Mostrando postagens com marcador crítica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crítica. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Chavões


instagram  @rbueloni


Todo carnaval tem seu fim
assim como o amor.

Todo carnaval tem seu fim
diferente de governos corruptos.

Todo carnaval tem seu fim
assim como as estações do ano.

Todo carnaval tem seu fim
diferente dos bons momentos armazenados na memória.

Todo carnaval tem seu fim
assim como as longas férias.

Todo carnaval tem seu fim
diferente da aposentadoria integral do servidor público,
com todas as benesses e vitaliciedade.

Todo carnaval tem seu fim
e agora é hora de trabalhar,
pois o ano tem que começar!

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Sinfonia em branco




Resenha do romance Sinfonia em Branco, de Adriana Lisboa (2a. Ed. Rio de Janeiro : Objetiva, 2013), vencedor do Prêmio José Saramago.



O amor era como a marca pálida deixada por um quadro removido após anos de vida sobre uma mesma parede. O amor produzira um vago intervalo em seu espírito, na transparência dos seus olhos, na pintura envelhecida da sua existência. Um dia, o amor gritara dentro dele, inflamara suas vísceras. Não mais. Mesmo a memória era incerta, fragmentada, pedaços do esqueleto de um monstro pré-histórico enterrados e conservados pelo acaso, impossível recompor um todo íntegro. Trinta anos depois. Duzentos milhões de anos depois.”(p. 15-6)

Tomás entra em cena de forma enigmática. Um homem que aguarda a chegada de Maria Inês, irmã de Clarice. Maria Inês era “uma mulher que a memória sempre vestia de branco e de juventude”.

Logo no primeiro capítulo, Adriana Lisboa, de forma lírica e provocadora, apresenta-nos Tomás, Clarice e Maria Inês. As duas últimas são irmãs. Maria Inês casa-se com João Miguel, primo de segundo grau, forma-se em medicina e permanece morando no Rio. Não retorna mais para Jabuticabais, onde nascera e crescera. Clarice, após a morte da mãe e do pai, volta para a fazenda e ali permanece, vizinha de Tomás.

Dois vizinhos que se tornam amigos e confidentes nas madrugadas frias e insones. A conversa geralmente orbita em torno de Maria Inês e a ansiedade do reencontro com a visita que se torna próxima.



Clarice casou-se com Ilton Xavier, outro vizinho da fazenda de Afonso Olímpio e Octacília. Clarice trazia consigo o queloide nos pulsos nus resultado de uma tentativa frustrada de cortar os punhos.

Um dia, a morte. Clarice sentiu mais uma vez com as pontas dos polegares as duas cicatrizes gêmeas, uma em cada punho. E sorriu um sorriso involuntário e triste, um sorriso sem mistérios, ao pensar que afinal acabara sobrevivendo a si mesma.”(p. 35-6)

Clarice era menina obediente e submissa; Maria Inês carregava uma vivaz insubordinação, gostava de desafiar o proibido. O temperamento de Clarice talvez tenha contribuído para o ocorrido, e ela carregara consigo a culpa pelo fato, ainda que de forma velada.

Poucos anos haviam sido suficientes para escurecer Octacília, para nublar seus olhos de águas-marinhas azuis e engravidá-los de tempestade, para deixá-la parecida com uma madrugada fria e insone. Seu humor escurecia a cada dia, e não havia para Clarice modo de deixa de sentir-se ao menos um pouquinho culpada. Tinha certeza de que a mãe não a amava. Talvez porque tivesse feito algo? Alguma coisa muito feia e censurável de que nem mesmo se lembrasse?”(p. 39)

Certo dia Octacília decide enviar Clarice ao Rio de Janeiro para morar com uma tia solteirona e ali passar uma temporada de estudos. Octacília e Clarice não eram próximas e uma semana após a decisão de enviar Clarice ao Rio, Octacília chama a filha no meio da noite para ver a lua. Conversam pouco, mas resta a impressão de que Octacília culpa Clarice pelo ocorrido.

Entre elas não havia confissões, não havia trocas de carinhos, mas muitos e longos silêncios. Desde sempre. Sobretudo por isso Clarice surpreendera-se com aquela iniciativa, mandá-la para o Rio de Janeiro. Pois se tudo era tão subterrâneo, se tudo era tão secreto.”(p.92)

O ano era 1965 e Clarice permaneceu no Rio por cinco anos. Nestes anos, Clarice tenta esquecer e moldar uma nova Clarice. Dali saiu diretamente para igreja de Jabuticabais onde lhe esperava no altar Ilton Xavier. O casamento durou 6 anos e numa manhã qualquer, Clarice partiu sem dizer nada. Sem rumo, Clarice vive de bicos no interior até chegar ao Rio, onde mergulha nas drogas e é “adotada” por um namorado traficante. Passado algum tempo, ela tenta o suicídio.



Tomás é um personagem coadjuvante, à margem das mulheres da trama, mas cuja história traz consigo um caráter de homem-objeto, um acessório de Maria Inês. Esta, por sua vez, parece saltar pelo mundo em busca de um amor verdadeiro, mas contenta-se com a superficialidade da variedade. Primeiro, Tomás. Depois Bernardo, um colega de turma que se transforma em cantor lírico e que coleciona namoradas em diversas cidades do mundo, como um marinheiro nômade e sem residência fixa. Quando está no Rio, protagoniza encontros sexuais com Maria Inês, onde ela se submete a ser mais uma na coleção de Bernardo Águas. João Miguel é o marido, com queda por jovens bonitos e moças jovens. Maria Inês nota isto num café em Veneza, ponto de partida para uma encruzilhada em seu relacionamento.

Mas Tomás parece ser o mais sincero em relação aos seus sentimentos. Aceita ser o “outro” de Maria Inês. E por ela espera durante quase toda a vida. Em certo trecho, a autora ao narrar a primeira vez em que Tomás avista Maria Inês na sacada do apartamento do Flamengo, na rua Almirante Tamandaré, e passa a desenhá-la de forma obcecada, sua vida termina antes de começar (“A vida de Tomás que terminou antes de começar.” – p. 149).

Tomás insiste num amor ao qual Maria Inês se recusa a abraçar. “Mais tarde ela diria por favor, Tomás, não se apaixone por mim, e ele perguntaria, sorrindo, por quê?, ao que ela responderia porque eu não estou apaixonada por você. Naquele momento, porém, e mesmo depois da revelação da não paixão, Tomás se assegurava: seria possível. Teria de ser possível. Porque o amor dele seria talvez suficiente para dois, como um prato farto num restaurante. Suficiente para alimentar duas pessoas, um desejo em dobro capaz de arcar com o peso de dois destinos, inclusive, e irmaná-los.”(p. 157)

Tomás insiste e reclama quando Maria Inês não lhe informa a morte de Octacília. Quando Afonso Olímpio morre, Tomás vai a Jabuticabais, conhece Clarice e nota os olhos secos das duas irmãs no velório.

Estavam secos.
Como estavam também os olhos de Maria Inês: secos. Estranhamente secos, mais secos que os olhos das pessoas quando estão secos. E a ausência de lágrimas pesava naqueles olhos marejados de falta, marejados de silêncio.”(p. 237-8)

Tomás não pergunta, não inquire, não invade. A sua presença no velório já era uma invasão. A invasão de um segredo que é compartilhado num único olhar entre Clarice, Maria Inês e Tomás. Ele de nada sabia, mas desconfia de algo muito bem guardado pelas irmãs.

