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segunda-feira, 15 de junho de 2009

Sorte ou azar?


Dois fatos curiosos chegaram aos jornais em dias recentes. Um apostador do Vale do Paraíba acertou a Mega Sena, teria direito a um prêmio de R$ 5 milhões e até a véspera do último dia para resgatar o dinheiro o sujeito não tinha aparecido. Surgiu no último e recebeu a grana. Quase um sortudo azarado.

Outro caso foi o de uma mulher em Israel que guardava US$ 1 milhão dentro do colchão de sua casa. Sua filha resolveu presenteá-la com um novo colchão e jogou o colchão velho no lixo. A coitada da velhinha quase teve um ataque cardíaco ao descobrir que a filha tinha jogado o dinheiro no lixo. Bem, foi o colchão, mas era um colchão valioso.

Deparei-me, nestes feriados, com um interessante trecho do Diário do Entardecer, de Josué Montello, e que transcrevo aqui:

"Dizia Machado de Assis que a mais antiga forma de ficção que se conhece é o conto-do-vigário. E acrescentava: 'Não é propriamente o de Voltaire, Boccaccio ou Andersen, mas é conto, um conto especial, tão célebre como os outros, e mais lucrativo que nenhum.'

Como em toda modalidade de arte, o conto-do-vigário tem criadores e plagiários.

Sou de parecer que, nos casos habituais dos bilhetes de loteria falsamente premiados, que um espertalhão impinge à ingenuidade alheia, nas ruas das grandes cidades, deveriam ir para a cadeia o vendedor e o comprador. Este, por falta de malícia; aquele, por falta de imaginação." (Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1991, p. 48)


O espertinho, nestas horas, merece o castigo de cair na lábia do espertalhão.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Cenários Urbanos

Enseada de Botafogo, de Francisco Coculilo (c. 1930)




A cidade adormecida traz consigo um silêncio diferente, entrecortado apenas por alguns carros e caminhões que seguem pela Marginal, evitando o horário do rodízio. O relógio marca quinze minutos antes da seis da manhã de uma sexta-feira. Está escuro, como noite. O aroma do final de madrugada traz consigo um leve toque de orvalho, um frescor não encontrado nos dias de verão paulistano. O ritmo ainda é lento da cidade que desfruta de seus momentos derradeiros de escuridão.





Chego a Congonhas um pouco antes das seis. Não há filas, não há transtorno, não há correria. É fácil estacionar o carro. É fácil fazer o check-in. É fácil pedir um café para acordar. Muitos, como eu, aguardam seus voos. Poucos voos, mas não há atrasos, nem esperas. Pontualmente embarcamos, com um traço de claridade no horizonte. Traço de tons claros, um amarelo quase branco sucede a um rosa mais intenso. Deixo São Paulo preguiçosamente acordando e o céu ganhando sua coloração anil.





Foi Le Corbusier que disse que Oscar Niemeyer tinha nos olhos as curvas do Rio e que isto refletia em sua arquitetura. A visão do alto permite contemplar, com olhos de pássaro, as curvas do Rio. Uma geografia privilegiada e que me fascina. Não importa o número de vezes que desfrute desta visão; sempre há algo novo e fascinante, sempre há um detalhe a observar, um ângulo. O Cristo no alto do Corcovado é o mesmo, mas talvez eu não seja mais o mesmo, talvez não a mudança não seja do cenário, mas do espectador. O Pão de Açúcar surge no lado direito do avião que faz a curva final para aterrissar no Santos Dumont. O dia está esplendoroso!




Meu destino é a Sete de Setembro, quase esquina com a Rio Branco. Desço do táxi e caminho pela Rio Branco até a Biblioteca Nacional para contemplar o majestoso hall de entrada. O centro do Rio despertou-me um ar nostálgico, dos tempos de Machado, talvez uma premonição do que observaria. Retornei pela mesma avenida, dobrando á esquerda para o Largo da Carioca. Segui pela Gonçalves Dias, rua de paralelepípedos e pequenos sobrados coloniais. Suas janelas grandes no andar superior pareciam olhos a contemplar os transeuntes apressados; parecem pessoas deitadas de bruços, silenciosas mas atentas. Meu ritmo é vagaroso a observar aqueles sobrados. Paro na Confeitaria Colombo para um café. Tenho tempo antes do meu compromisso.





