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segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Nostalgia

 



Fenway Park - @rbueloni


Caminhava no último sábado pela manhã numa praça perto de casa para fazer um pouco de exercício ao som de uma playlist que tenho no Spotify e que chamei de Midland Times (ou “tempos de Midland”). Midland é uma pequena cidade no meio do estado de Michigan, no norte dos Estados Unidos, onde residi por 4 anos. As músicas dos anos 1980 que compõem a lista me levaram de volta àquela pacata cidade do meio-oeste americano. Dei-me conta que no dia 31 fará exatos 40 anos que me mudei para lá, com 13 anos, falando um inglês macarrônico e débil, sem ter ideia do que iria encontrar.

Ao som de Billy Joel cantando River of Dreams, lembrei-me dos bons tempos da adolescência. Aquela música poderia ecoar do rádio do carro num dia de verão, onde Tom, Homer, Brian e eu íamos para tomar um sorvete no Baskin Robbins ou um slurpee no 7Eleven. E depois, passávamos horas conversando, ouvindo música, andando de bicicleta, vendo jogos de baseball e torcendo pelos Detroit Tigers.

Os dias de verão eram longos e quentes. Os dias de inverno muito frios, cheios de neve escuros e curtos. Mas a amizade construída naqueles anos perdurou e se manteve viva. Enquanto caminhava, relembrava do que aprendi na adolescência vivida numa cidade interiorana americana. Era eu um forasteiro, um estrangeiro. Senti o preconceito, a discriminação, os estereótipos aplicados a quem não é popular e quem não é atleta. Fui provocado a tomar decisões, a amadurecer, a escolher um rumo para a minha vida. Optei por dedicar-me aos estudos e com isso garantir uma vaga num processo seletivo de uma universidade de alto nível nos Estados Unidos. Era bom aluno e por isso ganhava a pecha de nerd, o que lhe incluía numa categoria social que impossibilitava sair com as meninas mais bonitas e populares.

 Olho com nostalgia para aquele tempo e agradeço por tudo que passei. Uma nostalgia alegre, jamais melancólica ou triste. Olho para o passado e agradeço pelo que recebi, pelos problemas que enfrentei, pelas chances e oportunidades que tive, pelas conquistas e pelos fracassos. Tudo foi um processo de aprendizado e que me levou a optar por não fazer curso superior nos EUA, apesar de ter sido aceito em Harvard, Georgetown, Boston College e na Universidade de Michigan.

Quarenta anos se passaram! Continuo vivo, mas sei que a cada dia que passa aproximo-me do fim. Gosto de refletir sobre o fim no dia de finados. Gosto de celebrar cada novo dia de vida que me é presenteado. Juntei nestes dias a nostalgia que me alegrou engatilhada pela música que despertou milhares de memórias, sorrisos, abraços, despedidas e momentos únicos,  com a lembrança daqueles tempos de adolescente. A nostalgia só me traz a certeza de que a cada novo dia, a gratidão aumenta.


PS: Não esqueça de fazer uma oração por aquele ente querido neste dia de finados. Não esqueçamos daqueles que se foram, mas que continuam vivos em nossos corações.

 


sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Memória: Matriarcas



(c) rbueloni


Voltando de férias no Uruguai, dei-me conta que minhas avós sobreviveram aos meus avôs. Um morreu em 1977 e o outro em 1990, no dia 15 de março, dia da posse de Fernando Collor. Boa parte da minha pós adolescência foi de convívio com as matriarcas da família. Percebo que a história se repete e meus filhos deparam-se com semelhante realidade. O convívio com os avôs foi breve, mas deixou suas boas memórias. Agora aproveitam o tempo com as avós, um pouco debilitadas na locomoção, mas lúcidas, sozinhas e independentes.

Quantas mulheres não sobrevivem aos seus maridos? Ouso dizer que a maioria e se adaptam bem a uma nova realidade, uma nova fase de aprendizado e de superação do medo. De repente, tem que administrar as finanças da casa, lidar com trâmites burocráticos e jurídicos. Não estou aqui a dizer que estas tarefas são "coisa do homem da casa", mas ainda são costumeiramente realizadas pelos maridos. Navegar pelo internet banking pode ser um tormento, mas elas aprendem rápido, são curiosas e descobrem um mundo diferente.