Após a morte do pai, Maria Inês fica noiva de João Miguel e comunica a Tomás. “Uma paixão muito jovem. Que dividiu a existência de Tomás em duas metades, em dois hemisférios. Em dois períodos: um a.M.I. e um d.M.I.”(p. 241)

Maria Inês foi embora, mas não definitivamente. Voltou três meses depois, e continuou voltando ao longo dos dois anos seguintes. Uma Maria Inês clandestina que mais tarde haveria de se culpar e acreditar que o belo Paolo em Veneza era somente uma espécie de troco.”(p. 243).

Ao final, descobre que Eduarda, a moça que tem os seus olhos transparentes, é sua filha. 

Maria Inês, a protagonista, parece ter medo do amor, da entrega, do sacrifício que um relacionamento exige. João Miguel, o primo que virou marido, é o companheiro conveniente, conquistado sem esforço. Tomás, o devotado e apaixonado amante, é posto de escanteio, quase esquecido, mas Tomás não teve medo de arriscar, de abraçar a paixão que lhe assolara. Maria Inês, por sua vez, segue sua vida sem se amarrar, sem criar fundações definitivas e mais profundas. Sim, Maria Inês tem medo do amor, medo de encontrar o amor verdadeiro e duradouro.



Havia uma pedreira perto da fazenda e Maria Inês e Clarice sobem ao alto da pedreira num dia de junho, após a tradicional festa junina.

Maria Inês sentiu a pele da nuca eriçar-se, como se ela fosse um gato, e perguntou com a voz forte para que ele pudesse ouvi-la de onde estava: o que houve? O que veio fazer aqui?

Não fale assim com ele, Clarice censurou.

As distorções dela eram filhas das distorções dele. Claro.

Diante de Maria Inês e de Clarice, plantado no meio daquelas pedras como um fantasma, os cabelos ralos esvoaçando, Afonso Olímpio viu o rosto das coisas que ele poderia ter feito, mas não fizera. E também aquele sombrio das coisas que ele não deveria ter feito, mas fizera, ainda assim. Um homem carente da melhor parte de si mesmo, daquilo que agora pudesse sustentá-lo de pé.

Você acredita em inferno, pai?, Maria Inês perguntou.” (p. 288-9)

Ela surpreendeu-se por ouvir-se dizendo aquela palavra, pai, que foi a última que disse a ele e a última que ele próprio ouviu. Depois, muito levemente, empurrou.” (p. 293)

O tão desejado esquecimento se resume a um momento em que Clarice vê o pai despencar do alto da pedreira. E a partir daquele momento, inicia o processo de cicatrização.

O Esquecimento Profundo não existia. Clarice sabia. Nunca fora capaz de esculpi-lo – de reivindicá-lo para si. Também não existia algo como uma lembrança inócua, uma ferida cauterizada. Um bicho sem as presas e sem os dentes, sendo, apenas. A pacificação do passado com tudo aquilo que ele comportava. Existia uma cidade na memória de Clarice, uma cidade destruída pela guerra ou por um terremoto. Agora, havia construções novas e o entulho já fora removido e os mortos, enterrados – porém, haveria como reverter aquela memória? Como atualizá-la?” (p. 303-4)


segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Michel Laub e seu Diário da Queda


"Naquela época eu falava muito pouco com o meu pai. Ele chegava em casa à noite, exausto, e eu já tinha jantado e na maioria das vezes estava dormindo. Se eu fosse contar o tempo que passávamos juntos por semana não daria mais que algumas horas, e como nessas horas estavam incluídos os discursos sobre os judeus que morreram nas Olimpíadas de 1973, os judeus que morreram em atentados da OLP, os judeus que continuariam morrendo por causa dos neonazistas na Europa e da aliança soviética com os árabes e da inoperância da ONU e da má vontade da imprensa com Israel, é possível que mais da metade das conversas com ele teve comigo girassem em torno desse tema."
(Diário da Queda. São Paulo : Companhia das Letras, 2011, p. 36)


"É a quinta vez que venho à Alemanha, e a primeira deois de ter um livro publicado aqui. Meu pai era de Berlim, emigrou para o Brasil por causa do nazismo e morreu antes do lançamento de Diário da Queda, que tem um personagem com trajetória semelhante, embora seja menos autobiográfico do que parece. Às vezes passo semanas sem pensar no meu pai, mas nos últimos dias sinto saudades dele. a viagem ganha um toque sentimental inesperado, que me faz contar em público histórias sobre ele que nunca contei. Ao mesmo tempo, a ideia de usar a memória privada de alguém para promover um livro me constrange."
(Michel Laub, "Semimorto em Frankfurt" in Revista Piauí 86, novembro de 2013, p. 34)

Meu primeiro contato com Michel Laub foi na cerimônia de entrega do Prêmio Portugal Telecom de Literatura de 2012, quando concorreu na categoria romance. Troquei algumas palavras com o escritor. No final, os convidados podiam escolher um livro para levar para casa. Escolhi o Diário da Queda (Companhia das Letras, 2011). Logo em seguida, li seu texto publicado na Granta em português (volume 9) e gostei do estilo, da forma narrativa, da novidade.

Confesso que sempre busco algo novo nos livros que leio. Quer seja um estilo narrativo, quer seja um ponto de vista ou uma forma de contar a estória. A mesmice é bestificante e pouco provoca o leitor.

Somente em outubro deste ano iniciei a leitura da obra. O primeiro terço fluiu muito rapidamente e o estilo de Michel Laub ficava mais patente a cada parágrafo, a cada página.  Em dado momento, pareceu-me que ele perde o foco narrativo, a estória derrapa, pois é contada em camadas espiraladas e a cada volta no espiral, compreende-se melhor a estória.

O livro é narrado em primeira pessoa, em tom confessional. O final surpreende pela beleza e pela epifania do narrador que aparenta redescobrir a alegria de viver.

Em síntese, o livro trata do relacionamento entre um pai e o filho (narrador), suas crises, a revolta diante da religião da família, conflitos diante da herança familiar - não do ponto de vista financeiro, mas do ponto de vista histórico e cultural -, a descrença no ser humano, a perda da razão de viver com o alcoolismo e a epifania final. 

Michel Laub trabalha com a memória, tema que tem sido tão bem explorado por escritores brasileiros contemporâneos e jovens, tais como Daniel Galera e Tatiana Salem Levy. Esta última trabalha a memória tanto em Dois Rios, como em A Chave de Casa (2007). Seria esta uma temática dominante nos jovens escritores brasileiros? Só tempo dirá.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

A Jogadora de Xadrez


Fazia um bom tempo que não terminava um livro em pouco mais de uma semana, assim também há um bom tempo que não faço uma resenha para o blog de minhas leituras. Minhas últimas leituras recaíram sobre livros de não ficção (principalmente história do Brasil) e contos esparsos em revistas literárias e algumas coletâneas. Esta leitura variada não permite a unicidade da crítica. Mas o romance de estreia da alemã Bertina Henrichs, escrito em francês e com tradução de Bernardo Ajzenberg, obriga-me a trazer minhas impressões da obra.

