quarta-feira, 11 de abril de 2007

Claro Enigma e a profundidade de um título.



O título de um livro é sempre um chamariz, um atrativo que fisga o leitor em potencial. Alguns títulos são mais significativos que outros e somente se revelam em sua inteireza após o final da obra. Percebi um destes significados ocultos, por assim dizer, somente ontem.

Faz pouco tempo comprei um livro para dar de presente. Era um livro de Carlos Drummond de Andrade, mas qual escolher? São tantas as suas obras de poesia que a escolha seria difícil. Gastei algum tempo olhando, lendo, folheando e, de repente, como um cochicho, como uma inspiração vinda do acaso, ou quem sabe um sopro de quem iria receber o presente, decidi-me pelo livro. Tratava-se de Claro Enigma. Pois bem, o que o título revelou-me naquele momento? Nada, absolutamente nada.

Dois dias atrás, porém, no caminho de casa, dei-me conta da beleza do título do livro. Claro Enigma é uma perfeita metáfora para a vida, para o ser humano, para o amor. Como a poesia que pode não dizer nada, ou apenas revelar um emaranhado de palavras arranjadas pelo escritor no papel, a mesma poesia pode também nos levar a sonhar, a ir de encontro aos nossos mais profundos sonhos e sentimentos. A poesia tem este poder.

A vida é um Claro Enigma. Clara e iluminada nos momentos de felicidade e alegria. Um enigma, por vezes indecifrável, nos momentos de angústia, solidão, depressão, perplexidade e quando estamos à deriva. Um enigma que quando o deciframos, já se apresenta novamente diante de nós com novas perguntas, novas dúvidas, novas incertezas e novos desafios.

Venho, nesta semana, repetindo este título em meus pensamentos, ressoando-o. Confesso que fiquei encantado como aquele sussurro na livraria que me levou a escolher o livro certo e como a beleza do título me mostrou, de forma poética e como só Drummond é capaz de fazer, como a vida é um enigma fascinante.

Um comentário:

Marcela disse...

Lindo texto, Renato. Inspirador!