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domingo, 5 de agosto de 2007

Cores gris

O título deste post fará muitos lembrarem de uma música do Djavan. Nesta manhã cinzenta em São Paulo, consegui arrumar tempo para finalmente colocar no papel algo que vem amadurecendo na minha cabeça: a forma como as cores afetam nossa sensibilidade.

Durante toda a primeira parte de O Mar, de John Banville, há uma predominância de tons de cinza, nas suas mais variadas tonalidades e matizes, por ora metálico, por ora opaco, mas sempre cinza. Somente percebi isto depois da metade do romance, e então comecei a grifar e sublinhar todas as vezes que Banville se referia a cor ou quando utilizava cor na descrição de alguma situação. A razão desta utilização magistral da cor no romance somente se esclarece quando atingimos a parte final do romance e as peças do quebra-cabeça se encaixam, revelando a linda foto da vida.

Na parte final do romance, surgem tons de azul, alguns rosáceos, arroxeados, mas sempre cores frias. O simbolismo parece revelar um período de transição da vida, uma passagem de um momento de dor para um momento de renovação e recomeço. Faz-se a luz no final do túnel!

As cores e suas tonalidades podem nos permitir momentos de prazer silencioso. Na última sexta, retornava de uma reunião na fábrica de um cliente em São Bernardo do Campo. Deixei a fábrica pouco antes das 18 horas e um lindo entardecer descia sobre São Paulo. Voltando pela Imigrantes - rodovia que liga a Região do ABC à Capital - notei o céu azul, com algumas poucas nuvens. Eram cirrus, sopradas, de uma leveza única, que pareciam areia jogada sobre uma tela anil. Leves pinceladas brancas sobre a tela do pintor celeste. Aos poucos o branco foi sucedido pelo rosa claro e depois mais escuro. Um espetáculo gratuito, silencioso, para quem quisesse olhar e apreciar. Preferi contemplar o espetáculo ao invés de me irritar com o congestionamento.

Estas cores se repetem em nossas vidas. De tons cinzas, negros ou da ausência de cores, sucedem-se momentos de cores vivas e alegres. Tudo é uma questão de tempo, tudo é uma questão de enfrentar os problemas e seguir em frente, caminhando sempre.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Impressões sobre O Mar, de John Banville

Terminei de ler O Mar, de John Banville, por estes dias.

No site da Livraria Cultura, há uma sinopse do livro e a transcrição de uma crítica de Vinicius Jatobá publicada no jornal O Estado de São Paulo. Ao invés de resumir a trama, vou deixar minhas impressões do livro e comentar alguns trechos em outros posts.

Banville narra a estória de Max Morden e sua viagem a uma cidade litorânea na Inglaterra onde costumava passar as férias de verão. Naquela cidadezinha, conhece a família Grace: os gêmeos Myles e Chloe, os pais Carlo e Connie, e a governanta Rose. O relacionamento de Max com os Grace mostra um período de descobertas variadas, típicas da fase de crescimento do mundo infantil para o mundo adolescente. Uma mistura de sentimentos, de experiências, de vivências se desenrolam.

Em paralelo, Max conta de seu convívio com a mulher, Anna e de seu relacionamento com a filha.

A narrativa oscila entre o presente e o passado, dando uma impressão de lentidão, de que estória não caminha, mas que apenas momentos desconexos são lançados no papel. É preciso persistir na leitura para descobrir o porquê desta forma narrativa. Nas páginas finais, descobre-se aonde Banville quer chegar e tudo se clareia.

Tive a nítida impressão de que a narrativa reflete a memória esfumaçada, enevoada. Fatos e eventos são lembrados - por vezes com muitos detalhes, por vezes com detalhes confusos - de formas variadas, mas estas peças do quebra-cabeça somente se encaixam no final do livro. Talvez o livro retrate um emaranhado de peças que precisam ser encaixadas, descortinando a figura final somente no epílogo. É uma linda metáfora da vida e da transitoriedade da vida.


A morte e a dor da perda são presenças constantes no livro, razão pela qual Max volta à cidadezinha de veraneio. Tenta reconciliar-se com o passado, entender o que aconteceu e como sua vida mudou nestes anos. Max precisa reencontrar-se para seguir em frente e perceber que a vida é um constante caminhar.

Não é um livro que flui com facilidade e tive uma certa dificuldade em caminhar pelas primeiras 100 páginas, mas fiquei contente de ter chegado ao final. É um livro que somente se aprecia quando se termina, um livro que faz pensar, um livro para ser degustado. Banville tem uma prosa muito delicada. Por vezes os detalhes parecem cansativos, mas na figura macro, estes detalhes fazem muito sentido e permitem ao leitor inserir-se no mundo de Max Morden.

Minha impressão final é que é um livro para ser degustado, com calma, com paciência. Não é um best-seller, mas uma deliciosa obra para quem busca um livro que incite a reflexão.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Um encontro com o passado


O Mar é um primoroso romance de John Banville (foto ao lado), escritor e crítico irlandês. Este livro lhe rendeu o prestigioso Booker Prize em 2005, prêmio máximo da literatura inglesa.



Narrado em primeira pessoa, o enredo é um diálogo entre presente e passado, onde o protagonista revisita o seu passado para conseguir viver o presente. Em um trecho, a filha do protagonista afirma: "Você vive no passado!" e isto faz com que Marden mergulhe no seu passado para romper a inércia. Ele percebe que está preso ao passado, que vive o presente de forma melancólica e sem esperança.



A estória é um pouco densa, talvez pesada para alguns, num estilo de escrita que mais se assemelha a uma longa divagação interior. Ainda estou na metade do livro, mas a qualidade do texto é indiscutível. Não é um livro para ser lido na praia, mas combina bem com dias frios de inverno ou para dias chuvosos, o que pode facilitar ao leitor vislumbrar os nevoeiros e a garoa fina no litoral inglês. Um clima que ajuda a voltar ao passado, a sonhar, e renovar as forças para viver o tempo presente.



Transcrevo um trecho como degustação:


"Naquelas noites intermináveis de outubro, deitados ali, um ao lado do outro, no escuro, estátuas derrubadas de nós mesmos, buscávamos escapar de um presente insuportável indo para o único tempo possível, o passado, ou seja, o passado distante. Voltávamos aos nossos primeiros dias juntos, lembrando, emendando, ajudando-nos mutuamente, como dois velhinhos trôpegos, de braço dado, contornando as muralhas de uma cidade onde haviam morado muito tempo atrás."

(trad. Maria Helena Rouanet, Rio de Janeiro : Nova Fronteira, p. 86)