A edição da Editora Record é de 2010 e o livro ganhou uma adaptação para o cinema estrelada por Sandrinne Bonnaire e Kevin Kline, com o título em português de O Xeque da Rainha.

O romance conta a estória de uma camareira de um hotel numa ilha grega. Eleni seguia sua rotina diária de trabalho e repara num casal de hóspedes franceses que jogavam xadrez no quarto. Interessa-se pelo jogo e mergulha no mundo fascinante do jogo dos reis, no universo das 64 casas que fascina grandes mentes ao redor do mundo.

A prosa é leve, ágil e a vida da ilha transcorre em traços mal acabados. Tem-se a impressão de Henrichs não gasta tempo em demasia com descrições inúteis e detalhes pouco úteis na composição das personagens e na construção do enredo. Assemelha-se a narrativa à um desenho cujos traços à lápis estão presentes, mas sem cor, sem acabamento, sem os retoques finais. Este estilo dá margem a certas dúvidas e incertezas, mas permite ao leitor preencher aparentes lacunas que surgem na estória. 

O xadrez é o pano de fundo da estória, o fio condutor, mas não impede o leitor pouco familiarizado com o jogo de deixar de compreender, nem tampouco há descrições detalhadas do jogo que entediariam  o leitor. Há algumas imprecisões (não sei se no original ou na tradução) que não passam despercebidas a um enxadrista, mas isto não tiro o brilho do livro e da beleza da estória.

São 160 páginas onde o leitor é conduzido pela vida pacata da ilha. Eleni se apaixona pelo jogo e esbarra na resistência - e nas fofocas - dos moradores da ilha em aceitar algo diferente. O súbito interesse de Eleni pelo xadrez é visto com desconfiança e estranheza, algo que abala seu casamento, levanta dúvidas sobre sua conduta e hábitos. O final, bem o final cabe ao leitor descobrir.

Não se trata de um clássico, mas sim de um livro delicioso, cativante e cuja estória encanta e convida o leitor a refletir. Há tantas situações cotidianas que são relevadas ou vistas com descaso, ou às quais atribuímos pouca importância e que revelam grandes avanços pessoais resultados de luta interior constante. A leveza da escrita e da narrativa transformam a leitura do livro em momentos de prazer, qual um período de férias na ilha grega de Naxos, onde se passa a narrativa. 


sexta-feira, 19 de abril de 2013

Um livro, dois momentos


"'Would you tell me, please, which way I ought to go from here?'
'That depends a good deal on where you want to get to,' said the Cat.
'I don't much care where - ' said Alice.
'Then it doesn't matter which way you go,' said the Cat.
'- so long as I get somewhere,' Alice added as an explanation."

(Lewis Carroll. Alice's Adventures in Wonderland. Penguin Books : London, 2008, p. 66-7)

Outro dia, percorrendo a esmo a seção de literatura estrangeira da Livraria da Vila do Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, deparei-me com uma coletânea de textos de Edgar Allan Poe, edição em inglês da Penguin Books, em brochura. Abri o livro e deparei-me com um conto que li na adolescência. The Fall of the House of Usher foi um daqueles textos que odiei ter que ler. A obrigação de lê-lo tirou a beleza e a relevância do texto, deixando-o sem compreensão suficiente. Seguiram-se The Raven, The Tell-tale Heart e alguns outros. 

Aos poucos fui encaixando Poe no contexto histórico do século XIX e seus textos passaram a fazer algum sentido. A obrigação transformou-se em leve prazer, mas a obrigação de ler os textos ainda pesava. Entendia que era necessário para minha formação e que era necessário conhecer os textos clássicos. Alguns deixaram suas marcas, outros meros riscos superficiais que imaginava terem sido apagados pelo tempo. Até outro dia...

O outro dia deu-se no meu reencontro com Poe. Comprei a coletânea e reli os mesmos contos da adolescência. Descortinou-se diante de mim um mundo novo, uma compreensão mais aguda dos complexos personagens criados e suas crises, manias, visões de mundo, aflições e angústia. Como os anos de vida nos concedem um entendimento maior da conduta humana! O mesmo texto e dois olhares completamente diferentes!

A nostalgia me conduziu ao livro - e entendo melhor como é importante ler os clássicos na juventude, ainda que por obrigação - e me deu enorme prazer na sua leitura. Da mesma forma que a epígrafe deste texto, dica do excelente Terapia da Palavra. Fui atrás do livro para deixar a citação mais precisa. Alice só pode escolher o caminho se sabe para onde QUER ir. E quantos de nós não sabem para onde caminham?

terça-feira, 19 de março de 2013

O primeiro dia frio


Tenho uma grande simpatia por Lygia Fagundes Telles e Tatiana Salem Levy. São duas escritoras que me agradam em demasia. Na edição de sexta-feira, dia 15 de março, a primeira foi a convidada da coluna À Mesa com Valor, que teve o encontro relatado por José Castello, cujos textos são um convite a sentar-se à mesa com o convidado. Há uma proximidade do entrevistado, uma intimidade recheada de notas e frases que permitem ao leitor penetrar um pouco no processo criativo do escritor (quando entrevistado é um escritor). A coluna pode ser lida aqui.

Destaco dois trechos do que foi dito por Lygia Fagundes Telles: "É preciso enxergar mais do que as coisas nos mostram, ou não vemos nada." E mais adiante afirma que "está tudo inscrito na realidade. A um escritor, basta ler. Não sei por que gostam de atacar a realidade."

Em certo trecho, Lygia narra como surgiu o conto Helga, de Antes do Baile Verde. De uma notícia de jornal, de uma sugestão do marido, o caso narrado transmuda-se em conto de ficção. A realidade é contada pelo escritor com novas cores, mas sem deixar de ser real. A realidade é fonte de inspiração, é o ponto de partida de escritor, na visão de Lygia. 

Descobri Lygia lendo Conspiração de Nuvens (2007). A memória é um elemento muito presente em suas crônicas, servindo-lhe de matéria prima para analisar a realidade que procura enxergar de esguelha, com outro viés daqueles que a olham somente como plana. Encantei-me com o livro, com os textos e com esta grande escritora. Apaixonei-me pela forma como ela trata de um tema que me é tão caro: a memória. 

E minha alegria aumentou quando no final do caderno de final de semana do Valor deparei-me com um ensaio de Tatiana Salem Levy sobre um livro de Sándor Márai, De Verdade (Companhia das Letras, 2008), em que ela discute a existência de múltiplas verdades (leia aqui). Tatiana lança a pergunta: existe amor de verdade? existe mulher de verdade?

A discussão acerca da existência de uma única verdade ou de múltiplas verdades é muito familiar para um advogado. No direito penal, busca-se a verdade material, que deveria ser a real, ou seja, aquela que retrata o que efetivamente aconteceu a ponto de se poder condenar aquele que praticou o delito. No direito civil, prevalece a verdade formal, aquela que está presente nos autos, aquela pela qual o magistrado é convencido a acreditar com base nas versões e provas apresentadas.

Ressalvo que, do ponto de vista filosófico, discordo da afirmação de que existem múltiplas verdades no plano metafísico e do conhecimento, mas não vou me desviar do assunto principal que é a literatura.

