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segunda-feira, 21 de março de 2016

Carlos Drummond de Andrade : Ontem


Pinacoteca de São Paulo, instagram @rbueloni


ONTEM

Até hoje perplexo
ante o que murchou
e não eram pétalas.

De como este banco
não reteve forma,
cor ou lembrança.

Nem esta árvore
balança o galho
que balançava.

Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado

não no ar, em mim,
que por minha vez
escrevo, dissipo.

(A Rosa do Povo. 7a. ed. Rio de Janeiro : Record, 1991, p. 58-9)

No Dia Mundial da Poesia, palavras de Drummond para que todos escrevam, dissipem e leiam poesia.

terça-feira, 10 de abril de 2012

A pedra no meio do caminho



Ele estava com a curiosidade aguçada e pediu minha ajuda para que lhe guiasse na livraria até o setor onde encontraria o bendito poema. Ficou desconfiado de que o curto poema sobre a pedra no meio do caminho era invenção minha. Vasculhamos todos os livros de Drummond no setor de poesia, mas infelizmente não encontramos um exemplar de Alguma Poesia, o primeiro livro do poeta.

Deparamo-nos com algo maior: uma obra inteira dedicada ao estudo do poema buscado. Uma Pedra no meio do caminho - Biografia de um poema, de Eucanaã Ferraz (Instituto Moreira Salles, 2010) é uma homenagem e o reconhecimento da genialidade do poeta. Genialidade que se manifesta na facilidade de dizer o simples, de escrever com leveza, de falar com todos e a todos.

Rafa sentou-se numa confortável poltrona da Livraria da Vila e leu o poema. Este pai não conteve a admiração de ver um menino de 8 anos de idade lendo poesia, e memorizando-a com uma única leitura, pois logo em seguida recitou o poema para a irmã. O pequeno leitor compreendeu apenas parte do que o poeta quis dizer - penso eu -, mas deixou-se levar pela escrita poética, pelo ritmo das palavras que dançam ao redor da pedra no meio do caminho.

Sempre haverá uma pedra no meio do caminho. Desistir é uma opção, mas apenas para os fracos. Pedras há de montes. Pequenas e grandes, diárias e semanais, cotidianas e esporádicas. Chamemo-las de pedras, espinhos, "abacaxis", "pepinos" ou qualquer outro nome. As contrariedades são diárias e constantes, algo inerente à vida. Não apenas na vida moderna e urbana, mas na vida. Quem mora na zona rural não tem água quente, alguns não têm energia elétrica e por aí podemos desfiar uma longa ladainha. Eles também têm pedras no meio do caminho.

Algumas pedras não são contornadas. Impedem a passagem. Algumas pedras são carregadas conosco ao longo dos anos e pesam, cansam, fatigam. 

É preciso ultrapassar a pedra, com paciência e perserverança, para poder olhar para trás e dizer com o poeta, saudoso e vitorioso por não ter desistido diante da pedra no meio do caminho:

No meio do caminho tinha uma pedra 
tinha uma pedra no meio do caminho 
tinha uma pedra 
no meio do caminho tinha uma pedra. 

 
Nunca me esquecerei desse acontecimento 
na vida de minhas retinas tão fatigadas. 
Nunca me esquecerei que no meio do caminho 
tinha uma pedra 
tinha uma pedra no meio do caminho 
no meio do caminho tinha uma pedra.


(Carlos Drummond de Andrade. Alguma Poesia, 1930)
 

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Orvalho matinal


Pouco antes das nove da manhã, havia passado por Atibaia e aproximava-me de Extrema, bem no sul de Minas Gerais, logo depois da divisa com São Paulo. A Fernão Dias serpenteava por entre morros verdes e o sol nascia preguiçosamente.

