha de coca-cola pode lhe trazer a felicidade momentânea, mas pode lhe brindar com efeitos colaterais nefastos. Ou talvez, não. Talvez eles tenham razão. Se o refrigerante lhe faz mal, então o líquido abrevia sua vida, encurta o sofrimento e se a morte é a felicidade suprema e derradeira, de fato, consumir a bebida deixa a felicidade mais próxima.

Balançou a cabeça em repugnância àquelas ideias malévolas e conspiratórias tão próprias de algum inimigo do capitalismo, de algum defensor do regime cubano.  Mas era verdadeiro que ficou decepcionado quando se deu conta de que a Coca-cola não passava de uma empresa de marketing, não uma empresa de bebidas.

Tentou ordenar suas ideias, retornar o foco ao ponto de partida e deixou seu olhar passear pelo mar em busca de algum barco ou navio. Um ferry boat aproximava-se do porto trazendo pessoas vindas de Mallorca. Ao redor, poucos turistas se aventuravam naquele vento, agora mais gelado, no alto de um dos melhores pontos de observação da bela Barcelona. Algumas crianças brincavam nos canhões usados na Guerra Civil e que agora repousavam silenciosos, lembrança de tempos sombrios e de constante turbulência.


Será que Alice está feliz, onde quer que ela esteja? Será que ela zela por mim? Será que ela me ouve? Será que eu a encontrarei algum dia? Ao pensar isto, seus olhos marejaram e ele suspirou profundamente. A saudade lhe assombrava com força ainda maior. Apoiou os cotovelos nos joelhos, mergulhou a face por entre as mãos e chorou. Novamente. 

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Desassossego


imagem: instagram @rbueloni


Sinto o peso das noites insones, em horários variados, na manhã seguinte. É uma ressaca de você, algo que não deveria ocorrer, algo ao qual deveria ser totalmente indiferente, dar de ombros, olvidar sem demasia. Esquecer parece mais difícil do que viver.

Há dias de calmaria e noites estreladas quando navego no mar plácido e nas águas sem ondas, até que algo dispara o inesperado alarme causando um desassossego na alma. Desassossego. Palavra complicada até para escrever com este monte de esses. Letra sinuosa que retrata tão bem as surpresas e as peças que a vida nos prega. Faz-se uma curva e pronto, depara-se com um nome que dispara uma viagem no tempo da memória e tudo se materializa. O sorriso, a voz, o perfume, o jeito.

Partidas nunca são algo corriqueiro, salvo se tivesse um gélido coração, coisa que descobri ser inexistente. A tranquilidade é afastada de forma imprevisível, quando a solidão cala fundo e tua ausência se faz tão presente. Sei que um dia não haverá espaço para isto e lágrimas serão poucas e hão de secar. Basta ler teu nome que os momentos de inquietação me tomam o ser e isto ocorre na quase totalidade das vezes.

Sinto o desassossego daquilo que poderia ter sido e não foi, sinto o desassossego de não ter tido mais tempo, de não poder me despedir. E terei eternamente saudade daquilo que não foi.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Crônica: Despertador


DESPERTADOR


Era uma manhã de sol, não importando o dia da semana. Deveria ser sábado ou domingo; ou algum feriado. Um dia não útil, ou melhor, um dia em que não se trabalhava. Estava sentado numa arquibancada de madeira, daquelas bem rústicas e precárias, com uma estrutura de ferro e que lembravam um andaime. Ficava na lateral do campo perto de onde os jogadores infantis se aglomeravam no que poderia ser chamado de banco de reservas. Deixava o olhar passear pelos meninos que corriam atrás da bola durante o aquecimento, cada qual com sonhos de voos mais altos.

Avistei-a de longe e ela sorriu quando me viu. Cabelos molhados que lhe caíam muito bem, rosto sem maquiagem, ao menos imperceptível para um homem, e uma alegria que se notava. Penso que parte daquela alegria fosse devida ao fato de vê-lo ali e isto o alegrou também. Sentou-se do seu lado. Ela falava e ele ouvia. Num e noutro lance mais emocionante, ele sentia ela pegar-lhe no braço, um leve aperto, a mão repousando sobre seu antebraço. O gesto de alguns segundos se cristalizava e um arrepio lhe percorria a espinha. O sorriso era incontido.