Versões e pontos de vista é o que Márai traz para sua narrativa. Discordo de Tatiana de que há múltiplas verdades; há múltiplas versões da realidade, contadas pela ótica do observador e pelo critério do observador, geralmente tomados de parcialidade na sua análise. Mas Tatiana destaca que todos narram após os acontecimentos, ou seja, no passado, revivendo a memória do outro ou como o outro era visto no momento em que os fatos ocorreram. A memória pode ser traiçoeira, nebulosa!

A memória, com as experiências colhidas no passado, agrega ao conhecimento do momento presente, deixando-o mais claro e mais profundo, como se fossem camadas do solo que vão se sobrepondo. Um corte lateral permite conhecer o presente e o passado.

Após um verão quente, somos brindados com um dia frio em São Paulo, o primeira dia frio do ano. E todos saem agasalhados na rua, com cachecóis, casacos e botas. Parece um dia de inverno, mas temperatura é de agradáveis 19o C. Nosso corpo, acostumado com o calor, ainda traz a memória térmica dos dias de verão, e a temperatura amena, parece-nos mais fria do que realmente é do ponto de vista objetivo.

Eis que me deparo com uma segunda-feira fria, garoenta, úmida. Um aparente típico dia de invernopaulistano! Mas calma, meu querido amigo, não se precipite, ainda estamos no verão, nos estertores do verão, ainda na estação do astro rei. Hoje foi o primeiro dia de frio do ano. Comentei com minha filha que o que é cinza e melancólico para alguns, pode ser poético para outros, basta ler a realidade. O primeiro dia frio do ano parece convidar ao aconchego do lar, a saborear memórias, a enclausurar-se no silêncio interior, a degustar uma taça de vinho, a preparar uma sopa quentinha, a enrolar-se no cobertor... O primeiro dia frio do ano não precisa ser negro, nem o presságio de uma estação terrível e pouco tolerável. Prefiro o calor, mas cada estação tem suas qualidades, sua inspiração, sua cor. Basta ler a realidade, como nos ensina Lygia Fagundes Telles.

terça-feira, 10 de abril de 2012

A pedra no meio do caminho



Ele estava com a curiosidade aguçada e pediu minha ajuda para que lhe guiasse na livraria até o setor onde encontraria o bendito poema. Ficou desconfiado de que o curto poema sobre a pedra no meio do caminho era invenção minha. Vasculhamos todos os livros de Drummond no setor de poesia, mas infelizmente não encontramos um exemplar de Alguma Poesia, o primeiro livro do poeta.

Deparamo-nos com algo maior: uma obra inteira dedicada ao estudo do poema buscado. Uma Pedra no meio do caminho - Biografia de um poema, de Eucanaã Ferraz (Instituto Moreira Salles, 2010) é uma homenagem e o reconhecimento da genialidade do poeta. Genialidade que se manifesta na facilidade de dizer o simples, de escrever com leveza, de falar com todos e a todos.

Rafa sentou-se numa confortável poltrona da Livraria da Vila e leu o poema. Este pai não conteve a admiração de ver um menino de 8 anos de idade lendo poesia, e memorizando-a com uma única leitura, pois logo em seguida recitou o poema para a irmã. O pequeno leitor compreendeu apenas parte do que o poeta quis dizer - penso eu -, mas deixou-se levar pela escrita poética, pelo ritmo das palavras que dançam ao redor da pedra no meio do caminho.

Sempre haverá uma pedra no meio do caminho. Desistir é uma opção, mas apenas para os fracos. Pedras há de montes. Pequenas e grandes, diárias e semanais, cotidianas e esporádicas. Chamemo-las de pedras, espinhos, "abacaxis", "pepinos" ou qualquer outro nome. As contrariedades são diárias e constantes, algo inerente à vida. Não apenas na vida moderna e urbana, mas na vida. Quem mora na zona rural não tem água quente, alguns não têm energia elétrica e por aí podemos desfiar uma longa ladainha. Eles também têm pedras no meio do caminho.

Algumas pedras não são contornadas. Impedem a passagem. Algumas pedras são carregadas conosco ao longo dos anos e pesam, cansam, fatigam. 

É preciso ultrapassar a pedra, com paciência e perserverança, para poder olhar para trás e dizer com o poeta, saudoso e vitorioso por não ter desistido diante da pedra no meio do caminho:

No meio do caminho tinha uma pedra 
tinha uma pedra no meio do caminho 
tinha uma pedra 
no meio do caminho tinha uma pedra. 

 
Nunca me esquecerei desse acontecimento 
na vida de minhas retinas tão fatigadas. 
Nunca me esquecerei que no meio do caminho 
tinha uma pedra 
tinha uma pedra no meio do caminho 
no meio do caminho tinha uma pedra.


(Carlos Drummond de Andrade. Alguma Poesia, 1930)
 

domingo, 19 de junho de 2011

Duas sugestões de coletâneas de contos

Contos são um breve momento narrativo, mas que se prolongam no tempo quando o autor aborda uma temática complexa. Sempre tenho em minha cabeceira contos para leitura, quer quando resolvo dar uma pausa no romance mais longo, ou quando me falta tempo para iniciar um novo livro. Com sucessivas viagens, o tempo foi generoso e permitiu que terminasse Apego, de Isabela Fonseca. Na sequência quero ler algo de Inês Pedrosa, escritora portuguesa que não conheço, ou talvez Gracias por el fuego, de Mario Benedetti que repousa calmamente na minha estante.

Mas voltemos às minhas sugestões de livros, principalmente porque estamos à véspera de um feriado mais longo e às voltas com as férias de julho.

1. Então você quer ser escritor?, de Miguel Sanches Neto (Rio de Janeiro : Record, 2011).


O mais recente livro do escritor paranaense traz contos onde aborda os principais temas que afligem o homem contemporâneo. Seu estilo é peculiar, dinâmico, numa narrativa magnética e surpreendente. Nos  diálogos despreza o travessão, dando fluidez à narrativa, confundindo o leitor por certas vezes, mas atraindo a sua atenção plena para as palavras que se sucedem. O recurso de transpor as regras de pontuação pode aparentar um narrador apressado, que conta sua estória sem pausas, afobadamente, algo muito próximo da rotina atabalhoada e de ritmo alucinante que integra o cotidiano atual.

Em "Animal nojento", o título só se justifica no último parágrafo, quando o leitor tem a certeza inquietante de o pior acontecerá na página seguinte. O amor inatingível, a inadequação às constantes mudanças sociais e de costumes dão o pano de fundo para "Na minha idade". E assim, Miguel Sanches Neto vai apresentando ao leitor personagens com quais sempre há algo com que se identificar. 




2. Narrativas do Espólio, de Franz Kafka (trad. Modesto Carone, São Paulo : Cia. das Letras, 2002).


Demorei para enfrentar Kafka, até que recentemente apresentaram-me ao grande escritor tcheco. Narrativas do Espólio é uma sequência de textos publicados post-mortem. O escritor morreu com apenas 41 anos e ordenou a seu amigo, Max Brod, que queimasse os manuscritos. O escritor não foi atendido e quem saiu ganhando foram os leitores do mundo todo.


