Vou tirar logo da frente o tema que mais espinhoso. Não concordo com o protaganista acerca do período menstrual feminino, pode ficar tranquila. Na semana passada houve um post no blog Pensamento Nosso (minha vez de retribuir a gentileza) sobre TPM e há uma série de comentários sobre o que as pessoas acham. Pessoalmente, tenho mais paciência que o normal neste período. Agora, do ponto de vista profissional, ou seja, de trabalhar com mulheres, nunca notei nenhuma mudança na postura ou na conduta. Sempre trabalhei com mulheres ao meu lado e talvez uma ou outra fique mais irritadiça durante um período do mês, mas sempre relevei isto.
O livro poderia levar a muitas e muitas discussões. Isto é o que o torna tão universal, tão representativo da condição humana e atemporal. Lembrem-se que a obra foi escrita no final dos anos 50 e continua muito atual.
De fato, achei Santomé com uma visão rasa da vida, sem relevo, sem transcendência. A única meta na vida dele era a aposentadoria. Esqueceu de viver e isto inclui cuidar dos filhos, superar a perda da mulher e permitir que se coração descobrisse um novo amor. Acho que nossas opiniões são parecidas quanto à conduta do protagonista.
A descoberta de Avellaneda, porém, é o ponto fulcral. Evita o sentimento, quase repelindo-o. Mas o sentimento é mais forte que a razão. Santomé demora a se entregar à paixão e luta contra o sentimento, talvez por medo de viver uma nova perda, por medo da rejeição. Em dado momento decide-se assumir completamente aquele romance, sem antecipar a surpresa trágica que a vida lhe havia reservado. O final é triste. Avellaneda morre e Santomé se depara novamente com o luto, com a perda, com uma falta de sentido para sua vida. Hâ uma profunda revolta do protagonista com o destino de sua vida, uma revolta com Deus.
Penso que a mesma história poderia ser recontada do ponto em que Santomé perde a esposa. A dor e o sofrimento poderiam ter levado a uma maior união dos filhos com o pai e juntos superariam a dificuldade. Como diz o ditado popular: "Deus dá o frio conforme o cobertor". Dificuldades todos nós temos, a questão é como enfrentá-las. Santomé escolhe o caminho da revolta, o caminho de deixar a vida passar, esperando por algo.
Quando algo aparece e este algo é o amor por Avellaneda que descortina um novo horizonte diante de si, ele reluta, hesita. Teima em não fugir da rotina, da estabilidade, da inércia. O sentimento é mais forte e por alguns meses Santomé se vê jovem, vibrante, alegre novamente, tudo por causa de Avellaneda.
O livro permite muitas discussões e reflexões. E sou da opinião que todo livre tem algo a nos dizer, algo a nos fazer pensar e algo a nos acrescentar.
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quarta-feira, 23 de maio de 2007
Discutindo A Trégua

Quando terminei de ler A Trégua, de Mario Benedetti, sugeri que alguma leitora do blog lesse o livro e desse sua opinião. A idéia era realmente permitir visões diferentes - ou não - do livro. Não queria fazer uma análise apenas do ponto de vista masculino, mas queria realmente ouvir a opinião do livro do ponto de vista feminino.
Primeiro então o que escreveu a Fernanda:
"Bom dia! Há algumas semanas vc lançou um desafio sobre o livro "A Trégua". Aceitei o desafio, li o livro, gostei muito e tenho alguns comentários a fazer.
Não achei o protagonista machista, a não ser em uma passagem, qdo ele comenta sobre como uma mulher fica "atarantada e completamente imbecil" no período menstrual. Acho que o imbecil é ele e ficarei extremamente desapontada se vc concordar com esse ponto de vista.
Além de ter uma visão muito pessimista da vida e de si mesmo, achei-o muito egoísta. Criou os filhos após a morte da mulher, mas fez isso como se fosse um peso, uma obrigação, daí a falta de relacionamento com os mesmos na fase adulta. A lembrança apagada que ele tinha da esposa, fez com que os filhos crescessem sem a imagem da figura materna e isso foi muito triste de perceber no livro.Parece-me que ele foi vivendo sua vida focado somente no dia em que iria se aposentar...não gostava do trabalho, não gostava das pessoas.
Quando conheceu Avellaneda sentiu renascer a chama da paixão, mas mesmo assim de uma forma completamente egoísta. Ele não vivia o presente...ficava preso na imagem da mulher morta, comparando-a com a atual e não se permitia viver essa nova paixão, pensando de como seria no futuro. Seus pensamentos eram sempre negativos e ele usava a desculpa de que estava poupando Avellaneda de um sofrimento, qdo na verdade o problema era sua falta de coragem.
Somente quando se deu conta da falta que ela lhe fazia, foi que resolveu tomar uma atitude, mas ai foi tarde demais. Mesmo nessa hora, seu pensamento foi egoísta...não pensou na vida tão jovem que foi interrompida, mas sim no resto da vida miserável que iria ter sem ela. Daí caímos nos seus últimos posts, sobre não fazer ou falar as coisas qdo sentimos vontade. Gostei do livro, muito, da forma que foi escrito, mas definitivamente não gosto de pessoas como o protagonista, que enxergam tudo de um prisma negativo e ficam vendo a vida passar sem realmente vivê-la.É isso, agora vamos ver seus comentários, sorriso"
Volto com meus comentários no próximo post.
Postado por
Renato
às
3:52 PM
2
comentários
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segunda-feira, 9 de abril de 2007
A Trégua
Terminei de ler A Trégua, de Mario Benedetti, no sábado. Gostei muito do livro e pretendo trazer alguns trechos para discussão nos próximos posts.
