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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Memória: Cemitério





instagram: @rbueloni
Cemitério Gethsêmani no início da primavera, setembro 2019


MEMÓRIA: CEMITÉRIO



O cemitério é um lugar familiar para mim. Sempre gostei de visitar cemitérios por dois motivos: pesquisas genealógicas e contemplação artística.

Desde meus 13 anos de idade ganhei gosto por pesquisa genealógica. Nunca busquei algum antepassado genial ou famoso ou importante ou rico. O que sempre fascinou foi a história, o passado, a luta de cada pessoa para sobreviver, para mudar de um país para outro e tudo isto é possível resgatar em documentos. É uma espécie de pesquisa arqueológica, onde se descobre como as pessoas viviam. Cemitérios são uma importante fonte de pesquisa e de dados. O Cemitério do Araçá e o Cemitério São Paulo foram visitados por mim várias vezes. Talvez eu seja uma das únicas pessoas da família que sabe o caminho até os jazigos naquele emaranhado de ruas parecidas entre os túmulos.

Nestes passeios pelos cemitérios, percebi que há uma riqueza arquitetônica escondida, silenciosa, pronta para ser admirada e descoberta. No Cemitério da Consolação, há um tour com guia que explica cada uma das esculturas encomendadas a artistas famosos como Bruno Giorgi, Emendabili e Victor Brecheret. No Cemitério São Paulo, há obras monumentais de beleza única e algumas tristes e melancólicas. Nunca me senti incomodado nestes lugares.

Acho curioso como o brasileiro trata cemitério com um certo receio, um medo de adentrar naquela local onde repousam nossos antepassados. Porém, é comum encontrar brasileiros no Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, ou no Cemitério Pére Lachaise, em Paris. Alguns túmulos são verdadeiras atrações turísticas. Por outro lado, após o sepultamento de um ente querido, muitos esquecem até o cemitério onde estão enterrados.

Há pouco mais de um ano e mês atrás fui ao cemitério do Araçá para fotografar as placas do túmulo de meus bisavós com os nomes e datas de nascimento e falecimento. O cemitério estava deserto naquela tarde de sábado do final de novembro de 2018. Fiquei ali mais de uma hora, contemplando, refletindo sobre a vida e a morte. O ano de 2018 havia sido um ano difícil e tudo parecia caminhar para um final de superação da luta contra o câncer, tanto da minha mãe, como do meu pai.

Um mês antes havia comparecido ao velório da mãe do meu cunhado no cemitério do Morumbi. Um cemitério jardim, um lindo campo gramado com árvores e flores e jazigos no chão. Não há obras de arte, mas há uma serenidade acolhedora naquele local. Meu pai comentou para minha mãe que precisava comprar um jazigo. Ouvi a conversa sem fazer qualquer comentário. Apenas ouvi e pensei que de fato é algo que faz parte da nossa rotina.

Pouco depois, no dia 23 de dezembro de 2019, meu pai faleceu. Ele foi enterrado no Cemitério Gethsêmani, em São Paulo. Desde então, visitar o cemitério passou a ser parte da minha rotina quinzenal ou semanal. Algumas visitas curtas e outras mais longas. Em todas, reflito sobre a morte, a vida e rezo, crente de que ele deixou este mundo para contemplar a face de Deus. Visu sin beatus tuae Gloriae.

Escrevi estas linhas mentalmente diversas vezes nestes meses. Por diversas vezes iniciei o texto diante do túmulo de meu pai. Não tinha força para escrevê-las. Mesmo agora, impossível escrevê-las sem que as lágrimas de saudade brotem. Um amigo psicólogo havia me alertado que o primeiro ano de luto é o mais difícil e que demora um ano para bem elaborar o luto. Um ano se passou e ainda que sinta saudade, a memória que fica guardada é sempre positiva e alegre. Neste Natal ele não estará presente entre nós fisicamente, mas tenho a certeza de que está olhando e intercedendo por nós lá de cima.

