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terça-feira, 14 de junho de 2011

Álvaro de Campos no aniversário de Pessoa

No dia 13 de junho de 1888, nasceu em Lisboa o grande poeta português Fernando Pessoa. Com ele, nasceram seus heterônimos e o mundo ganhou um poeta ímpar. Ontem, fez 123 anos que o poeta veio ao mundo. E para relembrar, um poema sem título de um de seus heterônimos, Álvaro de Campos.

No lugar dos palácios desertos e em ruínas
À beira do mar,
Leiamos, sorrindo, os segredos das sinas
De quem sabe amar.


Qualquer que ele seja, o destino daqueles
Que o amor levou
Para a sombra, ou na luz se fez a sombra deles,
Qualquer que fosse o voo


Por certo eles foram mais reais e felizes.

(Poemas de Álvaro de Campos. Org. Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1999, p. 362)

É melhor viver com a saudade do amor do que nunca ter amado. Se o amor se foi, resta-nos a sua lembrança; antes ter esta lembrança, do que nem isto poder rememorar.

domingo, 30 de setembro de 2007

Álvaro de Campos


"Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Esse sorriso será para outro, ou a propósito doutro,
Loura débil...
Esse olhar para mim casual como um calendário...
Esse agradecer-me quando a não deixei cair do eléctrico,
Um agradecimento...
Perfeitamente...
Gsoto de lhe ouvir em sonho o seguimento que não houve
De conversas que não chegou a haver.
Há gente que nunca é adulta mas prematura!
Creio mesmo que pouca gente chega a ser adulta - prematura -
E a que chega a ser adulta e prematura morre sem dar por isso.
Loura débil, figura de inglesa absolutamente portuguesa,
Cada vez que te encontro lembro-me dos versos que esqueci...
É claro que não me importo me nada contigo
Nem me lembro de te ter esquecido senão quando te vejo,
Mas o encontrar-te dá ser ao dia e ao destino
Uma poesia de superfície,
Uma coisa a mais no a menos da improficuidade da vida...
Loira débil, feliz porque não é inteiramente real,
Porque nada que vale a pena ser lembrado é inteiramente real,
E nada que vale a pena ser real vale a pena."

25 de janeiro de 1929
(Poemas de Álvaro de Campos. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1999, p. 276-7).

Este poema de Álvaro de Campos não tem título. Destaco o seguinte trecho: "Mas o encontrar-te dá ser ao dia e ao destino." Fujo da temática do poema e pinço este verso, não o encontro casual de que trata o poeta, mas o encontro que muda um dia, ou aquele momento especial que muda o dia. O que o dia nos preparou, o que o destino nos reserva, não sabemos, mas sempre há momentos mágicos que evocam a alegria e a beleza do encontro, do sorriso, do recado simples que aquece a alma.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Ainda na escuridão da noite

Interessante como os temas deste blog foram ganhando vida própria. Despretensiosamente comecei a escrever e um tema foi puxando outro. Como se puxássemos o fio de um novelo, que se desenrola e puxa outro tema, e mais outro tema. Falávamos sobre a noite e encontrei este poema de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, que medita sobre a noite. Álvaro de Campos vive, neste poema, uma fase de desilusão com a vida, de cansaço.

Na noite fiquemos, mas prometo seguir em frente, para que possamos fazer o sol raiar num novo dia.

NOITE TERRÍVEL

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado – esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido –
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso – e foi afinal o melhor de mim – é que nem os Deuses fazem viver...

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro –
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,

Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível pra mim.

Álvaro de Campos