sexta-feira, 6 de junho de 2014

Conto: Montjüic



MONTJÜIC

Subiu ao alto de Montjüic, sentou-se num banco com vista para o Mediterrâneo e deixou que a brisa fria daquela tarde lhe acariciasse o rosto, uma leve lembrança da morte. O céu de outono estava sem nuvens, mas a temperatura trazia sinais de que o verão partira mais uma vez. O olhar fixo no horizonte azul, céu e mar fundiam-se no infinito em uma única massa, ar e água unidos de forma indissociável e imperceptível ao olho nu e a visão embaçada de Pedro que recorria aos óculos desde a mais terna idade dava-lhe a sensação de um cenário surrealista, esfumaçado.

- É possível encontrar a felicidade até na dor.

Estas palavras de Carmen Ferret não faziam o menor sentido para ele. Como aquela mulher tinha sido capaz de superar a dor da morte, da traição, do abandono, da solidão? Onde encontrara forças para sobreviver e seguir adiante? Que tipo de ser com forças sobre humanas era ela? Uma santa a caminhar na terra? Um espírito elevado que alcançara algum grau de nirvana e que mantivera-se impassível e sereno diante da guerra, da indiferença do marido, do esquecimento dos filhos, da ingratidão dos colegas de universidade, da falta de reconhecimento de seu trabalho humilde e perseverante, mas genial?

As perguntas se repetiam e bombardeavam a mente de Pedro. Estava convencido de que precisava se contentar com a inexistência da felicidade, de que amor verdadeiro não existia e de que a vida não passava de uma sucessão de eventos que culminavam com a morte, o último ato de uma longa peça teatral e cujo final era imprevisto e para qual não havia ensaio, chance de repetir as cenas. Algumas peças eram de curta duração. Outras alongavam-se de forma exagerada, de forma tediosa e despidas de sentido. Algumas eram cômicas, algumas trágicas, mas na sua maioria doloridas e melancólicas. Esta era a palavra que buscava. A vida era melancólica, como nos inúmeros romances de Dostoievski. A felicidade era uma criação do marketing para vender livros de autoajuda, para enganar os pobres mortais, para incentivar o consumismo desenfreado de drogas, bebidas e aparelhos eletrônicos hipnotizantes e bestificantes.

Lembrou-se de uma viagem a Atlanta, a trabalho, quando teve a oportunidade de visitar a sede mundial da Coca-Cola. Aquele slogan repetido à exaustão em filmes, comerciais e painéis eram um indicativo claríssimo do poder do marketing e da prevalência da mentira sobre a realidade. Open happiness. Abra a felicidade. Abra uma garrafa de coca-cola e consuma açúcar, conservantes cancerígenos, produtos químicos cujas propriedades são desconhecidas, ganhe vários quilos a mais. Afinal, obesidade é a nova tendência mundial. Uma latinha de coca-cola pode lhe trazer a felicidade momentânea, mas pode lhe brindar com efeitos colaterais nefastos. Ou talvez, não. Talvez eles tenham razão. Se o refrigerante lhe faz mal, então o líquido abrevia sua vida, encurta o sofrimento e se a morte é a felicidade suprema e derradeira, de fato, consumir a bebida deixa a felicidade mais próxima.

Balançou a cabeça em repugnância àquelas ideias malévolas e conspiratórias tão próprias de algum inimigo do capitalismo, de algum defensor do regime cubano.  Mas era verdadeiro que ficou decepcionado quando se deu conta de que a Coca-cola não passava de uma empresa de marketing, não uma empresa de bebidas.

Tentou ordenar suas ideias, retornar o foco ao ponto de partida e deixou seu olhar passear pelo mar em busca de algum barco ou navio. Um ferry boat aproximava-se do porto trazendo pessoas vindas de Mallorca. Ao redor, poucos turistas se aventuravam naquele vento, agora mais gelado, no alto de um dos melhores pontos de observação da bela Barcelona. Algumas crianças brincavam nos canhões usados na Guerra Civil e que agora repousavam silenciosos, lembrança de tempos sombrios e de constante turbulência.


Será que Alice está feliz, onde quer que ela esteja? Será que ela zela por mim? Será que ela me ouve? Será que eu a encontrarei algum dia? Ao pensar isto, seus olhos marejaram e ele suspirou profundamente. A saudade lhe assombrava com força ainda maior. Apoiou os cotovelos nos joelhos, mergulhou a face por entre as mãos e chorou. Novamente. 

