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quarta-feira, 17 de março de 2021

Trechos: Viagem ao redor do meu quarto, de Xavier de Maistre

 

quarentena em SP


Publicado pela primeira vez em 1795, o breve livro de Xavier de Maistre (1763-1852) é um exercício de risonha subversão de hierarquias, sejam elas militares, metafísicas ou literárias. Zombando das circunstâncias, o autor transforma os quarenta e dois dias de castigo em ponto de partida para uma paródia dos relatos de viagem, algo que se encaixa muito bem em tempos de quarentena, lockdown e pandemia.

O breve livro foi minha companhia no mês de setembro de 2020, enquanto passava os minutos, as horas, os dias ao lado de minha mãe em um leito de UTI em São Paulo.

Eis alguns trechos:

"As horas deslizam sobre nós e se precipitam em silêncio pela eternidade, sem nos fazer sentir sua triste passagem." (p. 13)


"Uma cama nos vê nascer e nos vê morrer, teatro inconstante em que o gênero humano encena, dia após dia, dramas interessantes, farsas risíveis e tragédias espantosas. - A cama é um berço enfeitado de flores; - é o trono do amor; - é um sepulcro." (p.14)


"Essa vantagem me fez desejar que se inventasse um espelho moral, em que todos os homens pudessem se ver com seus vícios e virtudes. Cogitei mesmo propor a alguma academia que instituísse um prêmio por tal descoberta, quando reflexões mais maduras me provaram sua inutilidade." (p. 42)

(Maistre, Xavier de. Viagem ao redor do meu quarto. trad. Veresa Moraes. São Paulo : Editora 34, 2020)





segunda-feira, 29 de junho de 2020

Apagaram os sorrisos






Veio a pandemia e decretaram uma longa quarentena. Era para ser por quinze dias, depois mais quinze, viraram 60, adicionaram mais um mês e o pico parecia inalcançável. Até hoje acho que ainda não chegamos lá, mas resolveram que já era hora de permitir um afrouxamento, um lento despertar da cidade adormecida.

O período de hibernação dos ursos deve ser assim, salta-se do carnaval para as férias de julho, sem Páscoa e sem festa junina, e adicione alguns feriados que foram devorados pelo vírus por decisões políticas. Transitar por São Paulo, após escurecer, é como caminhar por uma cidade semideserta, quase fantasma, com ar soturno, tristonho. O trânsito evaporou, não há carros, não há pessoas, não há ruídos. O silêncio impera e traz à memória uma cidade de interior, pacata, tranquila, silenciosa.

Aos poucos, há uma reabertura. Pessoas voltam a circular pelas ruas ao longo do dia, mas há algo de diferente. Apagaram os sorrisos. Olhe para a foto de um rosto e cubra a parte abaixo do nariz e o queixo. É praticamente impossível dizer se a pessoa está sorrindo, se a pessoa está triste, se a pessoa está nervosa. Perde-se a expressão quando escondem a nossa boca por detrás de uma máscara.

Não estou aqui a me revoltar contra as máscaras, apenas constato que os sorrisos deixaram de habitar a cidade. Continuam escondidos em quarentena dentro das casas e dos ambientes seguros. A partir de agora, não se pode mais cumprimentar o porteiro ou uma pessoa na rua com um singelo sorriso e um aceno de cabeça. O aceno de cabeça ficou capenga, órfão de um elemento fundamental que é a expressão labial. Vamos ter que aprender a ler olhares, a atentar para as pequenas oscilações do canto dos olhos, das sobrancelhas, do nariz, da testa franzida. A percepção será outra, pois a boca se esconde.

Primeiro, o coronavírus roubou-nos o tempo e a liberdade. Agora, o coronavírus apaga os sorrisos de nossos rostos.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

Sons da quarentena




O céu cinza de um domingo de outono dá um tom melancólico, quase soturno, a mais este dia de quarentena. Uma garoa cai silenciosa e umedece a rua sem tráfego. O silêncio, da cidade adormecida pela pandemia e pela obrigação de ficar em casa, é quebrado pelo latido de alguns cães nas casas ao redor do prédio. Não se ouve o barulho dos carros, nem das motos dos entregadores de comida. O vento assobia de tempos em tempos pelas frestas da porta, batendo uma janela, balançando as folhas das árvores e agitando as flores rosáceas do ipê. Hoje, o final de tarde não será anunciado pela algazarra do bando de maritacas que surge em revoada antes do sol repousar.

