domingo, 6 de maio de 2007

Crônica: Suave Espera

Roberto entrou no quarto do hotel e não encontrou Mariana. O amplo quarto não reveleva sua presença. Ela não estava no banheiro. Uma leve brisa agitou as cortinas e notou a porta da varanda aberta, apesar do intenso temporal que caía naquele tarde. Chuva forte no litoral baiano para brindar o primeiro dia de uma esperada viagem juntos. Chegaram na noite anterior, espiados por uma tímida lua entre nuvens.

Afastou um pouco a cortina, na espreita e recostou a cabeça no batente da porta de correr. Observava Mariana. As pernas esticadas e apoiadas no parapeito da sacada, com os pés a serem banhados pelos pingos grossos da chuva forte. Os longos cabelos presos num coque alto na cabeça e esta apoiada nas mãos com os dedos entrelaçados na altura da nuca. Sua respiração era pausada, relaxada, os olhos fechados respingados com gotículas de água. A pele morena, levemente bronzeada pelo sol, exaltavam a sua beleza natural sem qualquer retoque ou maquiagem. Uma pintura acabada. A idade não se percebia ao contemplar a bela mulher. Não lhe dariam mais que 36 anos, apesar de já ter passado dos 44.

Um certo sentimento de incredulidade tomou conta de Roberto, como se tudo aquilo ainda fosse um sonho. Esperara 8 anos por esta viagem. Sim, 8 longos anos haviam se passado, pacientemente, silenciosamente, por vezes, dolorosamente. Mas o dia havia chegado. E agora, Mariana estava com ele, ao seu lado, nos seus braços, na sua companhia, inteira e exclusiva. Quase levitava de alegria e seu sorriso não era apenas notado no seu rosto, mas penetrava-lhe nas entranhas num sentimento de torpor e felicidade.

- Você está linda! Mais linda do que nunca! – exclamou calmamente para não assustá-la.

- Faz tempo que está aí? – perguntou. – Nem notei. Estava pensando em você e em tudo que aconteceu e agora...o presente....a viagem...nós... – deixou as palavras penduradas no ar.

Suspirou fundo, um suspiro de alívio e de perplexidade. E continuou:

- Como você aguentou tanto tempo, Beto?

Ele tirou os chinelos, puxou uma cadeira, sentou-se ao lado dela deixando a chuva regar seus pés e pernas. Eram duas crianças a brincar com os pés na chuva, esquecidos da idade real que tinham. Olhou-a nos olhos, tudo isto em silêncio e disse:

- Por você esperaria a vida toda! Jamais me cansaria, Mari! Esperar por você nunca me cansou, só nutriu uma esperança de que um dia estaríamos aqui. Juntos. Você vale muito mais que o que todo o meu tempo!

E ele beijou-a. Ela encostou a cabeça no seu ombro e a mão de Roberto procurou a mão de Mariana. Dedos trançados, mãos unidas. E assim, ouvindo a chuva, passaram aquela tarde.

2 comentários:

Edna Federico disse...

Outra bonita crônica, parabéns!
Tem pessoas que vale a pena a gente esperar, não é mesmo?

Fernanda disse...

Hum, essa Mariana é a mesma da outra crônica, aquela que deu um pé no Saulo?
Se for, ótimo,deixou de lado um cara que não dava valor e encontrou um novo amor...ó, rimou! riso.
Gostei.