Viajar sozinho dá um senso de liberdade e convida ao diálogo interior. Cada vez mais me convenço que o Caminho de Santiago é na verdade um período de reflexão pessoal em que o indivíduo é presenteado com desafios, dor, frio, calor, cansaço. Todas estas mazelas humanas nos aproximam do divino, obrigam-nos a reconhecer nossa fraqueza e do auxílio de uma força superior para superá-las.

Costumeiramente viajo sozinho e invariavelmente converso sozinho em voz alta com interlocutors imaginários. Fazem-me companhia. Os “diálogos” me ocupam e são um exercício de reflexão; em alguns casos de recordação onde o pensamento voa para locais reais, mas distantes.

Mas voltemos ao caminho pelo sul de Minas com trilha sonora de Maria Gadú, que combinou perfeitamente neste início de viagem.

Entre subidas e descidas na parte serrana da estrada, avistavam-se laterais de morros com o fino orvalho a tingir o verde da vegetação e a refletir os raios solares matinais. Tudo estático, tudo gratuito, tudo pronto para ser observado. Um simples presente da natureza para quem quisesse observar e desfrutar daquela paisagem.

Notei então um homem, de chapéu de palha, a conduzir uma charrete. Pastagens, pequenas casas esparsas aqui e acolá, plantações, gado. Um mundo perfeitamente rural. Lembrei-me de Guimarães Rosa, que com sua genialidade conseguiu captar a alma do homem simples, uma escrita tão própria e adequada àquele cenário. Confesso minhas limitações em conseguir compreender o escritor – já tentei por diversas vezes -, mas o que ali se descortinava me remeteu ao Burrinho Pedrês, a Manuelzão e Miguilim e tantos outros.


Cidades como Nepomuceno, Natércia, Borda da Mata, Lambari, Carmo de Minas poderiam existir em outro lugar que não fosse Minas? Acredito que a resposta é negativa. Nepomuceno é um nome que parece materializar todo o universo de Guimarães Rosa.

Drummond, na sua fase inicial, capta também a simplicidade da vida em Itabira. Simplicidade não deve ser entedida como algo negativo, como o sujeito que é despido de qualidade e cuja rotina deixa de ser interessante. Simplicidade é qualidade daqueles que sabem valorizar o que é importante e se importam com o que vale a pena. Pessoas que não se distraem com o supérfluo, mas sabem da importância da palavra amiga, de um gesto de amizade, do valor do trabalho dedicado e bem feito – ainda que custe. Simplicidade se manifesta em personagens transparentes, cuja alma é transparente e refletem a luz divina.

Aquele cenário revelou-se como um portal de saída do mundo urbano e cosmopolita de São Paulo, para o mundo rural e de grande riqueza humana do interior. A mudança de paisagem é fácil de ser notada e talvez isto tenha contribuído para despertar minha reflexão.  Nem notei quando a música parou; estava tão imerso no diálogo com meus pensamentos que a viagem seguiu leve e prazerosa.


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Viva Drummond


MEMÓRIA
Carlos Drummond de Andrade

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.


Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.


As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão


Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

(Antologia Poética. 26a. ed. Rio de Janeiro : Record, p. 179-180)




Se Drummond estivesse vivo, hoje celebraria seu natalício. Não está presente em corpo, mas vivo na memória e nos poemas deixados como legado inesgotável de lirismo, de alegria, de beleza. Drummond vive com sua obra e o encanto de seus versos borbulha entre nós.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Poesia: Epigrama para Emílio Moura, de Drummond





EPIGRAMA PARA EMÍLIO MOURA
de Carlos Drummond de Andrade

Tristeza de ver a tarde cair
como cai uma folha.
(No Brasil não há outono
mas as folhas caem.)


Tristeza de comprar um beijo
como quem compra jornal.
Os que amam sem amor
não terão o reino dos céus.


Tristeza de guardar um segredo
que todos sabem
e não contar a ninguém
(que esta vida não presta).