O jogo terminou e caminharam juntos por alguns instantes.

Então, o despertador tocou, acordando-o com uma música desconhecida. Ao longo do dia, permaneceu a sensação agradável que o sonho lhe presenteara.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Conto: Noite Insone


A luz azulada no único apartamento com sinal de vida oscila e desenha a silhueta de um anônimo a compartilhar comigo a solitária insônia. Passa das duas da manhã e o silêncio me faz companhia, inundando a madrugada e permeando meus pensamentos. Penso em silêncio. Sobre o silêncio apoio-me, como se fosse um barco a conduzir-me pelas águas calmas de um lago.

Aperto os olhos tentando decifrar a silhueta no apartamento ao longe. Seria um homem ou uma mulher? Jovem ou idoso? Não tenho êxito na missão e os pensamentos começam a se enevoar com a avalanche do cansaço que me convida ao leito.

Um carro interrompe a quietude com o ronco do motor. E tudo volta a ficar calmo. E quieto. A madrugada está fria. Os pés descalços incomodam-me ao sentir o chão gelado da sacada. As pálpebras fraquejam e iniciam o movimento descedente. Forço-as para cima, ainda entretido com a luz azulada que exerce uma força hipnotizante sobre mim. Teria o espectador morrido na cadeira? Ou adormecera com a televisão ligada?

Minhas perguntas são vãs. Que diferença faz? Para que servem estas conjecturas? A resposta é muito clara: para nada, além de puro entretenimento enquanto o sono não me dá o ar da graça. Chega de perder tempo com ilusões e curiosidades vãs. Vou dormir. Boa noite!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Crônica: Inspiração


"Quando a inspiração evapora, recorro ao teu olhar e me perco nesta imensidão." Era assim que ele me explicou, certo dia, a origem da vertente criativa para escrever e afirmou que era inesgotável. Nunca me disse de quem eram os olhos, se eram reais, fruto de uma paixão antiga ou brotados de um sentimento platônico.  Não precisava tê-los diante de si, pois parecia ter na imaginação o retrato perfeito dos olhos da musa. Com precisão microscópica, seria capaz de descrever a íris, a pupila, as pálpebras, os cílios. Não era, porém, do exterior que extraía a seiva da inspiração, mas do que conseguia ver por detrás daquele cristalino.

Os olhos eram como uma vitrine, uma janela, um portal que o convidava a mergulhar, que não aceitava apenas uma olhadela. Exigia um mergulho de corpo inteiro, de cabeça, sem cerimônia ou titubeios, sem amarras. O numeral oito deitado a formar uma aparente máscara na verdade retratava o infinito que se desvelava para o aventureiro corajoso a ingressar naquele universo. Infinito. Ou melhor, infinita a inspiração que emana daquele olhar.

Certa vez, num estado que parecia de transe, iniciou um belo discurso poético a louvar-lhe. Comparava o pingente com o símbolo do infinito cravejado de pequenas pedras aos olhos dela. Mais belos que o infinito, mais belos que a uma inesquecível orla marítima, mais belos que uma pintura de Van Gogh, mais belos que uma sonata de Mozart. E assim proferiu seu longo discurso de louvor, entediando os que o tinham por louco e arrancando suspiros e lágrimas das moçoilas que o ouviam. Repousava toda sua admiração e atração naquele misterioso olhar.

Um belo dia não compareceu à faculdade. Fomos informados de que seu coração parara de bater enquanto dormia. Ele nos deixou, mas a inspiração jamais morrerá e viverá em nossas memórias.

domingo, 19 de junho de 2011

Duas sugestões de coletâneas de contos

Contos são um breve momento narrativo, mas que se prolongam no tempo quando o autor aborda uma temática complexa. Sempre tenho em minha cabeceira contos para leitura, quer quando resolvo dar uma pausa no romance mais longo, ou quando me falta tempo para iniciar um novo livro. Com sucessivas viagens, o tempo foi generoso e permitiu que terminasse Apego, de Isabela Fonseca. Na sequência quero ler algo de Inês Pedrosa, escritora portuguesa que não conheço, ou talvez Gracias por el fuego, de Mario Benedetti que repousa calmamente na minha estante.