Primeiro, vamos situar-nos na história. A obra foi escrita entre janeiro e maio de 1959, em Montevidéu. O livro foi lançado em 1960, mas a sua atualidade impressiona. Não é um livro datado, ainda que situado dentro de um contexto histórico e político peculiar da vida uruguaia. Seria muito adequado aos dias de hoje.
Na contra-capa do livro, pode-se ler um resumo do enredo, que transcrevo:
"Publicado em 1960, A trégua é o mais famoso romance de Mario Benedetti e uma das obras mais importantes da literatura latino-americana contemporânea. Escrito em formato de diário, com um texto incisivo, muitas vezes irônico, o livro conta a história de Martín Santomé, um 'homem maduro, de muita bondade, meio apagado mas inteligente'.
Prestes a completar 50 anos, viúvo há mais de vinte, Santomé mora com os três filhos. Não se relaciona bem com nenhum deles, tem poucos amigos e mantém uma rotina cinzenta, sem sobressaltos. No diário, conta os dias que faltam para a aposentadoria; mas não tem idéia do que fará assim que se livrar do trabalho maçante.
Seu destino, no entanto, mudará quando conhecer Laura Avellaneda, uma jovem discreta e tímida contratada para ser sua subalterna. Com ela, Martín Santomé voltará a conhecer o amor, numa luminosa trégua para uma vida até então taciturna e opaca."
Poderia resumir a história da seguinte forma: a vida é amarga, mas há momentos de trégua, quando ela ganha cor e brilho. A vida para Santomé é amarga. Um grande amor é o momento de trégua em sua vida.
Esta afirmação pode ser compreendida de outra forma. A vida tem seus momentos amargos, mas as tréguas são mais valiosas e importantes do que os momentos de amargor. A realidade é única, mas há duas formas de vê-la. O observador poderá contemplá-la dos dois jeitos. O que fará da sua interpretação depende do observador. Em outras palavras, pode-se ter uma visão pessimista e fatalista, ou uma visão otimista e esperançosa.
Pode parecer chavão, mas sempre há um lado bom nas coisas, ainda que nos pareçam negativas. Muitas vezes custa-nos entendê-las, mas com o passar do tempo, as peças se encaixam. Não é esta a visão da vida que Santomé tem. Acha-se um desgraçado, um homem sem energias, mas ao descobrir Laura, sua vida muda.
O pessimismo de Santomé, antes de conhecer Laura, é em parte ditado pelo contexto histórico dos anos 60. Lembremos que era um período de ditaduras na América do Sul e de poucas perspectivas. Parece-nos que a viuvez de Santomé marcou-lhe de forma a revoltar-se e de deixar de ver sentido em sua vida. Isto muda. O final da história surpreende e reforça a tese do pessimismo de Santomé.
Não vou contar o final do livro. Vou esperar alguns dias e deixá-los na expectativa.
Primeiro, vamos situar-nos na história. A obra foi escrita entre janeiro e maio de 1959, em Montevidéu. O livro foi lançado em 1960, mas a sua atualidade impressiona. Não é um livro datado, ainda que situado dentro de um contexto histórico e político peculiar da vida uruguaia. Seria muito adequado aos dias de hoje.
Na contra-capa do livro, pode-se ler um resumo do enredo, que transcrevo:
"Publicado em 1960, A trégua é o mais famoso romance de Mario Benedetti e uma das obras mais importantes da literatura latino-americana contemporânea. Escrito em formato de diário, com um texto incisivo, muitas vezes irônico, o livro conta a história de Martín Santomé, um 'homem maduro, de muita bondade, meio apagado mas inteligente'.
Prestes a completar 50 anos, viúvo há mais de vinte, Santomé mora com os três filhos. Não se relaciona bem com nenhum deles, tem poucos amigos e mantém uma rotina cinzenta, sem sobressaltos. No diário, conta os dias que faltam para a aposentadoria; mas não tem idéia do que fará assim que se livrar do trabalho maçante.
Seu destino, no entanto, mudará quando conhecer Laura Avellaneda, uma jovem discreta e tímida contratada para ser sua subalterna. Com ela, Martín Santomé voltará a conhecer o amor, numa luminosa trégua para uma vida até então taciturna e opaca."
Poderia resumir a história da seguinte forma: a vida é amarga, mas há momentos de trégua, quando ela ganha cor e brilho. A vida para Santomé é amarga. Um grande amor é o momento de trégua em sua vida.
Esta afirmação pode ser compreendida de outra forma. A vida tem seus momentos amargos, mas as tréguas são mais valiosas e importantes do que os momentos de amargor. A realidade é única, mas há duas formas de vê-la. O observador poderá contemplá-la dos dois jeitos. O que fará da sua interpretação depende do observador. Em outras palavras, pode-se ter uma visão pessimista e fatalista, ou uma visão otimista e esperançosa.
Pode parecer chavão, mas sempre há um lado bom nas coisas, ainda que nos pareçam negativas. Muitas vezes custa-nos entendê-las, mas com o passar do tempo, as peças se encaixam. Não é esta a visão da vida que Santomé tem. Acha-se um desgraçado, um homem sem energias, mas ao descobrir Laura, sua vida muda.
O pessimismo de Santomé, antes de conhecer Laura, é em parte ditado pelo contexto histórico dos anos 60. Lembremos que era um período de ditaduras na América do Sul e de poucas perspectivas. Parece-nos que a viuvez de Santomé marcou-lhe de forma a revoltar-se e de deixar de ver sentido em sua vida. Isto muda. O final da história surpreende e reforça a tese do pessimismo de Santomé.
Não vou contar o final do livro. Vou esperar alguns dias e deixá-los na expectativa.
Postado por
Renato
às
6:46 PM
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