(Sentimento do Mundo. 7a. ed. Rio de Janeiro : Record, 1999, p. 71)


No dia da poesia, um pouco de Drummond.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Passagem do ano, de Carlos Drummond de Andrade



PASSAGEM DO ANO

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repelto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
de lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles...e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

(A Rosa do Povo. 7a. ed. Rio de Janeiro : Record, 1991, p. 39-40)


A vida é gorda e recebeste com simplicidade este presente do acaso. Palavras do poeta que permitem um rearranjo, uma reorganização, como peças cambiantes que não tiram o sentido da mensagem poética, mas acrescentam a genialidade de Drummond no domínio da língua.

A vida escorre da boca. Alguns poderiam dizer que a vida escapa, é finita, que a cada segundo que se passa, a morte está mais próxima. Porém, o poeta parece nos convidar a sorver cada momento da vida e lambuzarmo-nos com este presente do acaso.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Lembrando Drummond



Autocaricatura de Drummond


Carlos Drummond de Andrade nasceu em 31 de outubro de 1902 e é preciso preservar na memória um dos grandes poetas brasileiros. Mineiro de Itabira, em Minas Gerais, Drummond renovou e inovou na poesia brasileira. Alguma Poesia, sua primeira obra, foi lançada em 1930, indicava integrante do Modernismo que proclamava a liberdade das palavras, rompendo com os movimentos literários anteriores.

Neste pequena lembrança, trago-lhes o poema Mãos Dadas.

MÃOS DADAS
Carlos Drummond de Andrade

Não serei poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.


Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi o suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

(Antologia Poética. 26a. ed. Rio de Janeiro : Record, p. 118)



O primeiro verso repisa a libertação propalada pelo Modernismo, mas o poema, recheado com toques sociais engajados (não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida e olho meus companheiros), aborda o momento presente, a vida presente com a sensibilidade que perscruta a beleza do gesto singelo e corriqueiro.

De mãos dadas, o poeta capta a alegria interior de ter alguém para dar as mãos e da magnitude do momento, daquele momento que se torna único e faz parte "de uma história". Não se derrama com exageros, mas sugere ao leitor que aprecie o momento presente e saiba saborear a vida.

Acompanhado, o poeta não se sente só, mesmo diante da "enorme realidade". O poeta convida a viver o presente, sem ficar preso ao passado que imobiliza. "O presente é tão grande, não nos afastemos. / Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas".

Aproveitem o feriado e boa leitura!

segunda-feira, 16 de março de 2009

Pedaços pelo caminho

24 de setembro de 1983.

Boa conversa com Carlos Drummond de Andrade, pelo telefone. O poeta ainda se sente alquebrado com a operação a que se submeteu, há poucos dias, para ablação da próstata.

E ele me diz, na sua voz quase apagada:

- Para viver, depois de certa idade, temos de ir deixando os pedaços de nós mesmos pelo caminho
.”
(MONTELLO, Josué. Diário da Noite Iluminada. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994, p. 419)

Deixar pedaços de nós mesmos pelo caminho. O poeta, com sua simplicidade mineira, fazia referência ao sentido físico da expressão. Ou talvez não!

No convívio diário, deixamos pedaços. Sementes lançadas ao vento, ou derramadas cuidadosamente no solo fértil para florescer. Sementes que brotam em forma de sorrisos, de uma palavra amiga, de um olhar carinhoso, de um abraço singelo, de um ouvido atento.

Pedaços íntimos da alma que o poeta desvenda em seus versos e rimas. Pedaços humanos nascidos de uma epifania única que se prolonga no tempo para os leitores.

Pedaços que um escritor utiliza para construir suas personagens, que hão de ser absorvidos por alguém em algum tempo em algum lugar. Não há data certa para que aquele ser fictício imaginado pelo autor venha a inspirar, a dar coragem, a mexer com um jovem – ou adulto, ou velho – que folheie o livro.

Pedaços todos nós deixamos ao longo da vida. Que estes pedaços sejam sempre bons e férteis!

