sábado, 14 de julho de 2007

Crônica: Distância



Depois de alguns dias de férias, Roberto sentia-se fisicamente descansado, recuperado dos meses de trabalho, das horas em claro, das reuniões entediantes, dos relatórios, planilhas e telefonemas. Algo ainda o incomodava. Ele não conseguia importar aquele clima de alegria externa que permeava todos ao seu redor naquele hotel de praia do nordeste. Todos bronzeados, animados, sorrindo, cantando, comendo e bebendo. Felizes - ou ao menos assim se mostravam - com sorrisos largos, como se estivessem em pleno carnaval e aqueles dias fossem durar o resto de suas vidas.


Roberto percebera um abismo entre o clima exterior de alegria e o vazio interior. Enquanto tudo parecia colorido para os outros, para ele, tudo era cinza, em vários tons, mas sempre cinza. Deixara de se encantar por coisas que o alegravam, que o empolgavam. Os carinhos e palavras da mulher eram tratados como se estivesse despachando numa reunião com seus funcionários; as brincadeiras dos filhos arrancavam-lhe um sorrisinho, tímido, amarelo, superficial; o sol, a praia, o céu, os coqueiros e todo aquele cenário não o faziam suspirar. Sentia-se um alienígena, ausente. Sim, ausente. Era esta a descrição que Roberto procurava. Encontrava-se ausente, mas ausente por quê? Não sabia a resposta.


Deu-se conta, que num determinado momento de sua vida, não se lembrava quando, nem onde, nem a razão deste momento ter aparecido, seu coração bateu mais devagar. O olhar carinhoso e eletrizante da esposa murchara. A beleza do rosto se tornara desfocada. O silêncio passou a reinar nos jantares. Teria sido ele o culpado por todo este vazio que agora ampliava seus domínios e corroía todo o seu interior? Era bem capaz de ser ele o culpado por tudo isto. Sem perceber, fechou-se em si mesmo e expulsou todos de sua vida. Deixou todos de fora de seus pensamentos, de suas vitórias, de suas angústias e de suas derrotas. Lutou solitariamente e agora estava só. Abandonado, porém com todos ao seu redor.


Roberto saiu para caminhar na praia, depois do jantar, sob a lua e a brisa da noite. Solitário, como andava nos últimos anos. "Meu Deus, como deixei que tudo isto acontecesse?"- perguntou-se em voz alta. Estava perplexo, mas finalmente havia entendido a razão de seu vazio. Sabia o que tinha que fazer e vencer a inércia iria ser difícil ou até insuperável. Precisava reconstruir a ponte que ele mesmo havia implodido e tentar. Tentar e recomeçar, como tudo na vida.

2 comentários:

Coca disse...

"Roberto"

Descobrir-se só é redescobrir-se...

Anjo Negro disse...

Para recomeçar, tem que ser muito corajoso. Quer dizer, depois de tudo que se construiu, desmanchar e voltar do zero? Eu não teria coragem. Ah, mas só tenho 13 anos. O que posso dizer da vida?
;)
:*