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Epígrafe - XXVII




"Nós temos a capacidade de pensar como será o futuro daqui a vários séculos. Comece a tarefa mesmo que ela não vá ser terminada durante a sua vida. Esta geração tem a responsabilidade de remodelar o mundo. Se fizermos um esforço, isso poderá ser realizado. Mesmo que tudo pareça sem esperanças agora, nunca desista. Ofereça uma visão positiva, com entusiasmo e alegria, e uma perspectiva otimista." 

Dalai Lama

(citado por Daniel Goleman, Foco. trad. Cássia Zanon. Rio de Janeiro : Objetiva, 2014, p. 247)

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Reflexões sobre ser pai



Foi  numa noite recente  quando a observei falar com desenvoltura e segurança, os olhos traziam um brilho contagiante e as mãos gesticulavam com intensidade. Nunca fora tímida. Sempre extrovertida e atirada, muito falante, sorridente, revelando uma segurança tão própria dela, mas que disfarçava um medo interior que era afastado com um pedido para segurar minha mão ou um abraço longo.

Antes das competições de xadrez, não se sentava diante do tabuleiro antes de me pedir um beijo de boa sorte e algumas palavras de incentivo e confiança.  Nos momentos de dúvida, recorria a mim e o diálogo fluía leve e compreensivo, mesmo em temas complexos, mesmo quando era preciso dizer não – e foram vários “nãos” -, mesmo quando se tratava de algum tema mais espinhoso. Surpreendi-me no começo em como era possível conversar com ela com tanta facilidade. 

Era uma noite de sábado, percebi que a menina deixara para trás a infância e adentrara na adolescência. Iria fazer 13 anos em breve e reparei que naquela noite, seu jeito era diferente. Passamos por duas fases e sinto que uma nova fase da paternidade se inicia. Ser pai é um desafio e um constante aprendizado, um observar, um estar presente, um escutar constante, um gesto de afeto e carinho, um beijo noturno para embalar o sono e os sonhos, um ombro amigo quando a fragilidade infantil ainda se manifesta.  Ser pai é antecipar gostos e adivinhar o pensamento dos filhos, sorrir e abraçá-los quando o choro é inevitável, puxar para cima, dar o exemplo. A lista é infindável. Cansativa? Não, reconfortante e cheia de alegrias.

Mais um ano, mais um aniversário. Vejo-me como um trapezista a balançar no trapézio, no alto do picadeiro, segurando a moça, olhando-a nos olhos e preparando-me  para soltá-la para a vida, lançá-la em  piruetas no ar, confiante de que conseguirá atravessar o espaço e voar até o outro trapézio agarrando-o com firmeza e vontade.


Minha filha fez 13 anos. Com ela aprendi a ser pai e com ela aprendi que a paternidade (e a maternidade também) é um ato generoso de  que Deus que permite a nós mortais participar no processo de criação da vida.

sábado, 17 de maio de 2014

Desassossego - II



Desassossego. Palavra adulta que não cabe na boca de uma criança. Passamos a nos questionar e o desassossego nos faz companhia. É própria do mundo adulto, das inquietações que afligem o ser pensante e que nos foi apresentada pelo inigualável poeta lusitano. Retrata com precisão um estado da alma, mais profundo e que não se percebe na superfície, num sorriso disfarçado, numa lágrima escondida, num tom de voz falso.

Desassossego que vem com a aflição por pagar contas, com a falta de trabalho, com o dia de amanhã, com a semana seguinte, com o chefe neurótico, com a resposta que não chega, com o diagnóstico do tumor que se espera, com o resultado do concurso, com o telefone que não toca, com o silêncio que incomoda, com o pecado que macula e condena. Deixamo-nos levar e esquecemos do hoje.


Desassossego que nos acompanha e se faz presente no mundo moderno, na vida corrida, na hiperatividade, mas que nos enfrenta quando nos deparamos com um espelho e então ele lança a pergunta incômoda, aquela que tentamos fugir atulhando a mente com distrações e milhares de afazeres. Desviamos da resposta que cutuca no fundo da consciência, empurramo-la para depois e a vida segue, com o desassossego como companheiro. Sábio poeta que soube enxergar tão bem a alma humana.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Desassossego


imagem: instagram @rbueloni


Sinto o peso das noites insones, em horários variados, na manhã seguinte. É uma ressaca de você, algo que não deveria ocorrer, algo ao qual deveria ser totalmente indiferente, dar de ombros, olvidar sem demasia. Esquecer parece mais difícil do que viver.

Há dias de calmaria e noites estreladas quando navego no mar plácido e nas águas sem ondas, até que algo dispara o inesperado alarme causando um desassossego na alma. Desassossego. Palavra complicada até para escrever com este monte de esses. Letra sinuosa que retrata tão bem as surpresas e as peças que a vida nos prega. Faz-se uma curva e pronto, depara-se com um nome que dispara uma viagem no tempo da memória e tudo se materializa. O sorriso, a voz, o perfume, o jeito.