Mas voltemos às minhas sugestões de livros, principalmente porque estamos à véspera de um feriado mais longo e às voltas com as férias de julho.

1. Então você quer ser escritor?, de Miguel Sanches Neto (Rio de Janeiro : Record, 2011).


O mais recente livro do escritor paranaense traz contos onde aborda os principais temas que afligem o homem contemporâneo. Seu estilo é peculiar, dinâmico, numa narrativa magnética e surpreendente. Nos  diálogos despreza o travessão, dando fluidez à narrativa, confundindo o leitor por certas vezes, mas atraindo a sua atenção plena para as palavras que se sucedem. O recurso de transpor as regras de pontuação pode aparentar um narrador apressado, que conta sua estória sem pausas, afobadamente, algo muito próximo da rotina atabalhoada e de ritmo alucinante que integra o cotidiano atual.

Em "Animal nojento", o título só se justifica no último parágrafo, quando o leitor tem a certeza inquietante de o pior acontecerá na página seguinte. O amor inatingível, a inadequação às constantes mudanças sociais e de costumes dão o pano de fundo para "Na minha idade". E assim, Miguel Sanches Neto vai apresentando ao leitor personagens com quais sempre há algo com que se identificar. 




2. Narrativas do Espólio, de Franz Kafka (trad. Modesto Carone, São Paulo : Cia. das Letras, 2002).


Demorei para enfrentar Kafka, até que recentemente apresentaram-me ao grande escritor tcheco. Narrativas do Espólio é uma sequência de textos publicados post-mortem. O escritor morreu com apenas 41 anos e ordenou a seu amigo, Max Brod, que queimasse os manuscritos. O escritor não foi atendido e quem saiu ganhando foram os leitores do mundo todo.


O estilo de Kafka é seco e seus textos são difíceis. Muitas vezes requerem uma nova leitura para a uma melhor compreensão. Não digo plena compreensão, pois talvez esta seja inatingível. Um exercício mental que combina com os dias frios de inverno, onde o recolhimento casa-se perfeitamente com a boa literatura.


Por fim, relembro Antonio Tabucchi e seu O tempo envelhece depressa, já recomendado e do qual gostei muito, que estará presente em Parati na Flip como convidado.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Crônica: Ramalhete







Flores e mãos, Pablo Picasso




RAMALHETE


Ele nunca compreendeu a relação intensa que as mulheres têm com as flores. Qual era a graça, afinal, de receber sempre rosas – e geralmente vermelhas – que depois de alguns dias murchavam e perdiam suas aveludadas pétalas? Por que dar flores era um caminho certeiro no cortejo de qualquer donzela, mesmo sendo príncipe nada encantado?

Um belo dia, cético como ele só, ouviu a mãe conversar com a irmã e lembrar como era bom visitar a casa da vovó com aquele quintal espaçoso, como ela gostava de cuidar das roseiras no jardim, flores delicadas, com seus espinhos pontiagudos, mas seres sensíveis e belos, como as mulheres. Ouvidos atentos, talvez ali houvesse uma pista para decifrar o mistério. Mas, Pedro não se deixava seduzir pelas rosas.

Partiu numa aventura silenciosa para explorar – e comparar – estes objeto de encanto.

A primeira amiga a ser presenteada num aniversário recebeu um belo ramalhete de flores de campo, escolhidas por ele para compor um espetáculo múltiplo de cores, tamanhos e formatos. Sentiu-se meio artista e ficou feliz com o resultado. “Múltipla e complexa disfarçada por detrás de uma aparente simplicidade. Tua beleza encanta, mas é no detalhe que cativas os amigos!”, escreveu no pequeno cartão.

