quarta-feira, 2 de abril de 2014
quinta-feira, 27 de março de 2014
Abraço do silêncio
Ainda me causas sorrisos espontâneos em momentos de final de
dia, de silêncio terno e confortante. A raiva deve ter partido, não tendo encontrado morada duradoura no meu ser, apesar de um esforço enorme em transformá-la em esquecimento
definitivo. Deve ter sido afugentada pelas palavras guardadas e ditas em voz
alta quando estou só. Tua voz, tua entonação, teu carinho, teus suspiros. Não
sou bom imitador, mas consigo reproduzir teu jeito, teu sorriso de canto de
boca em meio à fumaça, tuas mudanças de assunto repentinas que pareciam testar
se eu prestava atenção em cada palavra. Eu sempre prestei atenção em ti! Quando
estava contigo e quando estava distante fisicamente, sempre cuidei, zelei,
rezei e pensei em ti.
Curioso como os detalhes que permanecem, remanescem como pequenos brilhantes
guardados numa caixinha de joias, como se fossem lágrimas de alegria que se
transmudaram em pequenas pedras preciosas. Gozado como o coração é um bicho
teimoso, danado, mesmo quando a cabeça é tomada pela labuta diária, pelas
preocupações da rotina, o coração vem e expulsa o racional deixando o silêncio
do final do dia com gosto de beijo, com jeito de abraço, com cheiro de lavanda.
Gozado como a memória é gentil nestas horas e espanta qualquer cisco de
indiferença. Nunca consegui ficar indiferente a ti. E continuo sem ficar. O
tempo, ah, o tempo pode ajudar, mas suspeito que serei acometido de muitos
abraços do silêncio, de beijos ternos da memória e agraciado com sorrisos que
só eu entendo e que são só meus. Só meus.
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Renato
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terça-feira, 25 de março de 2014
Inatingível, de Vinicius de Moraes
INATINGÍVEL
Vinicius de Moraes
O que sou eu, gritei um dia para o infinito
E o meu grito subiu, subiu sempre
Até se diluir na distância.
Um pássaro no alto planou vôo
E mergulhou no espaço.
Eu segui porque tinha que seguir
Com as mãos na boca, em concha
Gritando para o infinito a minha dúvida.
Mas a noite espiava a minha dúvida
E eu me deitei à beira do caminho
Vendo o vulto dos outros que passavam
Na esperança da aurora.
Eu continuo à beira do caminho
Vendo a luz do infinito
Que responde ao peregrino a imensa dúvida.
Eu estou moribundo à beira do caminho.
O dia já passou milhões de vezes
E se aproxima a noite do desfecho.
Morrerei gritando a minha ânsia
Clamando a crueldade do infinito
E os pássaros cantarão quando o dia chegar
E eu já hei de estar morto à beira do caminho.
quarta-feira, 19 de março de 2014
Epígrafe - XXV
"Desde que tudo isso começou, tenho percebido que sentir saudades significa, em alguma parcela, arrepender-se."
(Ricardo Lísias, O céu dos suicidas. Rio de Janeiro : Objetiva, 2012, p. 18)
terça-feira, 18 de março de 2014
Gostos
Gosto de noites de lua cheia, de céu limpo, em final de
verão, quando o frescor da noite abraça o corpo cansado.
Gosto de caminhar na chuva e pisar em pôças d’água, assim
mesmo com o circunflexo que o vento da reforma ortográfica levou, mas que cabia
tão bem na sua boca.
Gosto da insônia que me provocas, do frio na barriga, das
borboletas no estômago, dos arrepios dos instantes anteriores a te encontrar.
Gosto do acaso que leva a encontros inesperados e faz brotar
novas amizades .
Gosto de conversar contigo, de rir contigo, de confidenciar
em ti.
Gosto do teu sorriso quando me avistas ao longe.
Gosto de café forte, quente, a qualquer hora do dia e em
qualquer lugar.
Gosto de sonhar contigo e acordar com a lembrança do teu
beijo.