Ir ao cemitério, para mim, ganhou um novo relevo, uma nova razão. Deixei de ver o cemitério como um lugar triste e a lembrança do velório e do enterro – ainda tão vivas – deixaram de ser doloridas para se tornarem uma celebração da vida e da ressurreição. Todos morreremos um dia, descansaremos. Para os católicos, esperamos chegar ao Céu e alcançar a vida eterna ao lado de Deus.

Talvez alguém se pergunte a razão deste texto fúnebre num dia festa. Repito, não vejo a morte como algo que devemos temer ou algo melancólico. Há a dor da perda, mas há algo muito mais profundo que cada um de nós precisa refletir e descobrir. O tempo passa e as pessoas se vão.

Nestes dias que celebraremos o Natal, em família ou ao lado de amigos, aproveitemos para desfrutar de quem está do nosso lado. Façamos desta celebração um momento para perdoar, para acolher, para estender a mão e construir novas pontes, para abraçar a quem tanto estimamos. Não guarde aquela palavra de carinho, solte-a, lance a semente do bem a quem está à sua volta, mande aquela mensagem ao amigo que está distante, não tema ser generoso, bondoso, afável.  Como diz a canção Trem Bala, “sorria e abrace teus pais enquanto estão aqui”. Um dia, eles alçam voo para junto de Deus.


sexta-feira, 23 de maio de 2014

Reflexões sobre ser pai



Foi  numa noite recente  quando a observei falar com desenvoltura e segurança, os olhos traziam um brilho contagiante e as mãos gesticulavam com intensidade. Nunca fora tímida. Sempre extrovertida e atirada, muito falante, sorridente, revelando uma segurança tão própria dela, mas que disfarçava um medo interior que era afastado com um pedido para segurar minha mão ou um abraço longo.

Antes das competições de xadrez, não se sentava diante do tabuleiro antes de me pedir um beijo de boa sorte e algumas palavras de incentivo e confiança.  Nos momentos de dúvida, recorria a mim e o diálogo fluía leve e compreensivo, mesmo em temas complexos, mesmo quando era preciso dizer não – e foram vários “nãos” -, mesmo quando se tratava de algum tema mais espinhoso. Surpreendi-me no começo em como era possível conversar com ela com tanta facilidade. 

Era uma noite de sábado, percebi que a menina deixara para trás a infância e adentrara na adolescência. Iria fazer 13 anos em breve e reparei que naquela noite, seu jeito era diferente. Passamos por duas fases e sinto que uma nova fase da paternidade se inicia. Ser pai é um desafio e um constante aprendizado, um observar, um estar presente, um escutar constante, um gesto de afeto e carinho, um beijo noturno para embalar o sono e os sonhos, um ombro amigo quando a fragilidade infantil ainda se manifesta.  Ser pai é antecipar gostos e adivinhar o pensamento dos filhos, sorrir e abraçá-los quando o choro é inevitável, puxar para cima, dar o exemplo. A lista é infindável. Cansativa? Não, reconfortante e cheia de alegrias.

Mais um ano, mais um aniversário. Vejo-me como um trapezista a balançar no trapézio, no alto do picadeiro, segurando a moça, olhando-a nos olhos e preparando-me  para soltá-la para a vida, lançá-la em  piruetas no ar, confiante de que conseguirá atravessar o espaço e voar até o outro trapézio agarrando-o com firmeza e vontade.


Minha filha fez 13 anos. Com ela aprendi a ser pai e com ela aprendi que a paternidade (e a maternidade também) é um ato generoso de  que Deus que permite a nós mortais participar no processo de criação da vida.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Conto: Na noite de Natal



NA NOITE DE NATAL

Ele faltou naquele ano. E faltará em todos os anos seguintes. A ninguém é dado escolher a hora, o dia, a data, o ano, a forma. Há um momento exato em que acontece e este momento é irreversível.