Minha mãe está aprendendo a viver só e a lidar com um mundo tecnológico onde operações bancárias são feitas todas por aplicativos,  a pedir ajuda aos filhos e reconhecer que este pedido de ajuda não indica fraqueza ou debilidade, mas é antes de tudo um exercício de humildade. Para os filhos, é uma realidade onde deixamos de ser cuidados e passamos a cuidar. Esta realidade chega de repente e só percebemos isto ao acompanhar o pai ou mãe num leito de hospital.

Quando se percebe, o tempo passou e não corremos para o colo seguro do pai e da mãe, agora somos nós os responsáveis por carregá-los, apoiá-los, ajudá-los. De adultos fortes, a fragilidade toma conta dos pais e descortina o inevitável  ciclo da vida. O tempo é cruel e não espera. Se demorarmos a perceber esta mudança de fase da vida, o tempo acaba. Não é possível fazer uma pausa ou estancar o caminhar constante do tempo. O importante é ter a consciência dessa realidade e sorver o tempo, não deixando que uma oportunidade sequer passe sem que possamos dizer um "sim" a quem nos pede ajuda, ou apenas um pouco de tempo e atenção.




sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Memória: Cemitério





instagram: @rbueloni
Cemitério Gethsêmani no início da primavera, setembro 2019


MEMÓRIA: CEMITÉRIO



O cemitério é um lugar familiar para mim. Sempre gostei de visitar cemitérios por dois motivos: pesquisas genealógicas e contemplação artística.

Desde meus 13 anos de idade ganhei gosto por pesquisa genealógica. Nunca busquei algum antepassado genial ou famoso ou importante ou rico. O que sempre fascinou foi a história, o passado, a luta de cada pessoa para sobreviver, para mudar de um país para outro e tudo isto é possível resgatar em documentos. É uma espécie de pesquisa arqueológica, onde se descobre como as pessoas viviam. Cemitérios são uma importante fonte de pesquisa e de dados. O Cemitério do Araçá e o Cemitério São Paulo foram visitados por mim várias vezes. Talvez eu seja uma das únicas pessoas da família que sabe o caminho até os jazigos naquele emaranhado de ruas parecidas entre os túmulos.

Nestes passeios pelos cemitérios, percebi que há uma riqueza arquitetônica escondida, silenciosa, pronta para ser admirada e descoberta. No Cemitério da Consolação, há um tour com guia que explica cada uma das esculturas encomendadas a artistas famosos como Bruno Giorgi, Emendabili e Victor Brecheret. No Cemitério São Paulo, há obras monumentais de beleza única e algumas tristes e melancólicas. Nunca me senti incomodado nestes lugares.

Acho curioso como o brasileiro trata cemitério com um certo receio, um medo de adentrar naquela local onde repousam nossos antepassados. Porém, é comum encontrar brasileiros no Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, ou no Cemitério Pére Lachaise, em Paris. Alguns túmulos são verdadeiras atrações turísticas. Por outro lado, após o sepultamento de um ente querido, muitos esquecem até o cemitério onde estão enterrados.

Há pouco mais de um ano e mês atrás fui ao cemitério do Araçá para fotografar as placas do túmulo de meus bisavós com os nomes e datas de nascimento e falecimento. O cemitério estava deserto naquela tarde de sábado do final de novembro de 2018. Fiquei ali mais de uma hora, contemplando, refletindo sobre a vida e a morte. O ano de 2018 havia sido um ano difícil e tudo parecia caminhar para um final de superação da luta contra o câncer, tanto da minha mãe, como do meu pai.

Um mês antes havia comparecido ao velório da mãe do meu cunhado no cemitério do Morumbi. Um cemitério jardim, um lindo campo gramado com árvores e flores e jazigos no chão. Não há obras de arte, mas há uma serenidade acolhedora naquele local. Meu pai comentou para minha mãe que precisava comprar um jazigo. Ouvi a conversa sem fazer qualquer comentário. Apenas ouvi e pensei que de fato é algo que faz parte da nossa rotina.

Pouco depois, no dia 23 de dezembro de 2019, meu pai faleceu. Ele foi enterrado no Cemitério Gethsêmani, em São Paulo. Desde então, visitar o cemitério passou a ser parte da minha rotina quinzenal ou semanal. Algumas visitas curtas e outras mais longas. Em todas, reflito sobre a morte, a vida e rezo, crente de que ele deixou este mundo para contemplar a face de Deus. Visu sin beatus tuae Gloriae.