Gosto de coisas simples, de gestos simples, de dias simples.
Gosto de ser o ouvinte atento de tuas angústias, de tuas
aflições, de teus medos.
Gosto de viver.
Gosto de andar de mãos dadas à beira-mar e deixar que nossos
rostos sejam beijados pela brisa do mar.
Gosto de ficar em silêncio a pensar em ti.
Gosto de escrever-te, de presentear-te, de surpreender-te
com mimos, poemas e palavras.
Gosto de imaginar-te dormindo serena e plácida.
Gosto da memória que traz uma lembrança e num momento desperta
o riso bobo.
Gosto de livro novo e dos segredos que ele guarda.
Gosto de compartilhar contigo as banalidades do dia.
Gosto do silêncio da madrugada.
Gosto de ti. Gosto muito de ti. Gosto de ti mais do que
deveria.
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segunda-feira, 10 de março de 2014
Conto: Sábado chuvoso
SÁBADO CHUVOSO
Acordou taciturna. A forte chuva que bombardeou a janela
durante toda a noite ainda persistia. A manhã de sábado era cinza, carrancuda,
pouco animadora. O excesso de vinho da noite anterior pesava-lhe e parecia
ampliar a sensação de solidão. Fez um café forte e longo. O silêncio matinal
era quebrado apenas pelas gotas a batucar na janela da cozinha. Tomou o
primeiro gole de café, ajeitou os cabelos e acendeu um cigarro. Sentou-se no
sofá e ficou a observar a fumaça do cigarro dando piruetas no ar, até se
dissolver por completo no evanescente ar fresco.
Pegou o celular. Checou o instagram, whatsapp, messenger,
facebook, twitter, email, torpedos e tudo o mais que o mundo virtual parecia
exigir como forma de comunicação. Aquilo tornara-se uma obsessão e era repetido
diariamente, várias vezes ao dia. Procurava algum sinal. Qualquer um. Nada. Nada hoje, nada ontem,
nada antes de ontem. E não haveria nada amanhã. Vivia de ilusão, da ilusão de
que esquecer não era uma alternativa. Lutava contra si e as memórias que
teimavam em não partir.
Ligou uma música qualquer em mais uma vã tentativa de esquecer.
Uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto. Depois outra e mais outra. As lágrimas em
harmonia com a chuva, fazendo-lhe eco. Não queria esquecer, ainda que fosse só um sonho. Mas ele já havia esquecido.
sexta-feira, 7 de março de 2014
Coincidências
Um verdadeiro sentimento de deja vu (foto acima). Ao ler a contracapa de um romance escrito por Eros Grau, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, este foi meu sentimento, como se a estória começada há 4 anos atrás, a 4 mãos, ganhasse forma nas mãos de outro escritor, em outra dimensão e com traços distintos.
Mero acaso? Mera coincidência de nomes a formar o casal protagonista?
Não sei, mas aquela estória iniciada em setembro de 2010 parece me perseguir, por ora se materializando, por ora se apresentando diante de mim por vias transversas. Alguém irá entender. Algum dia.
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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
World Rare Disease Day
Ao redor do mundo, hoje é um dia para lembrar que existem diversas doenças raras causadas em decorrência de algum problema genético. São mais de 7.000 doenças raras identificadas. Muitas não têm cura e sequer se é possível fazer um diagnóstico exato. Mais informações podem ser obtidas em http://globalgenes.org/
Sob o lema "Unity creates hope" (a união gera esperança), a organização visa conscientizar as pessoas da existência de doenças raras e criar um rede de solidariedade entre as famílias que têm integrantes com doenças raras, além de incentivar pesquisas na área.
A vida é um dom, uma dádiva e conviver com uma pessoa que tem uma doença rara é uma experiência única que desperta amor, compaixão e desprendimento.
