segunda-feira, 6 de abril de 2020
Microconto
- Boa noite! Sonhe comigo! - escreveu na mensagem do celular.
- Não preciso dormir para sonhar contigo. Basta-me o tempo.
terça-feira, 31 de março de 2020
Crônica do início de uma quarentena
A semana começou de forma estranha, um clima de apreensão no
ar, uma expectativa que se confundia com ansiedade, as escolas e universidades
tiveram suas aulas suspensas, o trânsito ficou mais leve, o fluxo de pessoas na
São Paulo acelerada diminuiu, o rodízio foi suspenso, o som da cidade mudou.
Sempre dei muita atenção para o som da cidade, seus ruídos, sua sinfonia
urbana. Noto as mais sutis mudanças, deixo-me encantar pelos sons de pássaros,
pela algazarra das maritacas no final de tarde. Caminhávamos tateando cada
passo e no aguardo de uma diretriz, um grito de liderança que se mostraria mais
tarde polifônico, dissonante.
Na quinta-feira, dia 19 de março, dia de São José, fui ao
escritório pela manhã seguindo a rotina diária. Peguei o jornal e fui tomar
café. Perguntei para a atendente sobre o movimento na loja e ela respondeu que
havia caído e que amanhã fechariam, sem previsão para reabertura. O estado de
emergência estava instalado pelo prefeito, pelo governador e pelo presidente da
república. Tomei o café, li o jornal sem pressa e despedi-me da atendente
desejando que se cuidasse.
Ao sair na rua, o céu estava cinza claro, nuvens baixas que
se assemelhavam a uma bruma, um calor abafado e a ausência de carros e motos na
rua era notável às nove da manhã. Ouvi então um barulho que vinha do alto e
parecia de uma aeronave. Na hora, fui teletransportado para a Londres de 1940 e
imaginei que veria no céu um avião da Luftwaffe prestes a lançar sua carga de
bombas sobre a capital do império britânico. A palavra guerra, tão usada pelos
nossos governantes, instalou-se no meu subconsciente e a imagem me deixou
desnorteado. Olhei para o alto e passou um helicóptero. Segui meu rumo com serenidade, mas o
clima era de tristeza e medo. Algo de estranho pairava no ar.
O dia transcorreu sem que o telefone tocasse. As páginas de
notícias de jornais, as estações de rádio só tratavam do coronavírus. A
pandemia já estava entre nós e era preciso ficar em casa. O tempo todo e todo
mundo. São Paulo seria o epicentro da contaminação, a cidade mais cosmopolita
do Brasil.
O vírus microscópico não deixa estragos na paisagem, como
uma tempestade, um vendaval, um furacão, um terremoto. O vírus é silencioso.
Esta forma de agir é que deixa tudo estranho e confuso. Os dias de quarentena
serão sábados – ou domingos ou feriados – que se repetirão sem data para
terminar. Ficar em casa nos impedirá de experimentar a cidade fantasma em que
São Paulo se transformará.
Naquela noite, as imagens de entrevistas coletivas revelavam
um futuro de colapso do sistema de saúde, de caos na economia, de cadáveres se
acumulando, de gente faminta, de ruas abandonadas e uma cidade paralisada. Traçaram um cenário apocalíptico. Seria
risível, exagerado e inverossímil se não houvesse notícias das mortes na
Itália, Espanha e os primeiros casos nos EUA.
Políticos cederam lugar a médicos infectologistas,
pneumologistas, secretários de saúde, ministro da saúde. O inimigo é invisível,
mas devastador, disseram de forma unânime. Lavem as mãos, usem álcool gel, não
saiam de casa. O mantra se repetia em todos os canais de televisão, rádios,
sites noticiosos na internet. Pessoas
esgotaram os estoques de álcool gel e máscaras cirúrgicas das farmácias e
supermercados. O papel higiênico virou item de primeira necessidade nos
estoques residenciais. Um medo
contido tomou conta da população, com exceção daqueles que acham que se trata
de uma gripezinha.