Ele não veio à festa de Natal naquele ano. A casa parecia vazia. Meu coração estava vazio. Era tudo muito recente e a morte não parecia combinar com a comemoração de um nascimento. A alegria me pareceu falsa, fabricada. As crianças corriam pela sala com seus brinquedos novos em meio a papéis de embrulho rasgados, laços destruídos e fragmentos de fitas adesivas e embalagens.

Olhei ao redor. Todos rindo, comendo, bebendo, tirando fotos. A vovó sentada na poltrona no canto da sala, com o olhar distante e perdido no infinito. Percebi uma lágrima a escorrer-lhe pelo rosto. Fui até ela. Sentei ao seus pés e ela alisou meus cabelos, num cafuné amoroso e demorado.

- Quando alguém se vai, ficamos tristes, mas há alegria no céu com cada nova alma que nasce para a eternidade. O céu deve estar em festa e ele está lá com os anjos, olhando por nós, cuidando de nós, zelando para que as boas pessoas continuem ao nosso lado, intercedendo ao pequeno menino na manjedoura para que afaste de nós o mal, as pessoas egoístas, as pessoas que não querem o nosso bem.  Dói não tê-lo por perto, mas vamos mantê-lo vivo em nossos corações, vamos lembrar dele a cada memória boa, a cada estória contada para os pequenos. Vamos encontrar a alegria na dor passageira, na saudade que fica.

Abracei-a demoradamente, pois ela ainda está conosco. E suas palavras, ainda que por um momento, apaziguaram meu coração.


*   *   *   *   *

Que o nascimento do menino Jesus traga alegria e esperança para nossos corações, cicatrize as feridas e abençoe nossas vidas neste Natal.

Feliz Natal a todos os amigos, leitores e àqueles que passam por aqui.

domingo, 11 de agosto de 2013

Dia dos Pais


- Pai, posso ler uma história para você?

A pergunta foi lançada por meu filho, logo após tomar banho e enquanto aguardava o horário do jantar. Havíamos chegado ao hotel fazenda naquela tarde, estava cansado da viagem e queria usar o tempo para iniciar um novo livro que levara comigo. A resposta negativa foi a primeira que me veio, porém, quando comecei a responder negativamente, algo me fez mudar de ideia. Rapidamente a resposta foi transmudada em positiva quando saiu pela minha boca.

De posse de seu livro, leitura obrigatória de férias, ele pôs-se a ler sentado na varanda do chalé. O livro era divertido e a percebi o prazer na leitura na entonação dada. Que história é essa, de Flavio de Souza (Companhia das Letras), narra histórias conhecidas, contos de fada, mas explica para o leitor como há versões para as histórias e como elas se transformaram ao longo do tempo.

Minha filha, que também sentou-se para ouvir o irmão ler, abraçou a discussão, pois estava lendo As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi (Cosac Naify). Nossa pequena tertúlia literária tratou de como os livros são mais ricos do que as adaptações cinematográficas, de como os contos de fada são adaptados de acordo com a cultura local e por aí fomos. 

Observava mais do que falava, apenas provocando e instigando a discussão. A conversa era prazerosa e fiquei feliz de ter respondido positivamente. Este era um daqueles momentos de interação pais e filhos que permanecerão guardados na memória com orgulho de notar o crescimento das crianças. 

Percebi - e percebo isto a cada dia com mais clareza - que ser pai é um ato de servir. A paternidade, com toda a sua beleza e riqueza, com todas as dores e conflitos, com todas as suas frustrações e momentos de rigor, resume-se na generosidade de servir. Há um quê transcendental neste esforço - por vezes silencioso e despercebido -, e a cada gesto amealhamos mais uma moeda no tesouro celeste. 

A riqueza de ser pai está no sacrifício que nos torna  pessoas melhores e na recompensa de servir com amor incondicional os filhos que nos foram confiados. 

Um feliz dia dos pais a todos!