domingo, 19 de junho de 2011

Duas sugestões de coletâneas de contos

Contos são um breve momento narrativo, mas que se prolongam no tempo quando o autor aborda uma temática complexa. Sempre tenho em minha cabeceira contos para leitura, quer quando resolvo dar uma pausa no romance mais longo, ou quando me falta tempo para iniciar um novo livro. Com sucessivas viagens, o tempo foi generoso e permitiu que terminasse Apego, de Isabela Fonseca. Na sequência quero ler algo de Inês Pedrosa, escritora portuguesa que não conheço, ou talvez Gracias por el fuego, de Mario Benedetti que repousa calmamente na minha estante.

Mas voltemos às minhas sugestões de livros, principalmente porque estamos à véspera de um feriado mais longo e às voltas com as férias de julho.

1. Então você quer ser escritor?, de Miguel Sanches Neto (Rio de Janeiro : Record, 2011).


O mais recente livro do escritor paranaense traz contos onde aborda os principais temas que afligem o homem contemporâneo. Seu estilo é peculiar, dinâmico, numa narrativa magnética e surpreendente. Nos  diálogos despreza o travessão, dando fluidez à narrativa, confundindo o leitor por certas vezes, mas atraindo a sua atenção plena para as palavras que se sucedem. O recurso de transpor as regras de pontuação pode aparentar um narrador apressado, que conta sua estória sem pausas, afobadamente, algo muito próximo da rotina atabalhoada e de ritmo alucinante que integra o cotidiano atual.

Em "Animal nojento", o título só se justifica no último parágrafo, quando o leitor tem a certeza inquietante de o pior acontecerá na página seguinte. O amor inatingível, a inadequação às constantes mudanças sociais e de costumes dão o pano de fundo para "Na minha idade". E assim, Miguel Sanches Neto vai apresentando ao leitor personagens com quais sempre há algo com que se identificar. 




2. Narrativas do Espólio, de Franz Kafka (trad. Modesto Carone, São Paulo : Cia. das Letras, 2002).


Demorei para enfrentar Kafka, até que recentemente apresentaram-me ao grande escritor tcheco. Narrativas do Espólio é uma sequência de textos publicados post-mortem. O escritor morreu com apenas 41 anos e ordenou a seu amigo, Max Brod, que queimasse os manuscritos. O escritor não foi atendido e quem saiu ganhando foram os leitores do mundo todo.


O estilo de Kafka é seco e seus textos são difíceis. Muitas vezes requerem uma nova leitura para a uma melhor compreensão. Não digo plena compreensão, pois talvez esta seja inatingível. Um exercício mental que combina com os dias frios de inverno, onde o recolhimento casa-se perfeitamente com a boa literatura.


Por fim, relembro Antonio Tabucchi e seu O tempo envelhece depressa, já recomendado e do qual gostei muito, que estará presente em Parati na Flip como convidado.

Um comentário:

HÉLIO SENA disse...

Valeu a dica, Renato. Eu sou viciado em contos!