Adentrar na Colombo é viajar no tempo, viajar para a Lisboa antiga, para uma época áurea em que a capital federal localizava-se neste Rio de Janeiro. Espelhos gigantescos e paredes decoradas com detalhes de uma arquitetura de época. Tudo esteticamente aprazível, não há exageros. Fico a imaginar aqueles salões repletos de homens engravatados, de mulheres com seus trajes pesados...e aquele calor. Faz 34 graus e sinto a umidade no ar. Na esquina da Gonçalves Dias com a Sete de Setembro um homem fuma cachimbo. O aroma do tabaco inunda minhas narinas e completa o cenário nostálgico. Voltei para o final do século XIX ao sentir aquele perfume do fumo.





Após o almoço, segui pela Rua da Assembléia para uma rápida visita a uma colega já que o tempo escasseava antes do retorno. Resolvi arriscar e caminhar de volta ao aeroporto. Minha rota guiou-me pela Av. Presidente Antônio Carlos, via larga e ampla. Tive uma gratíssima surpresa ao seguir por este caminho: ao fundo o Pão de Açúcar e uma generosa brisa. Os prédios que ladeiam a avenida lembraram-me de soldados enfileirados, imóveis, como numa cerimônia militar e ao fundo o súdito. O súdito, neste caso, o Pão de Açúcar sem nenhum obstáculo à contemplação. O sol forte que esquentava meu terno escuro deixou de ser relevante diante da beleza da cena natural com que era premiado. De fato, Niemeyer só poderia desenhar o que desenhou sendo carioca.





Quase no destino final, paro na esquina da Pres. Wilson e lá está a Casa de Machado. Ele que tantas vezes me guiou pelo Centro e por arredores do Rio com suas palavras, parecia agora se divertir com minhas descobertas empíricas. Cenários urbanos a serem descobertos com um olhar afiado. Cenários de uma cidade que deslumbra sempre. Porém, nesta rápida passagem pela capital fluminense, senti falta de algo. Ou melhor, de alguém que me desvendou os encantos cariocas. Era hora de voltar e deixar para trás - até a próxima visita – as belezas naturais desta cidade abençoada.




OBS: Se estes caminhos não fazem sentido, sugiro ao leitor que use o Google Maps para se situar e apreciar a paisagem.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Saudade


"A saudade existe no coração, sem necessidade de recordações externas."

Machado de Assis

(Migalhas de Machado de Assis. São Paulo: Migalhas, 2008).


"Tive ouro, tive gado, tive fazendas.

Hoje sou funcionário público.

Itabira é apenas uma fotografia na parede.

Mas como dói!"

Carlos Drummond de Andrade

("Confidência do Itabirano". Antologia Poética. 26ª. Ed. Rio de Janeiro : Record, 1991).


"Eu próprio, ao refletir sobre os percalços do ano-velho, vejo agora neles a provocação que nos faz amar a vida com outra intensidade. Os calhaus do caminho ficaram para trás. Nossa vida nada mais é do que a transformação do dia de hoje em dia de ontem, enquanto esperamos o dia de amanhã. O que é bom lembrar também se chama saudade."

Josué Montello

(Diário da Noite Iluminada. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1994, p. 214)


A memória, intangível, silenciosa, guarda, como uma caixinha de joias, os detalhes de tantos momentos vividos, imaginados, sentidos. Fundem-se emoções, realidade, sonhos, vibrações, alegrias, lágrimas e tristezas. Cria-se algo novo, fruto desta mistura de dádivas, que percorre o corpo até o coração. Este, órgão tão potente, estremece diante da saudade e precipita o anseio pelo reencontro.

sábado, 22 de setembro de 2007

A Casa de Machado


Quase 2 dias no Rio de Janeiro e volto cada vez mais encantado pela cidade. Fui a trabalho, mas como ninguém é de ferro, aproveitei para conhecer um pouco mais do que ela nos oferece.


Ando pelo Centro do Rio sem medo, pois acho-o muito semelhante ao Centro de São Paulo em termos de quantidade de gente que circula. As ruas do Centro do Rio, porém, são mais estreitas e guardam um ar antigo mais presente, pois algumas ainda são de paralelepípedos. Cumprido o dever, caminhei pelas ruas do Centro em direção à Academia Brasileira de Letras.