Ontem fez 3 anos que Josué Montello faleceu. Ele deixou seus pedaços pelo caminho. Pedaços valiosos. Pedaços que tornam um momento rotineiro em momentos de descobertas.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Saudade


"A saudade existe no coração, sem necessidade de recordações externas."

Machado de Assis

(Migalhas de Machado de Assis. São Paulo: Migalhas, 2008).


"Tive ouro, tive gado, tive fazendas.

Hoje sou funcionário público.

Itabira é apenas uma fotografia na parede.

Mas como dói!"

Carlos Drummond de Andrade

("Confidência do Itabirano". Antologia Poética. 26ª. Ed. Rio de Janeiro : Record, 1991).


"Eu próprio, ao refletir sobre os percalços do ano-velho, vejo agora neles a provocação que nos faz amar a vida com outra intensidade. Os calhaus do caminho ficaram para trás. Nossa vida nada mais é do que a transformação do dia de hoje em dia de ontem, enquanto esperamos o dia de amanhã. O que é bom lembrar também se chama saudade."

Josué Montello

(Diário da Noite Iluminada. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994, p. 214)


A memória, intangível, silenciosa, guarda, como uma caixinha de joias, os detalhes de tantos momentos vividos, imaginados, sentidos. Fundem-se emoções, realidade, sonhos, vibrações, alegrias, lágrimas e tristezas. Cria-se algo novo, fruto desta mistura de dádivas, que percorre o corpo até o coração. Este, órgão tão potente, estremece diante da saudade e precipita o anseio pelo reencontro.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

POESIA: Carta, de Carlos Drummond de Andrade


CARTA – Carlos Drummond de Andrade

Bem quisera escrevê-la
com palavras sabidas,
as mesmas, triviais,
embora estremecessem
a um toque de paixão.
Perfurando os obscuros
canais de argila e sombra,
ela iria contando
que vou bem, e amo sempre
e amo cada vez mais
a essa minha maneira
torcida e reticente,
e espero uma resposta,
mas que não tarde; e peço
um objeto minúsculo
só para dar prazer
a quem pode ofertá-lo;
diria ela do tempo
que faz do nosso lado;
as chuvas já secaram,
as crianças estudam,
uma última invenção
(inda não é perfeita)
faz ler nos corações,
mas todos esperamos
rever-nos bem depressa.
Muito depressa, não.
Vai-se tornando o tempo
estranhamente longo
à medida que encurta.
O que ontem disparava,
desbordado alazão,
hoje se paralisa
em esfinge de mármore,
e até o sono, o sono
que era grato e era absurdo
é um dormir acordado
numa planície grave.
Rápido é o sonho, apenas,
que se vai, de mandar
notícias amorosas
quando não há amor
a dar ou receber;
quando só há lembrança,
ainda menos, pó,
menos ainda, nada,
nada de nada em tudo,
em mim mais do que em tudo,
e não vale acordar
quão acaso repousa
na colina sem árvores.
Contudo, esta é uma carta.

(Antologia Poética. 26ª. ed. Rio de Janeiro : Record, 1991, p. 74-6)

Uma carta que narra a força da paixão e o abismo causado pelo silêncio da relação desgastada. Drummond capta de forma única esta mudança, tudo condensado numa carta, que parece ser uma carta de despedida. Uma carta que antecipa o fim e reconhece as mudanças, que talvez tenham passado despercebidas. A fenda rachou a proximidade, a intimidade, e interpôs-se entre amado e amada.

O tempo se torna longo, os encontros cansativos, o rosto, uma “esfinge de mármore”, e o que resta: “quando só há lembrança,/ ainda menos, pó,/ menos ainda, nada, / nada de nada em tudo”.