Não houve histeria ou pânico generalizado, mas uma aflição
coletiva. O abastecimento dos supermercados seguiu o ritmo normal. O mesmo se
dá nas farmácias e postos de gasolina. Os serviços essenciais seguem
funcionando, mas temos que ficar em casa. Alguns sentem mais o medo, ou melhor, alguns deixam-se tomar
pelo medo da incerteza, da ausência de horizonte. Quando isso tudo vai acabar?
Ninguém sabe, ninguém tem a resposta e a incerteza amedronta, paralisa,
tira-nos a racionalidade.
A invisibilidade do inimigo deveria nos deixar menos
aflitos, mas depois de uma semana inteira de quarentena, as pessoas estão com
as emoções à flor da pele. O medo corrói a coragem e nos drena. Precisamos de
forças para caminhar um passo por vez. Meu otimismo realista me leva a ter esperança e fé de que
vamos superar esta batalha.
Em momentos como este, manter a serenidade, o equilíbrio é
fundamental para a sanidade. Em tempos de pandemia, vale a pena desligar a
televisão. Não se trata de apontar o dedo para o ministro da saúde e acusá-lo
de atacar a imprensa. A imprensa faz o seu trabalho, mas o excesso de notícias
sobre a pandemia faz mal para a saúde mental. Respire, deixe-se respirar, não
se cobre tanto, como escreveu Mafê Probst. Pare de contar os casos, deixe o tempo correr e siga um dia
por vez. Teremos mais capítulos
pela frente.
A pandemia vai acabar e sairemos melhores e mais humanos
desta batalha invisível.
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Renato
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6:18 PM
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quarta-feira, 25 de março de 2020
Quarentena e confinamento: dicas de sobrevivência
| Mãos na massa |
Ao redor do mundo, milhões de pessoas estão em quarentena e confinamento domiciliar. A pandemia do coronavírus impôs ao mundo a maior restrição circulatória desde a Segunda Guerra Mundial. De repente, nos vemos reclusos em casa, com tempo de sobra e tentando ocupá-lo. O que fazer? Vamos a algumas dicas e ideias para tentar tornar mais leve e produtivo este período de quarentena.
1. Estabeleça um horário - organize seu dia e crie uma nova rotina. Se você vai trabalhar em casa, fixe um horário para realizar as tarefas profissionais e procure focar no trabalho. No tempo livre, organize atividades que lhe tragam prazer e distração e que sejam diferentes do que você costuma fazer habitualmente.
2. Ouça música - aproveite para explorar novos estilos, bandas, cantores. Faça um teste, use letras aleatórias no sistema de busca de algum app de música (spotify, dever, iTunes) e veja o que aparece. Algo novo que pode lhe surpreender. Ou então, deixe-se embalar por suas músicas preferidas, crie uma playlist para servir de trilha sonora da quarentena, algo que lhe traga boas memórias.
3. Leia um livro (ou vários livros) - ler é uma viagem, uma experiência enriquecedora, que ativa a memória, enriquece o vocabulário e aumenta nosso conhecimento. Sempre haverá um livro sobre um assunto que lhe interessa. Novamente, tente sair da zona de conforto, leia algo diferente, um clássico, um livro de história sobre pandemias no passado, um romance sobre algo contemporâneo. O importante é usar o tempo com boa leitura.
4. Aprenda uma nova língua - há inúmeros apps que ensinam línguas estrangeiras de forma gratuita. Um exemplo é o duolingo. Uma nova língua expande horizontes e pode ser uma ótima ferramenta em sua próxima viagem internacional. Não vai viajar? Então aprimore o inglês ou o espanhol, competências muito úteis na vida profissional. Já fala estas duas línguas? Então mergulhe nos podcasts do TEDx en español ou o TEDx em inglês. São uma ótima forma de adquirir conhecimento e treinar a língua estrangeira.