Escrevi estas linhas mentalmente diversas vezes nestes meses. Por diversas vezes iniciei o texto diante do túmulo de meu pai. Não tinha força para escrevê-las. Mesmo agora, impossível escrevê-las sem que as lágrimas de saudade brotem. Um amigo psicólogo havia me alertado que o primeiro ano de luto é o mais difícil e que demora um ano para bem elaborar o luto. Um ano se passou e ainda que sinta saudade, a memória que fica guardada é sempre positiva e alegre. Neste Natal ele não estará presente entre nós fisicamente, mas tenho a certeza de que está olhando e intercedendo por nós lá de cima.

Ir ao cemitério, para mim, ganhou um novo relevo, uma nova razão. Deixei de ver o cemitério como um lugar triste e a lembrança do velório e do enterro – ainda tão vivas – deixaram de ser doloridas para se tornarem uma celebração da vida e da ressurreição. Todos morreremos um dia, descansaremos. Para os católicos, esperamos chegar ao Céu e alcançar a vida eterna ao lado de Deus.

Talvez alguém se pergunte a razão deste texto fúnebre num dia festa. Repito, não vejo a morte como algo que devemos temer ou algo melancólico. Há a dor da perda, mas há algo muito mais profundo que cada um de nós precisa refletir e descobrir. O tempo passa e as pessoas se vão.

Nestes dias que celebraremos o Natal, em família ou ao lado de amigos, aproveitemos para desfrutar de quem está do nosso lado. Façamos desta celebração um momento para perdoar, para acolher, para estender a mão e construir novas pontes, para abraçar a quem tanto estimamos. Não guarde aquela palavra de carinho, solte-a, lance a semente do bem a quem está à sua volta, mande aquela mensagem ao amigo que está distante, não tema ser generoso, bondoso, afável.  Como diz a canção Trem Bala, “sorria e abrace teus pais enquanto estão aqui”. Um dia, eles alçam voo para junto de Deus.


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Epígrafe - XXVIII



"O morrer pertence a Deus, o cuidado dos homens é a vida. E o homem afinal sabe que, morto ele, a vida não está morta; fica a árvore, fica o filho e fica o neto, a casa fica. A vida continua igual ao que era mil anos atrás. Porque as obras do homem podem mudar e mudam, mas o homem, que é a obra da vida, esse não muda nunca."

Rachel de Queiroz ( Falso Mar, Falso Mundo. São Paulo : Arx, 2002, p. 187-8)


Fica a obra, o legado, os escritos. Numa semana que levou João Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves, e que parecem ter convidado Ariano Suassuna a se juntar a eles, fui buscar em Rachel de Queiroz algumas palavras para refletir, para ultrapassar a superfície do mar e mergulhar nas profundezas da vida.

Afinal um escritor se faz sempre presente nos seus livros, nos seus escritos, nas suas palavras.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Finitude




Alguns dias eram ruins e outros péssimos. Os finais de semana eram os mais difíceis de aturar. Tornara-se um mestre em disfarçar seu estado de espírito, escondendo habilmente a dor que lhe martelava o coração. Estes dias arrastavam-se e não era usual conseguir momentos em que ficava solitário, perdido em seus pensamentos numa insistente tentativa de decifrar o enigma e ponderar de forma racional sobre o que futuro reservava. Prever o futuro é algo tão irracional e tão ilógico que qualquer esforço era em vão, mas seus cenários traçados e desenhados eram sempre pessimistas. A perda era considerada irreversível por maior esforço que fizesse e tentasse resgatar os bons momentos para lhe dar algum alívio e motivação sobre os dias vindouros. Não havia horizonte e calibrar a esperança era algo tão etéreo quanto à simples e ingênua questão sobre se ela ainda pensava nele, se algum carinho havia sobrevivido aos arroubos de raiva e agressividade que lhe deixaram feridas profundas e doloridas.