Como ajudar? Pare um instante no seu e diga uma breve oração por todas estas famílias.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Microconto: O que vejo quando te olho
O QUE VEJO QUANTO TE OLHO
Distraída, penteava-se diante do espelho desembaraçando os pensamentos. Ele chegou por trás, sorrateiro, e abraçou-a bem forte. Mãos entrelaçadas, ela sentiu-se protegida e recostou a cabeça no seu ombro.
- O que você vê quando se olha no espelho? Sabe o que vejo quando te olho?
Ela, curiosa, mas inquieta com a pergunta, olhou-se no espelho, mas teve medo de arriscar qualquer palpite.
- Vejo poesia!
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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Morre Paco de Lucía
Morreu o expoente da guitarra flamenca, Paco de Lucía, aos 66 anos. Um dos grandes violonistas desta expressão musical tão característica que é o flamenco. Sua discografia é ampla e marcou época, transportando um ritmo local espanhol para todos os cantos do planeta.
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Renato
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Epígrafe - XXIV
"Entre as outras funções positivas da divagação da mente, estão a geração de cenários para o futuro, a autorreflexão, a capacidade de se relacionar em um mundo social complexo, a incubação de ideias criativas, a flexibilidade do foco, a ponderação do que se está aprendendo, a organização das lembranças ou a mera meditação sobre a vida - e também a possibilidade de dar aos nossos circuitos de foco mais intensivo uma revigorante."
(Daniel Goleman. Foco. trad. Cássia Zanon. Rio de Janeiro : Objetiva, 2014, p. 46)
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Sinfonia em branco
Resenha do romance Sinfonia em Branco, de Adriana Lisboa (2a. Ed. Rio de Janeiro : Objetiva, 2013), vencedor do Prêmio José Saramago.
“O amor era como a marca pálida deixada por um quadro removido após anos
de vida sobre uma mesma parede. O amor produzira um vago intervalo em seu
espírito, na transparência dos seus olhos, na pintura envelhecida da sua
existência. Um dia, o amor gritara dentro dele, inflamara suas vísceras. Não
mais. Mesmo a memória era incerta, fragmentada, pedaços do esqueleto de um
monstro pré-histórico enterrados e conservados pelo acaso, impossível recompor
um todo íntegro. Trinta anos depois. Duzentos milhões de anos depois.”(p.
15-6)
Tomás entra em cena de forma
enigmática. Um homem que aguarda a chegada de Maria Inês, irmã de Clarice.
Maria Inês era “uma mulher que a memória
sempre vestia de branco e de juventude”.
Logo no primeiro capítulo,
Adriana Lisboa, de forma lírica e provocadora, apresenta-nos Tomás, Clarice e
Maria Inês. As duas últimas são irmãs. Maria Inês casa-se com João Miguel,
primo de segundo grau, forma-se em medicina e permanece morando no Rio. Não
retorna mais para Jabuticabais, onde nascera e crescera. Clarice, após a morte
da mãe e do pai, volta para a fazenda e ali permanece, vizinha de Tomás.
Dois vizinhos que se tornam
amigos e confidentes nas madrugadas frias e insones. A conversa geralmente
orbita em torno de Maria Inês e a ansiedade do reencontro com a visita que se
torna próxima.
Clarice casou-se com Ilton
Xavier, outro vizinho da fazenda de Afonso Olímpio e Octacília. Clarice trazia
consigo o queloide nos pulsos nus resultado de uma tentativa frustrada de
cortar os punhos.
“Um dia, a morte. Clarice sentiu mais uma vez com as pontas dos
polegares as duas cicatrizes gêmeas, uma em cada punho. E sorriu um sorriso
involuntário e triste, um sorriso sem mistérios, ao pensar que afinal acabara
sobrevivendo a si mesma.”(p. 35-6)
Clarice era menina obediente e
submissa; Maria Inês carregava uma vivaz insubordinação, gostava de desafiar o
proibido. O temperamento de Clarice talvez tenha contribuído para o ocorrido, e
ela carregara consigo a culpa pelo fato, ainda que de forma velada.