A reação foi tão expansiva que tomou coragem para repetir o feito. Uma outra amiga que se dizia ser uma pessoa diurna, sem desprezar a lua e seu espetáculo noturno, trazia-lhe um novo desafio. Flores amarelas, pensou. Logo veio-lhe a mente um campo de girassóis no sul da França tão bem retratadas na tela por Vincent Van Gogh. Girassóis!, exclamou. Eis uma flor da qual gostava. Aquele mar de pétalas amarelas contrastando com o verde vivo do verão francês marcou-lhe como uma apresentação de gala da natureza com um pouco de ajuda do homem. Ficara maravilhado.

Um girassol rodeado por flores amarelas – que não sabia o nome –, mas que o florista habilmente ajeitou num belo arranjo. Ela vai adorar, pensou ele todo satisfeito com sua sagaz interpretação da personalidade feminina. “Vibrante como o sol/intensa como o dia/ alegre como uma tarde de verão/amiga presente como o raiar do dia. Um pequeno versinho é pouco para descrever a tua força e importância para os que têm a sorte de desfrutar da tua luz!”

A amiga irrompeu em lágrimas e ficou eternamente grata a Pedro.

Foi na terceira investida pela seara poética e florística que seu maior desafio se apresentou. Pedro estava muito interessado na moça que aniversariava. Passou por algumas floriculturas em busca de algo novo, de alguma ideia que o despertasse e que fosse um tiro certeiro no alvo: queria balançar o coração dela.

Enfim, depois de um mês de preparativos, dúvidas e conjecturas, optou por tulipas cor-de-rosa. “Sofisticadas e discretas, estas flores destacam-se na natureza por serem únicas. Cor intensa, como sua força interior que abraça a vida com coragem. Irretocáveis, como seu senso estético, porém, menos belas que você! Não precisas de espinhos, para ti, basta o sorriso.”

Cartão escrito e lá foi ele, um pouco nervoso e envergonhado, o estômago com aquele incômodo típico. Gaguejou quando ela abriu a porta e se deparou com aquele sorriso e olhar cintilante. Ela era realmente única.

Dois anos mais tarde, os dois juntos e ele lhe deu tulipas vermelhas para lembrar do seu rosto ruborizado. O cartão foi curto: “Fico vermelho por fora quando me elogias; fico vermelho por dentro quando sorris!” Deu-se conta de que estas facetas que ia descobrindo em cada ramalhete eram traços de uma única mulher, ou melhor, de uma mulher única! Só um olhar atento e penetrante para pinçar um pedaço do universo feminino.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Crônica: Senhor do Tempo



SENHOR DO TEMPO


Tudo começou quando avistou um fragmento de arco-íris no meio das nuvens, que mais lembravam gomos de algodão a salpicar o céu do nordeste brasileiro. Pela janela do avião, vislumbrou fiapos de um rios a cortar o mangue antes de desaguar na vastidão do oceano, como veias a irrigar uma mão, como dedos a rasgar a areia e que desenhavam sulcos do tempo.

O avião iniciava a descida para Salvador, era domingo de Páscoa, e Oscar passaria mais um domingo longe de casa, preparando-se para uma semana de reuniões na fábrica da empresa multinacional em que trabalhava. Projetos de expansão, orçamentos, apresentações, almoços com o seu chefe que chegaria dos Estados Unidos na segunda-feira, uma audiência com o governador para anunciar os novos investimentos e toda a bajulação típica destes eventos. A graça e o glamour haviam cedido espaço para a rotina entediante e amarga, para atuar como um ser robotizado e despido de emoções, um escravo moderno.

Oscar desembarcou e um motorista o aguardava com uma plaqueta na área externa do desembarque, auxiliando-o com a mala. Fez apenas duas perguntas ao motorista, cordiais e formais, e manteve-se calado no trajeto até o Rio Vermelho. O sol brilhava timidamente entre as nuvens, mas o mar refletia a luminosidade do início da tarde. Observava atentamente a paisagem, como se fosse uma despedida, como se olhasse os arredores pela última vez. Faltava algo.

Deixou as malas no quarto, desceu para o deck da piscina com vista para a Baía de Todos os Santos.  Sentou-se numa mesa na sombra e pediu uma salada, pois dispensara o sanduíche do avião durante o voo e sentia a ausência do almoço.