A vida tem suas contradições, quase um dicionário de antônimos. O pêndulo oscilara de ponto de afeto extremo, de sorrisos e longas conversas para o ponto da raiva, da mágoa, da despedida, do silêncio. Ele, sempre metódico, introvertido, ponderado, agora se via diante de uma vontade incontrolável de falar, de confidenciar, de explicar o que se passava dentro dele. Porém, havia sido emudecido, como se lhe tivessem arrancado a língua, cortado-lhe a palavra, lançado-o num calabouço, alienado do mundo. O tempo era seu único consolo, afinal guardara com carinho as memórias, pois estas não podiam ser bloqueadas, apagadas, queimadas, reprogramadas, reformatadas. Ainda bem que a mente as preserva intocadas, talvez com certo grau de subjetividade, mas plenas e vivas. Uma faísca e a brasa poderia ser reacendida. Fraquezas todos temos e     por vezes, sucumbimos. 

Curioso como iniciara um texto há pouco menos de 3 anos, um projeto a quatro mãos que fora arquivado por desistência da parceira, e que recentemente caminhara nos mesmos passos de seu personagem, vivenciado a dor que descrevera, com a exceção de que a morte não tornava definitiva a situação. A vida repetia a arte e suas palavras haviam sido proféticas e isto o incomodava.

A morte era algo que não experimentara recentemente. Deparara-se com ela há pouco tempo quando fora descoberto que seu pai tinha câncer. A morte outorga um senso de finitude, de transitoriedade, de que somos efêmeros. A morte nos urge a correr, a não desperdiçar o tempo, a cicatrizar as feridas em conjunto, conversando, dialogando e ouvindo, reatando e perdoando, reconstruindo pontes que foram implodidas no passado. A morte cala a voz e ele pressentia que os sentimentos seriam muito semelhantes, como espinhos a lhe furar pele, como a solidão irremediável e cuja solução inexiste.

Respeitava o desejo dela, mas não compreendia. Tateava no escuro sem saber como agir, perdido no caminho e nos sentimentos. Pensou que se vivesse num país com dias cinzas, frios e de longas noites, talvez abreviasse a dor, sucumbisse e desistisse de esperar. Sua alma estava gélida, inerte, afundada na angústia.

terça-feira, 24 de julho de 2012

O tempo e o sentimento de perda



O post anterior trouxe um trecho da escritora inglesa, Jennifer Egan, onde ela afirma que ao rever fotos dos filhos pequenos fica triste, pois nota a passagem do tempo e a passagem do tempo traz ímplicito o sentimento de perda.

Olho a foto acima e não sinto tristeza, nem sou acometido de um sentimento de perda de uma infância que ficou na memória. E na memória ela ficou e permanece viva, tendo contribuído na construção daquilo que hoje sou. Sim, a foto acima é minha e foi tirada por volta dos 2 anos de idade.

Li a frase, marquei-a e trouxe para o blog. Discordo dela, mas arriscaria dizer que as personagens de Jennifer Egan e seus romances devem trazer esta melacolia como pano de fundo. John Banville (O Mar e Os  Infinitos) e Ian McEwan (A Praia), ambos ingleses, tratam do tema com a mesma nostalgia e uma ponta de revolta diante da perda. 

Esta melancolia é um aspecto cultural de alguns povos e encontra-se inserida na postura das pessoas. O fado português é essencialmente um cantar de saudade, de tristeza, de perda. Os ingleses, com seu humor ácido, tendem a seguir esta mesma linha, tão bem sintetizada por Jennifer Egan. O passar do tempo é sinônimo de perda. Pessimismo este tão característico dos países do norte europeu.

O passar do tempo é inexorável. Unstoppable. Iniciada a vida, o cronômetro começa a correr e não há como pará-lo. Poder-se-ia dizer que cada início de dia é um dia a menos na vida, ou um dia mais perto da morte. Prefiro pensar que cada início de dia é um dia a mais que ganhamos e que temos para viver. 

As crianças não conhecem a morte, não compreendem o fim. A ideia de morte vai se imiscuindo no cotidiano de forma sorrateira. É comum terminarmos a faculdade - ou até o ensino médio - com um colega a menos, aquele cujo tempo se expirou e não completou a jornada universitária. Sempre pensei que este escolhido deixa-nos um recado, lembra-nos de nossa finitude e de que a vida é passageira. 

Aprendemos, então, a conviver com a perda. Na fase adulta, compartilhamos a alegria das novas vidas que nascem e a tristeza daqueles que se vão. Parece que tomamos consciência de nossa temporalidade nesta fase, valorizando o tempo com que desfrutamos com os mais velhos e rejuvenescemos diante do sorriso pueril dos pequeninos.