 

Os sons da pauliceia mudaram com a pandemia. Há um clima de cidade pequena, de cidade do interior, onde os sons são mais naturais, mais ligados aos eventos da natureza. A chuva que cai no telhado, a batida oca de uma fruta que cai do pé e se acomoda no chão de terra batida, o portão da casa que bate ao ser fechado, o grito de quem chega e bate palma perguntado se há alguém na casa, crianças correndo na rua. A sonoridade da cidade pequena, da cidade acolhedora e familiar, é muito diferente da sinfonia pouco harmoniosa da cidade grande.

 

Outro dia, passava pela avenida Paulista, no meio de uma manhã de dia útil. O semáforo estava verde para os carros, mas não havia carros. Olhei e iniciei a travessia. Cheguei ao canteiro central e do outro lado também os carros estavam ausentes. A cidade marcha em câmara lenta, quase sem ruído, silenciosa, adormecida.

 

Continuei a caminhada até o escritório atentando para os sons. Nenhuma sirene, nenhum camelô anunciando seus produtos, nenhuma conversa de porta de bar, nenhuma pessoa varrendo a calçada, nenhum caminhão fazendo entregas. O silêncio imperava.

 

Deixei minha memória auditiva retornar para a infância, quando as brincadeiras na casa de minha avó eram interrompidas pela buzina do carrinho de sorvete, ou da música instrumental do realejo, da batida seca na tábua do vendedor de biju, do assobio longo do amolador de facas. Uma sinfonia urbana levada pelo tempo e que deixou saudades.

 

E a quarentena, seus sons deixarão saudades? Ou seria a ausência de sons que deixarão saudades? Será que sentimos saudades da sonoridade tão urbana da metrópole em pleno funcionamento?

 

Não me refiro à multiplicação de shows de música em canais de internet e na TV, nem na proliferação de lives, mas daqueles ruídos que quebram o silêncio e ativam nossa memória auditiva. Não me detenho sobre as músicas que tem a capacidade de nos transportar imediatamente para um lugar distante no passado, um momento preciso e exato na vida de cada um, na capacidade de arrepiar a pele ou de provocar olhos marejados.

 

Quero que repare nos sons ao seu redor. Quero convidá-lo, meu amigo leitor, a perceber a sonoridade que o cerca. Abra a janela de sua casa, feche os olhos e escute. Apenas escute. O que mudou nesta quarentena? Algo mudou. A trilha sonora da pauliceia mudou. Hoje, o dia termina silencioso e acinzentado e nem as maritacas saíram de seus abrigos para anunciar o fim do dia com a algazarra do bando. A minha quarentena deixará na memória a quase diária sinfonia dissonante das maritacas.  



terça-feira, 31 de março de 2020

Crônica do início de uma quarentena


A semana começou de forma estranha, um clima de apreensão no ar, uma expectativa que se confundia com ansiedade, as escolas e universidades tiveram suas aulas suspensas, o trânsito ficou mais leve, o fluxo de pessoas na São Paulo acelerada diminuiu, o rodízio foi suspenso, o som da cidade mudou. Sempre dei muita atenção para o som da cidade, seus ruídos, sua sinfonia urbana. Noto as mais sutis mudanças, deixo-me encantar pelos sons de pássaros, pela algazarra das maritacas no final de tarde. Caminhávamos tateando cada passo e no aguardo de uma diretriz, um grito de liderança que se mostraria mais tarde polifônico, dissonante.

Na quinta-feira, dia 19 de março, dia de São José, fui ao escritório pela manhã seguindo a rotina diária. Peguei o jornal e fui tomar café. Perguntei para a atendente sobre o movimento na loja e ela respondeu que havia caído e que amanhã fechariam, sem previsão para reabertura. O estado de emergência estava instalado pelo prefeito, pelo governador e pelo presidente da república. Tomei o café, li o jornal sem pressa e despedi-me da atendente desejando que se cuidasse.