Nada de nada em tudo. O silêncio adentra sem ser convidado, um silêncio que tira a cor, o brilho, a vibração do alazão desbordado. As palavras triviais não estremecessem o coração, antes irritam, incomodam, lançam-se como um jugo insuportável sobre os ombros. Até que venha o inevitável fim.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Campo de Flores - Carlos Drummond de Andrade




CAMPO DE FLORES

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
Quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus – ou foi talvez o Diabo – deu-me este amor maduro,
E a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
E outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
E talhado em penumbra sou e não sou , mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
E cansado de mim julgava que era o mundo
Um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo antigas manhãs
Que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás da tua sombra
Imensa e contraída como letra no muro
E só hoje presente.
Deus me deu um amor porque mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
O sumo se espremeu para fazer um vinho
Ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
A tirar sua cor dessas chamas extintas
Era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
Secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
Para arrecadar as alfaias de muitos
Amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes
E ao vê-los amorosos e transidos em torno,
O sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
Na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
Os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
E o mistério que além fez os seres preciosos
À visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
Há que amar diferente. De uma grave paciência
Ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
Tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
E estou vivo na luz que baixa e me confunde.

(Antologia Poética. 26a. ed. Rio de Janeiro : Record, 1991)



sábado, 19 de janeiro de 2008

Carlos Drummond de Andrade : Memória

MEMÓRIA

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
estas ficarão.

(Antologia Poética. 26a. ed. Rio de Janeiro : Record, 1991, p. 179-180)

As lembranças repousam na memória silenciosa, reavivadas no escuro da noite, no caminhar solitário, na contemplação distante. A memória desabrocha no silêncio, mas não pode ser prisão que imobiliza o andar, o movimento adiante.

Drummond capta as memórias lindas, e findas, mas que sempre ficarão armazenadas e gravadas na alma.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

20 anos sem Drummond

(Drummond no Posto 6 em Copacabana)


Carlos Drummond de Andrade faleceu em 17 de agosto de 1987 deixando uma das obras poéticas mais profícuas e admiradas. O poeta do cotidiano, o poeta que via no cotidiano poesia, angústia e questionamento existencial. Um poeta que transcende o comum para elevá-lo ao plano de indagação espiritual do homem contemporâneo.





Poesia que é aparentemente simples, mas revela-se um claro enigma. Poesia para ser degustada com vagar e tempo. Poesia para ser lida e relida e ela sempre nos trará algo de novo.





Descobri Drummond na época da faculdade, período de questionamentos, levemente depressivo, em que um jovem estudante se depara com a implementação de seus sonhos e percebe que muitos sonhos não se realizarão, vendo-se frustrado. O poeta acompanhou-me naqueles anos e permaneceu adormecido até pouco tempo atrás, quando voltei a mergulhar no seu universo. Um universo rico e delicado, um universo profundo e sensível, um universo belo e acessível.




Em artigo publicado no Caderno de Fim de Semana do Jornal Valor Econômico, José Castello sintetiza a poesia de Drummond: "O anonimato, contra todas as idéias de consagração e de mito, que sustenta a imagem do poeta como a de um homem que faz o que não escolheu e existe apesar do que escreve. A distância que separa o poeta de seus leitores, o que comprova o caráter mágico da poesia, estranha carta sem destinatário e que, apesar disso, seduz os que a lêem. As ilusões, enfim, que cercam a figura do poeta, a quem são atribuídos valores que, no entender de Drummond, não lhe dizem respeito e glórias que ele não fez por merecer". (3, 4 e 5 de agosto de 2007, p. 16)




Fica aqui minha homenagem e lembrança desta data e do grande poeta.




sexta-feira, 8 de junho de 2007

Poesia: Carlos Drummond de Andrade

Um curto poema de Drummond. Primeiro o poema, depois um breve comentário.

POESIA

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira
.