Recentemente, dei-me conta que o número de pessoas pelas quais rezo devido a alguma enfermidade tem aumentado. A lista era pequena, mas foi crescendo, assim como foi crescendo o número de pessoas que conheci e que já morreram. Fulano descobriu um câncer, beltrano vai ser operado do coração, sicrano teve um AVC.

Na velhice, imagino que olharei para os dias passados e agradecerei o tempo que me foi dado. Cada dia, com suas alegrias, tristezas e contratempos. Espero ser grato o suficiente e poder gozar da misercórdia de Deus a perdoar todos os meus inúmeros erros.

O tempo é professor que ensina, ainda que a contragosto, com a realidade fria; aplaina o ego exaltado com a tomada de consciência de nossa condição e treina-nos na humildade; não aceita desaforos e desperdícios, cobrando a responsabilidade daqueles que o desprezam. O tempo foi criado de forma sábia para que os nossos olhos não fiquem grudados apenas no terreno, mas que aos poucos saibamos erguê-los para o sobrenatural. A vida tem seu tempo exato. Não nos cabe avaliar e julgar se vivemos pouco ou muito; vivemos o suficiente.

Não vejo o passar do tempo como perda; vejo o passar do tempo com alegria de poder crescer, aprender, vivenciar e até sofrer. A perspectiva da vida retratada em fotos e em memórias é uma prova de que a vida não é perda, é ganho, e o tempo um presente divino.



sábado, 21 de julho de 2007

A tragédia e a vida

Todos ficamos consternados, assustados, entristecidos, tocados com o acidente aéreo desta semana. Não conhecia passageiro ou tripulante que estivesse no vôo, diferentemente do acidente com o Fokker 100 da Tam em 1996.

Ouvi de vários conhecidos histórias de pessoas que estavam no Airbus 320, de amigos tinham conhecidos e amigos no fatídico avião que explodiu na 3a. feira. Uma jovem que ligou para o namorado informando que voltaria de Porto Alegre num vôo mais cedo. Um funcionário de uma empresa que resolveu não antecipar seu vôo para não chegar em São Paulo na hora do rush. Histórias assim serão muitas: uns perderam o vôo, outros estavam nele.

A pergunta para muitos parentes, familiares e entes queridos é única: por quê?

Não sei a resposta, mas estou convencido - e acredito profundamente nisto - de que quando é chegada a nossa hora, não como fugir deste compromisso. O ser humano nasce com uma única certeza: a da morte. Todos morreremos um dia. Um dia. Um dia que não sabemos quando será, nem como será. Sabemos apenas que morreremos. O final de tudo para uns, uma passagem para outros.


Evitamos pensar na morte, alguns por medo, outros por simples desprezo. Algumas pessoas têm pavor de velórios e cemitérios. Mas a morte um dia visitará e a morte de um ente querido causa profunda dor e sofrimento. Uma sensação de impotência, de um enorme vazio, de um silêncio profundo.


A dor amadurece o ser humano, ajuda a lapidar o caráter, fortalece o espírito. O momento é difícil, o luto é uma dor intensa e das maiores que o ser humano pode experimentar, mas ajuda-nos a crescer e a olhar a vida com outra perspectiva, uma perspectiva de que tudo é passageiro e efêmero. Um dia partiremos e precisamos viver com este horizonte claro em nossas mentes.


O dito popular "não deixe para amanhã o que pode fazer hoje" não se refere apenas à preguiça, mas também a abraçar a vida e o momento. Não deixe de dizer aquela palavra carinhosa, não deixe de sorrir, não deixe de dar valor àquele amigo, não deixe de mandar aquela carta ou fazer aquele telefonema...a preguiça pode nos tirar a última oportunidade de fazer algo bom, de mostrar e dividir o amor e a amizade.


A morte nos ensina que é preciso viver e não apenas passar pela vida.

quinta-feira, 1 de março de 2007

Outono

OUTONO

Galhos mortos
Árvore retorcida
Descolorida
A vida apenas a passar
Nos passos arrastados
Pesados, lentos.

Coração paralisado
Congelado e vazio
Quase moribundo
Despido de sentimento
Embalagem oca
Recheado de vácuo

O ponteiro do relógio corre
Sem dó
Sem pausa
Sem piedade.
A vida escapa
E o amor também.
(RLBF)

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Tempus breve est!