As ondas debatiam-se contra as rochas, incansáveis, constantes. Não se repetiam e a cada encontro com o paredão rochoso, desfaziam-se em espuma farta e branca, por vezes sobre as pedras, por vezes em altos jatos que lembravam a erupção de um vulcão. Oscar retornaria ao mesmo lugar e as ondas continuariam a se chocar com as rochas, fornecendo um espetáculo gratuito e sempre inédito. As ondas não se cansavam jamais e agiam de forma atemporal.

- Quero ser senhor do meu tempo! – exclamou em voz alta.

A decisão estava tomada. Comunicaria ao chefe que deixaria o cargo em trinta dias. Havia perdido muito tempo. Não vira as filhas crescerem. Agora, não abriria mão de ver – e conviver – com os netos, quando viessem. E mesmo que não viessem, queria ser senhor do seu tempo. Queria poder ficar horas a contemplar as ondas sem se preocupar com apresentações e horários; queria poder almoçar sem olhar no relógio; queria poder surpreender as filhas e ir ao cinema numa sessão das 17 horas numa sexta-feira, ou mais ousado, numa quarta-feira!

Oscar queria viver e, ao menos, dar direção ao uso que faria do tempo, enquanto Deus lhe desse tempo. Sabia que havia desperdiçado muito tempo. Não vira as filhas crescerem, mas ainda resgataria a juventude delas sendo mais presente. Assumiria seu tempo com fervor e passaria a ser o timoneiro do barco, não mais um mero passageiro.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Livros na cabeceira

Um feriado prolongado é sempre um ótimo momento para ter a companhia de um bom livro. Para aqueles que não gostam da folia, mais de um livro; para quem gosta da folia, leituras mais curtas. Algumas sugestões que estão na minha cabeceira.

Começo com sugestões de contos, que alguns consideram uma forma menor de literatura em relação ao romance, mas que exigem do escritor um poder de síntese maior. A discussão merece um post exclusivo e não vou fugir do tema.

Vamos às sugestões:



1. O tempo envelhece depressa, de Antonio Tabucchi. (trad. Nilson Moulin. São Paulo : Cosac Naify, 2010)

Um livro de contos sobre o tempo e a memória. Tabucchi é um dos mais importantes escritores italianos contemporâneo e este livro de contos foi premiado na França como o melhor do ano pela revista Lire. Os contos são densos com um escrita que conduz o leitor pelos caminhos da memória, por ora um pouco confusa, como os pensamentos, mas que obriga o leitor a confiar no fio da meada, para ao final, desenhar o retrato completo. 

2. Granta em português - Sexo (volume 6), vários autores. 

Lançada em novembro de 2010, este novo volume da Granta em português tem como tema o sexo. Não se trata de algo explícito, mas sutil e imaginado. Os contos são de diversos autores brasileiros e estrangeiros, entre eles encontram-se Reinaldo Moraes, Luiz Vilela, Anne Enright e Lynn Barber. 

O volume 5 também é uma boa pedida e tem um texto magistral de Ronaldo Correia de Brito. 


3. Absolvição, de Antonio Monda. (Rio de Janeiro : Alfaguara, 2010)

A coincidência de italianos não foi intencional. Monda é radicado em Nova York e professor de cinema na Tisch School of the Arts da New York Univeristy. A narrativa é ágil, com capítulos curtos, citações e referências a filmes, como não poderia deixar de ser. A leitura é prazerosa e leve, ainda que a temática não seja tão leve.

Federico Scalia é um criminalista no sul da Itália, o mais renomado criminalista e professor. Em seu escritório, um jovem advogado, Andrea Marigliano, vê no mestre uma forma de dar asas à sua ambição. Dilemas éticos são enfrentados e revelam a forma de pensar do advogado, com uma interessante crítica do modo de agir dos juízes e da justiça. O livro, porém, não é exageradamente jurídico, nem cansativo. É a estória de uma relação humana que retrata muito bem a forma como gerações distintas enfrentam a realidade. 

Boa leitura!