5. Reze, medite, reflita sobre a vida - é preciso cuidar da alma neste período. Manter a esperança e refletir. Se você acredita em Deus, tire um tempo para rezar, ler um livro que trata de temas espirituais. Há diversas livrarias que fazem entregas e você pode comprar o livro online. Se você não pratica nenhuma religião, medite, pare uns minutos ao longo do dia para meditar e pensar sobre o que está acontecendo no mundo, na sua vida, com sua família. Este é um ótimo momento para crescimento espiritual.
6. Faça um curso online - diversas plataformas estão disponibilizando acesso gratuito aos seus cursos online. Procure algo que lhe interessa e fuja apenas dos cursos profissionais. Faça um curso sobre história da arte, um curso sobre literatura, culinária. Ache algo que lhe interessa mas que você nunca teve tempo para se dedicar.
7. Organize armários - faça uma limpeza em armários e na casa. Tire roupas velhas ou que não utiliza mais e aproveite para separá-las para doação. Há muita gente necessitada e o inverno se aproxima. Sua doação servirá para ajudar muitas pessoas em estado de necessidade.
8. Faça algo novo - monte sua árvore genealógica, escreva um livro com os filhos, faça um curta metragem, entre com contato com familiares que você não conversa há muito tempo, faça uma live da crianças com os avós, aprenda a cozinhar, cuide de plantas, organize um álbum de fotografias.
9. Aproveite a tecnologia para manter o contato social - utilize as redes sociais de forma cordial e de modo a reatar contatos ou construir novos contatos. Vamos deixar de lado as picuinhas e implicâncias políticas e tentar construir pontes. A hora não é para incrementar o ódio, mas para pacificar os ânimos. Há apps, como House Party, que permitem várias pessoas jogar um jogo por vídeo conferência. Aliás, a vídeo conferência está em alta nestes tempos, revelando que Skype já era e está em muito superado.
10. Cozinhe - o ato de cozinhar é um ato de amor e um ato de união familiar. Não tem ideia de como fazer arroz? Procure um vídeo ou site de receitas e aprenda. Saber cozinhar é uma questão de sobrevivência e uma tarefa manual que distrai e enche de prazer. Se alguém na sua casa sabe cozinhar, peça que lhe ensine. Os adolescentes podem ter muito proveito destas aulas caseiras.
O importante é saber ocupar o tempo de forma produtiva, aproveitar o ócio para criar, inovar, pensar e se reinventar. Quanto tempo vai durar a quarentena? Não tenho ideia, mas o importante é aproveitar o tempo e não enlouquecer.
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Renato
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segunda-feira, 23 de março de 2020
Pandemia - uma breve reflexão
Depois de 16 anos, este é o milésimo post deste blog. Mil postagens. Sem dúvida, nos últimos anos,
o ritmo diminuiu, o meio “blog” virou vintage, deixou de ser uma forma mais
popular, sendo ultrapassado por podcasts, vídeos e afins. Mas o texto permanece
e é atemporal. A poesia de Fernando Pessoa reina como o assunto mais pesquisado
e lido neste blog.
Tinha várias ideias para celebrar este marco do blog, mas a
realidade sempre nos surpreende e oferece a matéria prima de que necessitamos
para refletir, pensar e trabalhar. Trabalhar a realidade, moldá-la para tentar
entender este mundo contemporâneo, ou ao menos, fazer um esforço por
compreendê-lo.
Eu, assim como todos os brasileiros, estou em quarentena. Um
isolamento domiciliar que é compartilhado com milhões de pessoas ao redor do
mundo em decorrência da pandemia causada pelo coronavírus e a Covid-19, doença
causada pelo vírus.
