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terça-feira, 3 de novembro de 2009

O plágio e a preguiça

Dois escritores conhecidos resolveram abordar o mesmo em seus artigos nestes dias: Lya Luft, na Veja, e Arnaldo Jabor, na edição de hoje do Estadão. Ambos trataram de artigos supostamente atribuídos a eles, mas que não foram escritos por eles. A semelhança das opiniões retrata bem um problema corrente nos dias em que a informação circula rapidamente e certos desmentidos são impossíveis.

Frequentemente recebo por email artigos que teriam sido escritos por Arnaldo Jabor. Na maioria das vezes, os textos são apócrifos. Alguém resolveu atribuir a Jabor um texto, e talvez para dar maior credibilidade, circula o texto como se fosse dele. Jabor se revolta em sua coluna no Estadão. Lya Luft faz o mesmo. Entendo perfeitamente a revolta deles. Já recebi textos atribuídos a Drummond, a Fernando Pessoa e outros grandes escritores, mas uma pesquisa mais aprofundada revela que a discrepância da autoria.

Sou bastante chato quando se trata de dar crédito a quem merece o crédito. Por esta razão, sempre que reproduzo trechos de livros, tenho o livro em mãos e faço questão de indicar a referência bibliográfica. O plágio é um ato criminoso contra o direito autoral, contra a criação intelectual. Um ato preguiçoso ou, algumas vezes, cheio de má-fé e inveja.

Sejam mais críticos ao receberem um texto. Duvidem, procurem, pesquisem antes de atribuir um texto a determinada pessoa. O autor, com certeza, agradecerá.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Vertentes do silêncio


O comentário da Edna - que ela chamou de longo -, no post Fechando o Círculo, provocou uma sequência ao assunto do silêncio.

Retomo o assunto pelo comentário e para mencionar o último livro de Lya Luft, O Silêncio dos Amantes, que será lançado pela Editora Record neste final de semana e objeto de artigo de Ubiratan Brasil no Estadão de 10 de abril (Caderno 2, p. D-14). A temática dos últimos posts não foi inspirado no livro de Lya Luft, mas no livro de Milton Hatoum. O comentário - e comentários longos têm o benefício de incitar o debate, coisa que adoro, pois o blog passa a ser um diálogo e não um monólogo - coincidiu com o recente lançamento, o que revela uma preocupação com o tema. É a arte discutindo a vida.

O trecho transcrito no Estadão parece repetir exatamente o que sugeriu a Edna - e antecipo que concordo. Eis o trecho de Lya Luft:

"Sem que eu soubesse, as coisas não ditas haviam crescido como cogumelos venenosos nas paredes do silêncio, enquanto ele ficava acordado na cama, fitando o teto, como branco dos olhos reluzindo na penumbra. Se eu o interrogava, o que você tem amor? ele respondia que não era nada, estava pensando no trabalho. A gente sabia que era mentira, ele sabia que eu sabia, mas nenhum de nós rompeu aquele acordo sem palavras. Nunca imaginei o mal que o roía. Era impossível qualquer coisa tornar a morte algo melhor do que tudo tínhamos. Isso era o que eu achava. Ele também falava pouco no passado, a infância numa cidadezinha do interior, o monte de irmãos, os pais morrendo cedo, ele responsável pelos menores. Haveria ali, com uma raiz venenosa, alguma coisa tão triste que o levava a querer morrer?"

Cogumelos venenosos nas paredes do silêncio é uma belíssima imagem para o silêncio que corrói, que desarma, que mina o relacionamento. Talvez tenha me precipitado, e só agora possa efetivamente fechar o círculo. Esqueci de falar do silêncio negativo, do silêncio que destrói. De fato, o silêncio, quando se instala num relacionamento, ele tende a ser muito espaçoso, tão espaçoso que afasta os envolvidos.


Vejo duas vertentes deste silêncio. O primeiro é o silêncio causado pela semelhança de pensamento, por pessoas que pensam igual, e que se entendem somente com um olhar. Tive um sócio com o qual conseguia conversar somente olhando. Eu sabia o que ele estava pensando e isto sempre funcionava muito bem em negociações e reuniões. Exatamente por pensarmos igual, acomodamo-nos. O comodismo se instalou e ocupou seu espaço minando as frequentes conversas. Um certo dia, a coisa estourou. Confesso que não tinha visto a situação desta forma tão racional até refletir sobre o silêncio para escrever este post.


Uma outra forma, mais comum num relacionamento afetivo, é o silêncio que decorre de subestimar o parceiro. Um deixa de dar valor ao que o outro fala, deixa de escutar, deixa de pedir a opinião. As decisões deixam de ser conjuntas e passam a ser meramente informadas. As tentativas de vencer esta barreira, de falar sem ser ouvido, tendem a cansar um dos envolvidos e o silêncio adentra a relação sem ser convidado. Com a rotina, o silêncio se alastra e vai criando raízes, novamente afastando os parceiros. É a falta de comunicação a que Lya Luft se refere como problema abordado em seu novo livro.


Um tema que pode ser visto na realidade de tantos casais. Um tema que é objeto de livros e de crônicas - inclusive neste blog. Um tema que vai continuar a nos intrigar e despertar reflexão. E esta reflexão para ser feita, exige o silêncio, mas o silêncio bom!