domingo, 18 de março de 2007

Presente em corpo, ausente em alma.



Mencionei num post recente sobre Dom Casmurro, a cena em que Capitú se apresenta distante, ausente de espírito na conversa com Bentinho. Cena que é citada pelo narrador como um dos exemplos que levaram Bentinho ao convecimento do adultério de Capitú.
Podemos estar presentes em corpo, mas distantes em alma, verdadeiramente ausentes. A distinção entre viver e existir, olhar e ver, ouvir e escutar, não é meramente semântica. É uma diferença de atitude.
Acabei de ler Erec e Enide, de Manuel Vázquez Montalbán, escritor espanhol recentemente desaparecido. A edição brasileira é da Objetiva (2007), sob o selo Alfaguara.
Trago alguns trechos para ilustrar o que quero dizer: "(...)e nem por isso deixou de dormir comigo naquele encontro, mas a senti aérea, rotunda como sempre, mas aérea, como se estivesse e não estivesse comigo(...)" (p. 22).
Em outro trecho, Madrona, mulher de Julio Matasanz, o protagonista do romance, reflete: "Custo a admitir que penso em Julio porque estou mal, e se ao menos bastasse voltar para casa e recuperá-lo, sentiria alguma segurança de ânimo e não me forçaria a ir fazer as compras para compensar uma angústia tão incômoda que nem sequer se concretizava, uma sútil angústia feita de pressentimentos, de intuição feminina, como eu mesma diria anos atrás, quando ainda acreditava na intuição feminina, antes de suspeitar que não passava de uma questão de desconfiança incontrolável na alma de todos os escravos."(p. 38).
A intuição feminina que tanto aflige os homens, pode falhar e quando falha, ou melhor quando não percebe a distância, a ausência do homem e do companheiro, pode trazer uma profunda sensação de solidão ao homem. "Ela não me dá atenção mais! Ela não me percebe a ponto de notrar minha ausência!". Hoje, o cenário se inverteu. As mulheres têm a intuição feminina, que os homens não têm. Mas se a intuição feminina falha, se aquela pulguinha atrás da orelha não acusar algo de errado, o homem sente-se desamparado.
Este desamparo emocional - infelizmente tão comum nos dias modernos nos casamentos e relacionamentos - causa profunda angústia e desespero. Um sentimento de caminhar sem rumo, de estar à deriva, ou no "mundo da lua". Passamos a existir apenas, sem viver. Passamos a olhar apenas, sem ver com o coração. Deixamos de ouvir o que os outros nos dizem, mas apenas escutamos.
Quando notamos que alguém nos ouviu, e retruca, uma luz clareia o redor. A vida se modifica. A amizade pode fazer isto. Não precisa ser uma paixão arrebatadora correspondida. Basta ser amigo de verdade, sincero, compreensivo. Ouvir e ver. Estar do lado nos momentos de silêncio em que precisamos de silêncio ou precisamos chorar.
Mas é triste ter alguém do lado e não notarmos que está ausente. Erec e Enide é um romance que trata do sentido da vida, de questionamentos acerca do casamento e dos relacionamentos no mundo moderno. Não concordo totalmente com a visão pessimista de Montalbán, mas concordo que muitos nos sentimos como ele tão bem descreve.
NOTA: A foto que ilustra este post foi reproduzida com autorização da autora.

3 comentários:

Anônimo disse...

Texto interessante esse seu, difícil a gente saber de uma visão masculina, pois vcs não falam.
Vou então mostrar aqui a visão feminina sobre o assunto.
Fala-se tanto em “intuição feminina”...é fato que realmente a maioria das mulheres o tem, não sei se nascemos com ele ou se isso é apurado desde a infância, quando já começamos a brincar de bonecas. Mas, também acho que isso é uma questão de treinamento, de prestar atenção aos detalhes, a outra pessoa, aos sinais...e isso é uma falha dos homens!
È interessante vc dizer que qdo a intuição feminina falha, o homem fica a deriva, sem chão...já parou para pensar que isso é apenas uma parte do que sentimos qdo vcs homens não prestam atenção em nós mulheres? Já pararam para pensar por que mulher gosta tanto de “discutir a relação”? Talvez se vcs treinassem mais a intuição masculina e percebessem os sinais que nós tb emitimos, as relações não precisariam ser tão discutidas e tudo ficaria mais fácil.
É difícil achar um equilíbrio...a mulher pensa, deduz e fala demais da relação...o homem pensa de menos, deduz menos ainda e não fala!!!
Nós, a maioria das vezes, temos que ficar interpretando, deduzindo e fatalmente errando sobre o que vcs estão pensando e querendo...daí, qdo cansamos ( sim, nós tb cansamos de discutir a relação!) e deixamos o barco correr, vcs acham que nossa intuição falhou, não estamos percebendo o que se passa com vcs, não damos atenção e ficam a deriva...mas, nem assim vêm até nós para conversar, acha que temos olhar na nossa bola de cristal e “salvar” vcs, sorriso.
Às vezes só gostaríamos que vcs percebessem e se importassem.
Esse comentário não é um ato feminista, não é uma pichação aos homens, é somente para que vcs possam compreender os nossos sentimentos e saber que uma relação é construída e mantida, com a cooperação de duas pessoas...os dois têm que ceder, os dois têm que querer, os dois têm que estar na mesma direção...e os dois têm que ter intuição para perceber qdo algo não está bem.
Às vezes é muito mais fácil se abrir com um amigo do que com o companheiro...talvez porque o amigo não vá te cobrar, não vá te julgar, não vá te deixar...feliz daquele que tem um amigo sincero, que sabe falar e calar na hora certa...tem dias que o sorriso de um amigo é um bálsamo na ferida...
Concordo, nada é pior do que a ausência da alma!

Fernanda

Beatriz disse...

Engraçado... uma das pessoas k mais amo tem como nick "ausente de espirito" não haja dúvida k nós mulheres, mesmo desatentas, sentimos, basta querermos! Muito bom o texto! Muito bom o comentário!
um abraço

Anônimo disse...

parabens