Partidas nunca são algo corriqueiro, salvo se tivesse um gélido coração, coisa que descobri ser inexistente. A tranquilidade é afastada de forma imprevisível, quando a solidão cala fundo e tua ausência se faz tão presente. Sei que um dia não haverá espaço para isto e lágrimas serão poucas e hão de secar. Basta ler teu nome que os momentos de inquietação me tomam o ser e isto ocorre na quase totalidade das vezes.

Sinto o desassossego daquilo que poderia ter sido e não foi, sinto o desassossego de não ter tido mais tempo, de não poder me despedir. E terei eternamente saudade daquilo que não foi.

terça-feira, 6 de maio de 2014

O penico




Poderia ser um penico, daqueles de ágata branco e com borda preta, igual ao que existia na casa de minha avó e em tantas casas de avós e fazendas pelo interior do Brasil. Um penico que, depois que as crianças cresciam, era usado para brincar na banheira para o desespero de minha avó que achava inconcebível usar o penico como baldinho ou como pequena bacia para derramar água sobre os cabelos.  Penico que perdeu seu uso com o tempo e virou objeto de decoração, com tom nostálgico de um passado onde o tempo parecia ter outro ritmo, onde a interação das pessoas era feita de forma direta, sem o intermédio de aplicativos e pequenos aparelhos eletrônicos.

Poderia ser um penico só para você. Um penico para que você despeje tudo que quiser, jogue todo o lixo, todo desabafo, todo o choro, toda a raiva, todo e qualquer excremento que queira se livrar e lançar fora. Meus ouvidos poderiam ser um penico e quem sabe, de tanto lixo, seria capaz de perder a paciência com você, de me irritar e desencantar. Passaria a te evitar e você descobriria que o amigo não existia.


Mas há um sério risco em ser penico, há o outro lado da moeda. Lixo pode ser transformado em adubo e adubo pode servir para fertilizar jardins e terra estéril. E da terra improdutiva, após fertilizada, podem nascer flores e árvores para acolher pássaros a cantar. E o que era resíduo expurgado por você, posso transformá-lo em flores e sorrisos. Há o risco do penico se tornar belo e indispensável. E há riscos que vale a pena correr! 

*  *  *  *

NOTA: Quando escrevi este texto e fui procurar uma foto para ilustrá-lo, descobri que o google só retorna a busca para "pinico". Bem, fui ao dicionário com minha ortografia posta em xeque e confirmei que "pinico" não existe. A grafia certa é "penico". Então meu caro leitor, se passar por aqui, lembre-se que "pinico" não existe, ou melhor, só existe como uma forma forma popular de referir-se ao verbo "pinicar" (1. picar com o bico; 2. provocar comichão; 3. beliscar, cutucar).



quarta-feira, 30 de abril de 2014

Epígrafe - XXVI


"Se a infelicidade produz literatura, será certo também dizer que a literatura produz felicidade."
Cristóvão Tezza



 

A citação foi tirada da parte final da conferência de Cristóvão Tezza, proferida na Academia Brasileira de Letras, dentro do Ciclo "Vozes contemporâneas : a ficção", que traz grandes autores brasileiros. 

As outras conferências estão disponíveis na íntegra no canal do Youtube da ABL.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Poema VII, de Pablo Neruda


Poema 7



Inclinado en las tardes tiro mis tristes redes 
a tus ojos oceánicos. 

Allí se estira y arde en la más alta hoguera 
mi soledad que da vueltas los brazos como un náufrago. 

Hago rojas señales sobre tus ojos ausentes 
que olean como el mar a la orilla de un faro. 

Sólo guardas tinieblas, hembra distante y mía, 
de tu mirada emerge a veces la costa del espanto. 

Inclinado en las tardes echo mis tristes redes 
a ese mar que sacude tus ojos oceánicos. 

Los pájaros nocturnos picotean las primeras estrellas 
que centellean como mi alma cuando te amo. 

Galopa la noche en su yegua sombría 
desparramando espigas azules sobre el campo.


(Vinte poemas de amor e uma canção desesperada)

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Olhos oceânicos




Mergulhei nas profundezas de teus olhos oceânicos, naquela noite, enquanto contavas-me segredos escondidos e vertia lágrimas que enxugava com meus dedos, não deixando que elas percorressem seu rosto sem que lhe afagasse a face. Confortava-lhe, ouvia, condoía-me contigo. Percebi que há mais mistérios no mar além da superfície e que a superfície, aparentemente calma e impassível, escondia correntes, arrecifes, turbulências, tesouros, naufrágios, maremotos.

