quinta-feira, 12 de abril de 2007

Poesia: Cecília Meirelles

"O rosto em que me encontro
e que a nuvem contempla
vai-se mudando noutro
só pelo que relembra.

De caminhos andados,
se levanta e suspira,
contando sonhos gastos
e palavras perdidas.

Tudo o que parecia,
tudo quanto não era,
tirou-lhe o gosto à vida
e a ternura da terra.

Guardei para o silêncio
os tempos de renúncia:
quando meus sonhos penso,
vejo que sempre é nunca.

E é tão bela a tristeza,
que nem o amor alado
deixará dentro dela
mais que um desenho vago.

(Areia que aparece
dentro de águas que fogem,
sinto que te disperses
pela memória, longe...)

(Canções. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 31-2)

Na tristeza o rosto se modifica, o olhar se torna ausente, e diante da impotência de estampar no teu rosto um sorriso, fico na memória, nas boas boas memórias do riso solto, do olhar brilhante, da vivacidade juvenil. Não te disperses, não fuja para longe, volte com os pés no chão.

2 comentários:

Fabiola disse...

A Cecilia é tão delicada

Renato Bueloni Ferreira disse...

Sensibilidade pura.