O ser humano é um animal essencialmente social, pontificou
Aristóteles. E agora, vemo-nos obrigados à reclusão, a uma clausura não
voluntária, mas imposta. A clausura é uma escolha de vida para religiosos e
religiosas contemplativos católicos, que se afastam do mundo e vivem uma vida
de oração e trabalho. Carmelitas e beneditinos são ordens religiosas que seguem
este carisma. A vida de oração
contemplativa, quase sem falar, sem convívio com o mundo exterior do convento
ou do mosteiro.
Hoje, somos obrigados a abraçar um estilo de vida de
isolamento, temporário claro, mas um estilo de vida que não condiz com o
cosmopolitismo das cidades e com a interação social tão cara ao povo
brasileiro. Iniciamos neste período de quarentena a travessia de um deserto.
Não sabemos por quanto tempo ficaremos reclusos, não sabemos o que nos espera
ao final da travessia, não sabemos que intempéries serão enfrentadas. A
incerteza pode gerar medo. É natural, mas precisamos buscar a serenidade e a
esperança para realizar a travessia deste deserto com sucesso.
Em 1374, foi ordenada a quarentena de todos os cidadãos de
Veneza para evitar o contágio com o “ar envenenado” pela Peste Negra, que
dizimou metade da população europeia. Em 1569, a grande peste que atingiu
Lisboa levou a uma fuga em massa da cidade. Narrativas daquela época relatam
que havia um ar triste na cidade, abandonada e largada ao destino.
A realidade hoje é outra. Podemos fazer a quarentena com
certo conforto, com acesso a informação e aos meios de comunicação, não falta
comida e nem água e a ciência evoluiu muito desde então.
Vejo muitos reclamarem. Vejo muitos apontarem o dedo e
incitarem o conflito. Penso que a hora é de reflexão pessoal, penso que nos é
dado uma oportunidade de vivermos de forma contemplativa por algumas semanas,
reclusos como se num retiro espiritual – chame de jornada se preferir. Não por
acaso, tudo isto acontece durante o período da quaresma para os católicos. Um
período de penitência, de exercício fraterno de caridade, de conversão de vida,
de mudança. Um período que nos leva a olhar para a frente, com fé e esperança,
pois uma nova fase se inicia com a Páscoa.
Não quero aqui tentar justificar esta pandemia, não é esta
minha pretensão, mas quero provocar uma reflexão – já que temos tempo sobrando
para fazê-la – sobre a transcendência do ser humano, da caridade, da
solidariedade, da generosidade, da empatia. Penso que este momento é muito
oportuno para exercitarmos estas virtudes, estas qualidades humanas (se assim
preferirem).
Antes de reclamar, agradeça pelo que tem e pelo que lhe é
dado. Antes de ter medo, olhe para frente com esperança e pense como mudar sua
forma de agir após a sua saída da clausura. A travessia do deserto deve ser
feita um dia por vez, serenamente, com fortaleza e resiliência. Aproveite o
tempo que é dado, pois o tempo é um bem muito escasso e caro na
contemporaneidade.
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Renato
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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020
Trechos: Das terras bárbaras, de Ricardo da Costa Aguiar
"Afinal, se um anjo tinha sucumbido ao peso do orgulho, da inveja e da cobiça, o que esperar de nós, carne fraca? O anjo caído era uma vítima que merecia minha compaixão, eu o reconhecia em mim. Estudante, mudei essa imagem do Mal, transmutei-o em uma bela figura filosófica. Passou a ser a ausência do Bem, como o escuro é a ausência da luz. Passou a ser o lado animal dos homens, pronto a sucumbir sob a razão e o espírito. O Mal era inerte, uma sombra adormecida que se afastava na presença de tudo o que é puro. foi no calor de Maruery que o conheci como de fato ele é, viscoso e grudento. Ali eu o vi de perto, fétido e deformado, rouco e irracional."