Seus olhos oceânicos disfarçavam bem o medo de nadar abaixo da superfície, do risco de ficar sem ar e sofrer de descompressão. 

Naquela noite entendi porque preferia o mar à montanha, a praia e o calor ao campo e à vida bucólica. O mar é revolto, inquieto, indomável; o campo é plácido, previsível, cíclico. O mar esconde-se por debaixo de sua superfície, com suas pequenas ondas e repiques que se manifestam com grandeza apenas nas praias e pedras do litoral. Assim era você. Assim é você. Um mar imenso a ser explorado, escondendo perguntas e respostas, muitas que sequer esperou para formular e outras tantas que não respondeu. Deixou-se levar pela corrente, sem tempo para pausas e devaneios e beijos,  sem paciência para esperar. 

Naquela noite percebi que seus olhos oceânicos não precisavam ser azuis para espelhar o mar sem fim. Bastava disfarçar o que guardas lá no fundo, onde a luz não alcança, onde não há oxigênio e a vida é escassa. Ali, naquele recanto de alguma fossa abissal, guardas o tesouro mais precioso que sua alma esconde. Sim, o mar tem alma e vida. Mas teus olhos oceânicos afastam intrusos e aventureiros, deixando apenas os experientes navegarem pelo teu mar, ainda que pereçam em alguma tempestade.

Qual canto da sereia, teus olhos oceânicos hipnotizam, seduzem e deixam os marujos inebriados com tua doçura, apenas para provar da ira e da dor do desterro. Não há desterro, porém, que traga arrependimento ao homem do mar. Aquele que prova dos teus olhos oceânicos, jamais te esquece.



PS: a referência a olhos oceânicos foi extraída de um poema de Pablo Neruda, que será publicado neste blog.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Dia mundial do Livro


Crédito da imagem: instagram @rbueloni



Hoje é o dia mundial do livro. Uma invenção simples, mas que nos conduz por mundos distantes, que provoca a imaginação, que aguça o sentidos, que acende a chama da saudade, que incendeia corações e ilumina mentes. O livro pode ser destrutivo também, mas seus benefícios são inegáveis. A leitura, para alguns, é mais que um hábito, é uma necessidade vital, como o ar que respiramos ou o alimento que ingerimos.

Pergunte-se: qual o livro que mais lhe impressionou? Qual o livro que mais gostou? Qual o primeiro livro que você leu e que lembra até hoje?

Se fosse um livro, qual livro seria?

Eu, diria, que se fosse um livro, não seria um, mas que sou composto por fragmentos dos livros que li.


terça-feira, 8 de abril de 2014

Summertime Sadness, de Lana del Rey





Summertime Sadness

Kiss me hard before you go
Summertime sadness
I just wanted you to know
That, baby, you're the best

I got my red dress on tonight
Dancing in the dark in the pale moonlight
Done my hair up real big beauty queen style
High heels off, I'm feeling alive

Oh, my God, I feel it in the air
Telephone wires above are sizzling like a snare
Honey, I'm on fire, I feel it everywhere
Nothing scares me anymore

(1, 2, 3, 4)

Kiss me hard before you go
Summertime sadness
I just wanted you to know
That, baby, you're the best

I got that summertime, summertime sadness
S-s-summertime, summertime sadness
Got that summertime, summertime sadness
Oh, oh, oh, oh, oh

I'm feelin' electric tonight
Cruising down the coast goin' 'bout 99
Got my bad baby by my heavenly side
I know if I go, I'll die happy tonight

Oh, my God, I feel it in the air
Telephone wires above are sizzling like a snare
Honey, I'm on fire, I feel it everywhere
Nothing scares me anymore

(1, 2, 3, 4)

Kiss me hard before you go
Summertime sadness
I just wanted you to know
That, baby, you're the best

I got that summertime, summertime sadness
S-s-summertime, summertime sadness
Got that summertime, summertime sadness
Oh, oh, oh, oh, oh

Think I'll miss you forever
Like the stars miss the sun in the morning sky
Later's better than never
Even if you're gone I'm gonna drive (drive, drive)

I got that summertime, summertime sadness
S-s-summertime, summertime sadness
Got that summertime, summertime sadness
Oh, oh, oh, oh, oh

Kiss me hard before you go
Summertime sadness
I just wanted you to know
That, baby, you're the best

I got that summertime, summertime sadness
S-s-summertime, summertime sadness
Got that summertime, summertime sadness
Oh, oh, oh, oh, oh