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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Sonoridade



"O 'o', que ela pronunciava surpreendentemente como um 'u', a sonoridade clara, estranhamente abafada do ê e o macio chiado no final soaram-lhe como uma melodia que, para ele, perdurou mais tempo do que na realidade, uma melodia que ele simplesmente adoraria ter escutado durante todo o resto do dia."
(Pascal Mercier. O Trem Noturno para Lisboa. 3a. ed. Rio de Janeiro : Record, 2009, p.15)

Feche os olhos e escute. A sonoridade da voz, com seu timbre próprio, com a entonação peculiar, com um sotaque. Nos tempos em que o telefone não denunciava quem estava do outro lado da linha, éramos tomados de alegria ao ouvir do outro lado da linha uma voz conhecida. A alegria ressoava e era denunciada pela entonação. O rádio ainda nos convida a fazer este exercício auditivo, a imaginar a pessoa que é titular daquela voz.

A sonoridade da voz é o ponto de partida, a faísca, que altera o ritmo do batimento cardíaco, que arrepia, que nos emociona. A música, como trilha sonora de um filme, ou de um momento especial, marcam de forma indelével a memória do filme da vida de cada um.

Prendi-me a este trecho inicial de O Trem Noturno para Lisboa que ecoou ao longo de minha leitura. Este post estava em fase de gestação, até que ontem, ao ler a notícia da morte do Lombardi, o famoso locutor dos programas do Silvio Santos que nunca mostrava o rosto. Sua identidade era a voz. Assim como Cid Moreira, Jânio Quadros, Paulo Maluf e tantos outros que nos marcaram pela sua voz.

A voz, como na obra de Pascal Mercier, pode romper barreiras e derrubar muros. Certa vez um amigo narrava-me que havia deixado de odiar o jeito de falar dos cariocas. Surpreso com esta revelação, pois era um bairrista convicto, perguntei-lhe o que havia acontecido. Ele, com um brilho nos olhos, dissera-me que uma carioca da gema havia encantado-o com sua voz. Ouvira a voz, antes de contemplar seus olhos, e aquela voz o arrebatara de forma a mudar radicalmente sua visão do sotaque carioca.

Uma voz, uma música, um som. Uma palavra dita com ternura e carinho. Um conselho sussurrado em segredo. A audição nos presenteia com todos estes mimos. A voz amiga mata a saudade e impulsiona a novos sonhos e voos. A sonoridade nos lembra constantemente que não estamos sós.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Quebrando o silêncio



"Um banco separado, provavelmente para a direção escolar. O silêncio de uma igreja, não, simplesmente o silêncio que importava, um silêncio que não poderia acabar com qualquer palavra. Um silêncio que transformava palavras em esculturas, monumentos do elogio, da advertência ou da sentença destruidora."
(Pascal Mercier, Trem Noturno para Lisboa. Trad. Kristina Michahelles, 3a. ed., Rio de Janeiro : Record, 2009, p.158)

Alguns temas me fascinam e se encadeiam sorrateiramente em posts inesperados. O silêncio é um destes temas que vivem passeando por este blog, e que foram objeto dos últimos posts. Seu entrelaçamento temático é inadvertido, não proposital. Talvez por que tenha dedicado mais tempo para refletir sobre o tema, ou talvez por que o tema tem pontuado minhas leituras. Enfim, o tema surgiu, aqui se instalou e agora amadureceu.

O trecho transcrito acima é do excelente livro de Pascal Mercier. Raimund Gregorius, professor de línguas clássicas em uma escola na Suíça, tem um encontro com uma mulher numa ponte a caminho do trabalho. A voz dela, a sonoridade do português arrebata-o e extirpa-o de uma rotina. Inicia-se uma viagem física, mas também interior do protagonista.

O silêncio permeia seus questionamentos e suas dúvidas, suas hesitações, seus medos. Gregorius é um homem solitário e sozinho. Os dois conceitos não são sinônimos. Solitário é aquele indivíduo que não tem ninguém ao seu redor; não tem amigos; não tem família. O indíviduo sozinho é aquele que pode estar rodeado de pessoas, mas carece do amparo humano. O indivíduo só é um homem mergulhado na solidão.

Mercier conduz seu leitor por uma viagem que aguça os sentidos. O professor de línguas prende-se ao som (audição), à forma como as palavras se organizam (visão), à delicadeza da capa de um livro (tato), ao perfume do novo e do velho (olfato) e ao gosto intragável de certas palavras e expressões (paladar).

Desta forma, o protagonista, tomado pela sonoridade de uma voz, encontra em seu âmago a coragem para quebrar grilhões e lançar-se em uma viagem para o novo. E tudo isto inspirado pela palavra.