O estilo de Kafka é seco e seus textos são difíceis. Muitas vezes requerem uma nova leitura para a uma melhor compreensão. Não digo plena compreensão, pois talvez esta seja inatingível. Um exercício mental que combina com os dias frios de inverno, onde o recolhimento casa-se perfeitamente com a boa literatura.


Por fim, relembro Antonio Tabucchi e seu O tempo envelhece depressa, já recomendado e do qual gostei muito, que estará presente em Parati na Flip como convidado.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Uma noite para Murakami



“- O que exatamente você quer dizer com criar alguma coisa de verdade?

- Como posso explicar... Quando a música que você interpreta consegue tocar lá no fundo do coração das pessoas, tanto o corpo de quem toca quanto o de quem ouve, com sutileza, se desloca fisicamente. É conseguir criar esse verdadeiro estado de comunhão. Acho que é isso.”
(Após o Anoitecer. Trad. Lica Hashimoto. Rio de Janeiro : Objetiva, 2009, p. 97)

Basta o período de uma noite para que o escritor japonês, Haruki Murakami, enverede pelo relacionamento entre duas irmãs. Após o Anoitecer é seu 11o. romance e foi lançado em 2009, publicado no Brasil pela Editora Obejtiva (Alfaguara).

O autor narra a estória de duas irmãs. Mari Asai é uma garota que se refugia na solidão em busca de solucionar um conflito interno e lidar com a preferência dos pais pela irmã. Eri Asai é uma modelo de revistas femininas, bonita, popular, bem sucedida. A competitividade do ambiente familiar,  ainda mais acerbada numa família japonesa, conduzem Mari ao ostracismo e a uma série de questionamentos que são precipitados com os personagens que cruzam seu caminho.

Takahashi é o principal deles. Conduz Mari pela noite, intrometendo-se na vida dela, como um anjo que invade sua vida sem ser convidado. O passado difícil de Takahashi e suas conclusões auxiliam Mari a indagar se Eri é realmente feliz por detrás da fama e das aparências de felicidade. 

O avançar dos ponteiros do relógio são um indicativo de que a noite é um período de reflexão e mudança, um período de escuridão na alma de Mari que aos poucos se dissipa com o surgimento da luz matinal.  

Murakami utiliza com maestria constantes referências musicais, principalmente do jazz, para adicionar relevo aos ambientes e criar um clima auditivo para o estado de espírito de seus personagens. Sua narrativa é ágil e sem excessos descritivos desnecessários, o que parece que o autor segue à risca a recomendação de não utilizar palavras desnecessárias no romance.

O resultado final é um romance que trata de relacionamentos humanos, da complexidade e da beleza destes relacionamentos e como o acaso é fundamental para descobrir aqueles recônditos escuros do nosso interior. Enfim, trata-se de leitura altamente recomendável.


terça-feira, 26 de abril de 2011

Nos passos de um personagem


Centro Histórico de São Luís



A primeira vez que isto me aconteu foi logo após ter lido O Xangô de Baker Street, de Jô Soares. Numa passagem do livro, Sherlock Holmes persegue um suposto meliante pelas ruas do centro do Rio de Janeiro na época de D. Pedro II.  Ruas estreitas de paralelepípedos, becos, casas com pequenas sacadas que se debruçavam sobre ruas pouco iluminadas. O cenário é fácil de ser imaginado, recuperado pela memória de livros de história escolares. Porém, vivenciar o cenário é outra coisa.

Vivenciar é o termo exato que quero utilizar, ainda que pareça incorreto. Ao nos colocarmos na posição de um personagem, no local da narrativa, seguindo seus passos, incorporamos o narrador e isto dá relevo ao texto literário, deixando de ser apenas algo imaginado pelo leitor, mas fruto da experiência vivida com todos os sentidos.

Estive em São Luís por estes dias. Até então as referências utilizadas por Josué Montello em suas obras eram vazias de sentido; serviam apenas para organizar espacialmente a narrativa, mas sem o impacto dramático. O Rio Anil era um rio como qualquer outro, manso, barrento, estreito e desaguando no mar. O Rio Anil verdadeiro é manso, mas amplo e na maré baixa fica estreito, ganhando volume e amplitude na maré alta, quando suas águas espalham-se por debaixo de uma ponte que une as duas partes da cidade.

Minha colega, ao levar-me por um rápido giro turístico pelo centro histório, apontou o Cais da Sagração, hoje denominado Cais da Praia Grande. Ela deve ter percebido o brilho nos meus olhos quando lembrei-me de outro romance do imortal maranhense. Senti, acima de tudo, que os maranhenses têm orgulho de seus escritores e preservam esta tradição cultural. Gonçalves Dias, Odylo Costa, Ferreira Gullar, Josué Montello: todos filhos dessa terra.

Vivenciar o cenário presenteia o leitor com a percepção da narrativa imaginada pelo autor com maior precisão, reparando nas nuances da trama. Hoje, temos a acesso a ótimas ferramentas geográficas de localização, como o Google Maps e o Google Earth, mas pisar nas pegadas de um personagem é algo insuperável.

Não consigo situar uma narrativa em um local “real” que desconheça. Posso inventar, mas se a cena exige uma narrativa mais detalhada, tenho a necessidade de ter experimentado o cenário com todos os sentidos.

Exemplificar é fácil. Leia um livro que usa uma cidade como pano de fundo antes de conhecer a cidade. Caso a cidade seja visitada pelo leitor, um outro livro será uma experiência literária muito mais enriquecedora do que o primeiro. Ou melhor, releia o livro após visitar a cidade ou percorrer o trajeto da personagem. A estória não será a mesma e a compreensão da narrativa será muito mais profunda.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Lady Macbeth na versão russa

Depois de avançar lentamente pela última obra de Dostoiévski que li (Gente Pobre), hesitei em continuar minhas andanças pela literatura russa. Porém, restava apenas um livro dos que havia comprado na excelente Coleção Leste, da Editora 34. As traduções são primorosas e há sempre notas e posfácio, o que em muito auxilia o leitor novato.

O livro derradeiro era Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk, de Nikolai Leskov, com tradução de Paulo Bezerra (São Paulo : Editora 34, 2009, 90 pg). Li o livro em uma semana e surpreendi-me com a narrativa ágil de Leskov, apesar do tom pesado e sombrio que ronda os eventos.

Leskov revisita Shakespeare com um toque peculiar russo. No posfácio, Paulo Bezerra explica que "a literatura como arte é um imenso diálogo que se processa em escala universal, e nesse diálogo cada literatura nacional acrescenta peculiaridades de sua história e de sua cultura a temas já representados em literaturas de outros países e em outras épocas, às vezes bem distantes. Assim, ao trazer para universo da literatura russa o tema do famoso drama de Shakespeare, Leskov recria em Catierina Lvovna traços bem semelhantes aos de Lady Macbeth, fazendo-o, porém, à luz da violenta história da Rússia." (p. 86)

Publicado inicialmente em 1865, a obra aborda a vontade humana e a determinação por se atingir um objetivo específico, ou se conquistar determinada posição ou alcançar o poder, ultrapassando e desconsiderando qualquer reflexão de ordem moral acerca da correção de sua conduta. A temática pode ser trivial, mas na mão de um mestre da escrita, o trivial ganha traços de grande obra e ganha notas de atemporalidade. 