Não estava nos meus planos passar por lá, mas seja por uma intuição divina ou por um sussurro do pensamento, uma daquelas idéias que surgem aparentemente de forma simples e que depois se revelam geniais, dirigi-me para a Casa de Machado e dos imortais. A ABL foi fundada na tarde de 20 de julho de 1897 e completa este ano 110 anos. Machado de Assis foi seu primeiro presidente.


"Tarde de sol de uma quinta-feira. Subo a velha escada de pedra da Academia e sigo na direção da estátua de Machado de Assis, gosto de ficar olhando para o bruxo sentado com sua bigodeira e o pince-nez ajustado ao nariz forte, a fronte espaçosa e pensativa. Ando um pouco em redor e acabo por me sentar num banco próximo, ainda é cedo para sessão." (Lygia Fagundes Telles. Conspiração de Nuvens. Rio de Janeiro : Rocco, 2007, p. 33).


Talvez tenha sido este trecho de Lygia Fagundes Telles que me guiou até lá, movido pela curiosidade de ver e vivenciar o que ela descreveu em seu novo livro. Fiz o mesmo percurso. Subi as escadas numa quinta-feira, a lua já no céu do entardecer. Encontrei o Petit Trianon iluminado e repleto de imortais e mortais que se acomodavam para ouvir uma conferência sobre fotografia e a forma de olhar o Brasil. Os Acadêmicos acomodados nas cadeiras centrais da bela sala.


Parei diante de Machado de Assis sentado e observei-o por alguns instantes. Final de tarde e sentei-me num dos bancos diante do bruxo, como o fizera a imortal Lygia Fagundes Telles, e fiquei proseando. Ao terminar a conferência, ganhei um tour daquelas belas salas, de arquitetura clássica.


Um final de tarde agradabilíssimo e inesquecível em grande companhia.


* * * * * *


Vale informar que a ABL tem um serviço denominado ABL Responde que esclarece, de forma gratuita, dúvidas sobre ortografia. Tudo funciona por email. Há no site também acesso ao Vocabulário Ortográfico, que funciona para tirar dúvidas de ortografia de última hora e quando não se tem um dicionário à mão.




quarta-feira, 14 de março de 2007

Bentinho e o irracional


Li Dom Casmurro duas vezes. Só tive contato com a obra de Machado de Assis depois dos 30 anos. Foi uma falha na minha formação humanística. Lê-lo, porém, na maturidade deu-me enorme prazer. A dúvida que remanesce na cabeça do leitor acerca da paternidade de Ezequiel não é respondida. Talvez, se o romance tivesse sido escrito nos dias de hoje, Bentinho pediria um exame de DNA, ajuizaria uma ação de investigação de paternidade e tudo se resolveria. E tiraria a graça do romance.

O que mais me chamou a atenção em Dom Casmurro é a racionalidade de Bentinho. Creio que me identifiquei um pouco. O conflito racional versus emocional permeia uma série de obras clássicas. Desde a Grécia antiga, encontramos este dilema. Antígona se sacrifica pelo irmão conduzida estritamente pela racionalidade, pelo certo. Romeu e Julieta morrem abraçados e levados apenas pelo amor, pelo emocional. São apenas alguns exemplos para ilustrar meu argumento.

Bentinho é um sujeito racional, um ciumento doentio. A cena do Capítulo CVI parece-me o ponto de partida da suspeita. Transcrevo um trecho:

Foi justamente por ocasião de uma lição de astronomia, à praia da Gloria. Sabes que alguma vez a fiz cochilar um pouco. Uma noite perdeu-se em fitar o mar, com tal força e concentração, que me deu ciúmes.” (p. 327)

A cena do olhar distante revela que Capitu havia conversado com Escobar e este lhe ajudara a economizar dez libras esterlinas. Em palavras de hoje, Capitu usou Escobar para aplicar o dinheiro que rendeu juros.

Esta cena tem 2 aspectos que merecem reflexão: o ciúme e o olhar distante. Fiquemos com a mais óbvia primeiro e tornarei a falar do olhar distante em outro post, trazendo trechos de autores modernos.

Quando estava no seminário, Bentinho já sofrera de ciúmes quando fora comunicado que Capitu vivia alegre e contente. Achou que ela tinha arrumado outro namorado, que estava feliz pela distância. Depois no enterro de Escobar, Bentinho interpreta o olhar como a prova final. O trecho é do Capítulo CXXIII:

No meio della, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas, poucas e caladas...” (p. 374).

