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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Um trecho de Tolstói

Não sou crítico literário, mas apenas um leitor que se delicia com literatura e procura um melhor conhecimento do ser humano através dos livros. Trago aqui um trecho de A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, que comentei brevemente no post anterior. Este trecho é só um aperitivo para que o leitor se interesse pela obra.
"A maioria dos assuntos de conversa entre marido e mulher, sobretudo a educação dos filhos, levava a questões sobre as quais havia lembrança de dissensões, e a cada momento podiam deflagra-se brigas. Sobravam apenas uns raros períodos de paixão, que às vezes assaltavam os esposos, mas que duravam pouco. Eram ilhotas, às quais eles atracavam por algum tempo, mas depois novamente se lançavam ao mar da hostilidade oculta, que se manifestava no afastamento entre eles. Esse afastamento poderia magoar Ivan Ilitch, se ele não julgasse que tudo devia ser realmente assim, mas ele já considerava esta situação não só normal como também o objetivo da sua atuação na família. O seu objetivo consistia em livrar-se cada vez mais dessas contrariedades e dar-lhes um caráter de inocuidade e decência; e alcançava-o passando cada vez menos tempo com a família, e, quando não conseguia evitá-lo, procurava garantir a sua situação com a presença de pessoas estranhas. (...)"
(Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo : Ed. 34, 2006, p. 26)

A amargura deste relato, a distância e a solidão permeiam toda a vida de Ivan Ilitch. Tudo isto se desenvolve com amigos de aparência e culmina com uma doença que o levará à morte.

Poderíamos dizer até que espiritualmente, Ivan Ilitch já morreu. Antes que a vida deixasse seu corpo, já era um morto, entregue e abandonado, sem forças para lutar e reencontrar a alegria. Encontra uma companhia sincera em de seus criados, que o acompanha nas noites e no sofrimento. Alguém que o ouve, que lhe tenta amenizar o sofrimento. Os outros "amigos" não tem mais interesse em conviver com Ivan Ilitch. E ao saberem de sua morte, começam a confabular sobre qual deles irá assumir o cargo público de Ivan Ilitch.

Tolstói traça uma realidade sombria, onde não há espaço para amizade sincera, para um amor vibrante, mas somente interesses e egoísmo.

Tempus breve est!



Autores russos causam uma certa reserva entre leitores por serem geralmente densos, complexos e pesados. No final de outubro do ano passado, procurava um romance curto para ler, pois sabia que com a maior parte do tempo dedicada ao meu projeto de tese no doutorado, o tempo para leituras não jurídicas seria pequeno.


Deparei-me com A Morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstói. São 70 páginas na edição da Editora 34. Como de costume, folheei o livro na Martins Fontes da Av. Paulista. Abri o livro a esmo e li um ou dois parágrafos. Como tem acontecido ultimamente com certa frequência, abro os livros em trechos que me dizem algo e com os quais me identifico. Parece que há uma mão invisível a guiar-me até o livro e a abri-lo no trecho que tocará minha alma e me conduzirá à reflexão.


Resolvi mergulhar neste mundo novo da literatura russa. Gostei muito do livro. Li depois comentários e elogios à obra. Luiz Gastão Leães, em seus Exercícios de Memória, lançado em dezembro, a denomina de uma das "três mais belas pequenas novelas que conheço".


Tolstói era fascinado com o tema da morte. Na parte final de sua vida, em clara e profunda crise existencial, retirou-se para um convento. Pouco depois, faleceu, a 20 de novembro de 1910.


A breve novela conduz o leitor à reflexão sobre a morte, a doença, a dor e à conduta humana ao redor do ser que desfalece. São poucas linhas, mas muitos os momentos e frases que nos levam a meditar. O livro caiu-me como uma luva. Afastava-me do direito e forçou-me a enfrentar certas realidades. Realidades das quais muitas vezes tendemos a fugir, a não encarar de frente. Tirou-me de um período de deriva, de navegação sem rumo. Um daqueles vales emocionais em que nos percebemos muitas vezes.

A brevidade da vida deve mover-nos a agir. Agir, porém, pode exigir espera e que se dê tempo ao tempo. A perspectiva pode nos dar coragem para agir com mais contundência ou apaziguar um ânimo desenfreado e equivocado. Esperar pode significar aguardar o momento certo para dizer certas coisas, ou esperar um encontro ao invés de dizer as coisas apenas através de uma carta. O olho no olho pode ser mais difícil, pode enrubescer o interlocutor, mas é mais sincero. Através do olhar, revelamos os recantos interiores e a sinceridade do sentimento.


Muitas vezes um livro discretamente nos mostra uma luz no final do túnel, dissipa a névoa que baixou ao nosso redor sem percebermos e faz brilhar a luz do sol num novo dia.

A obra de Tolstoi não é mórbida, nem depressiva. É um convite à reflexão e à ação. O tempo é breve (Tempus breve est)!