quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Conto: Jogo da Memória


JOGO DA MEMÓRIA


Nunca se sabe o que um novo dia nos reserva. A agenda previa uma longa, tensa e cansativa reunião na parte da tarde, que muitas deixavam de ser tensas e se transformavam em tediosas revisões de contratos prolongadas por advogados ávidos em aumentar o número de horas trabalhadas. A consequência era esfaquear um pouco mais o cliente combalido. Bastava o fato de ter que sair do escritório e dirigir até a Vila Olímpia, um microcosmo do caótico trânsito de São Paulo adicionava o tempero negativo do dia. Mas, obrigações são obrigações e ele não deixaria de cumpri-las.

O trânsito colaborou, o prédio modernoso era simpático e a sala de reunião muito bem iluminada com luz natural. A máquina de Nespresso, objeto que parece ter se tornado tão obrigatório em qualquer sala de reunião quanto televisão de tela plana, era uma tentação para um bom café após o almoço. A conversa fiada com o cliente foi regada a um bom espresso e amenizou a tensão que pairava no ar. A outra parte atrasou um pouco, mas a inconveniência da espera se dissipou como a fumaça de um cigarro que se dispersa no ar após algumas piruetas. 

A adversária que entrara no ringue de batalha enfraqueceu o espírito beligerante. Era uma bela mulher, baixa, cabelos castanhos pouco abaixo do ombro, traços finos, despida de anéis e unhas sem esmalte. O olhar dela despertou-lhe a memória que se viu incomodada. Algo naquele olhar lembrava-lhe de alguém. Enquanto as formalidades iniciais eram cumpridas, ele mergulhava dentro de si na tentativa de um resgate de memória.

A memória é curiosa e marota. Gosta de pregar peças, gosta de provocar e de atiçar. Por anos foi atormentado por um perfume floral. Bastava sentir aquele aroma que a imagem de uma antiga namorava se materializava, tanto quanto a raiva que sentia por ela depois da inevitável dispensa. No fatídico dia, ela exalava o aroma que se tornara tão odioso. Mas, sua pródiga memória reunia tons de voz, sotaques, trejeitos, tiques, músicas. Oscilava e transitava por todos os sentidos, compondo lembranças das mais variadas e muitas alegrias. Nem só de amargura, ódio e tristeza vivia sua memória. 

A turbulência que se desenhava foi rapidamente superada com a primeira intervenção da colega. O sotaque carioca, irritante para muitos paulistas - inclusive seus clientes -, soava-lhe qual sinfonia magistral. A entonação e o timbre de voz rapidamente permitiram que ele decifrasse a charada. Sua memória foi ágil e eficiente. Em poucos segundos deixara a Vila Olímpia e estava conversando sobre música na velha e inesquecível Modern Sound, numa manhã de junho, em insuperável companhia. 

A cada palavra, cada gesto, deixavam a semelhança ainda mais inquietante. Sorria por dentro, discreto, contido, tentando disfarçar sua perplexidade diante do jogo da memória, diante da surpresa do dia, diante de tantas coincidências. Num dia que parecia tão azedo e tão sem perspectivas, a vida provocou-lhe a memória de forma a torna a tarde uma viagem no tempo.

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