| foto @rbueloni |
Diário da dor - III
11 de agosto de 2026 - noite
No final da tarde, voltei ao hospital para uma rápida
visita. Os olhos e a cabeça pesavam pela noite mal dormida. Entrei no quarto e
ela estava dormindo, sem qualquer reação à minha presença.
Fui tomar um café com minha irmã e ela me atualizou sobre o
dia. Sem novidades, disse. Não há reação para nada e querem transferi-la para
um quarto, pois se os cuidados são paliativos, o plano de saúde não quer pagar
mais a UTI. Senti uma impotência diante da realidade. A fragilidade diante do
fim que se aproxima e o fim da vida visível.
Quanto tempo mais ela teria? A dúvida trazia consigo uma
mistura de sentimentos. Por um lado, queria que ela descanse sem dor, sem
sofrimento, que a morte viesse como a boa irmã, como o final de uma jornada
terrena cheia de realizações, memórias e carinho. Por outro lado, não queria
que ela partisse e tinha, no fundo, uma imensa vontade de prolongar ao máximo
sua permanência entre nós. Senti-me um pouco egoísta ao pensar assim, mas rezei
para que Deus fizesse o que fosse melhor para ela.
Rememoramos os últimos dias. Após a primeira noite no
hospital, ela foi sincera quando lhe perguntei se estava bem. Ela respondeu:
“eu não estou bem.” Foi a primeira vez que ela reclamou. Não foi bem uma
reclamação, mas uma declaração sincera do seu estado e de como se sentia. Tive
a certeza diante daquela resposta que ela estava pronta para a morte. Achei que
ela sucumbiria no domingo, dia dos pais. Acabou por não acontecer. Ela teve
mais uns dias de presente.
Na última sexta, pela manhã, após uma vigília de oração por
vários amigos, ela estava bem. Falante, alimentando-se, sentada na cama. Pensei
num milagre quando entrei no quarto logo pela manhã. Mas a realidade foi cruel.
É comum a pessoa melhorar um pouco antes da jornada final. Naquela manhã, foi a
última vez que a teríamos lúcida diante de nós.
Agora, só nos resta rezar e segurar sua mão, velar ao seu
lado, esperando o tempo de Deus. O tempo para que a flor seja colhida no
jardim.
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