Ao sair na rua, o céu estava cinza claro, nuvens baixas que se assemelhavam a uma bruma, um calor abafado e a ausência de carros e motos na rua era notável às nove da manhã. Ouvi então um barulho que vinha do alto e parecia de uma aeronave. Na hora, fui teletransportado para a Londres de 1940 e imaginei que veria no céu um avião da Luftwaffe prestes a lançar sua carga de bombas sobre a capital do império britânico. A palavra guerra, tão usada pelos nossos governantes, instalou-se no meu subconsciente e a imagem me deixou desnorteado. Olhei para o alto e passou um helicóptero.  Segui meu rumo com serenidade, mas o clima era de tristeza e medo. Algo de estranho pairava no ar.

O dia transcorreu sem que o telefone tocasse. As páginas de notícias de jornais, as estações de rádio só tratavam do coronavírus. A pandemia já estava entre nós e era preciso ficar em casa. O tempo todo e todo mundo. São Paulo seria o epicentro da contaminação, a cidade mais cosmopolita do Brasil.

O vírus microscópico não deixa estragos na paisagem, como uma tempestade, um vendaval, um furacão, um terremoto. O vírus é silencioso. Esta forma de agir é que deixa tudo estranho e confuso. Os dias de quarentena serão sábados – ou domingos ou feriados – que se repetirão sem data para terminar. Ficar em casa nos impedirá de experimentar a cidade fantasma em que São Paulo se transformará.

Naquela noite, as imagens de entrevistas coletivas revelavam um futuro de colapso do sistema de saúde, de caos na economia, de cadáveres se acumulando, de gente faminta, de ruas abandonadas e uma cidade paralisada.  Traçaram um cenário apocalíptico. Seria risível, exagerado e inverossímil se não houvesse notícias das mortes na Itália, Espanha e os primeiros casos nos EUA. 

Políticos cederam lugar a médicos infectologistas, pneumologistas, secretários de saúde, ministro da saúde. O inimigo é invisível, mas devastador, disseram de forma unânime. Lavem as mãos, usem álcool gel, não saiam de casa. O mantra se repetia em todos os canais de televisão, rádios, sites noticiosos na internet.  Pessoas esgotaram os estoques de álcool gel e máscaras cirúrgicas das farmácias e supermercados. O papel higiênico virou item de primeira necessidade nos estoques residenciais.  Um medo contido tomou conta da população, com exceção daqueles que acham que se trata de uma gripezinha.

Não houve histeria ou pânico generalizado, mas uma aflição coletiva. O abastecimento dos supermercados seguiu o ritmo normal. O mesmo se dá nas farmácias e postos de gasolina. Os serviços essenciais seguem funcionando, mas temos que ficar em casa.  Alguns sentem mais o medo, ou melhor, alguns deixam-se tomar pelo medo da incerteza, da ausência de horizonte. Quando isso tudo vai acabar? Ninguém sabe, ninguém tem a resposta e a incerteza amedronta, paralisa, tira-nos a racionalidade.

A invisibilidade do inimigo deveria nos deixar menos aflitos, mas depois de uma semana inteira de quarentena, as pessoas estão com as emoções à flor da pele. O medo corrói a coragem e nos drena. Precisamos de forças para caminhar um passo por vez.  Meu otimismo realista me leva a ter esperança e fé de que vamos superar esta batalha.

Em momentos como este, manter a serenidade, o equilíbrio é fundamental para a sanidade. Em tempos de pandemia, vale a pena desligar a televisão. Não se trata de apontar o dedo para o ministro da saúde e acusá-lo de atacar a imprensa. A imprensa faz o seu trabalho, mas o excesso de notícias sobre a pandemia faz mal para a saúde mental. Respire, deixe-se respirar, não se cobre tanto, como escreveu Mafê Probst.  Pare de contar os casos, deixe o tempo correr e siga um dia por vez.  Teremos mais capítulos pela frente.


A pandemia vai acabar e sairemos melhores e mais humanos desta batalha invisível.  

quarta-feira, 25 de março de 2020

Quarentena e confinamento: dicas de sobrevivência


Mãos na massa 


Ao redor do mundo, milhões de pessoas estão em quarentena e confinamento domiciliar. A pandemia do coronavírus impôs ao mundo a maior restrição circulatória desde a Segunda Guerra Mundial. De repente, nos vemos reclusos em casa, com tempo de sobra e tentando ocupá-lo. O que fazer? Vamos a algumas dicas e ideias para tentar tornar mais leve e produtivo este período de quarentena.