Catierina Lvovna é esposa de um velho comerciante. A jovem, entendiada e sem filhos, transforma-se, com o passar da narrativa, de esposa submissa em uma fria assassina.

"Aquele que não quer dar ouvidos a semelhantes palavras, que não acalenta a ideia da morte nem mesmo nessa situação deplorável, mas a teme, esse precisa tentar abafar essas vozes ululantes com algo ainda mais horrendo que elas. Isso o homem simples compreende perfeitamente: então ele dá asas a toda a sua simplicidade animal, começa a fazer bobagens, a zombar de si mesmo, das pessoas, dos sentimentos. Já sem ser especialmente delicado, torna-se excepcionalmente mau." (p.77)

A maldade cria suas raízes no campo fértil de uma jovem e frustrada mulher; as raízes se espalham e contaminam todo o ser, sufocando o bem e deixando emergir uma mulher transformada - e transtornada.O tema é universal e atual, e a leitura desta excelente obra é muito prazerosa.


Outros posts sobre literatura russa:


Anteriormente já comentamos A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói em dois posts (Tempus breve est! e Um trecho de Tolstói). Outra obra de Tolstói que recomendamos é A Sonata a Kreutzer.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Livros na cabeceira

Um feriado prolongado é sempre um ótimo momento para ter a companhia de um bom livro. Para aqueles que não gostam da folia, mais de um livro; para quem gosta da folia, leituras mais curtas. Algumas sugestões que estão na minha cabeceira.

Começo com sugestões de contos, que alguns consideram uma forma menor de literatura em relação ao romance, mas que exigem do escritor um poder de síntese maior. A discussão merece um post exclusivo e não vou fugir do tema.

Vamos às sugestões:



1. O tempo envelhece depressa, de Antonio Tabucchi. (trad. Nilson Moulin. São Paulo : Cosac Naify, 2010)

Um livro de contos sobre o tempo e a memória. Tabucchi é um dos mais importantes escritores italianos contemporâneo e este livro de contos foi premiado na França como o melhor do ano pela revista Lire. Os contos são densos com um escrita que conduz o leitor pelos caminhos da memória, por ora um pouco confusa, como os pensamentos, mas que obriga o leitor a confiar no fio da meada, para ao final, desenhar o retrato completo. 

2. Granta em português - Sexo (volume 6), vários autores. 

Lançada em novembro de 2010, este novo volume da Granta em português tem como tema o sexo. Não se trata de algo explícito, mas sutil e imaginado. Os contos são de diversos autores brasileiros e estrangeiros, entre eles encontram-se Reinaldo Moraes, Luiz Vilela, Anne Enright e Lynn Barber. 

O volume 5 também é uma boa pedida e tem um texto magistral de Ronaldo Correia de Brito. 


3. Absolvição, de Antonio Monda. (Rio de Janeiro : Alfaguara, 2010)

A coincidência de italianos não foi intencional. Monda é radicado em Nova York e professor de cinema na Tisch School of the Arts da New York Univeristy. A narrativa é ágil, com capítulos curtos, citações e referências a filmes, como não poderia deixar de ser. A leitura é prazerosa e leve, ainda que a temática não seja tão leve.

Federico Scalia é um criminalista no sul da Itália, o mais renomado criminalista e professor. Em seu escritório, um jovem advogado, Andrea Marigliano, vê no mestre uma forma de dar asas à sua ambição. Dilemas éticos são enfrentados e revelam a forma de pensar do advogado, com uma interessante crítica do modo de agir dos juízes e da justiça. O livro, porém, não é exageradamente jurídico, nem cansativo. É a estória de uma relação humana que retrata muito bem a forma como gerações distintas enfrentam a realidade. 

Boa leitura!



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A Rede Social




A Rede Social (The Social Network, EUA, 2010) é um daqueles filmes que se assiste por causa das boas críticas ou porque você é um usuário do facebook e ficou curioso sobre a estória. É considerado um dos sérios favoritos ao Oscar deste ano, mas se você assistiu o filme, pode-se perguntar: o que este filme tem de tão especial?

Saí do cinema com a sensação de ter visto um "filminho", algo nada de especial. Minha vontade era escrever um post sobre o filme logo no dia em que o vi, porém não queria estragar a estória e resolvi rever minha primeira impressão. Fui ler as críticas e conversei com algumas pessoas que entendem de cinema. Todos foram unânimes ao elogiar o filme. Isto me fez pensar: o que não estou vendo neste enredo?

O que mais me marcou de inicio foram a primeira e a última cena do filme.

Num bar em Boston, Marc Zuckerberg (Jesse Eisenberg) conversa com a namorada Erica Albright (Rooney Mara). Ele é aluno de Harvard; ela é aluna de Boston University. Uma conversa em ritmo alucinante, um verdadeiro bombardeio por parte de Zuckerberg acaba por levar Erica a ir embora e terminar o namoro. Nota-se o egocentrismo de Zuckerberg, a sua arrogância, o sentimento de poder infinito, um semi-deus que despreza sentimentos e revela-se antissocial. Ao levar o famoso fora da namorada, ele se revolta e vai à vingança. Daí surge um site que evolui para a ideia do facebook.

Uma pequena divagação. Boston é uma cidade de elite, com várias universidades de primeira linha, tais como Harvard, MIT, Boston University e Boston College. A rivalidade é grande e os alunos de Harvard consideram-se superiores. Apesar do lindo campus e da qualidade do ensino, o ambiente é de competitividade extremada, uma verdadeira selva onde proliferam sujeitos arrogantes e individualistas, dispostos a qualquer coisa para superar o concorrente. Zuckerberg é o típico aluno, onde a ética vem em segundo plano.

Esta cena dá o tom do filme. Zuckerberg vai atrás do seu grande projeto e não percebe a oportunidade que perdeu ao dispensar Erica. Revisitei a cena e o enredo do filme. Ao longo de seu caminho, o gênio Zuckerberg tenta passar a perna nos irmãos Winklevoss e Divya Narendra, além de seu melhor amigo, o brasileiro Eduardo Saverin.

Os diálogos revelam a frieza e a indiferença de Zuckerberg, isolado numa torre de marfim. A ironia está exatamente no fato de que Zuckerberg criou a maior rede social do mundo sendo totalmente avesso e inadequado ao convívio social. Seu egocentrismo e egoísmo o impedem de perceber que o mundo não orbita ao seu redor, que o ser humano é um animal social. 

Na cena final, Zuckerberg adiciona Erica Albright como amiga no facebook. Encarando a tela do computador fixamente vai clicando "f5" para atualizar a tela na esperança de que Erica tenha aceito seu pedido. A cena pode parecer banal, mas tem a poesia dos tempos modernos, da interação via internet e dos sentimentos que afloram num sujeito aparentemente indiferente à realidade que o circunda. 

Vou ver o filme novamente, com um novo olhar. O filme não trata da criação do facebook, mas de relações humanas e do que realmente vale a pena.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Ferreira Gullar e a poesia - II

Mais um trecho da conversa de Ferreira Gullar com os editores da Dicta & Contradicta:

"D&C: Uma aventura prazerosa ou dolorosa?"