“Poucos anos haviam sido suficientes para escurecer Octacília, para
nublar seus olhos de águas-marinhas azuis e engravidá-los de tempestade, para
deixá-la parecida com uma madrugada fria e insone. Seu humor escurecia a cada
dia, e não havia para Clarice modo de deixa de sentir-se ao menos um pouquinho culpada. Tinha certeza de
que a mãe não a amava. Talvez porque tivesse feito algo? Alguma coisa muito feia e censurável de que nem mesmo
se lembrasse?”(p. 39)
Certo dia Octacília decide enviar
Clarice ao Rio de Janeiro para morar com uma tia solteirona e ali passar uma
temporada de estudos. Octacília e Clarice não eram próximas e uma semana após a
decisão de enviar Clarice ao Rio, Octacília chama a filha no meio da noite para
ver a lua. Conversam pouco, mas resta a impressão de que Octacília culpa
Clarice pelo ocorrido.
“Entre elas não havia confissões, não havia trocas de carinhos, mas
muitos e longos silêncios. Desde sempre. Sobretudo por isso Clarice
surpreendera-se com aquela iniciativa, mandá-la para o Rio de Janeiro. Pois se
tudo era tão subterrâneo, se tudo era tão secreto.”(p.92)
O ano era 1965 e Clarice
permaneceu no Rio por cinco anos. Nestes anos, Clarice tenta esquecer e moldar
uma nova Clarice. Dali saiu diretamente para igreja de Jabuticabais onde lhe
esperava no altar Ilton Xavier. O casamento durou 6 anos e numa manhã qualquer,
Clarice partiu sem dizer nada. Sem rumo, Clarice vive de bicos no interior até
chegar ao Rio, onde mergulha nas drogas e é “adotada” por um namorado
traficante. Passado algum tempo, ela tenta o suicídio.
Tomás é um personagem
coadjuvante, à margem das mulheres da trama, mas cuja história traz consigo um
caráter de homem-objeto, um acessório de Maria Inês. Esta, por sua vez, parece
saltar pelo mundo em busca de um amor verdadeiro, mas contenta-se com a
superficialidade da variedade. Primeiro, Tomás. Depois Bernardo, um colega de
turma que se transforma em cantor lírico e que coleciona namoradas em diversas
cidades do mundo, como um marinheiro nômade e sem residência fixa. Quando está
no Rio, protagoniza encontros sexuais com Maria Inês, onde ela se submete a ser
mais uma na coleção de Bernardo Águas. João Miguel é o marido, com queda por
jovens bonitos e moças jovens. Maria Inês nota isto num café em Veneza, ponto
de partida para uma encruzilhada em seu relacionamento.
Mas Tomás parece ser o mais
sincero em relação aos seus sentimentos. Aceita ser o “outro” de Maria Inês. E
por ela espera durante quase toda a vida. Em certo trecho, a autora ao narrar a
primeira vez em que Tomás avista Maria Inês na sacada do apartamento do
Flamengo, na rua Almirante Tamandaré, e passa a desenhá-la de forma obcecada,
sua vida termina antes de começar (“A
vida de Tomás que terminou antes de começar.” – p. 149).
Tomás insiste num amor ao qual
Maria Inês se recusa a abraçar. “Mais
tarde ela diria por favor, Tomás, não se apaixone por mim, e ele perguntaria,
sorrindo, por quê?, ao que ela responderia porque eu não estou apaixonada por
você. Naquele momento, porém, e mesmo depois da revelação da não paixão, Tomás
se assegurava: seria possível. Teria de ser possível. Porque o amor dele seria
talvez suficiente para dois, como um prato farto num restaurante. Suficiente
para alimentar duas pessoas, um desejo em dobro capaz de arcar com o peso de
dois destinos, inclusive, e irmaná-los.”(p. 157)
Tomás insiste e reclama quando
Maria Inês não lhe informa a morte de Octacília. Quando Afonso Olímpio morre,
Tomás vai a Jabuticabais, conhece Clarice e nota os olhos secos das duas irmãs
no velório.