1. Estabeleça um horário - organize seu dia e crie uma nova rotina. Se você vai trabalhar em casa, fixe um horário para realizar as tarefas profissionais e procure focar no trabalho. No tempo livre, organize atividades que lhe tragam prazer e distração e que sejam diferentes do que você costuma fazer habitualmente.

2. Ouça música - aproveite para explorar novos estilos, bandas, cantores. Faça um teste, use letras aleatórias no sistema de busca de algum app de música (spotify, dever, iTunes) e veja o que aparece. Algo novo que pode lhe surpreender. Ou então, deixe-se embalar por suas músicas preferidas, crie uma playlist para servir de trilha sonora da quarentena, algo que lhe traga boas memórias.

3. Leia um livro (ou vários livros) - ler é uma viagem, uma experiência enriquecedora, que ativa a memória, enriquece o vocabulário e aumenta nosso conhecimento. Sempre haverá um livro sobre um assunto que lhe interessa. Novamente, tente sair da zona de conforto, leia algo diferente, um clássico, um livro de história sobre pandemias no passado, um romance sobre algo contemporâneo. O importante é usar o tempo com boa leitura.

4. Aprenda uma nova língua - há inúmeros apps que ensinam línguas estrangeiras de forma gratuita. Um exemplo é o duolingo. Uma nova língua expande horizontes e pode ser uma ótima ferramenta em sua próxima viagem internacional. Não vai viajar? Então aprimore o inglês ou o espanhol, competências muito úteis na vida profissional. Já fala estas duas línguas? Então mergulhe nos podcasts do TEDx en español ou o TEDx em inglês. São uma ótima forma de adquirir conhecimento e treinar a língua estrangeira.

5. Reze, medite, reflita sobre a vida - é preciso cuidar da alma neste período. Manter a esperança e refletir. Se você acredita em Deus, tire um tempo para rezar, ler um livro que trata de temas espirituais. Há diversas livrarias que fazem entregas e você pode comprar o livro online. Se você não pratica nenhuma religião, medite, pare uns minutos ao longo do dia para meditar e pensar sobre o que está acontecendo no mundo, na sua vida, com sua família. Este é um ótimo momento para crescimento espiritual.

6. Faça um curso online - diversas plataformas estão disponibilizando acesso gratuito aos seus cursos online. Procure algo que lhe interessa e fuja apenas dos cursos profissionais. Faça um curso sobre história da arte, um curso sobre literatura, culinária. Ache algo que lhe interessa mas que você nunca teve tempo para se dedicar.

7. Organize armários - faça uma limpeza em armários e na casa. Tire roupas velhas ou que não utiliza mais e aproveite para separá-las para doação. Há muita gente necessitada e o inverno se aproxima. Sua doação servirá para ajudar muitas pessoas em estado de necessidade.

8. Faça algo novo - monte sua árvore genealógica, escreva um livro com os filhos, faça um curta metragem, entre com contato com familiares que você não conversa há muito tempo, faça uma live da crianças com os avós, aprenda a cozinhar, cuide de plantas, organize um álbum de fotografias.

9. Aproveite a tecnologia para manter o contato social - utilize as redes sociais de forma cordial e de modo a reatar contatos ou construir novos contatos. Vamos deixar de lado as picuinhas e implicâncias políticas e tentar construir pontes. A hora não é para incrementar o ódio, mas para pacificar os ânimos. Há apps, como House Party, que permitem várias pessoas jogar um jogo por vídeo conferência. Aliás, a vídeo conferência está em alta nestes tempos, revelando que Skype já era e está em muito superado.

10. Cozinhe - o ato de cozinhar é um ato de amor e um ato de união familiar. Não tem ideia de como fazer arroz? Procure um vídeo ou site de receitas e aprenda. Saber cozinhar é uma questão de sobrevivência e uma tarefa manual que distrai e enche de prazer. Se alguém na sua casa sabe cozinhar, peça que lhe ensine. Os adolescentes podem ter muito proveito destas aulas caseiras.