"Prazerosa, é claro. Quem diz que dói escrever um poema mente. Não tem nada disso. T.S.Eliot dizia: 'Escrevo para me libertar da emoção'. O poema é cura, não doença. Escrevo para ser feliz,  para me libertar do sofrimento, não para sofrer. É a alquimia da dor em alegria estética. Mesmo quando a coisa é doída, amarga, naquele momento a transformo no ouro que é o poema. O prazeroso é não saber o que vai acontecer. É claro que há o rigor, pois a criação e a crítica são simultâneas. Há sempre uma escolha. Criar é sempre criticar, mas não sei de onde vem. É como digo: 'A Divina Comédia podia nunca ter sido escrita ou ter sido escrita diferente da maneira como foi'. Há um lado que é a necessidade, que é o que eu vou fazer. Por exemplo, se quero falar sobre uma pêra, não estou falando sobre uma praia, e isso condiciona o que vou dizer. Mas como o discurso da poesia não é lógico, não é previsível, então começa a aventura, e o que me acode, que vem através das palavras, está condicionado por certos fatores, como o sujeito que me falou algo na rua ou um trecho de um romance que li à noite. Há sempre uma relação de acaso e necessidade que determina o poema."
(número 05, Junho 2010, p. 16)

Difícil acrescentar algo ou comentar sobre esta passagem da entrevista. Mas vou destacar alguns aspectos da lição do grande poeta:
- o poema surge do acaso;
- o poema é uma aventura: sabe-se o ponto de partida, mas não se sabe o ponto de chegada;
- escrever é um exercício de felicidade;
- a escrita é transformadora, transforma a dor e algo belo.

Ferreira Gullar revela algo mágico sobre o processo criativo e que me parece tão atraente aos jovens: escrever é uma aventura, a poesia é uma aventura, que não é lógica, mas bela.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Barcelona cosmopolita


Mosaico de Antoni Gaudí na entrada do Parc Güell, em Barcelona.



Ao visitar uma cidade pela primeira vez, uma daquelas cidades que parecemos já conhecer pelos livros e fotos, mas não pessoalmente, criamos uma imagem mental do que iremos encontrar. Uma infinidade de peças visuais,  olfativas, gustativas que se organizam num grande mosaico, falho na maior parte das vezes. A realidade da visita corrige as falhas ou rejeita por completo a concepção criada de forma cerebrina.

Barcelona me surpreendeu. E muito! Talvez nunca tenha sido tão surpreendido por uma cidade como por Barcelona. Achava exagerado alguns comentários de amigos, mas estava enganado. A paisagem árida e as montanhas a oeste eram esperadas. A primeira visão casou com a imagem virtual projetada mentalmente. A surpresa veio com os primeiros passos pelas ruas, o contato com as pessoas, os aromas nos bares e restaurantes, o calor de dias ensolarados.

Barcelona erupciona no verão. Ao andar nas ruas mais movimentadas – e turísticas -, praticamente não se ouve espanhol. Fala-se alemão, holandês, francês e uma infinidade de línguas do leste europeu que não me atrevo a diferenciar. Há coreanos e japoneses também. Os brasileiros somem no meio da grande mistura. O catalão é a língua oficial que está em todas as placas, na locução das estações do metrô, em canais de televisão e outdoors. Uma mistura de português, espanhol, francês e italiano, o catalão – falado – é mais facilmente compreensível do que o espanhol, lembrando por diversas vezes o português falado em Portugal.

A cidade é um grande centro de encontro de africanos e latino-americanos que deixaram seus países tentando ganhar a vida por aqui. Muitos deixaram-se levar pelo crime quando a crise assolou o território europeu. É fácil encontrar mulheres muçulmanas falando árabe; indianos e paquistaneses falando seus idiomas; africanos falando francês.

Barcelona é de um cosmopolitismo ímpar no verão, um caldeirão em ebulição, em movimento, uma cidade onde as culturas e povos se encontram. Alguns para lazer e descanso; outros para sobreviver.


terça-feira, 13 de julho de 2010

Ares de Barcelona


Plátanos carregados de folhas bem verdes desenharam a primeira imagem de Barcelona que me remontou aos livros. Carmen Laforet, em Nada, relaciona a passagem das estações à coloração das folhas dos plátanos. O exato período de um ano em que o romance transcorre, permite ao leitor imaginar a chegada do inverno com a variação da coloração das folhas. Barcelona está repleta destas árvores em todas as suas ruas.

A cidade foi planejada por um engenheiro e agrada-me muito mais do que as obras criadas por Oscar Niemeyer, que podem ser belas, mas cansam rapidamente. Barcelona relembra um pouco de Curitiba, mas as ruas de Curitiba são confusas e a tradicional bagunça brasileira permite construções de alturas diferentes, o causa uma certa desordem e quebra a harmonia da cidade.

Este planejamento racional e típico de um engenheiro foi o berço da falta de regras na arquitetura. Puig i Cadafalch e Gaudí lideraram o movimento modernista e presentearam a cidade com edifícios onde a curva predomina sobre a linha reta. O belo é o inesperado, o que rompe com a homogeneidade do passado. Não há nada de anarquista ou político na concepção de Gaudí, mas uma forma de externar o que ele concebe como belo do ponto de vista arquitetônico. Esta influência se propaga por toda a cidade, nas praças, bancos de jardim, novos edifícios, igrejas e tudo mais. Sempre há algo inusitado para um olhar atento.

Barcelona incorporou o espírito de Gaudí e isto a transformou num importante centro mundial de design e inovação.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Livros na cabeceira



Tomado pelo trabalho, acabo por dedicar meu tempo de leitura aos contos. Por serem mais breves, permitem que as constantes interrupções com o trabalho noturno – minha lição de casa – não cortem a necessária atenção que um romance exige. Por vezes chego a ficar uma semana sem pegar no livro, o que me incomoda. Justificativas à parte, vamos ao que estou repousa na cabeceira.

1. Granta em português - volume 5

A última edição da versão brasileira da Revista Granta tem como tema a Família. Excelentes contos de autores brasileiros e estrangeiros, todos tratando do tema central. Além visões diferentes sobre um mesmo tema, funcionando como um prisma e instigando a criatividade do leitor que é convidado a refletir sobre um aspecto da realidade por diversos olhares.



Destaco o texto de Ronaldo Correia de Brito. O magistral conto remete-nos à infância, à relação pai e filho. O escritor brasileiro é um dos expoentes desta nova leva de escritores maduros, nos quais incluo Milton Hatoum, por suas características semelhantes, ou seja, um regionalista universal.


A Granta é indispensável para quem gosta de ler e para quem gosta de escrever.


2. Gente Pobre, de Fiódor Dostoiévski.

(Tradução Fátima Bianchi. São Paulo : Ed. 34, 2009)


A Coleção Leste da Editora 34 tem tradução cuidadosa e revela a genialidade dos escritores russos Este foi o primeiro romance de Dostoiévski, publicado em 1846, no qual o genial escritor revela uma grande capacidade de descrever as profundezas da alma humana.