(Ricardo da Costa Aguiar, Das terras bárbaras, São Paulo : Tordesilhas, 2019, p.112-3)
O romance de estreia de Ricardo da Costa Aguiar foi uma grata surpresa. Texto requintado, trabalho cuidadoso nas citações de latim que se espalham pelo texto. Além de ser ótima leitura, o romance ainda nos incrementa a cultura.
O romance traz duas estórias em paralelo: um jovem diplomata e sua busca pelos antepassados e um jovem jesuíta que parte da metrópole para a colônia, e na colônia se depara com sua queda, causado ou não pelo anjo caído.
Chamou-me mais atenção os detalhes com que a narrativa retrata a viagem de Lisboa a Salvador, depois a vida na colônia, a capital Salvador no seu esplendor, a pequena São Vicente e a subida da Serra do Mar até Piratininga e Maruery (hoje Barueri, e que outrora foi uma grande aldeia indígena). O escritor desvela toda sua cultura histórica e ensina enquanto entretém o leitor com uma trama bem costurada.
No final, o livro se torna um pouco previsível, mas não tira o mérito da obra. Vale a leitura.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2020
Memória: Matriarcas
| (c) rbueloni |
Voltando de férias no Uruguai, dei-me conta que minhas avós sobreviveram aos meus avôs. Um morreu em 1977 e o outro em 1990, no dia 15 de março, dia da posse de Fernando Collor. Boa parte da minha pós adolescência foi de convívio com as matriarcas da família. Percebo que a história se repete e meus filhos deparam-se com semelhante realidade. O convívio com os avôs foi breve, mas deixou suas boas memórias. Agora aproveitam o tempo com as avós, um pouco debilitadas na locomoção, mas lúcidas, sozinhas e independentes.
Quantas mulheres não sobrevivem aos seus maridos? Ouso dizer que a maioria e se adaptam bem a uma nova realidade, uma nova fase de aprendizado e de superação do medo. De repente, tem que administrar as finanças da casa, lidar com trâmites burocráticos e jurídicos. Não estou aqui a dizer que estas tarefas são "coisa do homem da casa", mas ainda são costumeiramente realizadas pelos maridos. Navegar pelo internet banking pode ser um tormento, mas elas aprendem rápido, são curiosas e descobrem um mundo diferente.
Minha mãe está aprendendo a viver só e a lidar com um mundo tecnológico onde operações bancárias são feitas todas por aplicativos, a pedir ajuda aos filhos e reconhecer que este pedido de ajuda não indica fraqueza ou debilidade, mas é antes de tudo um exercício de humildade. Para os filhos, é uma realidade onde deixamos de ser cuidados e passamos a cuidar. Esta realidade chega de repente e só percebemos isto ao acompanhar o pai ou mãe num leito de hospital.
Quando se percebe, o tempo passou e não corremos para o colo seguro do pai e da mãe, agora somos nós os responsáveis por carregá-los, apoiá-los, ajudá-los. De adultos fortes, a fragilidade toma conta dos pais e descortina o inevitável ciclo da vida. O tempo é cruel e não espera. Se demorarmos a perceber esta mudança de fase da vida, o tempo acaba. Não é possível fazer uma pausa ou estancar o caminhar constante do tempo. O importante é ter a consciência dessa realidade e sorver o tempo, não deixando que uma oportunidade sequer passe sem que possamos dizer um "sim" a quem nos pede ajuda, ou apenas um pouco de tempo e atenção.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2020
Que venha 2020!
Que em 2020 deixemos a vida mais simples, que olhemos nos olhos, que nos desconectemos dos celulares, que apreciemos o aroma do café e de temperos na panela, do alimento fresco preparado com carinho na companhia de amigos, que tiremos tempo para conversar e contemplar o cotidiano à nossa volta, as flores, as árvores, a chuva que cai, um raio de sol que adentra a janela.