(Sentimento do Mundo. 7a. ed. Rio de Janeiro : Record, 1999, p. 47)

Há momentos em que a poesia silenciosa, a alegria transbordante, de um simples e banal momento, de um telefonema feliz depois de ganhar um presente inundam a vida inteira. Momentos que se congelam na memória para a posteridade, para na companhia de uma noite de lua cheia, ou ao som de uma canção que mexe com a alma, sorrir e relembrar....relembrar e sorrir...levitar na solidão que não é solidão, é companhia distante, é companhia silenciosa, é sussurro que faz a vida valer a pena.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Poesia: Carlos Drummond de Andrade

VIDA MENOR

"A fuga do real,
ainda mais longe a fuga do feérico,
mais longe de tudo, a fuga de si mesmo,
a fuga da fuga, o exílio
sem água e palavra, a perda
voluntária de amor e memória,
o eco
já não correspondo ao apelo, e este fundindo-se,
a mão tornando-se enorme e desaparecendo
desfigurada, todos os gestos afinal impossíveis,
senão inúteis,
a desnecessidade do canto, a limpeza
da cor, nem braço a mover-se nem unha crescendo.
Não a morte, contudo.
Mas a vida: captada em sua forma irredutível,
já sem ornaio ou comentário melódico,
vida a que aspiramos como paz no cansaço
(não a morte),
vida mínima, essencial; um início; um sono;
menos que terra, sem calor; sem ciência nem ironia;
o se possa desejar de menos cruel: a vida
em que o ar, não respirado, mas me envolva;
nenhum gasto de tecidos; ausência deles;
confusão entre manhã e tarde, já sem dor,
porque o tempo não mais se divide em seções; o tempo
elidido, domado.
Não o morto nem o eterno ou o divino,
apenas o vivo, o pequenino calado, indiferente
e solitário vivo.
Isso eu procuro."

(A Rosa do Povo. 7a. ed. Rio de Janeiro : Record, 1991, p.63-4)

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Claro Enigma e a profundidade de um título.



O título de um livro é sempre um chamariz, um atrativo que fisga o leitor em potencial. Alguns títulos são mais significativos que outros e somente se revelam em sua inteireza após o final da obra. Percebi um destes significados ocultos, por assim dizer, somente ontem.

Faz pouco tempo comprei um livro para dar de presente. Era um livro de Carlos Drummond de Andrade, mas qual escolher? São tantas as suas obras de poesia que a escolha seria difícil. Gastei algum tempo olhando, lendo, folheando e, de repente, como um cochicho, como uma inspiração vinda do acaso, ou quem sabe um sopro de quem iria receber o presente, decidi-me pelo livro. Tratava-se de Claro Enigma. Pois bem, o que o título revelou-me naquele momento? Nada, absolutamente nada.

Dois dias atrás, porém, no caminho de casa, dei-me conta da beleza do título do livro. Claro Enigma é uma perfeita metáfora para a vida, para o ser humano, para o amor. Como a poesia que pode não dizer nada, ou apenas revelar um emaranhado de palavras arranjadas pelo escritor no papel, a mesma poesia pode também nos levar a sonhar, a ir de encontro aos nossos mais profundos sonhos e sentimentos. A poesia tem este poder.

A vida é um Claro Enigma. Clara e iluminada nos momentos de felicidade e alegria. Um enigma, por vezes indecifrável, nos momentos de angústia, solidão, depressão, perplexidade e quando estamos à deriva. Um enigma que quando o deciframos, já se apresenta novamente diante de nós com novas perguntas, novas dúvidas, novas incertezas e novos desafios.

Venho, nesta semana, repetindo este título em meus pensamentos, ressoando-o. Confesso que fiquei encantado como aquele sussurro na livraria que me levou a escolher o livro certo e como a beleza do título me mostrou, de forma poética e como só Drummond é capaz de fazer, como a vida é um enigma fascinante.

sábado, 3 de março de 2007

Pedra no meio do caminho

Carlos Drummond de Andrade escreveu no final do prefácio de uma antologia poética editada pela Ed. Record em 1991 (26a. edição organizada pelo autor):

"Acho que a literatura, tal como as artes plásticas e a música, é uma das grandes consolações da vida, e um dos modos de elevação do ser humano sobre a precariedade da sua condição."