Em Gente Pobre, o autor demonstra que a miséria exterior de seu protagonista não espelha o que lhe vai nas profundezas interiores. A crítica social é o tom do romance, assim como a dignidade humana dos mais pobres. Nas sutilezas das cartas escritas por Makar Diévuchkin, funcionário público em São Petersburgo, é possível perceber sua generosidade, seu afeto por Varvara Alieksiêievna, seu sacrifício, sua alegria mesmo diante das contrariedades enormes e da falta de meios materiais. A luta pela sobrevivência não embrutece Diévuchkin, mas traz à tona um ser digno e de grandiosidade espiritual.

O texto, como toda literatura russa, é denso e requer zelo, mas é sem dúvida ótima leitura para momentos de reflexão.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Revoada Carnavalesca



Tarde quente e preguiçosa, em que o tempo parecia se alongar de modo elástico, distorcido pelo calor intenso, sol escaldante no céu anil. Até o ruído do vento estava ausente, certamente repousando debaixo de uma sombra. Eu, por minha vez, flertava com uma sesta, refestelado na rede confortavelmente instalada na varanda.



Começo a desconfiar que devo ter algum traço de sangue índio originário de algum ascendente português que aqui aportou em séculos distantes. Talvez um gene que passou por terras do norte do país antes de finalmente se aquietar em terras paulistas. Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Josué Montello, autores que não deixam de retratar traços regionais típicos, conduzem seus protagonistas a uma boa rede. Curiosamente, os três nomes começam com a letra J, que muito lembra um gancho sobre o qual se apóia a rede. Mas estou divagando demais e fugindo do assunto.


Dou-me muito bem com uma rede. Adormeço facilmente, e apesar de urbano, desconfio que esta minha facilidade em lidar com uma boa rede deve ser fruto de algum gene introduzido na minha constituição genética por algum antepassado.


Bem, voltemos à rede, ao calor, ao silêncio. Numa tarde de carnaval, observei uma enormidade de borboletas a desfilar. Algumas pequeninas, de leve tom amarelado, bailando pelas floreiras ao redor da varanda, imitando a comissão de frente e convidando a olhar atentamente o que viria. Outras mais alaranjadas com as bordas das asas pretas, uma ala imponente fazendo sua evolução. Uma ou duas maiores com um azul vivo nas asas e que se mostravam quando pousavam nalguma flor, como porta-bandeiras de uma escola de samba. Uma revoada de borboletas para abrilhantar o carnaval.


A natureza dava um espetáculo carnavalesco de cor e vida. Quantas vezes isto já havia acontecido antes, nos tempos de criança, e sequer tinha notado? Tantos carnavais passei neste mesmo lugar e o desfile gratuito havia passado despercebido. Demorei a reparar, mas ainda há tempo. Sempre há tempo para se observar e deixar-se ficar maravilhado com o singelo. A maturidade traz estes presentes. Basta olhar com atenção.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Conto: Menina de 34 anos - Parte 2

MENINA DE 34 ANOS - Parte 2


Apesar do calor de fevereiro, Lico abotoara o paletó ao entrar no elevador e não dava a menor indicação de estava numa cidade com uma temperatura escaldante. Ele parecia saído de uma geladeira, todo arrumado, todo pomposo, todo formal. Não havia um fio de cabelo fora do lugar e disfarçava muito bem um certo temor que estranhamente lhe afligia antes que aquela porta se abrisse.


Mariela abriu a porta e saudou-o com profissionalismo. Era uma moça bonita, de pele morena dourada pelo sol, cabelos longos num tom castanho claro, quase loiros, olhos vivos que traziam consigo o brilho da juventude, uma jovialidade espontânea que fulminara Lico. Ele tropeçou nas palavras ao se apresentar, perdera um pouco da compustura, algo raríssimo, ainda mais diante de uma pessoa que ele julgava inferior intelectualmente.

Conversaram por quase uma hora. Mariela fez questão de dispensá-lo quando percebeu que o assunto principal já havia sido discutido e ao notar que Lico parecia incomodado diante dela. Ele estava incomodado. E muito. Subitamente, Lico se viu instigado por aquela mulher. O encontro havia catalisado em seu interior sentimentos adormecidos, ideias enterradas, uma juventude perdida, um tempo que passou e que pensava irremediavelmente enterrado. Algo borbulhava dentro dele como um vulcão prestes a erupcionar, suas ideias pareciam reviradas do avesso, seus conceitos haviam sido postos em xeque com apenas um olhar, algumas palavras e um sorriso.

Lico ignorou o calor e resolveu caminhar de volta para o hotel. Tirou o paletó e carregou-o dobrado no braço, alheio aos riscos das ruas cariocas, algo inusitado para aquele homem. Ele estava em transe, arrebatado por uma visão de vida para a qual ele estava cegado. Mariela havia, sem perceber, causado um terremoto na vida de Lico, fazendo desmoronar uma muralha que o distanciava da realidade e dos anos que se passavam sem que ele vivesse. Bastara uma hora de conversa com a carismática moça para Lico perceber que a palpitação que sentira no coração não era o início de um problema cardíaco, mas seiva da vida a pulsar dentro dele. Era uma epifania!

 
A Parte 1 pode ser lida aqui.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Quebrando o silêncio



"Um banco separado, provavelmente para a direção escolar. O silêncio de uma igreja, não, simplesmente o silêncio que importava, um silêncio que não poderia acabar com qualquer palavra. Um silêncio que transformava palavras em esculturas, monumentos do elogio, da advertência ou da sentença destruidora."
(Pascal Mercier, Trem Noturno para Lisboa. Trad. Kristina Michahelles, 3a. ed., Rio de Janeiro : Record, 2009, p.158)

Alguns temas me fascinam e se encadeiam sorrateiramente em posts inesperados. O silêncio é um destes temas que vivem passeando por este blog, e que foram objeto dos últimos posts. Seu entrelaçamento temático é inadvertido, não proposital. Talvez por que tenha dedicado mais tempo para refletir sobre o tema, ou talvez por que o tema tem pontuado minhas leituras. Enfim, o tema surgiu, aqui se instalou e agora amadureceu.

O trecho transcrito acima é do excelente livro de Pascal Mercier. Raimund Gregorius, professor de línguas clássicas em uma escola na Suíça, tem um encontro com uma mulher numa ponte a caminho do trabalho. A voz dela, a sonoridade do português arrebata-o e extirpa-o de uma rotina. Inicia-se uma viagem física, mas também interior do protagonista.

O silêncio permeia seus questionamentos e suas dúvidas, suas hesitações, seus medos. Gregorius é um homem solitário e sozinho. Os dois conceitos não são sinônimos. Solitário é aquele indivíduo que não tem ninguém ao seu redor; não tem amigos; não tem família. O indíviduo sozinho é aquele que pode estar rodeado de pessoas, mas carece do amparo humano. O indivíduo só é um homem mergulhado na solidão.

Mercier conduz seu leitor por uma viagem que aguça os sentidos. O professor de línguas prende-se ao som (audição), à forma como as palavras se organizam (visão), à delicadeza da capa de um livro (tato), ao perfume do novo e do velho (olfato) e ao gosto intragável de certas palavras e expressões (paladar).

Desta forma, o protagonista, tomado pela sonoridade de uma voz, encontra em seu âmago a coragem para quebrar grilhões e lançar-se em uma viagem para o novo. E tudo isto inspirado pela palavra.