Aquele gesto foi para Bentinho a confissão. Sua racionalidade havia produzido uma realidade – talvez – diversa da verdadeira. Uma realidade imaginária, fruto de seus pensamentos. Algo meio Kantiano, onde a única realidade que existe é a do pensamento. O bom senso levaria Bentinho a confrontar Capitu com suas dúvidas. Mas ele não o faz. E o fim trágico do romance se dá por causa do silêncio de Bentinho.

Há um certo delírio nas conclusões de Bentinho, mas acho que qualquer psicólogo poderia explicar que o ciúme doentio é uma patologia que carece de tratamento. O ciúme é algo irracional, mas do qual não podemos fugir. Todos sentimos ciúme. O grau é que varia. O ciúme pode ser bom e lembrar-nos de quão verdadeiro e sincero é o sentimento pela pessoa querida, mas não pode – e não deve – levar-nos a envenenar o relacionamento. É preciso sangue frio ou contar até dez para deixar a poeira baixar e então confrontarmos a situação. Normalmente o passar do tempo revela que aquele ciúme é uma grande besteira. O que não podemos é deixar o ciúme minar e corroer nossas entranhas a ponto de não falarmos, a ponto de distanciarmos da pessoa, a ponto de desistirmos da pessoa querida.



Uma observação final: os trechos foram transcritos de uma edição de 1938, razão pela qual há aparentes erros ortográficos. A edição é da W.M. Jackson Inc. Editores, Rio de Janeiro. No português antes da reforma ortográfica, Céu era escrito como Céo. Curioso não?

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Uma nota curta

Li esta frase de Machado de Assis inserida no início de uma obra de Josué Montello. Achei-a genial, como tudo que brotava da pena de Machado de Assis.

Escreveu em Páginas Recolhidas:

"Ou lê o livro até o fim, ou fecha-o de uma vez; abri-lo e fechá-lo, fechá-lo e abri-lo, é mau, porque traz sempre a necessidade de reler o capítulo anterior para ligar o sentido, e livros relidos são livros eternos."
Nada mais verdadeiro!

sábado, 17 de fevereiro de 2007

Leitura de Carnaval

Comprei dois livros para me acompanhar neste carnaval. Minhas opções:

- Contos Fluminenses, de Machado de Assis. Uma bela edição da Martins Fontes (2006) que integra a Coleção Contistas e Cronistas do Brasil. Folheando o volume chamou-me atenção o conto "Confissões de uma viúva moça". Há uma excelente introdução e notas. Gosto destes extras que permitem ao leitor compreender melhor o autor, o contexto e a origem do texto. A leitura se torna muito mais enriquecedora.


- As Coisas do Alto, de Vinicius de Moraes. Poemas em edição da Companhia das Letras (2003). Leitura para ser degustada com calma e regar os lindos finais de tarde, ao por do sol. Deixo uma pitada de Vinicius.

INTROSPECÇÃO
Nuvens lentas passavam
Quando eu olhei o céu.
Eu senti na minha alma a dor do céu
Que nunca poderá ser sempre calmo.


Quando eu olhei a árvore perdida
Não vi nem ninhos nem pássaros.
Eu senti na minha alma a dor da árvore
Esgalhada e sozinha
Sem pássaros cantando nos seus ninhos.


Quando eu olhei minha alma
Vi a treva.
Eu senti no céu e na árvore perdida
A dor da treva que vive na minha alma.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Metendo a mão na cumbuca

Política era um dos temas que pretendia discutir neste blog, mas sinceramente, é difícil escrever qualquer coisa depois de tudo que vem acontecendo no Brasil. A gente fala, fala, fala...e parece que ninguém escuta.

A eleição para a Presidência da Câmara dos Deputados, ontem, é uma prova disto. O PSDB não sabe fazer oposição. O PMDB é poder, não importa como chegue lá ou através de que meios. O PT...bem, aqui não é preciso falar nada.

Talvez o melhor a fazer seja seguir o conselho do Diogo Mainardi: dormir. O problema é que o tempo é implacável e corremos o risco de perder - de novo - o bonde da história. Só o Lula acha que está tudo lindo e maravilhoso. Deve ser por causa do Aerolula...novinho, lindo por dentro e não enfrenta os problemas dos aeroportos brasileiros. Pelo contrário, quando Lula vem a São Paulo, congestiona ainda mais o aeroporto de Congonhas.

Simão Bacamarte, o alienista de Machado de Assis, é um retrato do Brasil de hoje. Mas este comentário fica para depois.