Autores russos causam uma certa reserva entre leitores por serem geralmente densos, complexos e pesados. No final de outubro do ano passado, procurava um romance curto para ler, pois sabia que com a maior parte do tempo dedicada ao meu projeto de tese no doutorado, o tempo para leituras não jurídicas seria pequeno.


Deparei-me com A Morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstói. São 70 páginas na edição da Editora 34. Como de costume, folheei o livro na Martins Fontes da Av. Paulista. Abri o livro a esmo e li um ou dois parágrafos. Como tem acontecido ultimamente com certa frequência, abro os livros em trechos que me dizem algo e com os quais me identifico. Parece que há uma mão invisível a guiar-me até o livro e a abri-lo no trecho que tocará minha alma e me conduzirá à reflexão.


Resolvi mergulhar neste mundo novo da literatura russa. Gostei muito do livro. Li depois comentários e elogios à obra. Luiz Gastão Leães, em seus Exercícios de Memória, lançado em dezembro, a denomina de uma das "três mais belas pequenas novelas que conheço".


Tolstói era fascinado com o tema da morte. Na parte final de sua vida, em clara e profunda crise existencial, retirou-se para um convento. Pouco depois, faleceu, a 20 de novembro de 1910.


A breve novela conduz o leitor à reflexão sobre a morte, a doença, a dor e à conduta humana ao redor do ser que desfalece. São poucas linhas, mas muitos os momentos e frases que nos levam a meditar. O livro caiu-me como uma luva. Afastava-me do direito e forçou-me a enfrentar certas realidades. Realidades das quais muitas vezes tendemos a fugir, a não encarar de frente. Tirou-me de um período de deriva, de navegação sem rumo. Um daqueles vales emocionais em que nos percebemos muitas vezes.

A brevidade da vida deve mover-nos a agir. Agir, porém, pode exigir espera e que se dê tempo ao tempo. A perspectiva pode nos dar coragem para agir com mais contundência ou apaziguar um ânimo desenfreado e equivocado. Esperar pode significar aguardar o momento certo para dizer certas coisas, ou esperar um encontro ao invés de dizer as coisas apenas através de uma carta. O olho no olho pode ser mais difícil, pode enrubescer o interlocutor, mas é mais sincero. Através do olhar, revelamos os recantos interiores e a sinceridade do sentimento.


Muitas vezes um livro discretamente nos mostra uma luz no final do túnel, dissipa a névoa que baixou ao nosso redor sem percebermos e faz brilhar a luz do sol num novo dia.

A obra de Tolstoi não é mórbida, nem depressiva. É um convite à reflexão e à ação. O tempo é breve (Tempus breve est)!

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Morte e vida



Chegou o carnaval. Nada como ficar em São Paulo. A cidade fica vazia, sem trânsito e sem transtornos. Pode ser aproveitada e curtida com tranquilidade, sem enfrentar horas nas estradas. Ontem ainda aproveitei as liquidações e os preços baixos para fazer compras sem tumulto. Nos últimos anos, tenho optado por ficar em São Paulo. Não me arrependo. Resultado da maturidade. Digo isto com muita serenidade e um certo fascínio. Quando tinha meus vinte anos, parecia que era preciso gozar a vida sem perder tempo, sugar a seiva da juventude. O tempo passa, não há como evitar.

Adentrando na fase dos 30, descobri como é bom amadurecer e redescobrir os prazeres da vida sem aquela ânsia da juventude. Não digo que me acomodei. Pelo contrário, acho que passamos a ser mais seletivos, mais pacientes, mais sonhadores. Os sonhos se tornam mais factíveis e alcançáveis. Henry David Thoreau, escritor norte-americano, dizia que os sonhos são como castelos feitos de nuvem, e que é preciso colocar as bases para que não desapareçam como as nuvens.

A maturidade nos mostra um pouco isto. Podemos avaliar e reavaliar as coisas. Corrigir erros, pois ainda dá tempo. Não ter medo de ficar só, pois sempre haverá um amigo a nos apoiar. Sugar a seiva da maturidade pode ser passar uma tarde com a avó ou com os pais e simplesmente fazer companhia. Muitas vezes as palavras não são necessárias.