“Estavam secos.
Como estavam também os olhos de Maria Inês: secos. Estranhamente secos,
mais secos que os olhos das pessoas quando estão secos. E a ausência de
lágrimas pesava naqueles olhos marejados de falta, marejados de silêncio.”(p.
237-8)
Tomás não pergunta, não inquire,
não invade. A sua presença no velório já era uma invasão. A invasão de um
segredo que é compartilhado num único olhar entre Clarice, Maria Inês e Tomás.
Ele de nada sabia, mas desconfia de algo muito bem guardado pelas irmãs.
Após a morte do pai, Maria Inês
fica noiva de João Miguel e comunica a Tomás. “Uma paixão muito jovem. Que dividiu a existência de Tomás em duas
metades, em dois hemisférios. Em dois períodos: um a.M.I. e um d.M.I.”(p.
241)
“Maria Inês foi embora, mas não definitivamente. Voltou três meses
depois, e continuou voltando ao longo dos dois anos seguintes. Uma Maria Inês
clandestina que mais tarde haveria de se culpar e acreditar que o belo Paolo em
Veneza era somente uma espécie de troco.”(p. 243).
Ao final, descobre que Eduarda, a
moça que tem os seus olhos transparentes, é sua filha.
Maria Inês, a protagonista, parece ter medo do amor, da entrega, do sacrifício que um relacionamento exige. João Miguel, o primo que virou marido, é o companheiro conveniente, conquistado sem esforço. Tomás, o devotado e apaixonado amante, é posto de escanteio, quase esquecido, mas Tomás não teve medo de arriscar, de abraçar a paixão que lhe assolara. Maria Inês, por sua vez, segue sua vida sem se amarrar, sem criar fundações definitivas e mais profundas. Sim, Maria Inês tem medo do amor, medo de encontrar o amor verdadeiro e duradouro.
Havia uma pedreira perto da
fazenda e Maria Inês e Clarice sobem ao alto da pedreira num dia de junho, após
a tradicional festa junina.
“Maria Inês sentiu a pele da nuca eriçar-se, como se ela fosse um gato,
e perguntou com a voz forte para que ele pudesse ouvi-la de onde estava: o que
houve? O que veio fazer aqui?
Não fale assim com ele, Clarice censurou.
As distorções dela eram filhas das distorções dele. Claro.
Diante de Maria Inês e de Clarice, plantado no meio daquelas pedras
como um fantasma, os cabelos ralos esvoaçando, Afonso Olímpio viu o rosto das
coisas que ele poderia ter feito, mas não fizera. E também aquele sombrio das
coisas que ele não deveria ter feito, mas fizera, ainda assim. Um homem carente
da melhor parte de si mesmo, daquilo que agora pudesse sustentá-lo de pé.
Você acredita em inferno, pai?, Maria Inês perguntou.” (p. 288-9)
“Ela surpreendeu-se por ouvir-se dizendo aquela palavra, pai, que foi a
última que disse a ele e a última que ele próprio ouviu. Depois, muito
levemente, empurrou.” (p. 293)
O tão desejado esquecimento se
resume a um momento em que Clarice vê o pai despencar do alto da pedreira. E a
partir daquele momento, inicia o processo de cicatrização.
“O Esquecimento Profundo não existia. Clarice sabia. Nunca fora capaz de
esculpi-lo – de reivindicá-lo para si. Também não existia algo como uma
lembrança inócua, uma ferida cauterizada. Um bicho sem as presas e sem os
dentes, sendo, apenas. A pacificação do passado com tudo aquilo que ele
comportava. Existia uma cidade na memória de Clarice, uma cidade destruída pela
guerra ou por um terremoto. Agora, havia construções novas e o entulho já fora
removido e os mortos, enterrados – porém, haveria como reverter aquela memória?
Como atualizá-la?” (p. 303-4)
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Renato
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