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segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Fernanda Young merece ser lida


Vou seguir o fio da meada, mas deparo-me com dois caminhos. Poderia continuar a falar da pressa, de paciência e de tempo, mas vou deixar isto para uma crônica. Vou optar por falar da Fernanda Young.


Quando Fernanda Young participava do Saia Justa, achava-a chata, antipática, desagradável. Criei birra dela. Até que um dia assisti a seu programa no GNT, Irritando Fernanda Young (3as. às 22:30). Mudei de opinião e tenho que reconhecer que meu juízo estava completamente errado. Virei fã de carteirinha dela, do seu talento e de sua inteligência.


Ao dar uma entrevista ao Caderno 2 do Estadão, Fernanda Young afirmou que escrevia para afastar a melancolia e que escrever romances é o que faz melhor.


Então, comprei um livro dela. Tudo que você não soube é seu último romance, publicado pela Ediouro (há um ótimo post sobre o livro no Salto Agulha).


Terminei o livro ontem e adorei. Um livro que faz pensar. Uma mulher - o nome da narradora não é revelado - escreve ao pai que está morrendo. Ela conta sobre sua vida, como se estivesse sentada no divã. Fiquei com a sensação de que presenciava uma sessão de análise. Ela reflete sobre os fatos de sua vida. Conta detalhes escabrosos de como atacou a mãe com um martelo, do tempo que ficou presa e de como voltou a viver. Seria ela um monstro ou teria sido levado a cometer ato tão brutal pelo desprezo do ambiente familiar? A conclusão depende de cada um.


Não é um livro leve, mas também não é graficamente violento. A violência da agressão à mãe é contraposta com a violência sutil do desprezo dos pais pela filha, da forma como a mãe rejeitou a filha. A narradora revela que a morte da irmã foi a causa de tamanha rejeição. Jamais sentira-se amada e querida no ambiente familiar e isto a levou ao consumo de drogas.


A regeneração da narradora pode causar certa perplexidade, mas ela revela uma profunda melancolia ao longo da narrativa, o que faz o leitor automaticamente relacionar a autora com os fatos narrados. A obra é de ficção, mas a correlação é inevitável.


Um livro que vale a pena pois conduz o leitor a refletir sobre sua própria vida, sobre seus segredos, sobre a melancolia, sobre o passado e o presente.


quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Duas interpretações

Este post é continuação do anterior. A música Grand Hotel, do Kid Abelha, é conhecida da nossa geração e de fãs mais novos da banda.

A bela letra trata de um amor que se desgasta com o tempo. Um relacionamento que atropelado pela rotina perde sua vibração, sua intensidade, seu colorido. É o amor que se transforma em "bom dia." Um relato fiel da dura realidade ou um alerta? Seria o tempo um inimigo do amor, um inimigo que aos poucos vai esgarçando o tecido de algo íntimo?

Não sei a resposta. Sei que o tempo e a rotina tornam têm o poder de transformar qualidades em defeitos, de mudar gestos engraçados em motivos de implicância, de arrancar máscaras disfarçadas pelo torpor da paixão. O tempo pode ser um aliado para a solidificação de um relacionamento, mas também um inimigo silencioso. Como ondas que se chocam com um rochedo, até despedaçá-lo.

O tempo nos faz deixar de apreciar certas coisas, tomados pela rotina e a correria da vida. A música Epitáfio, dos Titãs, trata um pouco da pressa na vida, da pressa em fazer coisas demais, em querer tudo no nosso tempo e não no tempo das coisas.




"Queria ter aceitado as pessoas como elas são"

Talvez uma música possa puxar a outra e servir de pano de fundo desta divagação. As duas falam do tempo, da pressa e de não saber olhar para o outro. E é este não saber olhar para o outro que destrói o relacionamento. O tempo, por vezes, dá mais uma chance, uma oportunidade de se vencer a inércia que se instala no relacionamento. Mas é implacável quando se forma um abismo intransponível.

Fernanda Young, ao entrevistar Paula Toller em seu Irritando Fernanda Young (programa excelente), perguntou para a cantora se um amor que se transforma em bom dia não é algo bom. Nunca tinha olhado a música Grand Hotel desta forma, ou sequer tinha parado para pensar nesta frase como algo positivo.

Paula Toller respondeu que o amor transformado em bom dia é um amor cheio de respeito pelo parceiro, por quem está do seu lado. E respeito e admiração fazem com relacionamentos durem longos períodos de tempo. Para certas coisas, não é preciso pressa. Uma visão positiva, uma visão diferente daquela que usualmente temos da frase.