Curto e grosso o poeta de Itabira sintetiza com precisão o que acredito. Música e literatura têm sido uma constante companhia. Um mergulho no interior para conhecer melhor o ser humano, para um auto-conhecimento, para consolar-me das agruras e angústias que se apresentam.

A vida coloca-nos pedras, pedriscos, pedregulhos e verdadeiras montanhas no meio do caminho. Quando achamos que tudo corre bem, tropeçamos. Quando parecemos escorregar ladeira abaixo, um galho de árvore nos serve de apoio. Estas metáforas da vida são ricas e permitem dar valor àquele empurrãozinho de um amigo. Ao amigo que escuta, que ajuda que estende a mão. Ao amigo que pressente a tristeza e divide e contagia com sua alegria, dividindo e fazendo mágica.
A pedra no meio do caminho não deve ser motivo de tropeço e queda. A pedra no meio do caminho deve ser motivo de novo impulso e vida. Um novo ânimo para a grande aventura que é a vida.
NO MEIO DO CAMINHO
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
(Carlos Drummond de Andrade. Antologia Poética. 26a. ed. Rio de Janeiro : Record, 1991, p. 196)

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Só, na noite.

Vou retomar o assunto de ontem, como havia prometido. Deparei-me com um poema de Carlos Drummond de Andrade, que fora dedicado a Josué Montello. Primeiro o texto do poeta, depois os comentários.

Nova Canção do Exílilo

A Josué Montello

Um sabiá
na palmeira, longe.
Estas aves cantam
um outro canto.

O céu cintila
sobre flores úmidas.
Vozes na mata,
e o maior amor.

Só, na noite,
seria feliz:
um sábia,
na palmeira, longe.

Onde é tudo belo
e fantástico,
só, na noite,
seria feliz.
(Um sabiá,
Na palmeira, longe.)

Ainda um grito de vida e
voltar
para onde é tudo belo
e fantástico:
a palmeira, o sabiá,
o longe.
(A Rosa do Povo. 7ª. ed. Rio de Janeiro : Record, 1991, p. 69-70)

O longe, a noite, a solidão. Poderíamos dizer que as três coisas são sinônimas. Não amedrontadoras, mas silenciosas. Ontem, depois do anoitecer, sai na varanda, com as luzes apagadas para tentar ver alguma estrela no céu e ouvi uma cigarra. Sim, uma cigarra em São Paulo! Não parecia que estava no meio da metrópole, mas longe, voando na solidão dos pensamentos.
A correria da vida não nos deixa parar e contemplar. As árvores, as flores, os sons. Desligue a televisão e escute seus pensamentos. Escute o silêncio.

O longe, o distante, o devaneio fazem parte da nossa imaginação. Fazem parte dos nossos pensamentos. Fazem parte das boas memórias. Ontem, só, na noite, estava feliz. Não só, mas acompanhado dos pensamentos.

sábado, 27 de janeiro de 2007

Um pouco de poesia

Carlos Drummond de Andrade é um poeta raro, daqueles seres que aparecem como uma dádiva divina à nossa civilização para mudar a forma de ver o cotidiano. Cotidiano que de banal se transforma em poesia, em música, em devaneio. Cotidiano que ganha transcedência e extravasa a o momento.

Drummond toca a alma e leva-nos a sonhar. Seus poemas podem ser lidos repetidamente, mas há um dia, em que na milésima leitura, somos tomados por uma emoção diferente. O tempo congela e o poeta nos fala.

Neste sábado, o recado é de Drummond.

POESIA

Gastei uma hora pensando um verso
Que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
Inunda minha vida inteira.


 
(Sentimento do Mundo. 7a. ed. Rio de Janeiro : Record, p. 47)

Como a internet é o mundo do "recorta e cola", os textos transcritos terão as fontes mencionadas para evitar o desrespeito aos autores.