Que deixemos brotar um sorriso de bom dia, que saudemos as pessoas de nosso convívio pelo nome, que escutemos a música e deixemos aflorar as boas memórias, que abracemos aqueles que são mais velhos e participam de nossas vidas, que desfrutemos das conquistas e lutas diárias e que saibamos estender a mão para quem está do nosso lado! Que 2020 sopre bons ventos em nossas vidas!
Resoluções? Basta querer mudar o que você acha que precisa mudar e aproveite o tempo para descobrir e aprender algo novo!
Feliz 2020!
Postado por
Renato
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019
Feliz Natal!
Desejamos a todos os nossos leitores e amigos, um Feliz Natal! Que o nascimento do menino em Belém seja um motivo de alegria e renovação em nossas vidas!
E que o ano novo de 2020 seja um ano repleto de conquistas, realizações e um Brasil mais próspero, tolerante e com redução de desigualdades! Que seja um ano de efetiva retomada econômica, de melhorias na educação e na saúde, que seja um ano de retomada do diálogo e de um esforço coletivo para melhorar este país, que o Congresso e os políticos sejam sensíveis à realidade e que o Judiciário seja mais ágil, equilibrado e saiba abrir mão de privilégios que oneram o Estado.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2019
Memória: Cemitério
instagram: @rbueloni Cemitério Gethsêmani no início da primavera, setembro 2019 |
MEMÓRIA: CEMITÉRIO
O cemitério é um lugar familiar para mim. Sempre gostei de
visitar cemitérios por dois motivos: pesquisas genealógicas e contemplação
artística.
Desde meus 13 anos de idade ganhei gosto por pesquisa
genealógica. Nunca busquei algum antepassado genial ou famoso ou importante ou
rico. O que sempre fascinou foi a história, o passado, a luta de cada pessoa
para sobreviver, para mudar de um país para outro e tudo isto é possível
resgatar em documentos. É uma espécie de pesquisa arqueológica, onde se
descobre como as pessoas viviam. Cemitérios são uma importante fonte de
pesquisa e de dados. O Cemitério do Araçá e o Cemitério São Paulo foram
visitados por mim várias vezes. Talvez eu seja uma das únicas pessoas da
família que sabe o caminho até os jazigos naquele emaranhado de ruas parecidas
entre os túmulos.
Nestes passeios pelos cemitérios, percebi que há uma riqueza
arquitetônica escondida, silenciosa, pronta para ser admirada e descoberta. No
Cemitério da Consolação, há um tour com guia que explica cada uma das
esculturas encomendadas a artistas famosos como Bruno Giorgi, Emendabili e
Victor Brecheret. No Cemitério São Paulo, há obras monumentais de beleza única
e algumas tristes e melancólicas. Nunca me senti incomodado nestes lugares.
Acho curioso como o brasileiro trata cemitério com um certo
receio, um medo de adentrar naquela local onde repousam nossos antepassados.
Porém, é comum encontrar brasileiros no Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires,
ou no Cemitério Pére Lachaise, em Paris. Alguns túmulos são verdadeiras
atrações turísticas. Por outro lado, após o sepultamento de um ente querido,
muitos esquecem até o cemitério onde estão enterrados.
Há pouco mais de um ano e mês atrás fui ao cemitério do
Araçá para fotografar as placas do túmulo de meus bisavós com os nomes e datas
de nascimento e falecimento. O cemitério estava deserto naquela tarde de sábado
do final de novembro de 2018. Fiquei ali mais de uma hora, contemplando,
refletindo sobre a vida e a morte. O ano de 2018 havia sido um ano difícil e tudo
parecia caminhar para um final de superação da luta contra o câncer, tanto da
minha mãe, como do meu pai.
Um mês antes havia comparecido ao velório da mãe do meu
cunhado no cemitério do Morumbi. Um cemitério jardim, um lindo campo gramado
com árvores e flores e jazigos no chão. Não há obras de arte, mas há uma
serenidade acolhedora naquele local. Meu pai comentou para minha mãe que
precisava comprar um jazigo. Ouvi a conversa sem fazer qualquer comentário.
