sexta-feira, 18 de maio de 2012

Conto: Biscoito da Sorte




BISCOITO DA SORTE

Saiu do escritório pouco antes das dezoito horas, como de costume. Amuada, passos lentos e pesados, olhar opaco e distante, um cansaço tomara-lhe o ser. Algo que não era de hoje, mas que se acumulara nos últimos tempos, talvez uma fase passageira, mas que teimava em não dissipar. Seu estado de espírito contrastava com a tarde quente e clara, de céu azul intenso e instigante, tão típico daquela época do ano.

 Ela, porém, nem notou.

Caminhou dois blocos e parou numa cafeteria simpática, onde refugiava-se ao final do expediente e antes de enfrentar os constantes reclamos da mãe. O trabalho era um momento de puro esquecimento. Havia tanto por fazer, o ritmo tão corrido, que raramente deixava os problemas pessoais afetarem seu dia a dia. Sua cabeça ocupava-se com a rotina do escritório sem deixar recantos mentais para o desânimo. Lidava com os gracejos mais ousados – alguns de mau gosto – com maestria e habilidade, sem deixar-se levar ou irritar. Era ágil e expedita, eficiente e altamente produtiva. Escondia-se por detrás da rotina e não deixava a menor sombra de dúvida sobre o que lhe afligia. Para todos do ambiente profissional, para os colegas de trabalho, a vida para ela era um mar de rosas. Tinha tamanho autocontrole no trabalho e apresentava uma aparência irretocável. Não que fosse dissimulada. Ela gostava do que fazia, apenas separava o trabalho da sua vida pessoal. Odiava intromissões e mexericos.

O trabalho era seu refúgio seguro, sua rotina a invadir e afastar qualquer pensamento que lhe pudesse causar-lhe mais insônia ou agravar a gastrite.

Pediu um chá mate com limão com bastante gelo no copo. O garçom, prestativo, mas formal, deixou o copo alto sobre a mesa sem lhe dirigir a palavra e deixando-a imersa em seus pensamentos. O copo suava, transpirava em pequenas gotículas. Percorreu a borda do copo com um dedo, descendo e cortando a camada uniforme de pequenas gotas. Parou no meio do copo. Formara-se uma gota maior que empurrou as demais e desceu pela lateral do copo. Uma lágrima não derramada por ela, mas pelo ser inanimado diante dela. A lágrima, lenta e sinuosa, foi trilhando seu caminho até formar uma poça na mesa.

Ao brincar com o copo, reparou que não havia feito as unhas.  Mal sinal. Toda vez que não comparecia à sessão semanal na manicure e deixava as unhas sem esmalte, pouco cuidadas, era um indício claro de que algo a incomodava. Desta vez havia sido a dor na região lombar agravada por um sentimento inexplicável de depressão.  O desânimo invadira-lhe a alma de tal forma, que a rotina se tornara pesada. Seria a idade a responsável por estes períodos mais frequentes de mergulhos introspectivos? Por onde andava a alegria jovial que lhe dominara nos anos anteriores? Em plena primavera carioca, o sorriso lhe escapava.

O olhar continuava longe, ausente. Consultou o relógio e ainda tinha um pouco de tempo antes de enfrentar o metrô e uma rápida visita na casa da mãe, que sabia não seria rápida nem agradável.

O celular tremeu na bolsa e ela meteu a mão a caçar o aparelho. Pescou um pequeno pacote branco com um biscoito da sorte, sobremesa que guardara do almoço no restaurante chinês. Provocada pela curiosidade, abriu a embalagem, quebrou o docinho ao meio e puxou a mensagem.

“Não prives o mundo do teu sorriso. Se não consegues sorrir, volte seu olhar para quem te faz sorrir e deixe-se contagiar.”

O olhar ganhou brilho. Respirou fundo, tomou um gole do chá e contemplou o céu pela janela. 


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