Quando era criança - e ainda hoje -, adorava ficar ao lado de pessoas mais velhas. Lembro-me, saudoso, de tardes ao lado de minha tia bisavó, a Tia Ema. Ficava no quintal da casa da minha bisavó, que faleceu em 1977, conversando e ouvindo as estórias dela. Tia Ema faleceu pouco depois, não me lembro ao certo, acho que em 1980. Foi talvez a primeira vez, que como criança, entendi o que era a morte e o que era perder alguém. Minha mãe me deu a notícia, estava na chácara em São Roque e chorei. Um daqueles eventos que me marcaram.

A morte é uma realidade e a nossa única certeza. Todos morreremos. O brasileiro tem uma certa reserva em tratar do assunto ou discutir o assunto. Eu vejo diferente. Refletir sobre a morte nos dá vida. Sim, vida.

Se alguém lhe dissesse que sua vida vai acabar em 1 mês, o que faria? Provavelemente várias coisas e dentre elas estariam incluídas alguns pedidos de desculpas, algumas declarações de afeto e carinho, algumas loucuras. Seria a última chance para mostrar e dizer o que tem que dizer.

O ritmo da vida moderna não nos permite parar e pensar, parar e falar, ou simplesmente falar. Há coisas que se não falarmos, irão silenciar para sempre. A morte pode nos dar a coragem para falar e fazer o que não temos coragem. Reparar erros e pedir desculpas, construir pontes derrubadas, ou simplesmente sorrir para aquela pessoa que você cruza diariamente no seu caminho e mal sabe o nome dela. Diga um bom dia e sorria. Talvez ela não esteja no seu caminho amanhã.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Hemingway e a noite


Passemos do silêncio da noite para outro tema, puxando o fio da meada.

A noite é metáfora da morte, da ausência de vida para alguns escritores. Ernest Hemingway reflete em seus heróis o medo da morte. Seus personagens evitam dormir de luz apagada à noite, ou dormirem sozinhos. O medo de não voltar do sono profundo atormenta os heróis de Hemingway. A surpresa da morte, a incerteza quanto à sua ocorrência talvez tenham-no levado a tirar sua vida com um tiro de carabina boca.

Em O Velho e o Mar (título original: The Old Man and the Sea), Santiago, um velho pescador, aventura-se em alto mar em busca de um grande marlim. Queria provar que não estava velho, que não estava ultrapassado e que ainda era um bom pescador. Afasta-se da costa de Cuba e fisga um peixe enorme. Luta a noite inteira contra o peixe. Nesta luta, tubarões atacam o marlim preso ao lado do pequeno barco. Santiago retorna para a costa sem o peixe, que fora devorado pelos tubarões. Entra em seu casebre, deita-se e dorme.

Este foi o primeiro livro que numa única sentada. Estava na 8a. série e apaixonei-me por Hemingway. Um escritor com estilo conciso e jornalístico. Frases curtas, sem excesso de palavras ou descrições.

O Velho e o Mar não é um livro sobre pescaria, mas sim um livro sobre superação, determinação, coragem. Estas coisas marcaram-me quando li o livro. Hoje, mais velho, e repassando a estória, outros aspectos me chamam a atenção.

Santiago volta para sua casa com o senso do dever cumprido, com um sentimento interno, pessoal de júbilo, ainda que frustrado por não poder exibir seu feito. Somente o mar e Deus presenciaram o sucesso de Santiago. Foi uma daquelas situações em que a alegria interna não precisa ser dividida. A sensação se exaure dentro dele. Como um gesto gratuito de generosidade, como um sorriso dividido e tantos outros eventos que fazem parte de nossa vida diária e que exaurem dentro de nós. Morrem conosco no final do dia, ou que às vezes contamos e dividimos, deixando transbordar o sentimento e alegria com quem quisermos.

A luta contra o marlim, durante toda a noite - notem que Santiago não dorme, como todo herói criado por Hemingway durante a pescaria - coroa a vida de Santiago. Ao final, ele não conta para ninguém o que conquistou. Simplesmente deita e dorme (entenda-se, recolhe-se no leito e morre).


Não pensem que em semana pré-carnavalesca estou tratando de temas mórbidos ou negativos. O post de hoje é apenas um capítulo para os posts seguintes. Um pouco de expectativa prende o leitor.


É só voltar amanhã.