Apenas ouvi e pensei que de fato é algo que faz parte da nossa rotina.
Pouco depois, no dia 23 de dezembro de 2019, meu pai
faleceu. Ele foi enterrado no Cemitério Gethsêmani, em São Paulo. Desde então,
visitar o cemitério passou a ser parte da minha rotina quinzenal ou semanal. Algumas
visitas curtas e outras mais longas. Em todas, reflito sobre a morte, a vida e
rezo, crente de que ele deixou este mundo para contemplar a face de Deus. Visu sin beatus tuae Gloriae.
Escrevi estas linhas mentalmente diversas vezes nestes
meses. Por diversas vezes iniciei o texto diante do túmulo de meu pai. Não tinha força para escrevê-las. Mesmo agora, impossível escrevê-las
sem que as lágrimas de saudade brotem. Um amigo psicólogo havia me alertado que
o primeiro ano de luto é o mais difícil e que demora um ano para bem elaborar o
luto. Um ano se passou e ainda que sinta saudade, a memória que fica guardada é
sempre positiva e alegre. Neste Natal ele não estará presente entre nós
fisicamente, mas tenho a certeza de que está olhando e intercedendo por nós lá
de cima.
Ir ao cemitério, para mim, ganhou um novo relevo, uma nova
razão. Deixei de ver o cemitério como um lugar triste e a lembrança do velório
e do enterro – ainda tão vivas – deixaram de ser doloridas para se tornarem uma
celebração da vida e da ressurreição. Todos morreremos um dia, descansaremos.
Para os católicos, esperamos chegar ao Céu e alcançar a vida eterna ao lado de
Deus.
Talvez alguém se pergunte a razão deste texto fúnebre num
dia festa. Repito, não vejo a morte como algo que devemos temer ou algo
melancólico. Há a dor da perda, mas há algo muito mais profundo que cada um de
nós precisa refletir e descobrir. O tempo passa e as pessoas se vão.
Nestes dias que celebraremos o Natal, em família ou ao lado
de amigos, aproveitemos para desfrutar de quem está do nosso lado. Façamos
desta celebração um momento para perdoar, para acolher, para estender a mão e
construir novas pontes, para abraçar a quem tanto estimamos. Não guarde aquela
palavra de carinho, solte-a, lance a semente do bem a quem está à sua volta,
mande aquela mensagem ao amigo que está distante, não tema ser generoso,
bondoso, afável. Como diz a canção Trem
Bala, “sorria e abrace teus pais enquanto estão aqui”. Um dia, eles alçam voo
para junto de Deus.
sexta-feira, 6 de dezembro de 2019
quinta-feira, 21 de novembro de 2019
Poesia: Natureza Morta
| instagram @rbueloni |
NATUREZA MORTA
Renato Bueloni Ferreira
demorou a falar.
deixou que as palavras entaladas lhe sufocassem,
roubassem-lhe o brilho do dia
a luz do sol
a brisa marítima matinal
a energia do despertar
o sorriso do rosto dele.
demorou tanto a falar,
que as flores morreram,
o sentimento murchou,
a alegria evaporou
e ela passou.
terça-feira, 5 de novembro de 2019
A treva, de Adélia Prado
Foto: Alta noite, Renato Bueloni Ferreira |
A TREVA
Adélia Prado
Me escolhem os claros do sono
engastados na madrugada,
a hora do Getsêmani.
São cruas claras visões,
às vezes pacificadas,
às vezes o terror puro
sem o suporte dos ossos
que o dia pleno me dá.
A alma desce aos infernos,
a morte tem seu festim.
Até que todos despertem
e eu mesma possa dormir,
o demônio como a seu gosto,
o que não é Deus pasta em mim.
(Poesia Reunida, 2a. ed. Rio de Janeiro : Record, 2016, p. 249)
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Renato
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