O importante é saber ocupar o tempo de forma produtiva, aproveitar o ócio para criar, inovar, pensar e se reinventar. Quanto tempo vai durar a quarentena? Não tenho ideia, mas o importante é aproveitar o tempo e não enlouquecer.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Pandemia - uma breve reflexão



Depois de 16 anos, este é o milésimo post deste blog.  Mil postagens. Sem dúvida, nos últimos anos, o ritmo diminuiu, o meio “blog” virou vintage, deixou de ser uma forma mais popular, sendo ultrapassado por podcasts, vídeos e afins. Mas o texto permanece e é atemporal. A poesia de Fernando Pessoa reina como o assunto mais pesquisado e lido neste blog.

Tinha várias ideias para celebrar este marco do blog, mas a realidade sempre nos surpreende e oferece a matéria prima de que necessitamos para refletir, pensar e trabalhar. Trabalhar a realidade, moldá-la para tentar entender este mundo contemporâneo, ou ao menos, fazer um esforço por compreendê-lo.

Eu, assim como todos os brasileiros, estou em quarentena. Um isolamento domiciliar que é compartilhado com milhões de pessoas ao redor do mundo em decorrência da pandemia causada pelo coronavírus e a Covid-19, doença causada pelo vírus.

O ser humano é um animal essencialmente social, pontificou Aristóteles. E agora, vemo-nos obrigados à reclusão, a uma clausura não voluntária, mas imposta. A clausura é uma escolha de vida para religiosos e religiosas contemplativos católicos, que se afastam do mundo e vivem uma vida de oração e trabalho. Carmelitas e beneditinos são ordens religiosas que seguem este carisma.  A vida de oração contemplativa, quase sem falar, sem convívio com o mundo exterior do convento ou do mosteiro.

Hoje, somos obrigados a abraçar um estilo de vida de isolamento, temporário claro, mas um estilo de vida que não condiz com o cosmopolitismo das cidades e com a interação social tão cara ao povo brasileiro. Iniciamos neste período de quarentena a travessia de um deserto. Não sabemos por quanto tempo ficaremos reclusos, não sabemos o que nos espera ao final da travessia, não sabemos que intempéries serão enfrentadas. A incerteza pode gerar medo. É natural, mas precisamos buscar a serenidade e a esperança para realizar a travessia deste deserto com sucesso.

Em 1374, foi ordenada a quarentena de todos os cidadãos de Veneza para evitar o contágio com o “ar envenenado” pela Peste Negra, que dizimou metade da população europeia. Em 1569, a grande peste que atingiu Lisboa levou a uma fuga em massa da cidade. Narrativas daquela época relatam que havia um ar triste na cidade, abandonada e largada ao destino.

A realidade hoje é outra. Podemos fazer a quarentena com certo conforto, com acesso a informação e aos meios de comunicação, não falta comida e nem água e a ciência evoluiu muito desde então.

Vejo muitos reclamarem. Vejo muitos apontarem o dedo e incitarem o conflito. Penso que a hora é de reflexão pessoal, penso que nos é dado uma oportunidade de vivermos de forma contemplativa por algumas semanas, reclusos como se num retiro espiritual – chame de jornada se preferir. Não por acaso, tudo isto acontece durante o período da quaresma para os católicos. Um período de penitência, de exercício fraterno de caridade, de conversão de vida, de mudança. Um período que nos leva a olhar para a frente, com fé e esperança, pois uma nova fase se inicia com a Páscoa.

Não quero aqui tentar justificar esta pandemia, não é esta minha pretensão, mas quero provocar uma reflexão – já que temos tempo sobrando para fazê-la – sobre a transcendência do ser humano, da caridade, da solidariedade, da generosidade, da empatia. Penso que este momento é muito oportuno para exercitarmos estas virtudes, estas qualidades humanas (se assim preferirem).


Antes de reclamar, agradeça pelo que tem e pelo que lhe é dado. Antes de ter medo, olhe para frente com esperança e pense como mudar sua forma de agir após a sua saída da clausura. A travessia do deserto deve ser feita um dia por vez, serenamente, com fortaleza e resiliência. Aproveite o tempo que é dado, pois o tempo é um bem muito escasso e caro na contemporaneidade.